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sábado, 4 de julho de 2020

Nicolás Goméz Dávila por ele mesmo

Por André,



Conteúdo exclusivo para quem for membro do meu canal no Telegram! Diariamente e por meio de áudios curtos, ler e explanar os aforismos de um dos maiores aforistas conservadores de todos os tempos, o colombiano Nicolás Gómez Dávila.

Não há obras suas em português, como vocês poderiam imaginar. Aproveitem e convidem os amigos!

LINK para o canal: https://t.me/aazzibarreto

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Brilhante entrevista de Dave Rubin com o historiador escocês Niall Ferguson

Por André,

Ferguson falou sobre a "Dark Web Intellectual", uma espécie de rede de conexões entre intelectuais não-esquerdistas, guerra cultural, Trump, sua mudança de opinião sobre o Brexit e o destino do Reino Unido de Theresa May.

Detalhe para o jeito caridoso e amoroso com que Niall se refere a sua mulher, Ayaan Hirsi Ali:

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Duas observações sobre "cultura"

Por André,

A primeira, por Carlos Kramer, em seu perfil no Facebook:


"Funk é cultura". Sim, funk é cultura no mesmo sentido em que jihadistas decapitando infiéis é cultura. No sentido amplo, cultura é qualquer merda resultante das relações humanas. Esquartejar criancinhas vivas e assar no forno pode perfeitamente ser uma cultura. Supremacismos raciais são culturas também. Um antropólogo pode - e em certo sentido até deve - se interessar por qualquer manifestação cultural, tanto quanto um historiador pode se voltar para qualquer época com olhar de historiador. Ambos, historiador e antropólogo, evitam o juízo de valor sobre seus temas de estudo por razões metodológicas (vide o excelente texto do Flavio Gordon publicado nos comentários). Mas isso não quer dizer que um juízo de valor não possa ou não deva ser feito.

É aí que mora a pegadinha. Normalmente, quem diz que funk é cultura está partindo do sentido lato que a antropologia cultural dá ao termo "cultura" para levar o interlocutor a acreditar que funk é cultura stricto sensu, no sentido daquilo que as sociedades cultivam com propósitos construtivos ou elevados. Mas, nesse sentido, o funk é justamente o oposto de uma cultura. O resultado do funk é pura e simples desestruturação social. Apologia do tráfico, apologia do estupro, objetificação das mulheres (e das meninas), incentivo ao ódio, isso é o que você vai ouvir se tiver 30 minutos de contato com o funk que se faz hoje. Infelizmente, eu sou obrigado a ouvir quando as casas de festa aqui do bairro colocam essas porcarias para tocar.

É um jogo de palavras para desarmar a resposta de algum desavisado. O sujeito diz "isso é cultura" na esperança de que você entenda cultura no sentido de civilização e traduza internamente para "isso é algo bom". Mas, se você responde que "isso é uma merda", a tréplica vem na forma de uma definição antropológica de cultura.


A segunda por Flavio Gordon, antropólogo, também em seu perfil no Facebook:

Qualquer antropólogo que reivindique a autoridade científica de sua disciplina para negar categoricamente a existência de diferenças de valor entre culturas (ou elementos de uma mesma cultura) está sendo desonesto. Desconsiderar diferenças de valor entre culturas é um imperativo METODOLÓGICO da antropologia. Logo, não se pode deduzir dele a conclusão ONTOLÓGICA sobre a existência ou inexistência daquelas diferenças.

O antropólogo, qua antropólogo, não pode estar interessado, no decorrer de suas investigações, em saber se um certo fenômeno cultural é melhor ou pior, mais bonito ou mais feio, mais justo ou injusto que outro. Ele adota de partida uma restrição metodológica, uma suspensão momentânea do juízo de valor. Logo, se ele não investiga diferenças de valor entre culturas - pois que essa investigação arriscaria a própria condição de possibilidade de sua ciência -, ele não pode afirmá-las ou negá-las. Fazê-lo seria tão ridículo quanto, em uma análise da situação do Brasil, abster-se de investigar os fatores econômicos para, em seguida, concluir que estes não exercem qualquer influência sobre aquela: “Olha, eu não vou tratar dos fatores econômicos. LOGO, eles não existem”.

