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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Dennis Prager e a era do sentimentalismo, por Alexandre Borges


"Há quarenta anos eu pergunto a estudantes: se você estivesse vendo seu cachorro e um estranho se afogando numa praia, quem você salvaria primeiro? Um terço salvaria o próprio cão, um terço o estranho e o resto não consegue decidir.

Um neurologista de Stanford fez um experimento com 500 pessoas, perguntando a cada uma se um ônibus fora de controle estivesse quase atropelando seu cachorro ou um estranho, qual dos dois você salvaria? A grande maioria responde: “depende da pessoa”. Se fosse um amigo ou parente seria ele, mas um completo estranho seria atropelado enquanto o cão seria salvo para 40% dos participantes.

Outro eminente sociólogo fez um estudo, publicado no NYT, para avaliar o entendimento da moralidade e da ética pelos jovens americanos de 18 a 23 anos. O autor do estudo ficou desapontado com os resultados. Dois terços dos jovens se mostraram totalmente incapazes de sequer entender como aplicar moral e ética numa determinada questão ou problema, mesmo dirigir bêbado, trair outra pessoa ou fraudar um exame na universidade. Quase todos diziam, basicamente, que moral é apenas uma questão de opção individual e “o que é certo para você pode não ser certo para mim e vice-versa” e que “moral é o que seu coração diz que é certo".
Precisamos voltar a ensinar algo que foi tirado das escolas desde os anos 60, que é entender o valor da vida humana e do papel da moral e da razão nas nossas escolhas.

Há um conflito claro entre valores morais, a razão e o sentimentalismo em várias situações na vida. Eu amo meus cachorros, mas há um imperativo moral superior que manda salvar o estranho antes.

Em 2011, uma família estava numa praia da Califórnia quando seu cachorro foi levado pela correnteza. O rapaz de 16 anos, a despeito das ondas de mais de três metros, se jogou no mar para tentar salvar o animal e sumiu. Seus pais ficaram desesperados e foram ao mar tentar resgatar o filho e também morreram afogados. Dessa família agora só sobrou uma menina. O cachorro voltou nadando para a praia.

O que levou o rapaz a se afogar? Ele agiu baseado em sentimentos, não na razão. Hoje infelizmente estamos falhando em ensinar aos nossos filhos o papel dos sentimentos na determinação das nossas escolhas e ações na vida.

Há alguns anos, entrevistei uma estudante sueca no meu programa de rádio e perguntei se ela tinha uma religião, ela disse que não, então quis saber como ela decidia o que era certo ou errado e ela respondeu: "ouço meu coração”.

Sou judeu e desprezo nazistas, mas os nazistas também desprezam judeus. Se você tem uma sociedade baseada em sentimentos, e todos os sentimentos são válidos, como posso afirmar que meus sentimentos de repulsa são superiores aos do nazista em relação a mim?

Uma vez, quando tinha 7 anos, estava numa aula de judaísmo na escola e o rabino chamou a classe para fazer as orações. Eu levantei, fui até o rabino e disse que não estava no clima de rezar. O rabino me olhou, coçou a barba, depois virou para a turma e disse: “Dennis não está no clima de rezar. E daí?” Foi uma das grandes lições morais que eu recebi na vida, ali entendi que minhas emoções não valem mais do que fazer o que é moral e certo.

Se alguém naquela família da Califórnia tivesse explicado ao rapaz que, mesmo amando seu cão, ele não deveria colocar a vida em risco para salvá-lo, a família inteira estaria viva hoje. Por mais triste que seja perder o cão e depois ter que comprar outro, a menina que ficou com o cão não terá como repor o pai, a mãe e o irmão.

Estamos vivendo a Era do Sentimentalismo.

Pessoas e nações estão sendo guiadas apenas pelo sentimentalismo e não pela moral ou pela razão. O coração está vencendo o cérebro.

Houve um tempo em que os pais ensinavam aos filhos objetivamente o que é certo e o que é errado. Agora as crianças são educadas apenas para obedecer seus sentimentos e decidir baseadas no que sentem em cada situação. E quando o assunto é sentimento, não há resposta certa ou errada, vale tudo.

Houve um tempo em que nossos filhos eram ensinados a tomar decisões morais, hoje basta fazer o que está no clima, o que tem vontade, é "ouvir o coração". Mandar alguém pensar moralmente antes de qualquer decisão é uma posição antiquada na Era do Sentimentalismo.

Sentir é humano, mas o sentimento não é sempre o melhor guia para a tomada de decisão. Se não há uma moral superior, como diferenciar o certo do errado e como optar pelo certo? Sem um código moral, não há porque para fazer o bem, você vai acabar fazendo apenas o que está no clima de fazer."

Dennis Prager

PS - Esse texto é um resumo livre de alguns artigos e palestras do Dennis sobre o tema.

terça-feira, 19 de maio de 2015

João Pereira Coutinho: podemos equiparar o terror islâmico às ações americanas no Iraque e Síria?

Por Folha de São Paulo,

Noam Chomsky passou por Portugal e, nas entrevistas de praxe, defendeu as ideias de praxe: o Ocidente pode horrorizar-se com o terrorismo islamita. Mas não será o Ocidente, e em particular os Estados Unidos, o maior terrorista que existe? Por que motivo não condenamos os crimes do império americano com o mesmo vigor com que descemos o pau sobre os fanáticos jihadistas?

