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sábado, 30 de março de 2019

O retorno do cão arrependido: o direitismo do nazismo

Por André,

A discussão sobre o esquerdismo, direitismo ou "terceira via" do nazismo voltou (e tenho a impressão que voltará ainda outras vezes).

Antes eu achava esse debate interessante, recentemente tenho achado um porre.

Então vou dizer algumas coisas que considero importantes e que fogem do arroz-com-feijão da discussão (coletivismo, partido socialista etc.):

a - a turma que dá carteirada com "especialistas alemães dizem isso ou aquilo" são os mesmos que acreditam em teorias da conspiração descartadas por autoridades como gênero/sexo ser construção social, conluio com a Rússia, Lula inocente, zapgate e outras. Ou seja, o uso das tais autoridades é pura carteirada conveniente.


b - costuma-se negligenciar o caráter estratégico-propagandístico da acusação de direitismo exemplar do nazismo. Quem está acostumado a debates históricos sobre a Segunda Guerra sabe que os comunistas gostam de fazer revisionismo histórico para tomar para si todos os créditos pela derrota de Hitler (imagem de Stálin dando cruzado em Hitler), quando, na verdade, a URSS aliou-se aos Aliados tardiamente e pode combater graças a muitos dólares americanos e ao importante trabalho das Forças Aéreas Reais (RAF). Propagandisticamente, tornou-se interessante a soviéticos se venderem como únicos combatentes do fascismo e, por corolário, empurrarem para o colo de qualquer opositor a pecha de "fascista".


c - o cara do ataque à Nova Zelândia. Foi classificado de extremo-direitista e neonazista. O que tem de direitismo emblemático naquele sujeito? Não é conservador (pelo menos em qualquer sentido ocidental tradicional), não é liberal (clássico), não é cristão, é ambientalista, pagão, professa direitos trabalhistas e tem fixação com etnia. Transponha isso para meados da década de 20 do século passado, o que há de direitista nisso num período em que já existiam os Partido Conservador, Churchill, o establishment americano etc? O que quer que seja o direitismo do nazismo e de caras como o da Nova Zelândia, é uma coisa bastante diferente do que chamamos de direitismo e conservadorismo no Ocidente.


d - "c" joga água no moinho da tese que o nazismo não seria nem de esquerda nem de direita, mas a tal "terceira via". Essa é uma análise para cientistas políticos e claramente um exercício feito posteriormente, pois não havia o conceito na época (até onde me consta). Discutir se o nazismo eventualmente seria uma ideologia de "terceira via" implica numa discussão HONESTA sobre assunto; à parte da atmosfera propagandística de se retratar qualquer opositor do comunismo/esquerdismo como nazista/fascista (o que clara e nitidamente não é o sentimento atual). Se podemos discutir se o nazismo é de terceira via, não há impedimento intelectual algum para discutir seus elementos de esquerda (apesar de na época, supostamente, ser "evidente" que o nazismo era de direita e/ou apoiado por direitistas).


e - Hannah Arendt em "As Origens do Totalitarismo" retrata nazismo e comunismo como ideologias irmãs (mesmo irmãos gêmeos podem tomar rumos completamente distintos) e Hitler e Stalin como admiradores um do outro. Hitler admiraria Stalin mais do que admirava Mussolini (outro com profundo passado no socialismo não-marxista).


f - o nazismo pode conter elementos "direitistas" como nacionalismo, hierarquização social, entusiasmo com a cultura clássica e preocupação com a deterioração cultural, mas seus MÉTODOS são claramente REVOLUCIONÁRIOS. Duguinistas, terceiras-via etc. costumam se intitular "revolucionários conservadores", pois sabem que não há outro meio de implante de suas ideias por meio de conservação do passado, mas apenas do rompimento quase que total com a ordem, de maneira idêntica a qualquer revolucionarismo de esquerda, mostrando o quanto estão imbuídos de gnosticismo (pois, supostamente, detém o conhecimento necessário para corrigir a ordem da realidade de maneira a criar a ordem social perfeita, seja ela projeção do passado no presente ou mirando o futuro).


That's all for today, folks.

sábado, 21 de julho de 2018

20 de julho, aniversário da Operação Valquíria. Nazismo de extrema direita?

Por André,



Ontem foi 20 de julho, aniversário da Operação Valquíria, o mais próximo que se chegou de aplicar um golpe de estado em Adolf Hitler.

A cabeça da operação foi Claus Schenk Graf von Stauffenberg (1907-1944). A ocasião é mais uma boa oportunidade de relativizar o "extremo direitismo" do regime imposto por Hitler.

[https://pt.wikipedia.org/wiki/Claus_Schenk_Graf_von_Stauffenberg]

Antes, nunca é tarde lembrar que, independente das opiniões dos historiadores, a ideia que o comunismo soviético é um bastião do "combate ao fascismo" é fruto da propaganda e da desinformação soviética. Não que ocasionalmente a URSS não tenha de fato combatido o fascismo, mas o fez apenas quando era de seus melhores interesses, abandonando posições de aberto apoio no passado. Diversos livros registram esses sentimentos difusos de comunistas com relação aos fascistas. A postura, de início, era de oposição, quando Moscou anuncia o Pacto Ribbentrop-Molotov, seus satélites comunistas em outros países ficam confusos: "apoiamos ou lutamos contra os fascistas?". Cada partido comunista adotou posturas diferentes, o inglês ficou mais reticente com a nova amizade, o francês seguiu a matriz moscovita. Tudo isso se encontra bem descrito em Stalin's War, de Ernst Topitsch.

Mesmo depois, quando o atrasado exército vermelho ruma a Berlim, o faz vitaminado por dinheiro e armas americanas e livre dos ataques da Luftwaffe, destroçada pelas forças aéreas britânicas.

Claro que comunistas omitem todos esses fatos de suas narrativas históricas, visto que não contribuem para sua versão propagandística de puros combatentes do fascismo.

Outros fatos que merecem atenção:

- conteve a possibilidade do Anschluß o quanto pode o monarquista católico de extrema direita, Engelbert Dollfuss, que chegou a dissolver o partido nacional socialista na Áustria.

- o próprio Stauffenberg, motivo dessa postagem, também era um tradicionalista, monarquista, católico e portanto muito mais apto à classificação como "extrema direita". Seus valores não toleraram o genocídio nazista [https://www.mittelbayerische.de/politik-nachrichten/schwieriges-gedenken-an-stauffenberg-21771-art1094726.htm]. Todos que insistem no simplismo de chamar o nazismo de "extrema direita" precisam ser confrontados com esses e outros fatos.