E, no entanto, o que mais há por aí são antropólogos dizendo que a antropologia “provou” a inexistência de diferenças de valor entre culturas ou a impossibilidade de se estabelecer uma hierarquia valorativa entre o último funk da Anita e o Réquiem de Mozart. E pior: não satisfeitos em confundir uma questão de método com a realidade das coisas, há antropólogos que deduzem da precaução metodológica particular à sua disciplina a impossibilidade universal de se investigar diferenças de valor entre culturas, destarte interditando por decreto áreas inteiras de conhecimento, tais como a filosofia moral e a estética.

Deslumbrado com a sua própria província, o sujeito deixa de ser Homo sapiens e reduz-se à condição de Homo anthropologus, variedade particular daquilo que Ortega y Gasset chamou de “novo bárbaro” - o idiota moral e estético que só olha o mundo a partir de sua especialidade acadêmica e que, também a partir dela, emite os mais altissonantes decretos e mandamentos universais.

Quem é que nunca topou com um desses caipiras em algum programa televisivo?

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Onze resoluções para orientar a vida por Clyde S. Kilby

Do Medium do William Campos da Cruz,

O professor Kilby distribuía cópias mimeografadas deste “guia” aos seus alunos no início de cada semestre.
1. De vez em quando, olharei para trás, com o frescor da visão que tinha na infância, e tentarei ser ao menos por algum tempo, nas palavras de Lewis Carrol, “a criança da fronte pura e límpida e olhos sonhadores de pasmo”.
2. Pelo menos uma vez por dia contemplarei o céu com toda a calma e me lembrarei de que eu, uma consciência consciente, estou num planeta a viajar no espaço repleto de coisas extraordinariamente misteriosas acima de mim e ao meu redor.
3. Em vez da ideia comum de uma mudança evolutiva interminável e aleatória à qual nada podemos acrescentar nem da qual nada podemos subtrair, imaginarei o universo regido por uma Inteligência que, como disse Aristóteles acerca do teatro grego, requer início, meio e fim. Acho que isso me livrará do cinismo expresso por Bertrand Russel antes de sua morte, quando disse: “Há trevas exteriores e, quando eu morrer, haverá trevas interiores também. Não há esplendor, nem vastidão, só a trivialidade do momento e, depois, o nada”.
4. Não cairei na falsidade de que este dia, ou qualquer dia, são meramente outras 24 horas vagas e arrastadas; antes, acreditarei que são um acontecimento único e, assim espero, repleto de potencialidades preciosas. Não serei tolo o bastante para imaginar que os problemas e o sofrimento são parênteses maus em minha existência; compreenderei, isto sim, que são como escadas para subir rumo à maturidade moral e espiritual.
5. Não farei de minha vida uma linha reta estreita que prefere abstrações à realidade. Estarei consciente do que estou fazendo quando fizer uma abstração, o que, é claro, farei com frequência.
6. Não aviltarei minha própria singularidade por inveja dos outros. Deixarei de importunar-me na tentativa de descobrir a que categorias psicológicas ou sociais pertenço. Sobretudo, simplesmente deixarei de pensar em mim e farei meu trabalho.
7. Abrirei os olhos e os ouvidos. Todos os dias, contemplarei uma árvore, uma flor, uma nuvem, uma pessoa. Não me preocuparei de modo algum em perguntar o que são, mas simplesmente me alegrarei com o fato de que são. Hei de permitir-lhes, com grande júbilo, o mistério daquilo que Lewis chama de existência “divina, mágica, assustadora e arrebatadora”.
8. Seguirei o conselho de Charles Darwin e me voltarei amiúde a coisas imaginativas, como a boa literatura e a boa música, de preferência, como sugere C. S. Lewis, livros antigos e música atemporal.
9. Não permitirei que as investidas malignas deste século usurpem todas as minhas energias, mas, ao contrário, como sugere Charles Williams, “viverei cada momento como o momento”. Tentarei viver bem agora porque o único momento que existe é agora.
10. Por nada mais que uma mudança de visão, tomarei como pressuposto que meus ancestrais procedem dos céus, não das cavernas.
11. Ainda que venha a descobrir-me equivocado, apostarei minha vida na convicção de que este mundo não é idiota, nem regido por um senhor ausente, mas que hoje, hoje mesmo, alguma pincelada está sendo acrescentada à tela cósmica que, no devido tempo, compreenderei com alegria como uma pincelada feita por um pintor que chama a si mesmo de Alfa e Ômega.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Cultura clássica e masculinidade: por que todo homem deveria estudar cultura clássica