A melhor forma de responder a essas perguntas passa por ler uma espantosa troca de argumentos entre Noam Chomsky e o neurocientista Sam Harris, agora tornada pública.

Esse duelo está disponível no site de Harris (www.samharris.org) e, com a imparcialidade possível (mentira: não há imparcialidade nenhuma), estou com Harris: o problema de Chomsky, nas suas comparações entre o terrorismo islamita e atos de violência bélica cometidos por Washington, está na incapacidade para distinguir diferentes tipos de violência e até comportamentos humanos que justificam essa violência.

Senão, vejamos: para Chomsky, as sanções econômicas que os Estados Unidos fizeram recair sobre o Iraque de Saddam Hussein foram responsáveis pela morte de meio milhão de crianças; e, como exemplo suplementar, o bombardeamento sobre uma fábrica de produtos farmacêuticos no Sudão levou à morte de milhares de pessoas, que morreram de doenças facilmente tratáveis com os medicamentos certos (tuberculose, malária etc.).

Sam Harris aceita uma das premissas de Chomsky: a guerra é um negócio brutal. E não há nenhum motivo para ficarmos nas sanções ao Iraque ou nos bombardeamentos ao Sudão. Olhamos para a história dos Estados Unidos e que vemos nós?

Matança de índios. Escravidão. Bombardeamentos criminosos no Camboja e, acrescento eu, na Guerra do Vietnã. Por outras palavras: só um fanático acredita que existe um governo, qualquer que ele seja, que detém a verdade, só a verdade, nada mais que a verdade.

O problema, porém, é que a moralidade dos atos de um governo depende da intenção com que esse governo os comete. Para Sam Harris, quando Bill Clinton ordenou o bombardeamento da fábrica sudanesa de Al-Shifa, o objetivo de Washington não era matar milhares de seres humanos com malária ou tuberculose.

O objetivo, compreensível e até louvável, era neutralizar uma fábrica que Clinton acreditava (erradamente) que servia para a produção de armamento químico para a Al Qaeda.

E existe uma diferença moral significativa entre atacar para eliminar um mal objetivo, mesmo que esse ataque seja um erro "a posteriori", e atacar em massa para infligir o maior dano possível a pessoas inocentes "a priori". Quem não entende essa diferença tem a bússola moral avariada.

Mas existe ainda uma segunda diferença entre a violência antiterrorista do Ocidente e os atos de terrorismo cometidos contra o Ocidente. E essa diferença está na reação dos seus autores.

Quando se ataca um complexo químico que é apenas uma fábrica de medicamentos, não há festejos nem proclamações de vitória. Há, isso sim, sentimentos de vergonha e, em certos casos, investigação criminal (como sucedeu, por exemplo, com os abusos americanos na prisão de Abu Ghraib).

O mesmo não sucede quando o único objetivo é derrubar Torres Gêmeas que não se confundem com nenhum complexo químico, biológico ou militar. No primeiro caso, mata-se por engano. No segundo, mata-se por instinto desumano.

Noam Chomsky responde a Sam Harris. E depois de afirmar (sem provas) que Clinton sabia que Al-Shifa era simplesmente uma fábrica de medicamentos, Chomsky tenta mostrar que a "política das boas intenções" é sempre ambígua em qualquer discussão ética. E dá um exemplo: aos seus olhos, Hitler tinha boas intenções quando liderou a máquina nazista no Holocausto.

O argumento é débil e obviamente desonesto: não é possível comparar um ditador que tem como objetivo exterminar um povo inocente; e um político ocidental que procura neutralizar organizações terroristas que matam inocentes.

Não existem sociedades perfeitas. Não existem governos perfeitos. Mas se o leitor joga na mesma sacola Clinton e Bin Laden, Bush e Hitler, não há espaço para nenhuma conversa racional. Essa, aliás, foi a conclusão de Harris depois de tentar falar com Chomsky: o silêncio final entre ambos é o silêncio de um abismo.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Pondé: "A moral dos coitadinhos"

Por Folha de São Paulo,

A democracia contemporânea tem como um dos seus eixos a crença num contrato social baseado numa contabilidade de direitos. Todos querem direitos. Existe uma fé muito clara de que o direito a qualquer coisa que seja "é por si só um direito".

Filósofos britânicos dos séculos 18 e 19, entre eles Edmund Burke e Jeremy Bentham, integrantes do que a historiadora americana Gertrude Himmelfarb chama de iluminismo britânico, suspeitavam que uma democracia de direitos poderia levar à dissolução da relação entre direitos e deveres. E, por aí, a uma dissolução da noção de responsabilidade moral. Em termos contemporâneos, uma democracia de coitadinhos que pedem direito a tudo.

Os britânicos colocavam essa separação entre direitos e deveres na conta do delírio jacobino. A ideia dos britânicos era que se você trabalha muito (dever), você tem direito ao descanso. Se você é corajoso (dever), você tem direito à reverência daqueles que gozam da vida graças à sua coragem. Se você cuida bem de sua família (dever), você tem direito ao reconhecimento por parte daqueles cuidados por você.

Esses britânicos, que segundo Himmelfarb faziam uma sociologia das virtudes, entendiam que direitos e deveres são objetos da moral e jamais da política. Os jacobinos achavam que a política é que devia gerir os direitos. Para os britânicos, ao tornar isso objeto da política, os franceses eliminavam o fator esforço (dever) do ganho (direito).