Não se trata AQUI de afirmar que o nazismo seja de esquerda, mas apenas de relativizar cada vez mais a obviedade de seu "direitismo". Fato é que a coisa é tratada nos termos que é não graças ao trabalho de historiadores sérios, que consideram os fatos acima citados e outros (por que tantos partidos de extrema direita incluíam o "socialismo" em seu nome? Se Hitler era de extrema direita, o que eram católicos monarquistas como Stauffenberg, Dollfuss, o que era o Império Britânico e Winston Churchill e o que era o establishment norte-americano, todos NESSA MESMA ÉPOCA tão distintos do nacional socialismo?), mas no puro elemento propagandístico das estratégias soviéticas do pós-guerra.

A ideia de implantar na cabeça das pessoas que o racismo era de direita e que, portanto, o nazismo, que levou o racismo aos níveis de eugenia que conhecemos, era de extrema direita e a aceitação disso sem questionamento é fruto dessa peça de propaganda que, aliás, ainda funciona muito bem hoje.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Tese de Robert Paxton: fascismo foge da dicotomia direita/esquerda e teve liberais e conservadores como companheiros de viagem

Por André,


Estou a ler um clássico sobre o fascismo, o The Anatomy of Fascism, do professor da Columbia University Robert Paxton e a confirmar algumas impressões que tinha intuitivamente ou como fruto de outras leituras, um pouco desconexas.

O fascismo era anti-liberal, anti-burguês, anti-marxista e anti-conservador e em alguns sentidos, revolucionário, ainda que tenham existido liberais (em sentido clássico) e conservadores que tenham se tornado companheiros de viagem do fascismo pois preferiam este em detrimento do bolchevismo.

Ainda, sim, o fascismo era antissocialista, mas o que muitos esquerdistas desconsiderarão é que fascistas eram antissocialistas porque passaram a considerar o socialismo de seus respectivos países internacionalista, "pacifista" (oposição à entrada na Primeira Guerra Mundial, naquele momento tida como "guerra imperialista") e "democrático" demais. Ou seja, todos saíram do seio do socialismo de seus países e tinham problemas com esses aspectos do socialismo. Mussolini é o caso a ser citado e os comentaristas debatem até hoje quando foi exatamente o momento de abandono do socialismo da parte de Mussolini.

Seguem alguns trechos que corroboram as informações acima:

"O programa fascista, divulgado meses mais tarde, era uma curiosa mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma espécie de "nacional-socialismo". Do lado nacionalista, ele conclamava pela consecução dos objetivos expansionistas italianos nos Balcãs e ao redor do Mediterrâneo, objetivos esses que haviam sido frustrados meses antes, na Conferência de Paz de Paris. Do lado radical propunha o sufrágio feminino e o voto aos dezoito anos de idade, a abolição da câmara alta, a convocação de uma assembleia constituinte para redigir a proposta de uma nova constituição (presumivelmente sem a monarquia), a jornada de trabalho de oito horas, a participação dos trabalhadores na "administração técnica das fábricas e a "expropriação parcial de todos os tipos de riqueza", por meio de uma tributação pesada e progressiva do capital, o confisco de certos bens da Igreja e de 85% dos lucros de guerra" (p. 16 e 17).

Sempre gostei de destacar quando o debate sobre o enquadramento do nazismo no espectro político surge que, sejam nazismo e fascismo socialistas e revolucionários ou não, é inegável que sempre quiseram ao menos PARECER socialistas. Seus programas não podem indicar isso de maneira menos clara.

"Os sindicalistas pró-guerra haviam sido os companheiros mais próximos de Mussolini durante a luta para levar a Itália à guerra, em maio de 1915. Na Europa anterior à Primeira Guerra Mundial, o sindicalismo era o principal rival da classe trabalhadora do socialismo parlamentar. Embora, por volta de 1914, a maioria dos sindicalistas estivesse organizada em partidos eleitorais que competiam por cadeiras no parlamento, estes ainda mantinham suas raízes sindicais. Os socialistas parlamentares trabalhavam por reformas pontuais, enquanto esperavam pelos desdobramentos históricos que tornariam o capitalismo obsoleto, tal como profetizado pelos marxistas, ao passo que os sindicalistas, desdenhando as concessões exigidas pela ação parlamentar, e também o fato de a maioria dos socialistas estar comprometida com a evolução gradual, acreditavam que poderiam derrubar o capitalismo com a força de sua vontade" (p. 17).

"É difícil situar o fascismo no tão familiar mapa político de direita-esquerda. Será que mesmo os líderes dos primeiros tempos saberiam fazê-lo? Quando Mussolini reuniu seus amigos na Piazza San Sepolcro, em março de 1919, ainda não estava bem claro se pretendia competir com seus antigos companheiros do Partido Socialista Italiano, à esquerda, ou atacá-los frontalmente a partir da direita. Em que ponto do espectro político italiano se encaixaria aquilo que ele, às vezes, ainda chamava de "nacional-sindicalismo"? Na verdade, o fascismo sempre manteve essa ambiguidade" (p. 28).

"Para eles, a esquerda socialista e internacionalista era o inimigo, e os liberais eram os cúmplices do inimigo" (p. 43-44).

"De modo geral, os conservadores europeus, em 1930, ainda rejeitavam os princípios da Revolução Francesa, preferindo a autoridade à liberdade, a hierarquia à igualdade e a deferência à fraternidade. Embora muitos deles tenham visto os fascistas como úteis, ou mesmo essenciais, em sua luta pela sobrevivência contra os liberais dominantes e uma esquerda em ascensão, alguns tinham aguda consciência de que seus aliados fascistas seguiam uma agenda diferente e sentiam uma aversão desdenhosa por esses forasteiros rudes. Quando o simples autoritarismo era o bastante, os conservadores o preferiam. Alguns deles mantiveram sua postura antifascista até o fim. A maioria dos conservadores, entretanto, estava convicta de que o comunismo era pior. Se dispunham a trabalhar com os fascistas caso a esquerda mostrasse a possibilidade de triunfar" (p. 48).