Por Tradutores de Direita,

Caso você seja um seguidor do Art of Manliness há algum tempo, provavelmente já notou a influência da cultura clássica da Grécia e de Roma no nosso conteúdo. Nós promovemos a ideia de “masculinidade como uma virtude” que era adotada por essas civilizações da Antiguidade. E há uma razão para isso: cursei faculdade de Letras – um curso conectado ao Departamento de Clássicos. Eu estudei latim e tive aulas de história da liberdade nas antigas Grécia e Roma. Li e discuti as tragédias gregas e até tomei um curso completo sobre Ovídio. Foi durante esse período que eu desenvolvi um amor profundo e duradouro pela cultura clássica; ainda que eu tenha me formado há quase dez anos, ainda leio e pondero os trabalhos de Homero, Platão e Cícero.
A compreensão da cultura, da filosofia e da literatura da Antiguidade melhorou imensamente minha vida, e é uma forma de educação sobre a qual penso que todos os homens deveriam possuir um bom entendimento. Mesmo se você não estudou os clássicos no ensino médio ou faculdade, existem razões pelas quais você deveria começar a fazê-lo agora. Abaixo, seguem oito motivos por que todos os homens deveriam mergulhar nos clássicos, bem como uma lista de sugestões de obras para você começar.

1. Melhora a sua cultura literária.

Você sabe o que significa quando alguém diz que está enfrentando uma escolha “entre Caríbdis e Cila”? Você entende a referência a alguém que tenha “cruzado o Rubicon”? Faz sentido para você ouvir que Alexander Hamilton é chamado o “Cícero americano”?
A cultura ocidental é repleta de referencias à história e literatura da Roma e Grécia antigas. Ao fazer alusão a um antigo mito ou história, um artista, autor ou estadista podem causar um efeito retórico poderoso. Mas para que esse efeito tenha impacto, a audiência deve possuir entendimento sobre os símbolos e ideias da Era Clássica.
Infelizmente, porque cada vez menos pessoas estudam os clássicos no ensino médio ou universidade, menos pessoas tem a habilidade para compreender o significado das alusões clássicas na literatura, em poemas ou mesmo em filmes. Sem o conhecimento cultural dos Gregos e Romanos, esses sujeitos estão perdendo um entendimento intelectual muito mais rico e profundo dessas obras. Até mesmo assistir a um filme como O’Brother Where Art Thou? (Brasil: “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”) é melhor quando você conhece bem a Odisseia, de Homero.
Se você gostaria de fazer da arte e até da política partes mais vitais e vibrantes da sua vida, comece a destrinchar os clássicos antigos. Você ficará maravilhado com os novos insights que descobrirá nos seus livros e filmes preferidos, bem como estará mais apto a desenvolver diálogos mais significativos com familiares, amigos e a comunidade.