Os franceses teriam inventado a ideia de que existem direitos "inalienáveis" do homem, pelo simples fato de que são homens. Acho a ideia fofa, mas continuo pensando como os britânicos: se dissociarmos direitos de deveres, viramos bebês chorões que só sabem exigir direitos.

Dito isso, vamos ao caso dos coitadinhos de hoje, no espírito de uma antropologia do ressentimento, a melhor ciência para compreendermos o espírito contemporâneo.

Vejamos o caso dos homens (gênero, não espécie) que estão começando a reclamar dos deveres masculinos. Na base dessa queixa está o bom e velho ressentimento.

Uma das demandas desses homens é o direito ao "aborto social". O termo é derivado de coisas como "nome social" para se referir a nomes transgêneros (ou seja, aceitos pela sociedade, mas sem referência ao sexo biológico, como uma menina que quer ser homem e passa a se chamar Roberto em vez de Alice, seu nome de nascimento).

"Aborto social" refere-se ao direito dos homens recusarem legalmente a paternidade de uma criança. Se o direito pega, o chamado "golpe da barriga" acaba. Nem a mãe nem a criança podem pedir grana (que é o que se pede, normalmente, em casos como esse, apesar de dinheiro não ser a coisa mais importante do mundo...).

A verdade é que, hoje, muitos homens mais jovens se sentem coitadinhos diante de mulheres superpoderosas. E já que as mulheres podem abortar os filhos, biologicamente (poder único da mulher), os homens reclamantes exigem o direito de abortar "socialmente" o feto. Sinto cheiro de ressentimento e vingança nessa, você não?

Mas existem fenômenos mais "sofisticados". Logo uma namorada vai ouvir do parceiro: "Você deve buscar funções que remunerem bem porque eu não estou disposto a arcar com o peso da obrigação de ser o provedor".
E aí, meninas superpoderosas, o que fazer com esses coitadinhos que não aguentam o peso e a solidão das obrigações? Nada a fazer, pois cobrar do homem o papel de provedor é "opressão", não?

Nada de ser professora de criança, nem de fazer artes plásticas, nem de trabalhar meio período, nem de trabalho "como escolha". Apenas a dura obrigação de prover. O trabalho deixa de ser uma opção existencial e se torna maldição cotidiana.

Claro que muitas meninas já vivem isso. Resta saber se estão confortáveis nesse lugar. Sendo a mentira a base de grande parte do pensamento público hoje, pouca gente tem a coragem de reconhecer a fria em que se meteu.

Ninguém quer deveres, só direitos. Mas são os deveres que sustentam a formação de vínculos; os direitos apenas geram demandas, por isso servem para políticos e embusteiros.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A real divergência com a esquerda não é de diagnóstico ou de causa, mas de motivo.

Por André,

Em tempos de revolta de Jandiras Feghalis e da trupe psolista com a opressão de palestinos, uma pergunta surge à mente sã: se a esquerda realmente está preocupada com a opressão estatal de minorias, por que ela não dirige ao menos parte da sua revolta (além, é claro, de rever suas crenças políticas) para a opressão perpetrada contra minorias em estados teocráticos islâmicos? É bem sabida a vista grossa, quando não a cumplicidade, da esquerda com os regimes islâmicos. O próprio Michel Foucault nada viu demais na revolução iraniana de Khomeini.

Se a preocupação com a opressão fosse sincera e honesta, não deveríamos observar preocupação da militância iluminada com a crescente do islamismo pelo mundo? Será que quando a esquerda se posta como defensora dos negros vítimas de racismo, das mulheres vítimas de violência ou de homossexuais vítimas de preconceito, eles realmente estão preocupados com esses indivíduos ou há um quadro mais amplo no qual a coisa se encaixa e explica a dispensa de preocupação com mulheres e gays que habitam países islâmicos?

Pego esse gancho para estabelecer uma linha demarcatória entre gente de esquerda e pessoas de bom senso, quer sejam de direita quer não.

Pessoas de ponta a ponta do espectro político podem compartilhar diagnósticos e até causas, mas jamais motivos, meios e métodos para solucionar os problemas pelos quais se compadecem.

Muita gente de bom senso admitirá que existem sim casos de violência contra mulheres por serem mulheres e casos de racismo dignos de previsão legal. Mas certamente NÃO compartilharão dos métodos, motivos e meios para solucionar esses problemas com a esquerda, que tem posições bem particulares quanto a esses quesitos, tanto que praticam racismo (Joaquim Barbosa, para citar um exemplo próximo e recente) ou homofobia (Clodovil Hernandes), caso o freguês da causa não lhes sirva.

Por isso exorto que ninguém adira a movimentos de esquerda, mesmo que compartilhe preocupações justas e morais com minorias. A aderência da esquerda a essas causas nem de longe passa próximo da sua preocupação justa e moral com qualquer minoria, se assim fosse não dirigiriam suas atenções a minorias tão restritas e seletas.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Pondé: "Covardia chique"

Por Folha,

Sabemos todos das críticas comuns ao capitalismo. Injustiça social, viramos mercadoria. Sonhamos com um mundo no qual todos terão praia sem trânsito, com areia e água igual para todos. Mulheres e homens se amariam sem ciúmes e também amariam outros animais e plantas de forma igualitária e com respeito. Um mundo no qual todos viveriam numa mistura de Islândia e França, com clima italiano. 