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Eichmann esperava que árabes continuassem seu "trabalho" com judeus

Por Flavio Morgenstern,

A forma corrente de interpretar a história no Brasil é que existe uma direita, maximizada na América, Inglaterra e em Israel, e uma tal "extrema-direita", que apesar de socialista, estatólatra, coletivista, de economia distributivista-sindicalista e até racionamento de bens, seria o "máximo" da direita. Esta tal "extrema-direita" é reconhecida sobretudo pelo genocídio de milhões de judeus - os mesmos judeus que formariam Israel, o país mais "de direita" do mundo.

Uma forma mais inteligente, seguida por quase todos os maiores pensadores do mundo - e muito da população não-falante de países civilizados - é entender que há esquerda e direita em democracias e repúblicas, socialismo internacional e socialismo nacional. A esquerda "democrática" não é tão radical quanto os socialistas internacionais, mas compactua de muita coisa com eles - a extrema-esquerda. O nacional-socialismo não tem nada a ver com a direita (foi inimigo mortal JUSTAMENTE dela, bem antes de se voltar contra o socialismo internacional).

Hoje a esquerda apóia os muçulmanos, tratando-os como vítimas, e odeia Israel. Logo, continua do mesmo lado que sempre estiveram, em seu "grau menor" de postura socialista (tanto da Alemanha nazista quanto da União Soviética, inimigas mortais de Israel). Tratar o nazismo como "direita" simplesmente torna todos estes fatos confusos, ao invés desta clareza total (com a "extrema-direita" indo contra a direita e fazendo pacto com a extrema-esquerda, os judeus serem chamados hoje de direita e terem sido perseguidos por ela própria, a extrema-esquerda tentar aparecer como "inimiga", e não concorrente do nazismo, quando os nazistas tinham como inimigos os mesmos "judeus burgueses" e como aliados os mesmos islâmicos, além de muitas outras esquisitices, que são PRESSUPOSTOS da cabeça de universitários).

Leiam o artigo que vai abaixo da essencial The Spectator e percebam como pensar fora da gaiolinha conceitual da própria esquerda com suas contradições torna fácil entender o mundo e a história.

Adolf Eichmann hoped his ‘Arab friends’ would continue his battle against the Jews

Over Christmas I finally got around to reading Eichmann Before Jerusalem by Bettina Stangneth. I cannot recommend this book – newly translated from the German – highly enough. It challenges and indeed changes nearly all received wisdom about the leading figure behind the genocide of European Jews during World War II.

The title of course refers to Hannah Arendt’s omnipresent and over-praised account of Adolf Eichmann’s 1961 trial, Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil. I would say that Stangneth’s book not merely surpasses but actually buries Arendt’s account. Not least in showing how Arendt was fooled by Eichmann’s role-play in the dock in Jerusalem. For whereas Arendt famously portrayed the man in the glass booth as a type of bureaucrat, Stangneth shows not only that Eichmann was not the man Arendt took him to be, but that she fell for a very carefully curated and prepared performance. Putting together a whole library of scattered documents from Eichmann’s exile in Argentina in the 1950s, Stangneth puts the actual, unrepentant Eichmann back centre stage.

There are a number of startling discoveries in the book, not least among them being the extent to which Eichmann had kept up with the books and scholarship on the Holocaust as they came out so that by the time he was awaiting trial in Jerusalem he was fully on top of all primary and secondary material put to him. There is also the extent to which Stangneth is able to show (through accounts from various members of the South America Nazi circles) how well known the true identity of ‘Ricardo Klement’ actually was within the German expat community in those years.

But Stangneth’s principle scholarly triumph has been her ability to piece together and make sense of the extant transcripts and recordings known as the Sassen conversations. Together with Eichmann’s contemporary attempts at memoir-writing they bring a wholly new interpretation on his years in Argentina. These conversations – recorded by the journalist and Nazi Willem Sassen in the 1950s – came to light before Eichmann went on trial. But in Jerusalem Eichmann threw doubt on their authenticity and for this reason (as well as the complex dissemination and distribution of the transcripts plus disputes over ownership as well as attempts to disown them) the complete picture of these interviews has taken until now to come to light. Stangneth’s work on these materials is extraordinary and the results more than reward her considerable efforts. For instance she shows that those who participated in the conversations (including Sassen himself) tried very hard to cover over exactly what had gone on after Eichmann was abducted by the Mossad. And Stangneth startlingly shows the extent to which these discussions were far from being one-on-one interviews but were in fact semi-public events.

The nature of these events, and their content, is of considerable contemporary as well as historical relevance. For two reasons in particular. The first relates to the ongoing European discussion of free speech and Holocaust denial laws. Because Stangneth shows that as an increasing amount of information on the Holocaust came to light in the 1950s the immediate reaction of the remaining Nazis and neo-Nazis in South America was denial. Some of the Argentina Nazis sincerely believed that the Federal German Republic would not last and that their belief system might yet return to save the German people. But even these remote fantasists realised that the news of the Holocaust presented problems for their rehabilitation. And so they hoped to expose the Holocaust. Their first attempts were not only crude but were swiftly overtaken by an unstoppable flood of information and scholarship. By the mid-1950s even the most committed remaining Nazis clearly found ignoring the weight of evidence to be an uphill struggle. And so this group of Nazis in South America, brought together by Sassen, thought that Eichmann might provide the solution to their quandary. They believed that Eichmann would be able to help them not just because he had been the person most closely involved in the Nazi programmes against the Jews, but as the man cited at Nuremberg as having first used the six million figure. The Buenos Aires Nazis assumed that if they got Eichmann on record then they could show the world that the six million figure was a lie, or at least a great exaggeration.

By this point Eichmann was also thinking of breaking his cover in some way. In 1956 he once again attempted to write a book, this time provisionally titledDie anderen sprachen, jetzt will ich sprechen [The Others Spoke, Now I Want to Speak!]. But the conversations with the Sassen circle – which came from the same instinct of his to break his silence – turned out to constitute an attempt to square an impossible circle. For Eichmann saw the Sassen circle’s efforts to minimize the Holocaust as something like a spitting on his life’s work. Eichmann knew that the six million figure was accurate, and seems to have only gradually realised that his audience were hoping for something quite different from him. The discussions clearly broke down under this unresolvable issue. Among the reasons why I would suggest that this has some contemporary relevance is that it is the clearest possible reminder of how in open discussion even the people most committed to trying to prove the Holocaust did not occur (former leading Nazi officials) ended up being unable to disprove the facts. On that occasion – as so often – they slunk away.