2. Torna-o apto a participar dos “Grandes Diálogos.”

Quando o famoso currículo Great Books (Grandes Livros, em tradução livre) foi criado na década de 1930, na University of Chicago, seu propósito era familiarizar os estudantes com textos de fonte primária que tiveram um papel fundamental ao modelar a cultura e o pensamento Ocidental. O presidente da Universidade, Robert M. Hutchins desejava que os americanos fossem aptos a participar do que ele chamava “Grandes Diálogos”(Great Conversation). Para ele, esse diálogo universal era formado por discussões profundas formadas em torno da busca filosófica da Verdade, que começou com os antigos Gregos e continua até hoje.
Tópicos desses diálogos envolvem Grandes Ideias que filósofos, teólogos e artistas vem remoendo há milhares de anos. O que é Justiça? O que é amizade verdadeira? O que é amor? O que é honra? Como viver uma boa vida?
Como todas as discussões das quais você participa, para ter um papel ativo nesses Grandes Diálogos, você precisa ter uma ideia do que já foi dito: você não quer ser o sujeito que se intromete e profere ideias que não fazem sentido. Muitas pessoas hoje querem expressar suas opiniões sobre as Grandes Ideias da vida sem ter dedicado o [seu] tempo para estudar as correntes de discussão que as precederam. Pensam estarem contribuindo para a conversa, mas aparentam ser alguém que interrompe uma discussão sem se preocupar em se informar sobre o que já foi dito – seus pensamentos são fragmentados, inoportunos, desnecessariamente repetitivos e fora de contexto.
Para se informar sobre os Grandes Diálogos, você deve retornar aos clássicos antigos. Por exemplo, para entender filósofos dos séculos XVIII, XIX e XX, primeiro é necessário obter algum conhecimento sobre Platão e Aristóteles. Nenhuma filosofia existe no vácuo; ao contrário, os filósofos tem conversado entre si ao longo de milhares de anos, explicita ou implicitamente. E as origens desses diálogos remontam à antiga Atenas. Uma vez que você entende essas fundações, pode ver que sucessivos filósofos tem adicionado, transformado e refutado o que surgiu daquela cidade-estado. E então, enfim, pode começar a fazer suas próprias contribuições aos Grandes Diálogos.

3. Permite que você veja as interconexões entre ideias.

Nosso sistema de educação está cada vez mais especializado. Nós criamos barreiras artificiais entre os diferentes campos de estudo. Quando você estuda história, concentra todo seu foco em história. Quando estuda física, concentra-se em física. O historiador Richard Weaver se referiu a isso como a “fragmentação” do conhecimento.
Mas quando você lê os clássicos, essas divisões desaparecem. Para os antigos Gregos e Romanos, todo conhecimento era interconectado. Ao ler as Histórias, de Heródoto, você o verá conectar acontecimentos históricos a teoria política, antropologia e até geografia. Platão não apenas fala sobre Verdade, Justiça e Beleza, mas também sobre matemática e física. Os Estoicos Romanos não eram apenas interessados em aprender como viver em harmonia com a Natureza, mas também sobre como governar impérios e interagir com pessoas com as quais você não se dá bem.
Minha exposição aos clássicos gerou em mim um impulso para conectar até os tópicos e ideias mais díspares. Eu adoro o desafio de tentar sintetizar conceitos divergentes em um argumento ou posicionamento coerente e bem-pensado.
E essa é a maior questão: com o avanço da tecnologia e da economia e com uma parte cada vez maior do trabalho sendo relegada a computadores e algorítmos, saber como fazer conexões e sintetizar dados e ideias será uma habilidade muito demandada. Não será suficiente ser um bom programador de computadores; empresas podem contratar programadores mais baratos na Índia. E se você for, porém, um programador de computadores com um bom entendimento de psicologia comportamental, e que consiga embutir esse conhecimento no seu trabalho?
Esse conhecimento é muito mais raro, e consequentemente muito mais valorizado. Alguns especialistas argumentam que a razão pela qual a Apple teve tanto sucesso nas duas últimas décadas é que muitas das pessoas que lá trabalham – sobretudo os executivos – tem conhecimentos tanto sobre ciências humanas quanto sobre tecnologia.

