Por André,
11 de maio de 1888
BONS
DIAS!
Vejam os
leitores a diferença que há entre um homem de olho aberto, profundo, sagaz,
próprio para remexer o mais íntimo das consciências (eu em suma), e o resto da
população.
Toda a
gente contempla a procissão na rua, as bandas e bandeiras, o alvoroço, o
tumulto, e aplaude ou censura, segundo, é abolicionista ou outra cousa, mas
ninguém dá a razão desta cousa ou daquela cousa; ninguém arrancou aos fatos uma
significação, e, depois, uma opinião. Creio que fiz um verso.
Eu, pela
minha parte não tinha parecer. Não era por indiferença: é que me custava a achar
uma opinião. Alguém me disse que isto vinha de que certas pessoas tinham duas e
três, e que naturalmente esta injusta acumulação trazia a miséria de muitos pelo
que, era preciso fazer uma grande revolução econômica, etc. Compreendi que era
um socialista que me falava, e mandei-o à fava. Foi outro verso, mas vi-me livre
de um amolador. Quantas vezes me não acontece o contrário!
Não foi
o ato das alforrias em massa dos últimos dias, essas alforrias incondicionais
que vêm cair como estrelas no meio da discussão da lei da abolição. Não foi;
porque esses atos são de pura vontade, sem a menor explicação. Lá que eu gosto
liberdade, é certo; mas o princípio da propriedade não é menos legítimo. Qual
deles escolheria? Vivia assim como uma peteca (salvo seja), entre as duas
opiniões, até que a sagacidade e profundeza de espírito com que Deus quis
compensar a minha humildade, me indicaram a opinião racional e os seus
fundamentos.
Não é
novidade para ninguém que os escravos fugidos em Campos, eram alugados. Em Ouro
Preto fez-se a mesma cousa, mas por um modo mais particular. Estavam ali muitos
escravos fugidos. Escravos, isto é, indivíduos que, pela legislação em vigor
eram obrigados a servir a uma pessoa; e fugidos, isto é, que se haviam subtraído
ao poder do senhor, contra as disposições legais. Esses escravos fugidos não
tinham ocupação; lá veio, porém, um dia em que acharam salário, e parece que bom
salário.
Quem os
contratou? Quem é que foi a Ouro Preto contratar comesses escravos fugidos aos
fazendeiros A, B, C? Foram os fazendeiros D, E, F. Estes é que saíram a
contratar com aqueles escravos de outros colegas, e os levaram consigo para as
suas roças.
Não quis
saber mais nada; desde que os interessados rompiam assim a solidariedade do
direito comum, é que a questão passava a ser de simples luta pela vida, e eu, em
todas as lutas, estou sempre do lado do vencedor. Não digo que este procedimento
seja original, mas é lucrativo. Alguns não me compreenderam (porque há muito
burro neste mundo); alguém chegou a dizer-me que aqueles fazendeiros fizeram
aquilo, não porque não vissem que trabalhavam contra a própria causa, mas para
pegar uma peça ao Clapp. Imagina-se bem se arregalei os olhos.
— Sim,
senhor. Saia que o Clapp tinha o plano feito de ir a Ouro Preto pegar os tais
escravos e restituí-los aos senhores, dando-lhes ainda uma pequena indenização
do seu bolsinho, e pagando ele mesmo a sua passagem da estrada de ferro. Foi por
isso que...
— Mas
então quem é que está aqui doido?
—É o
senhor; o senhor é que perdeu o pouco juízo que tinha. Aposto que não vê que
anda alguma cousa no ar.
— Vejo,
creio que é um papagaio.
— Não,
senhor; é uma república. Querem ver que também não acredita que esta mudança é
indispensável?
— Homem,
eu a respeito de governo, estou com Aristóteles, no capítulo dos chapéus. O
melhor chapéu é o que vai bem à cabeça. Este, por ora, não vai mal.
— Vai
pessimamente. Está saindo dos eixos; é preciso que isto seja, senão com a
monarquia, ao menos com a república, aquilo que dizia o Rio-Post de 21 de junho
do ano passado. Você sabe alemão?
— Não.
— Não
sabe alemão?
E
dizendo-lhe eu outra vez que não sabia, ele imitando o médico de Molière
dispara-me na cara esta algaravia do diabo:
— Es
dürft leicht zu erweisen sein, dass Brasilien weniger eine kontitutionelle
Monarchie als eine absolute Oligarchie ist.
—Mas que
quer isto dizer?
— Que é
deste último tronco que deve brotar a flor.
— Que
flor? As (....?....)
Boas noites

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