But the second reason why Stangneth’s book seems relevant for more than historical reasons is because of what it tells us about a stream of poison which remains very much at the centre of current events.

In The Others Spoke, Now I Want to Speak! (the reference is to his former colleagues who – in another un-square-able moment – Eichmann believed had defamed him at Nuremberg) he had the opportunity to write about the recent Suez Crisis. Here is one passage Stangneth quotes which was new to me at least.
‘And while we are considering all this – we, who are still searching for clarity on whether (and if yes, how far) we assisted in what were in fact damnable events during the war – current events knock us down and take our breath away. For Israeli bayonets are now overrunning the Egyptian people, who have been startled from their peaceful sleep. Israeli tanks and armored cars are tearing through Sinai, firing and burning, and Israeli air squadrons are bombing peaceful Egyptian villages and towns. For the second time since 1945, they are invading… Who are the aggressors here? Who are the war criminals? The victims are Egyptians, Arabs, Mohammedans. Amon and Allah, I fear that, following what was exercised on the Germans in 1945, Your Egyptian people will have to do penance, to all the people of Israel, to the main aggressor and perpetrator against humanity in the Middle East, to those responsible for the murdered Muslims, as I said, Your Egyptian people will have to do penance for having the temerity to want to live on their ancestral soil… We all know the reasons why, beginning in the Middle Ages and from then on in an unbroken sequence, a lasting discord arose between the Jews and their host nation, Germany.’

There then follows an extraordinary and important passage. For Eichmann goes on to say that if he himself were ever found guilty of any crime it would only be ‘for political reasons’. He tries to argue that a guilty verdict against him would be ‘an impossibility in international law’ but goes on to say that he could never obtain justice ‘in the so-called Western culture.’ The reason for this is obvious enough: because in the Christian Bible ‘to which a large part of Western thought clings, it is expressly established that everything sacred came from the Jews.’ Western culture has, for Eichmann, been irrevocably Judaised. And so Eichmann looks to a different group, to the ‘large circle of friends, many millions of people’ to whom this manuscript is aimed:

‘But you, you 360 million Mohammedans, to whom I have had a strong inner connection since the days of my association with your Grand Mufti of Jerusalem, you, who have a greater truth in the surahs of your Koran, I call upon you to pass judgment on me. You children of Allah have known the Jews longer and better than the West has. Your noble Muftis and scholars of law may sit in judgement upon me and, at least in a symbolic way, give me your verdict.’ [pp 227-8]

Elsewhere Stangneth shows how open Eichmann must have been in his admiration for Israel’s neighbours. After Eichmann’s abduction his family apparently became concerned about his second son. According to a police report, ‘As Horst was easily excitable the Eichmann family was afraid that when he heard about his father’s fate, he might volunteer to fight for the Arab countries in campaigns against Israel.’ As Stangneth adds, ‘Eichmann had obviously told his children where his new troops were to be found.’ [229]

Of course for years after the war there were rumours that Eichmann had fled to an Arab country. He might have had a better time there. Other Nazis certainly did, including Alois Brunner – Eichmann’s ‘best man’ – who settled in Damascus after the war and who is now believed to have died in Syria as recently as 2010. Eichmann’s Argentina years were certainly filled with frustration and rage. What is most interesting is how mentally caught he remained even before he was captured, principally by the impossible conundrum of how to persuade the world to accept what he had done and simultaneously boast about his role in the worst genocide in history.

There is much more to say about this book. But I do urge people to read it. Not least for the way in which Stangneth sums up the problem with the only strain of Nazi history which really remains strong to this day. ‘Eichmann refused to do penance and longed for applause. But first and foremost, of course, he hoped his “Arab friends” would continue his battle against the Jews who were always the “principal war criminals” and “principal aggressors.” He hadn’t managed to complete his task of “total annihilation,” but the Muslims could still complete it for him.’

domingo, 20 de abril de 2014

Duguinismo é a ideologia diretora da mente de Putin

Por Estadão,

Por trás da ofensiva da Rússia sobre a Ucrânia há mais do que interesses geopolíticos e econômicos. O presidente russo, Vladimir Putin, estaria sendo influenciado também pelo "neoeurasianismo", ideologia radical de inspiração nacionalista nascida nos anos 20 e reescrita após o desmoronamento da União Soviética.