4. Inspira virtude e moralidade.

Nós, os modernos, tipicamente tratamos arte e história sob uma perspectiva muito utilitária, quase que científica. Estamos mais interessados nas minúcias dos fatos históricos, enquanto a arte somente é útil enquanto nos entretém.
Mas para os antigos Gregos e Romanos, essas matérias tinham um propósito muito mais amplo e inspirador. História e arte eram não somente interessantes e informativas, mas também eram feitas para inspirar virtude e moralidade. Se você ler as Histórias, de Heródoto, A História da Guerra do Peloponeso, por Tucídides, ou Vidas Paralelas, do historiador grego convertido romano, Plutarco, e somente adquirir um entendimento dos acontecimentos de milhares de anos atrás, terá entendido mal o que esses autores estavam tentando nos passar. Para eles, a história era uma forma de ensinar ao homem como viver mais virtuosamente. Entremeada na sua narração da história estão comentários editoriais sobre a moralidade ou imoralidade das escolhas feitas pelos grandes homens no centro desses acontecimentos. Eles querem que você olhe para os homens e nações que demonstraram excelência e tente imitá-los, ao mesmo tempo evitando os erros dos homens e nações que fracassaram.
O mesmo é válido para a arte grega. As tragédias gregas não eram somente entretenimento. Eram criadas para a edificação da alma. Elas ensinaram os gregos a serem céticos em relação a arrogância e que até os maiores homens eram sujeitos a falhas morais. A audiência não somente assistia passivamente, mas experimentava uma catarse – a liberação stress e o rejuvenescimento do espírito moral. Era esperado que os que assistissem deixassem o teatro com uma renovada dedicação de agir com excelência como cidadão.
Ler os clássicos, para mim, é sempre verdadeiramente edificante. Sou inspirado pela devoção de Catão ao republicanismo em face à tirania, a Oresteia, de Ésquilo me lembra de como minhas ações influenciam as próximas gerações; a Alegoria da Caverna, de Platão, me motiva a constantemente espreitar além das “sombras” dessa vida; as impressões de Cícero sobre o sentimento de dever me inspiram a servir minha família, fé e país com honra.
Haverá, é claro, céticos que argumentarão que não há como aprender virtude e moralidade com Gregos e Romanos antigos porque esses mesmos povos detinham escravos, praticavam sexo com garotos, e não tinham escrúpulos de massacrar cidades inteiras – incluindo mulheres e crianças – durante guerras. Esses fatos são todos verdadeiros e, sim, são abomináveis e repulsivos.
No entanto, essa perspectiva é completamente estranha a essas culturas que alguns buscam criticar. Os antigos Romanos e Gregos detinham uma visão muito mais sutil e inteligente da história. Eles evitavam a infeliz forma de ver as coisas “preto-e-brancas” que temos nos nossos dias, em que só se pode aprender coisas de figuras históricas que foram quase perfeitas em caráter e desposaram pontos de vista que se alinham diretamente aos nossos – dessa forma eliminando a possibilidade de aprender com, bem, qualquer um. Ao entender a natureza dual de todos os humanos, Plutarco demonstra lições tanto positivas quanto negativas sobre um imperador romano retratado nas suas Vidas Paralelas. E não era incomum para os antigos olharem para os impérios e cidades-estados até mesmo dos seus inimigos declarados para inspirações sobre como viver uma vida agradável e virtuosa. Por exemplo, nas suas Histórias, Heródoto frequentemente apontou para lições que os Gregos poderiam aprender com os Persas.
Além disso, ao ler os clássicos, você verá que homens daquele período dificilmente deixavam passar sem questionar as práticas que agora achamos repulsivas. De fato, muitos regularmente lutavam com as questões morais do seu tempo. Aristóteles e os trágicos gregos não eram inteiramente confortáveis com o conceito de honra e as disputas sangrentas que gerava, e estadistas romanos como Cícero achavam melhor empregar em suas fazendas trabalhadores pagos do que escravos.
Finalmente, precisamos lembrar que essas foram justamente as mesmas pessoas que geraram as ideias que eventualmente levaram à erradicação dessas práticas moralmente falidas. Se não fosse pela democracia grega, não teríamos a democracia representativa liberal que levou ao fim da escravidão no Ocidente.
Tudo isso é para dizer que, enquanto esses homens certamente falham aos nossos conceitos modernos de moral e ética, ainda podemos aprender muito com eles pois lutaram com as mesmas questões subjacentes de virtude e moralidade com as quais nos deparamos hoje – e nos legaram as ferramentas que nos proporcionaram lidar com essas dificuldades de forma proativa.