Vulcões não engoliriam civilizações, tsunamis não invadiriam a terra, jacarés respeitariam os direitos humanos. Mulheres não desejariam mais de um vestido, homens não teriam medo da impotência. Todos integrados num sistema autorregulativo de paz e amor. Críticas de uma mente infantil. 

A melhor crítica à sociedade de mercado foi feita por seu maior defensor, Adam Smith (século 18). Tradutor de Rousseau, Smith discutiu com ele a corrupção do caráter causada pelo sociedade comercial. 

Rousseau entendia que a corrupção era política e seria resolvida com remédios políticos: revolução, destruição da cultura e técnica, frutos do mundo baseado em trocas comerciais, uma nova pedagogia que deixasse a harmonia e beleza da natureza humana inata se manifestar de novo na sua integração com a harmonia e beleza da natureza a nossa volta. E, assim sendo, de novo, voltaríamos ao mundo no qual o homem acordaria, caçaria de manhã, almoçaria ao meio-dia, escreveria um livro à noite, sem um tsunami ou inveja sequer. 

Para Smith, a corrupção é moral, e não política. Interessante ver como aquele para quem a sociedade comercial era um trunfo humano a ser preservado, será o mesmo homem para quem o risco dessa mesma sociedade será muito mais difícil de curar do que para nosso filósofo da vaidade, Rousseau. 

Smith temia que a sociedade de mercado causasse um enfraquecimento das virtudes heroicas. A perda dessas virtudes (coragem, disciplina e força), causada por uma vida baseada na produção de riquezas materiais e consequente riqueza de bens imateriais (hoje materializados em leis luxuosas sobre direitos, desejos e liberdades numa sociedade baseada em escolhas individuais contra sociedades que esmagam esta escolha sob a bota de modelos coletivistas tradicionais, religiosos ou marxistas), apareceria na covardia generalizada e no vício do bem-estar, material e imaterial. 

Se a URSS tivesse ganho a Guerra Fria, seriamos todos pobres e ninguém teria esses luxos materiais e imateriais. O capitalismo deixou todo mundo frouxo. 

Logo, o enriquecimento produz homens e mulheres covardes em larga escala porque produz demandas de luxo generalizado. 

Para Smith, o homem moderno poderia vir a ser um covarde viciado em seus pequenos luxos. No entendimento do nosso iluminista escocês (o iluminismo britânico é infinitamente mais sofisticado do que o francês, o único ensinado no Brasil tacanho de nosso dia a dia), somos capazes de benevolência e empatia (ou simpatia), e buscamos uma certa imparcialidade em nossos julgamentos morais por percebermos como ela é importante para o convívio racional. 

Entretanto, a virtude heroica da sociedade de mercado, pensava ele, era a autonomia, não a pura kantiana, mas a capacidade de assumirmos nossas decisões morais na vida alimentada por nosso desejo de sermos donos de nossa vida material, na medida do possível. 

Ele bem sabia o quão duro é ser assim. Sempre foi. Mas a corrupção do caráter, baseada nos ganhos materiais e imateriais do bem-estar, nos tornaria uns frouxos. E isso aconteceu. E esta frouxidão se materializa numa demanda interminável de facilitação da própria vida. 

Logo, vamos exigir a abolição do trabalho como direito. Ganhar a vida com o suor do rosto sem garantia de retribuição será considerado contra os direitos humanos. 

O novo crescimento do socialismo rosa-choque, inclusive em lideres como Obama, é fruto dessa corrupção. Smith previu as bases para o surgimento do pensamento de Marx e Gramsci: a corrosão do caráter causada pelo enriquecimento das sociedades e suas demandas de supressão das condições reais da vida como dor, luta e trabalho sem garantias.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Pondé: 'Da falsidade' ou, Pondé lê André


Impossível não notar a condensação feita por Pondé de comentários meus espalhados pelas redes sociais nos últimos dias.

Dias sombrios. Nesses momentos, volto às minhas origens filosóficas, o jansenismo francês do século 17 e seu produto essencial, "les moralistes" (que em filosofia nada tem a ver com "moralista" no senso comum). Os moralistas franceses eram grandes especialistas do comportamento, da alma e da natureza humana. Nietzsche, Camus, Bernanos e Cioran eram leitores desses gênios da psicologia. Pascal, La Rochefoucauld e La Bruyère foram os maiores moralistas. 

O Brasil, que sempre foi violento, agora tem uma nova forma de violência, aquela "do bem". E, aparentemente, quase todo mundo supostamente "inteligente" assume que é chegada a hora de quebrar tudo. Nada de novo no fronte: os seres humanos sempre gostaram da violência e alguns inventam justificativas bonitas pra serem violentos. 

Impressiona-me a face de muitos desses ativistas que encheram a mídia nas ultimas semanas. Olhar duro, sem piedade, movido pela certeza moral de que são representantes "do bem". Por viver a milhares de anos-luz de qualquer possibilidade de me achar alguém "do bem", desconfio profundamente de qualquer pessoa que se acha "do bem". Quando o país é tomado por arautos do "bem social", suspeito de que chegue a hora em que a única saída seja fugir. 

A fuga do mundo ("fuga mundi") sempre foi um tema filosófico, inclusive entre os jansenistas, conhecidos como "les solitaires" por buscarem viver longe do mundo. Eles tinham uma visão da natureza humana pautada pela suspeita da falsidade das virtudes. O nome "jansenista" vem do fato de eles se identificarem com a versão "dura" (sem a graça de Deus, o homem não sai do pecado) da teoria da graça agostiniana feita pelo teólogo Cornelius Jansenius, que viveu no século 16. 