Fiel à tradição e aos valores cristãos ortodoxos, a doutrina reúne princípios da extrema direita e da extrema esquerda na luta contra seus inimigos: os EUA, a Europa, o Ocidente, o liberalismo e a globalização.
A teoria reafirma o que qualifica de "identidade russa", nascida da fusão de eslavos e muçulmanos turcos. A Rússia seria um terceiro continente, situado entre a Europa e a Ásia. Antes de quase desaparecer no século 20, esta linha de pensamento opunha-se tanto ao Ocidente liberal, considerado decadente, quanto aos soviéticos, que baniram o cristianismo ortodoxo da Rússia, assim como seus valores tradicionalistas.
O renascimento do eurasianismo ocorreu após a queda do Muro de Berlim e da URSS, por meio do filósofo e cientista político Alexander Dugin. Filho de um agente da KGB, o intelectual se alinhou com os opositores de Boris Ieltsin, o primeiro presidente da Rússia após o fim do bloco soviético. Aliou-se também ao escritor dissidente Eduard Limonov na fundação do Partido Nacional-Bolchevique, cujo nome e bandeira não deixavam dúvidas sobre sua proximidade com o nazismo.
Em 1994, Limonov e Dugin se separaram. O primeiro fez uma guinada liberal e fundou o movimento Outra Rússia, de oposição a Putin. O segundo criou em 2002 um novo partido, o Eurásia, em atividade até hoje. Nos últimos 25 anos, Dugin ganhou influência em Moscou, onde ficou mais próximo de Putin e de Dmitri Medvedev. Por isso, o presidente russo adotou o discurso da ideologia, ressaltando a ideia de "tradição", cara à Igreja Ortodoxa russa, e recusando o multiculturalismo, o feminismo, o homossexualidade e o que chama de "valores não tradicionais" dos EUA.
"Com certeza, a ideologia do eurasianismo de Dugin influencia Putin", afirma a cientista política russa Tatiana Kastoueva-Jean, coordenadora do centro de estudo de Rússia do Instituto Francês de Relações Internacionais, de Paris. "A teoria de Dugin ressalta o papel específico e único da Rússia e corresponde à visão das autoridades russas."
Para a historiadora francesa Marlène Laruelle, pesquisadora do Centro de Estudos dos Mundos Russo, Caucasiano e Centro-Europeu, a ideologia não explica toda a política externa da Rússia, mas ajuda a entender seus desdobramentos. Um deles é o projeto de criação da União Eurasiática, com sede em Moscou, cujo tratado foi assinado em novembro de 2011 pelos os presidentes de Bielo-Rússia, Casaquistão e Armênia. O grupo incluirá Quirguistão e Tajiquistão a partir de 2015.
Ao convencer o ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovich a renunciar à ambição de um acordo de livre-comércio com a União Europeia, em novembro - evento que detonou o Movimento EuroMaidan, na Praça da Independência, em Kiev -, Putin planejava a inclusão da Ucrânia no novo bloco, expandindo-o para o oeste e incorporando, futuramente, membros como Geórgia, Moldávia e Armênia.
Na prática, a União Eurasiática reconstituiria a maior parte do território da URSS, cujo esfacelamento é considerado por Putin como uma das maiores tragédias do século 20. "O objetivo era manter a Ucrânia sob sua influência, fazendo-a participar de seu projeto de União Eurasiática, não admitindo sua 'deriva' em direção ao Ocidente", afirma Tatiana. "Esses objetivos estão bem comprometidos hoje."
Em entrevista a um jornalista francês militante do eurasianismo, em 2009, o Dugin foi claro: para ele, não existe povo ucraniano. "Nós somos contra o Estado-nação ucraniano porque ele é pró-americano, atlantista e antieurasiano", disse. "O povo da Ucrânia do leste e da Crimeia está agora em perigo de opressão e destruição."
Para o ucraniano Constantin Sigov, filósofo da Universidade Kiev-Mohyla e militante do Movimento Euromaidan, o eurasianismo tornou-se uma ideologia perigosa para todo o mundo. "Não há nada de bom na ideologia do eurasianismo. É uma salada sem coerência interna que busca elementos do comunismo, do socialismo, do nacionalismo, do cristianismo", diz Sigov, que vê no presidente russo o líder do movimento. "Putin é um louco e precisa ser parado enquanto há tempo."

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Crimes da Coreia do Norte equiparam-se ao do nazismo

Por Estadão,

GENEBRA - A maior investigação já realizada pela ONU sobre a situação na Coreia do Norte conclui que a liderança do país asiático promove "crimes contra humanidade" e pede que os responsáveis, inclusive seu presidente, Kim Jong-un, sejam levados à Corte Penal Internacional.  

Os dados fazem parte do levantamento de mais de 400 páginas e que está sendo divulgado hoje em Genebra. O informe acusa o regime de levar sua população à fome, por promover "atrocidades" e crimes praticamente diários. "A gravidade, escala e natureza dessas violações revelam um estado que não tem paralelo no mundo contemporâneo", alertou a ONU.

Para os autores do informe, os crimes se "assemelham de uma forma incrível aos crimes nazistas". Já a Coreia do Norte insiste que o informe é feito a partir de "documentos falsos".

Em suas páginas, o informe da ONU mostra como assassinatos, torturas, escravidão, violência sexual, extermínio e tantos outros crimes fazem parte da vida diária de um dos países mais fechados do mundo. Sequestros, inclusive de crianças, seriam permanentes.

A ONU estima que entre 80 mil e 120 mil prisioneiros políticos estejam em centros de detenção pelo país. Não há liberdade de expressão e qualquer tentativa de questionamento é reprimida com penas graves e até de morte.

Diante dessa realidade, a ONU apela que o Conselho de Segurança trate da situação e passe uma resolução referindo o caso à Corte Penal Internacional. A ONU também pede que sanções sejam adotadas.

O informe ainda inclui uma carta dirigida diretamente ao "supremo líder, Kim Jong-un". Nela, a ONU faz um resumo das conclusões e aponta que existe uma "sistemática violação de direitos humanos que se equivale a crimes contra humanidade".

Na carta, a ONU também alerta que o comando de um país deve ser responsabilizado criminalmente pelos atos de um estado e que o próprio Kim deveria ser julgado.


COMENTÁRIOS

Não é novidade pra ninguém que nazismo e comunismo compartilham métodos, estratégias, objetivam um poder que só pode culminar em totalitarismo e que, por disputarem as mesmas almas, mesmo após momentos de afago, entram em conflito. Já tratei exaustivamente do tema aqui.

Também não é demais lembrar a quantidade de simpatizantes do regime norte-coreano que temos no Brasil. Desde o PC do B a militontos pseudointelectuais de rede social (já tive o desprazer de discutir com alguns).

A ONU descobre apenas agora o que gente que viveu na pele o comunismo já sabia há um bom tempo, como reza a Declaração de Praga sobre Consciência Europeia e Comunismo.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Comunismo e nazismo: duas ideologias revolucionárias disputando o mesmo nicho

Por André,


[Em citação de Hitler] "O que me interessou nos marxistas e o que aprendi deles são os seus métodos (...). Todo o nacional-socialismo está contido neles (...). As sociedades trabalhadoras de ginástica, as células de empresas, os cortejos maciços, as brochuras de propaganda escritas especialmente para serem entendidas pelas massas, todos esses novos meios de luta política foram quase integralmente inventados pelos marxistas. Eu não tive senão de apropriar-me deles e de desenvolvê-los, arranjando para mim desse modo o instrumento de que tinha necessidade" RAUSCHNING, Hermann. The Voice of Destruction. Gretna, Pelican Publishing Company, 2003, p. 186.
Já tive a oportunidade de comentar longamente e evidenciar como o nazismo foi uma doutrina revolucionária e coletivista. Na medida em que o comunismo era uma doutrina igualmente coletivista e revolucionária, fica evidente que uma hora ou outra, apesar dos fins e meios compartilhados, ambos entrassem em confronto cedo ou tarde. Contudo, quanto mais estudo, mais evidente fica como ambos eram semelhantes, quando não tiveram relações quase que fraternais, como mostra a citação acima e o vídeo.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Alguns fatos "politicamente incorretos" sobre o nazismo: ascensão e prática

Por André,

O fenômeno do nazismo segue fascinando muitas mentes. Explicações e teorias, de razoáveis a esdrúxulas, sobre a ascensão e queda tanto do movimento quanto do próprio Hitler pululam a mente dos 'experts' interneteiros e da literatura de botequim.