5. Melhora nossa compreensão sobre o governo e os princípios fundadores.

Como o historiador Carl Richard mostrou no seu livro The Founders and the Classics (Os Fundadores e os Clássicos, em tradução livre), todos os Pais Fundadores Americanos eram fluentes em literatura e cultura antigas. Enquanto crianças, aprenderam grego e latim, e leram os grandes poemas épicos e tratados políticos na idade em que estariam no Ensino Médio. Mesmo quando homens de meia-idade ou velhos, retornaram novamente às obras da Grécia e Roma antigas. Thomas Jefferson escreveu a John Adams sobre seu amor pelos clássicos: “Eu sinto um interesse muito maior em saber o que aconteceu há dois ou três mil anos do que sobre o que ocorre agora.”
Muitos dos princípios fundadores do governo Americano foram copiados diretamente dos princípios criados na antiguidade. Durante os debates que envolveram a escrita e ratificação da Constituição Americana, os Fundadores usaram textos políticos Gregos e Romanos antigos como precedentes para a criação da nova nação. É devido aos clássicos que os EUA tem uma forma mista de governo – que consiste de poderes executivo, legislativo e judiciário. Os Fundadores também olharam para os Gregos e Romanos ao moldar as forças armadas do novo país (cidadãos-soldados eram preferidos a um exército profissional porque os últimos poderiam ser usados por um executivo forte para acabar com a liberdade) bem como a política externa (ceticismo em relação a alianças emaranhadas).
Os Fundadores não somente olharam para a cultura clássica como inspiração para a estrutura do governo americano, também usaram os clássicos para informá-los sobre o caráter necessário aos cidadãos para que esse grande experimento de democracia republicana tivesse sucesso. Por exemplo, enquanto abominavam a crueldade e completa submissão da individualidade dos antigos Espartanos, também admiravam o senso de “dever cívico” e sobriedade de fugir da decadência que a cidade-estado despertava nos seus cidadãos. Samuel Adams desejava que Boston fosse a “Esparta Cristã”, e John Taylor celebrava a coragem e o patriotismo dos 300 de Esparta, vendo-os como modelo para todos os cidadãos-soldados.
Dos Romanos antigos, os Fundadores desejavam que os Americanos tirassem lições da importância de moderação e retidão em uma república. James Wilson dizia que a República Romana foi um sucesso enquanto o povo se manteve estrita austeridade e senso de honra. Porém, assim que Roma se tornou um gigantesco império, abriu mão desses valores para perseguir luxúria e hedonismo, que levaram, ao fim, à sua queda. Wilson argumenta que o “destino de Roma, tanto no seu crescimento quanto na sua queda, será o destino de toda e qualquer outra nação que seguir ambas as partes do seu exemplo”.
Os clássicos nos dão exemplos amplos – tanto positivos quanto negativos – de como uma democracia deve funcionar. Também nos inspiram a alcançar um nível mais alto de cidadania, nos mostrando o potencial e as armadilhas da oratória e retórica políticas inflamadas, a necessidade de participação integral dos homens de bem, a necessidade de vigiar a praga da corrupção.