Pascal, La Fontaine e Racine eram jansenistas. Aliás, grande parte da elite econômica e intelectual francesa da época foi jansenista. Por isso, apesar de Luís 13 e 14 (e de seus cardeais Richelieu e Mazarin) e da Igreja os perseguirem, nunca conseguiram de fato aniquilá-los. 

Hoje, por termos em grande medida escapado das armadilhas morais do cristianismo (não que eu julgue o cristianismo um poço de armadilhas, muito pelo contrário), tais como repressão do outro, puritanismo, intolerância, assumimos que escapamos da natureza humana e de sua vocação irresistível à repressão do outro, ao puritanismo e à intolerância. 

Elas apenas trocaram de lugar. A face do ativista trai sua origem no inquisidor. 

Uma das maiores obras do jansenismo é "La Fausseté des Vertus Humaines" (a falsidade das virtudes humanas), de Jacques Esprit, do século 17. Ele foi amigo pessoal do Conde de La Rochefoucauld. Alguns especialistas consideram o conde um discípulo de Esprit. A edição da Aubier, de 1996, traz um excelente prefácio do "jansenista contemporâneo" Pascal Quignard. 

O pressuposto de Esprit é que toda demonstração de virtude carrega consigo uma mentira e que as pessoas que se julgam virtuosas são na realidade falsas, justamente pela certeza de que são virtuosas.
A certeza acerca da sua retidão moral é sempre uma mistificação de si mesmo. Os jansenistas sempre disseram que os que se julgam virtuosos são na verdade vaidosos. Suspeito que o que vi nos olhos desses ativistas nessas últimas semanas era a boa e velha vaidade. 

Mas hoje, como saiu de moda usar os pecados como ferramentas de análise do ser humano e passamos a acreditar em mitos como dialética, povo e outros quebrantos, a vaidade deixou de ser critério para analisarmos os olhos dos vaidosos. Melhor para eles, porque assim podem ser vaidosos sem que ninguém os perceba. Vivemos na época mais vaidosa da história. 

"A verdade não é primeira: ela é uma desilusão; ela é sempre uma desmistificação que supõe a mistificação que a funda e que ela (a desmistificação) desnuda", afirma Pascal Quignard no prefácio do livro de Esprit. Eis a ideia de moral no jansenismo: a verdade moral é sempre negativa, sempre ilumina a sombra que se esconde por trás daquele que se julga justo. 

Que Deus tenha piedade de nós num mundo tomado por pessoas que se julgam retas.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

terça-feira, 16 de julho de 2013

Clark Kent leitor de Platão: resenha de 'O Homem de Aço'

Por André,

Jovem Clark lê Platão. Em busca da Justiça?

Uma nova versão do herói favorito de muita gente - O Super-homem - teve seu lançamento oficial na última sexta-feira (dia 12) com o título de "O Homem de Aço".

Pode parecer óbvio para os mais atentos, mas não a todos, que a questão essencial da história do Superman é moral. As implicações de ser invencível ou ter super-poderes já foram objeto de análise dos filósofos; o "anel de Giges" (que tornava seu usuário invisível) descrito na República de Platão é um exemplo disso. Superman é a representação maior de um ícone moral. Pois bem, esta versão do Homem de Aço nunca esteve tão filosófica. Como diz Jonathan Kent, Clark é a resposta para as perguntas "o que é ser humano?" e "estamos sozinhos no universo?".

Sem dar muitos spoilers, quero registrar minhas impressões acerca do filme aqui:

O filme é EXCELENTE em diversos sentidos, se você quer ter emoção total e ainda não viu o filme, assista e volte para ler minha resenha depois, pois garanto que vale a pena. A produção de Christopher Nolan (nosso reaça de Hollywood) já inspirava confiança nos fãs antes do lançamento e as expectativas foram confirmadas, o filme é um sucesso (embora, é claro, você certamente encontrará críticas contundentes por aí, como tudo que mexa com os brios de um número grande de fãs).

O início da película dá um relato completo da destruição iminente de Krypton e do envio de Kal-el para a Terra, bem como do conflito entre Jor-el e Zod (duas linhas comparativas podem ser estabelecidas - dissociadas uma da outra: uma entre o filme e a mística cristã, a que me referirei depois e outra com Superman II, dirigido por Richard Lester, meu favorito do quarteto de Christopher Reeve). O relato (destruição de Krypton e envio de Kal-el para a Terra) tem seus 20 minutos, com mais 20 ou 30 de "encontro da identidade".

Há diferenças no filme que a primeira vista me assustaram, mas que avaliei positivamente após reflexão: o relato da adolescência e vida de Clark Kent é apresentado de forma intercalada, flashes entre a adolescência e a busca por sua identidade quando adulto; apenas após isso, um retorno para casa e um sombrio recado entregue para toda a Terra dado por Zod vem à tona o conflito com o general supremo de Krypton. As imagens do filme são futurísticas e relativamente sombrias (coisas que entendo como qualidades, embora Krypton pudesse ser menos cinza).

O motivo da desavença entre Zod e Jor-el? O general deseja promover uma "limpeza étnica" em Krypton, almejando purgar o planeta das raças que o levaram à destruição. Ambos podem, inclusive, ser considerados como exemplos de "reis filósofos", ambos homens racionais com visão ampla e ideal de defesa da pátria, um pela via da guerra (Zod) e outro pela via da ciência (Jor-el).