Das muitas perspectivas que podem ser adotados para estudar o fenômeno, quero comentar uma perspectiva relativamente peculiar e recente: primeiro a constância do vocábulo nazismo nos debates hoje em dia, seja na Lei de Godwin - todo debate tende a um imbecil acusar o interlocutor de nazista. Ou a estratégia matreira da esquerda de classificar como "nazista" qualquer humano que cometa o pecado mortal de não militar por sua agenda.

Um conservador ou um direitista deve se sentir intimidado pela acusação? Hitler era um capitalista? Era conservador? O nacional socialismo, vulgo nazismo, pode ser classificado como socialista "apenas" por carregar a palavra no nome (bem sabemos o jogo de "esvazia-enche" conceitos da esquerda) ou existem outras evidências para corroborar o fato?**

Ainda: o nazismo surgiu pela crise econômica da Alemanha? Graças à Grande Depressão? Outras explicações-padrão serão refutadas.

I - Os nazistas e o indivíduo

Antes de observarmos algumas declarações do próprio Hitler, dos mentores teóricos de Hitler e do nazismo, comecemos com um vídeo com trechos de discursos do autor do Mein Kampf:



Atentem para o seguinte:
- A constante referência ao povo, à nação, à Alemanha (nenhuma referência a indivíduos), a grandes "todos" e coletivos (a maior referência ao indivíduo que ele faz é, comicamente, aos "camaradas").

"Vocês não devem agir por si mesmo, vocês devem obedecer, vocês devem entregar-se"

"Unificação das classes do povo alemão"

"O que mais poderoso vocês possuem é seu povo"

"Aqueles que não conseguem ver nada além do próprio nariz merecem nossa pena"

"... aqueles que se comprometem por esse estado socialista"

"Nosso sistema de bem-estar social é muito mais que caridade"

"Não dizemos aos ricos, ajudem os pobres, mas dizemos povo alemão ajude-se"

"Quando você se sacrifica por sua comunidade, então pode andar de cabeça erguida"

"Um novo estado não cai do céu, mas é formado a partir do próprio povo"

"Antes, cada um pensava apenas em si ou no máximo em sua classe"

"A juventude precisa conservar o grande sentimento de fazer parte do grupo"

Será isso suficiente para classificarmos o nazismo como uma clara e evidente forma de coletivismo, a ideia que o coletivo ("povo", "nação", "estado") prevalece frente ao indivíduo?

E essa não é a tônica, além do nazismo, do próprio fascismo (por alargado que o conceito venha sendo pelo debate comum)?

O fascismo é uma doutrina política totalitária. Foi posto em prática mais notoriamente na Itália, mas também em outros locais com suas variações. Quase sempre que se fala em fascismo, a primeira pessoa que vem à mente: Benito Mussolini.

Pois bem, o regime fascista italiano tinha como slogan "Tudo para o Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado" ("Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato"). Qualquer semelhança com aquilo que advogam socialistas de hoje e de ontem não é mera coincidência.

A perseguição e a oposição histórica do fascismo (e do nazismo) ao socialismo, relatada pela propaganda soviética retroativa, é muitas vezes vista como uma prova de que fascistas/nazistas e socialistas apresentariam ideologias contrárias, dada sua posição de extremos opostos no espectro político (estes à esquerda, aqueles à direita). Ledo engano. Fascistas e Nazistas buscaram eliminar marxistas muito mais por uma questão de reserva de mercado do que que por diferenças programáticas. Eles disputavam o mesmo nicho de mercado e o faziam por meio de estratégias similares. Todos eles prometiam soluções miraculosas para os problemas, buscavam bodes expiatórios para justificá-los e utilizavam-se do terror e da lealdade ao Estado como estratégias de coesão social.

O Fascismo de Mussolini, o Nacional-Socialismo de Hitler e o Socialismo Soviético de Stalin nada mais foram do que irmãos gêmeos que se vestiam de forma diferente e falavam línguas diferentes. Seus fins, seus meios e seus objetivos eram similares. Os três eram coletivistas: colocavam o Estado como centro da sociedade e sempre acima dos indivíduos.

Ainda não está convencido? Sugiro que avalie o Pacto Ribbentrop-Mólotov, um acordo de não-agressão firmado entre União Soviética e Alemanha Nazista. Até ali, tudo ia muito bem, obrigado.

Molotov com a caneta, Ribbentrop atrás e Stálin à esquerda (rs).

Ainda não está satisfeito?

Calma, podemos recuar ainda mais e ler relatos dos teóricos nazistas.

Antes, por uma questão de honestidade intelectual e clareza, preciso lidar com duas declarações de Hitler no vídeo acima acerca do marxismo, ambas muito críticas; em uma delas, inclusive, Hitler gaba-se de ter extirpado o marxismo da Alemanha.

Antes é preciso lembrar que o socialismo não é uma invenção de Marx e que já haviam diversos tipos de socialismo antes de Marx e do marxismo. E para muitos socialistas, o marxismo em vez de contribuir para a instauração do socialismo, na verdade o atrapalhou.

Moeller van den Bruck, intelectual alemão (cujas inspirações econômicas foram de Friecrich List (cf. nota 1) - economista alemão anti-livre-mercado mais lido antes de Marx) e teórico do nazismo explica as razões: para o socialismo alemão, as pretensões internacionalistas do marxismo eram uma aberração que atrapalhavam o próprio socialismo:

"Quando falamos de socialismo alemão, claro que não queremos dizer o socialismo do partido social-democrata no qual o partido se refugiou após nosso colapso, nem queremos dizer o socialismo lógico de tipo marxista que se recusa a abandonar a guerra de classes das Internacionais... o socialismo começa onde o marxismo termina. O socialismo alemão é convocado para tomar parte na história da humanidade purgando-se de todo traço do liberalismo... este novo socialismo deve ser o fundamento do Terceiro Império da Alemanha"

Bruck era um crítico feroz do liberalismo (seja econômico, pela via de List, seja filosófico, entendido como individualismo):
"O liberalismo é o partido dos ativistas arrogantes que se apresentaram entre as pessoas comuns e os homens importantes. Os liberais se sentem como indivíduos isolados, responsáveis por ninguém. Não compartilham as tradições da nação, são indiferentes a seu passado e não tem ambição por seu futuro. Buscam apenas suas vantagem pessoal no presente"
Não está satisfeito ainda? Ofereço mais:

"Assim, é necessário que o indivíduo deve, finalmente, se dar conta que seu próprio ego não tem importância quando comparado com a existência da sua nação; que a posição do eu individual é condicionada apenas pelos interesses da nação como um todo... que toda a unidade de espírito e vontade de uma nação vale muito mais que a liberdade de espírito e vontade de um indivíduo"

"Este estados mental, que subordina os interesses do eu à conservação da comunidade é, na verdade, a primeira premissa de toda cultura verdadeiramente humana... A atitude básica a partir da qual tal atividade surge chamamos - para distinguir do egoísmo - é o idealismo. Por este último entendemos apenas a capacidade de um indivíduo de fazer sacrifícios pela comunidade, por seus pares"

Duas citações que resumem a filosofia moral do nazismo, explicada pelo próprio Adolf Hitler.