6. Disciplina a mente.

Ler os clássicos pode ser difícil. Os textos frequentemente requerem que você se esforce intelectualmente caso realmente queira entendê-los e compreendê-los. Porém, com o trabalho mental vem o reforço e a disciplina da mente que você pode aproveitar em outros aspectos da vida.
Uma razão pela qual eu leio os clássicos é porque eles servem como uma pedra de afiar a mente, a mantendo rápida e sagaz.

7. É divertido!

Algo que eu adoro sobre ler os clássicos é que eles nunca envelhecem. As histórias e personagens despertam uma cativação perene. Eu li A Odisseia pela enésima vez esse ano, e achei ainda mais divertido dessa vez do que quando a li pela primeira vez há muitos anos. Comecei a estudar os tratados de Cícero novamente e estou me divertindo muito com eles. Como ele era perspicaz!
Quanto mais você lê os clássicos, mais vocês os aproveitará. À medida que seu conhecimento sobre eles aumentar, você ficará mais apto a identificar e entender as alusões que os autores fazem uns aos outros. Além disso, o impacto da literatura clássica em você mudará em diferentes partes da sua vida. Enquanto era jovem e solteiro, repleto de energia e vigor, me identificava mais com Aquiles; porém agora como um pai, casado, me comparo mais com Heitor e Odisseu. Gostaria de saber como minhas leituras dos clássicos continuarão a mudar conforme envelheço.

8. Enche você de thumos.

Os antigos Gregos acreditavam que a alma, ou psique, era formada por três partes: Razão, Apetites e ThumosEssa palavra representa a energia, o espírito de luta, a busca da excelência e a vontade de realizar grandes feitos.
Não há nenhuma palavra nas nossas línguas modernas que correspondam a esse conceito Grego. E por uma boa razão: os antigos viam a vida de forma muito mais épica e heroica do que nós. Porém, estudar os clássicos pode ajudar a renovar nosso senso de thumos e a vitalidade com que vivemos.
Esse certamente foi o caso de Henry David Thoreau. Ele foi um ávido leitor dos clássicos durante sua vida, tendo estudado a história, literatura e filosofia de pessoas como César, Cícero, Horácio, Xenofonte, Demóstenes, Sófocles, Homero, Sêneca, Virgílio, Platão e muitos outros. O seu biógrafo, Robert D. Richardson Jr., explica que, como Thoreau acreditava que as mesmas forças da vida e da natureza que existiram há milhares de anos ainda existiam na sua época, ele considerava os clássicos como “a expressão vital do mundo real em linguagem viva. O mundo da Ilíada era tanto seu quanto era de Homero”. Consequentemente, ler os clássicos lembrou a Thoreau que ele poderia viver tão heroicamente na sua época quanto em qualquer outra:
Ele já sentia ser a verdade o que mais tarde escreveria em Walden. ‘Os livros heroicos, mesmo que impressos como caráter da nossa língua materna, ainda estarão escritos em uma linguagem morta para tempos degenerados.’ Os clássicos eram livros heroicos, sempre vivos para leitores que estavam vivos…
O senso que Thoreau tinha sobre a natureza das conquistas clássicas tinha…duas ênfases principais. A primeira era a afirmação da importância e permanência da natureza. Em novembro, lendo Virgílio…Thoreau ficou impressionado com passagens sobre brotos crescendo nas videiras e frutas espalhadas no chão sob as árvores. O ponto, ele falou para si mesmo, era que ‘era o mesmo mundo’. A sua segunda observação se seguiu naturalmente. Se Virgílio era do mesmo mundo que ele, então ‘os mesmos homens o habitavam.’ Nem a natureza nem a natureza humana haviam mudado, na essência, desde o tempo de Virgílio. Zenão e os Estoicos tiveram precisamente a mesma relação com o mundo que eu tenho, agora.’ E lendo Homero levou à mesma conclusão novamente. No início de Março, Thoreau escreveu no seu diário, ‘Três mil anos e o mundo mudou tão pouco! — A Ilíada parece um som natural que reverbera até nossos dias.’
Por ver a vida como ele a via, os clássicos não eram um peso…mas a promessa de algo que talvez ele pudesse alcançar…Ao relatar sua crença na permanência da natureza humana e na equivalência entre as eras — de que todas épocas eram épocas heroicas para o indivíduo heroico — nós chegamos ao que talvez seja o grupo de convicções mais importantes para o jovem Thoreau…Devido ao fato de sermos os mesmos homens e mulheres que os Gregos e Romanos que tanto admiramos, nós podemos conquistar tanto quanto eles se nós assim desejarmos…’Esse clamor por uma época de ouro,’ disse Thoreau, ‘é simplesmente o clamor por homens de ouro.’”
Eu penso, assim como Thoreau, que ler os clássicos me enche com energia e vigor, e desejo de viver mais heroicamente da minha própria maneira. Quando leio sobre as batalhas épicas da Ilíada ou pondero sobre a defesa contundente de Catão ao republicanismo, meu “sangue corre quente com thumos” como os Gregos diriam, e eu fico motivado a realizar grandes feitos.