Toda criança de Krypton era concebida de acordo com o papel que iria cumprir na sociedade: trabalhador, guerreiro ou líder (distopia eugênica de inspiração darwinista social).

Super-homem nunca esteve tão politicamente incorreto: 

- Diversas referências ao Evangelho (o filho do homem que vem à Terra para guiar e salvar os humanos, "você será como um deus para eles", o general Zod o enfrenta aos 33 anos, o propósito de Kal-el é nos guiar e oferecer esperança). Embora as ligações já pudessem ser feitas desde o princípio (confesso que cheguei a essa conclusão pela primeira vez n'O Retorno, quando Superman observava a Terra).

- Superman luta por um senso moral objetivo: a moral do General Zod tem de ser derrotada e eliminada.

A fala de Faora-Ul - braço direito de Zod - num momento de conflito com Superman, é significativa:

"Na verdade, você tem um senso de moralidade, ao passo que nós não temos. Isso nos confere uma vantagem evolutiva."

- O crime cometido por Jor-el, pai de Kal-el, foi tê-lo gerado numa relação papai-mamãe tradicional e não dentro do esquema eugênico vigente em Kripton por milhares de anos. Zod pode ser tido, inclusive, como a mente organizadora do futuro distópico, da ditadura genética descrita, por exemplo, por Huxley em Admirável Mundo Novo.

- Superman tinha, e manteve em sua versão repaginada, uma namorada do sexo feminino (que assim nasceu e assim permaneceu).

Todo o filme soa nostálgico para a humanidade que, atualmente, está sem ideal de Justiça, sem ideal de moralidade objetiva, sem qualquer referência. Se um herói surgir amanhã, não teremos qualquer critério para defini-lo como herói ou como vilão. Os perigos dessa "zona cinza", bem como a denúncia dos riscos de uma sociedade tecnocrática, podem ser vistos como a mensagem transmitida por Christopher Nolan, Zack Snyder e David Goyer.


Post Scriptum

O lançamento mundial do DVD foi esta semana e tive a chance de rever o filme. Vale um novo adendo:

Por que o Super-homem dos cinemas nada tem a ver com o Super-homem de Nietzsche?  

Para mostrar que o conceito nietzscheano nada tem a ver com os heróis do cinema basta, em primeiro lugar, recorrer à própria semântica. A tradução da palavra Übermensch - palavra usada por Nietzsche para exprimir seu conceito - como "super-homem" é equivocada. O Übermensch é, como diz o próprio Nietzsche no início de seu Assim Falou Zaratustra algo além do próprio homem (daí muito tradutores optarem por "além-do-homem" em vez de "super-homem") - "o homem é o elo intermediário entre o animal e o além-do-homem"; da mesma forma que o homem está para além do animal, o super-homem está para além do homem, supera o que há neste último.

Ao passo que o super herói dos quadrinhos não é algo além do homem, mas sim um homem com tudo de bom que pode haver num ser humano de forma potencializada. Não é um homem melhorado a ponto de não ser mais homem, é um homem par excellence, é o homem naquilo que lhe há de melhor.

E a cena final do filme, do conflito entre Kal-el e Zod, é a prova definitiva: Superman lamenta ter de matar Zod, Superman lamenta ter matado Zod. Ele não está acima ou além da moralidade ("do bem e do mal"), ele crê e sabe da existência de uma moralidade objetiva a que ele próprio deve prestar respeito - mesmo quando a realidade lhe impõe o dilema de matar um vilão assassino ou assistir a morte de inocentes -, uma morte deve ser lamentada. Super Homem não é um "revolucionário do bem" que relativiza imoralidades "a depender do contexto". O assassinato é um fato objetivamente imoral, como prescreve o Tao de que falava C.S. Lewis em seu "A abolição do homem" e nem o Super-homem está autorizado a desconsiderar esta verdade objetiva da realidade.


Guilherme Freire, do Círculo de Estudos Políticos, também fez comentários preciosos sobre o filme:

sexta-feira, 5 de julho de 2013

domingo, 7 de abril de 2013

Pedofilos ganhando espaço: corte holandesa aprova Associação de Pedófilos



MADRI, 05 Abr. 13 / 02:06 pm (ACI/EWTN Noticias).- Em uma decisão controvertida, um Tribunal de recurso na Holanda aprovou a existência de uma associação de pedófilos, que, em primeira instância, havia sido dissolvido no ano passado, considerando que esta não seria "uma ameaça para a desintegração da sociedade".

De acordo com o jornal ABC de Madri, a associação Martijn, que defende o sexo consensual entre crianças e adultos, poderá continuar suas funções, uma vez que o Tribunal de apelação de Arnhem, Leeuwarden, salientou que "o trabalho da associação é contrário à ordem pública, mas não há uma ameaça de desintegração da sociedade".

Apelando para a "liberdade de expressão", o Presidente da Associação Martijn Uittenbogaard, apelou a decisão de um tribunal em Assen, que ordenou a dissolução do grupo de pedófilos em junho de 2012.

Fundada em 1982, a associação Martijn, cuja sede era no distrito judicial de Arnhem, Leeuwarden, diz que ele é a favor da aceitação do sexo consentido entre adultos e crianças, mas indica que eles são contra qualquer tipo de abuso sexual.