Referência: Hitler at Buckeberg, Oct 7, 1933; cf. The Speeches of Adolf Hitler, 1922-39, ed. N.H. Baynes (2 vols., Oxford, 1942), I, 871-72.


A teoria política do nazismo era, claramente, do "estado total". Citando Leonard Peikoff:

"O estado deve ter poder absoluto sobre todos os homens e sobre todas as esferas da atividade humana, declararam os nazistas" (PEIKOFF, 1983, p. 15).

"A autoridade do Fuhrer não é limitada por fiscalizações ou controles, por direitos especiais de indivíduos autônomos, mas é livre e independente, toda-inclusiva e ilimitada" Ernst Huber, representante oficial do partido em 1933.

"O conceito de liberdades pessoais do indivíduo, por oposição à autoridade do estado teve de desaparecer, não pode ser conciliada com o princípio no Reich nacionalista"

"Não existem liberdades individuais para o indivíduo que esteja fora do reino do estado e que deve ser respeitado pelo estado... A constituição do Reich nacionalista não é, portanto, baseada num sistema de direitos inatos e inalienáveis do indivíduo" 

Referências a Huber:

National Socialism, prepared by Raymond E. Murphy et al; quoting Huber, Verfassungsrecht des grossdeutschen Reiches (Hamburg, 1939); reprinted in Readings on Fascism and National Socialism, selected by Dept. of Philosophy, U. of Colorado (Denver, Alan Swallow, n.d.), p. 77, 90. 


"Ser um socialista é submeter o eu ao tu; socialismo é sobre sacrificar o indivíduo em favor do todo" Goebbels. [Erich Fromm, Escape from Freedom (New York, Farrar, 1941), p. 233; quoting Goebbels, Michael].


Citações de teóricos e políticos nazistas negando a entidade dos indivíduos abundam na literatura (mais citações podem ser oferecidas, mas me reservo o direito de parar por aqui por uma questão de espaço). 

Talvez uma polêmica ainda permaneça: o que os nazistas pensavam da propriedade privada?


II - Os nazistas e a propriedade privada

Como afirmei, para os nazistas, o marxismo foi uma aberração que atrapalhou o socialismo e um dos principais tópicos da agenda marxista é a coletivização dos meios de produção, a abolição da propriedade privada dos meios de produção. O que os nazistas pensavam acerca disso?

"'A propriedade privada' como concebida sobre a ordem econômica liberal foi um reverso do verdadeiro conceito de propriedade (Huber escreveu). Esta "propriedade privada" representava o direito do indivíduo de gerenciar e especular com sua propriedade adquirida ou herdada como ele quisesse, sem consideração com o interesse geral... O socialismo alemão teve de superar este conceito de "privado", isso é, uma visão irrestrita e irresponsável da propriedade. Toda propriedade é propriedade comum. O possuidor é responsável pelo gerenciamento responsável de seus bens em favor do povo e do Reich. Sua condição legal é justificada apenas quando ele satisfaz esta responsabilidade com a comunidade"

Hitler at Buckeburg; cf. Baynes, op. cit., I, 872 (trans. G. Reisman). Gregor Ziemer, Education for Death (London, Oxford U.P., 1941), p. 20; quoting Bernhard Rust, Erziehung und Unterricht (1938). Murphy et al., op. cit., p. 65; quoting Gottfried Neesse, Die Nationalsozialistique Deutsche Arbeitepartei - Versuch einer Rechtsdeutung (1935). p. 91.

Embora negassem a coletivização dos meios de produção, a propriedade privada era amplamente diluída no estado nazista alemão: o governo dirigia e fiscalizava a economia. A questão da posse legal era secundária, o ponto central é a questão do controle. Cidadãos eventualmente seguem possuindo títulos de propriedade, com o estado resguardando para si o direito de regular suas propriedades.

A posse significava o direito de determinar o uso e dispor de bens materiais, o nazismo dotou o estado com toda prerrogativa real da posse. O que cabia ao indivíduo era uma mera formalidade sem conteúdo, que conferia nenhum direito a seu possuidor. No comunismo havia a propriedade coletiva por direito. Sob o nazismo, há a mesma propriedade coletiva de facto.

Mais pode ser conferido em: PEIKOFF, Leonard. The Ominous Paralells: The End of Freedom in America. Plume, 1983, p. 17, 18 e 19.


III - A causa do nazismo

Por fim, mas não menos importante, provavelmente boa parte do que você aprendeu na escola sobre nazismo estava errado. Provavelmente seu professor ou seu livro didático elencou um ou mais dos itens abaixo como causa primeira ou essencial do nazismo. Bem, parte essencial da minha bibliografia afirma que não. Peikoff, NA DÉCADA DE 80, traçava paralelos curiosos entre o clima cultural que deu vazão ao nazismo e o que se passava (e segundo o mesmo Peikoff só piorou de lá para cá) nos EUA. Todo um clima cultural estatizante e anti-liberdade preparou o terreno para a ascensão de um regime totalitário como o nazismo.