Como Começar a Estudar os Clássicos

Não se precisa muito para começar a estudar os clássicos. Apenas comece a lê-los! Eu recomendo começar com os Gregos e então mudar para os Romanos, pois eles avançaram sobre a herança cultural que receberam dos seus precursores Helênicos.
Você pode encontrar a maioria dos textos disponíveis online. Aqui está uma lista de sugestões para começar. Não é uma lista completa, mas é um bom começo.

Antigos Gregos
  • A Ilíada e A Odisséia, de Homero
  • Tragédias de Ésquilo
  • Tragédias de Sófocles
  • Tragédias de Eurípedes
  • As Histórias, de Heródoto
  • História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides
  • Diálogos, de Platão
  • Obras, de Aristóteles
  • Carta a Heródoto Carta a Meneceu, de Epicuro
Antigos Romanos
  • Tratados de Cícero
  • A Natureza das Coisas, de Lucrécio
  • Eneida, de Virgílio
  • Obras de Horácio
  • A História de Roma, de (Tito) Lívio
  • Metamorfoses, de Ovídio
  • Vidas Paralelas e Moralia, de Plutarco
  • Germania Diálogo Sobre os Oradores, de Tácito
  • Eschirídion Discursos, de Epiteto
  • Meditações, por Marco Aurelio
  • Epístolas, de Sêneca
Se você estiver buscando uma visão mais ampla da cultura clássica, eu recomendo altamente duas séries de aulas de um dos meus professores universitários favoritos, Dr. J. Rufus Fears: Famous Greeks and Famous RomansEle transformou a cultura clássica em algo vivo para mim e Kate quando estudávamos na University of Oklahoma. Ele era um homem pequeno, baixo e velho, com uma barriga saliente, mas era um grande contador de histórias, que chegava a contagiar. Quando estava recontando as sangrentas cenas de batalhas na Ilíada, ele fingia que sua vara (para apontar) era uma espada e caminhava dentro da sala de aula cortando as gargantas de estudantes enquanto descrevia o sangue vívido que corria de seus pescoços. Era maravilhoso.
Dr. Fears genialmente fez paralelos entre o que aconteceu na Grécia e Roma antigos e os acontecimentos da história recente, e que continuam a se desdobrar hoje. Assim como Heródoto e Plutarco, Dr. Fears acreditava que o propósito da história era ensinar moralidade e virtude.
Infelizmente, Dr. Fears faleceu há alguns anos, mas você pode comprar suas aulas sobre a história de Grécia e Roma da The Great Courses Company. Compre. Você não se arrependerá.
Seja através de aulas, livros ou ambos, comece a mergulhar no mundo de Homero e Platão, Cícero e Marco Aurélio — Isso o tornará uma pessoa melhor e um cidadão mais engajado.
[*] Brett and Kate McKay. “Why Every Man Should Study Classical Culture”. Art of Manliness, 23 de Novembro de 2015.
Tradução: Humberto Motta
Revisão: Rodrigo Carmo