O recurso levantado contra a associação afirmava que os antecedentes criminais de alguns membros do abuso sexual poderiam estar relacionados com a associação, mas que eles nunca haviam cometido um crime tipificado como pedofilia.

"O texto e imagens publicadas no site de Martijn são legais e nunca estimularam adultos a terem relações sexuais com crianças", acrescenta o Tribunal que proferiu a controvertida decisão.

O Tribunal porém assinalou que a associação é contrária a certos princípios da lei dos Países Baixos, porque "banaliza os perigos do contato sexual com crianças e fala bem destes contatos".

Por sua parte, o Presidente da associação, através de sua conta no Twitter, escreveu que "ainda existem sábios juízes, felizmente".

No dia 21 de novembro de 2011, o Tribunal de Leeuwarden rejeitou abrir um processo contra a associação. No entanto, o ex-presidente do mesma entidade, Ad van den Berg, foi condenado em 18 de outubro de 2011 na cidade de Haarlem a três anos de prisão, por posse de fotografias, filmes e revistas de pornografia infantil. 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Leonard Peikoff (estudioso de Ayn Rand) em um debate sobre a moralidade do socialismo e do capitalismo

Por André,

Estava a procurar alguma material do Leonard Peikoff, discípulo de Ayn Rand e encontrei sua participação nesse debate com dois socialistas canadenses (sendo que uma das debatedoras é uma 'socialista feminista' MUITO ruim de debate).

Coloco os melhores trechos abaixo e comento: socialistas são socialistas em QUALQUER parte do mundo. Do Brasil ao Canadá. A dupla socialista se limitou a fugir do escopo do debate, mantê-lo num nível extremamente raso, fizeram apelos a emoção, cometeram ad hominen e a falácia do espantalho e o ponto alto da sua argumentação foi zombar do sobrenome de Peikoff ("Pie-Cough"; "Play-Cough").

O discurso inicial de Peikoff é simplesmente espetacular (uma defesa da moralidade do capitalismo baseada nos princípios do objetivismo):


O comentário de Peikoff à resposta da socialista é simplesmente brilhante:


E a resposta a esta pergunta, também por parte de Peikoff, é genial:


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Filme "Defiance" ou "Um ato de liberdade" com Daniel Craig e a suspensão da moral

Por André,


Após assistir o ótimo filme Defiance (Um ato de liberdade, em português), me veio à mente a seguinte questão: em situações extremas (judeus fugindo da perseguição nazista) é admissível promover uma 'suspensão da moral'?

O herói do filme, Tuvia, interpretado por Daniel Craig encarna o dilema: deve-se manter um resquício de senso de humanidade, até pelos inimigos, em situações extremas como a guerra?

O problema é salientado quando Tuvia entra em conflito com Zus, seu parente. Por vezes Zus sugere deixar os abrigados e protegidos que não podem se defender, e representam um fardo, para trás.

Mesmo admitindo que isso não seja o correto a se fazer, seria justo condená-lo, caso o fizesse?

Matar realmente se torna algo trivial?

Que tipo de aliança se torna louvável enssa situação? O inimigo de nosso inimigo se torna nosso amigo? Zus acaba por se aliar momentaneamente com os comunistas russos, podemos condená-lo?

O grupo captura e mata um soldado alemão capturado. Como avaliar isso do ponto de vista moral? Tuvia e Asael (pupilo e parente de Tuvia) claramente reprovam, embora não tenham coragem de se pronunciar contra a atitude dos companheiros.


Seriam os momentos assim "pausas morais"? E o velho experimento mental ético: você esconde judeus em sua casa e soldados alemães batem a sua porta, o que fazer? Mentir ou causar a morte de pessoas?


Penso que Edwar Zwick, diretor do filme, com ou sem intenção, tenha abordado esses problemas morais ao longo da dramatização da História que passou para a tela dos cinemas.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Rodrigo Constantino: Uma defesa da hipocrisia

Rodrigo Constantino: Uma defesa da hipocrisia: João Pereira Coutinho, Folha de SP Ironias da vida: falamos com uma pessoa de tendências progressistas sobre a liberalização das drogas....

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Naturalismo moral e darwinismo social. Perspectivas e problemas

Por André,



Muitas correntes éticas surgiram em busca de uma ética não normativa, dentre elas o naturalismo, que segundo Charles Pigden, pode ser entendido da segunda maneira:

O naturalismo é uma doutrina (ou família de doutrinas) cognitivistas. Afirma que os juízos morais são proposições, suscetíveis a verdade ou falsidade. (...) Se opõe assim, à teoria do erro de J. L. Mackie que admite que os juízos morais formulam enunciados que são verdadeiros ou falsos, mas nega que qualquer um deles seja verdadeiro. Para o naturalista, a moralidade não é uma ficção, um erro ou um mito, mas um corpo de conhecimento ou ao menos de informação. Por último, o naturalismo é (em sentido amplo) uma doutrina redutora. Ainda que existam verdades morais (a dizer, proposições verdadeiras) não existem fatos ou propriedades peculiarmente morais (não há situações caracteristicamente morais), mas além dos fatos e propriedades que podem especificar-se mediante o uso de uma terminologia não-moral.
(PIGDEN, “El naturalismo” In: Compendio de Ética, p. 567 - 568)