Eric Voegelin, o filósofo austríaco naturalizado americano, segue linha de raciocínio semelhante:

O fenômeno de Hitler não se esgota em sua pessoa. Seu sucesso deve ser situado no quadro geral de uma sociedade arruinada intelectual ou moralmente, no qual figuras que em outros tempos seriam grotescas e marginais e podem ascender ao poder público por representarem formidavelmente o povo que as admira. Essa destruição interna de uma sociedade não terminou com a vitória dos aliados sobre os exércitos alemães na Segunda Guerra Mundial, mas continua até hoje. Devo dizer que a destruição da vida intelectual na Alemanha em geral e nas universidades em particular é fruto da destruição que pôs Hitler no poder e da destruição perpetrada sob seu regime. O processo ainda está em curso e não é possível entrever seu fim, de sorte que consequências surpreendentes são possíveis. O estudo desse período por Karl Kraus, e especialmente sua arguta análise do detalhe sujo (aquilo que Hannah Arendt chamou de "banalidade do mal"), tem grande importância para nós hoje,pois é possível encontrar fenômenos correlatos na sociedade ocidental, embora não ainda, felizmente, com os efeitos destrutivos que resultaram na catástrofe alemã." (VOEGELIN, Reflexões Autobiográficas, p. 41)

a) Os alemães aderiram ao nazismo porque perderam a Primeira Guerra Mundial?

Não. A Áustria também perdeu a guerra e isso não a rendeu ao nazismo (apenas quando invadida por Hitler em 1938). A Itália venceu a guerra, porém se tornou fascista em 1922.

b) A Grande Depressão causou o nazismo?

Errado, muitas nações foram afetadas pela Grande Depressão, e isto não as conduziu ao nazismo.

c) a ascensão do nazismo se deve à fraqueza dos partidos não-totalitários na República de Weimar, a pressão de alguns grupos sobre a guerra e a paralisia governamental que se seguiu?

Mais uma vez, isso não explica porque países com conflitos sociais e com seus governos em declínio não aderiram ao nazismo.

Alguns tendem a explicar o nazismo não pelo viés de crises, mas alguns outros:

d) Muitos atribuem o nazismo a secularização e o espírito científico do mundo moderno.

Bem, à época, a Alemanha era, especialmente na Prússia, um dos países mais religiosos da Europa Ocidental, a República de Weimar pululava de cultos místicos (do qual o nazismo representa um deles) e o grupo religioso mais amplo e devota foi um dos primeiros a aderir firmemente a Hitler, os luteranos.

e) Marxistas vêem o nazismo como resultado inevitável do capitalismo.

O que nega o fato de que a Alemanha pós-Bismarck era o país menos capitalista da Europa Ocidental; a República de Weimar foi, desde o princípio, uma economia controlada, com os controles crescendo indiscriminadamente (além de tudo que descrevemos acima).

f) há os racistas reversos, que dizem que a causa do nazismo foi a "depravação inata dos alemães".

Depravação é um conceito moral, conceitos morais só fazem sentido à luz do livre-arbítrio, se a depravação dos alemães fosse inata, eles não poderiam ser culpados pelo que fizeram. Ademais, regimes totalitários e sanguinários como o de Hitler, diferindo apenas em grau, surgiram por todo o globo em diversas épocas.

g) há ainda os que tentam explicar o nazismo à luz de Freud, se referindo ao Complexo de Édipo ou pulsão de morte do povo alemão.

Isso torna evidente, mais uma vez, a especialidade de Freud em criar conceitos abstratos que explicam tudo e que, por consequência, não explicam nada.


IV - Conclusão

Não visávamos aqui nem esgotar as explicações para o nazismo, mas apenas contribuir para o fim de alguns mitos que o cercam, criados e propagados na internet (e, de certa forma, nos livros).

O nazismo foi um ideal socialista, estatólatra, anti-indivíduo e irracional. Sem qualquer relação com o liberalismo filosófico-econômico.

As "causas" que os livros de história atribuem para o surgimento e sucesso do nazismo são insuficientes e acabam por não cumprir o ensinamento essencial de mostrar o que o fenômeno foi, para que ele não se repita. As explicações do manuais estão, em geral, erradas ou, generosamente falando, incompletas.


V - Referências bibliográficas e sugestões

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: ed. Companhia das Letras, 2012.

GOLDBERG, Jonah. Fascismo de Esquerda. São Paulo: ed. Record, 2009.

KUEHNELDT-LEDDIHIN, Erik Von. Leftism: from de Sade to Marx to Hitler and Marcuse. Arlington House, 1974.

PEIKOFF, Leonard. The Ominous Paralells: The End of Freedom in America. Plume, 1983

REISMAN, George. Por que o nazismo era socialismo e por que o socialismo é totalitário. Em: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=98 Acesso em 08/07/2013

VOEGELIN, Eric. Reflexões Autobiográficas. São Paulo: ed. É Realizações, 2008.

______________.  Hitler e os alemães. São Paulo: ed. É Realizações, 2008.

Declaração de Praga equipara nazismo e comunismo.

Site compila bibliografia sobre antissemitismo soviético.

Panfleto elaborado por Joseph Goebbels explica porque os nazistas são socialistas.

Filme "A Onda". Veja como a mensagem dos coletivismos, ainda que absurdas quando vistas de fora, podem ter um apelo emocional forte (especialmente sobre os "oprimidos"):

 
O documentário "The Soviet History" também mostra diversas das íntimas ligações entre comunismo e nazismo, bem como entre os líderes das duas ideologias revolucionárias e totalitárias:



** Num imediatismo de tentar associar o nazismo ao socialismo, alguns enfatizam o nome do partido: nacional SOCIALISTA. Sim, o partido nazista tinha socialista no nome. O que muitos não percebem é que, tão importante e esclarecedor quanto enfatizar o socialismo, é enfatizar o NACIONAL: o marxismo perverteu o aspecto nacional original do socialismo, tornando um projeto internacionalista, daí Hitler gabar-se de ter extirpado o marxismo da Alemanha.

Ademais, à época que o nacional-socialismo ganhou força, o marxismo (especialmente suas premissas econômicas) já estava em descrédito, a voraz (e definitiva, diria eu) crítica de Eugen von Bohm-Bawerk sobre a formação de preços, juros e salários no marxismo estava em circulação e levou o mesmo a diversas revisões. Portanto, ainda que a política econômica do nazismo esteja longe de capitalista liberal, também certamente não era "marxista", pois o termo estava em descrédito e revisão na época.

¹ Friedrich List também era um ferrenho advogado do protecionismo. Quanto a isso, cito Ludwig von Mises: "O que gera a guerra é a filosofia econômica do nacionalismo, embargos, controles comerciais e de câmbio, desvalorização monetária etc. A filosofia do protecionismo é uma filosofia de guerra.