    O naturalismo em si, como escola filosófica, propõe a ideia de que nada que transcenda aquilo que é natural de fato existe, em termos de ética, a premissa básica do naturalismo reza que fatos morais provém das verdades naturais. O naturalismo se opõe a qualquer não-cognitivismo, ao emotivismo, ao prescritivismo e ao intuicionismo. Já o darwinismo social, é assim definido por Michael Ruse:

Na verdade, antes de publicar a Origem das Espécies, outros autores – insatisfeitos com o cristianismo como filosofia apta para a sociedade industrializada – tentaram converter as ideias biológicas em um programa socio-politico-econômico pleno. A seguir da publicação de sua obra, este movimento ganhou força, especialmente nas mãos do compatriota de Darwin, seu colega Herbert Spencer. Assim nasceu o “darwinismo social”. Apresentou-se de muitas formas; mas habitualmente supôs-se uma simples aplicação da luta e seleção darwiniana do mundo da biologia ao âmbito social humano. (RUSE, “La significación de la evolución” In: Compendio de Ética. p. 668)

    O darwinismo social, de certa forma, é uma forma de naturalismo, visa trazer da Biologia para outras áreas, a teoria de Darwin, logo, ambos passam pelos mesmos dilemas morais.

    O naturalismo tem várias interpretações e escolas, existe o naturalismo hedonista, que reduzem e identificam o bom e a amizade com o prazer e o mal com a dor, o naturalismo aristotélico que têm preferência pelos fatos da natureza humana e do aperfeiçoamento do homem, a amizade é boa porque concorda com a natureza humana e existem também os naturalistas teológicos, que imaginam que bom e mal é aquilo que foi assim considerado por Deus.

    Um dos problemas que o naturalista moral tem que enfrentar é, por exemplo, o da dependência que sua teoria moral tem da epistemologia, pois a moralidade se reduziria às verdades fornecidas pela ciência, retirando a autonomia da moral. A velha questão do “deve” não poder depender do “é”, conhecida como a “lei de Hume”. Mas essa é uma questão meramente lógica e de uma lógica um tanto quanta conservadora, Pigden demonstra esse conservadorismo lógico e mostra que existem várias formas de autonomia da ética, as autonomias lógica, semântica e ontológica e que a única que o naturalismo poderia não ter é a ontológica (dependeria de fatos morais existirem de forma sui generis).

    Outro empecilho no caminho do naturalismo é a falácia naturalista, proposta por G. E. Moore em seu Principia Ethica, Pigden, resumidamente, a expressa dessa forma:

[Os naturalistas] confundiram a propriedade da bondade com as coisas que possuem essa propriedade ou com outra propriedade que possuem as coisas boas. Nisto consiste a falácia naturalista; em uma mescla de elementos distintos. (PIGDEN, “El naturalismo” In: Compendio de Ética, p. 573)

    O naturalista identifica, por exemplo, o bom com o prazeroso, dando um caráter tautológico às suas afirmações. Só que esse argumento não prova a autonomia ontológica e portanto a falsidade do naturalismo, essa é uma das possíveis saídas teóricas para os problemas enfrentados pelo naturalista moral e para a falácia naturalista.

    Já quanto ao darwinismo social, uma forma de naturalismo, pois, como dissemos, pretende trazer a verdade biológica da evolução para os campos social, político e econômico. O darwinismo social teve como seu primeiro teórico o inglês vitoriano Herbert Spencer. Surgiu como visão de mundo alternativa ao cristianismo e expresso de várias formas, variando na Inglaterra, Alemanha e Rússia. O primeiro problema que o darwinismo social enfrenta, é que apesar das espécies terem surgido em um processo de luta pela vida, os organismos não vivem, necessariamente, em conflito e luta armada constante. Muito pelo contrário, a maioria esmagadora das espécies vivem em meios de cooperação e colaboração. A problemática desenvolvida por Michael Ruse, em seu texto A significação da evolução, é a do altruísmo e cooperação presente no comportamento das espécies, o comportamento moral da maioria esmagadora de organismos vivos da terra, o que demonstra a interpretação precipitada dos teóricos do darwinismo social, totalmente desvinculado da figura de Darwin. Por último, o mito do contrato social, que reza que as sociedades primitivas viviam em absoluto conflito, e que a partir de um contrato social, estabeleceram suas regras morais, com o intuito de cessar esse conflito, tendo como motivação o egoísmo prudente. Outro problema, para aqueles que admitem o mito do contrato social, assim como para os teóricos do darwinismo social, o conflito que os contratualistas creem não é observado na maioria dos organismos, e o egoísmo prudente também fica em xeque, já que não vemos o egoísmo e o que vemos costuma não ser tão prudente.

    De toda a problemática ética e moral apresentada, podemos concluir, quanto ao naturalismo moral, que este possui as mesmas carências e os mesmos problemas de qualquer teoria moral não normativa, mas que, como apresentado por Pigden, muitas das críticas dirigidas ao naturalismo são de cunho ao menos questionável, como a questão da Lei de Hume e até da famosa falácia naturalista, exposta por Moore. Quanto ao darwinismo social, observa-se que, em primeiro lugar, trata-se de uma aberrância produzida por interpretações demasiadamente livres da teoria darwiniana para o desenvolvimento da vida, não passou de uma interpretação errônea, mas que atraiu o interesse de ideologias políticas. Mas como foi mostrado por Ruse e por Midgley, ao contrário de conflito constante, a maioria esmagadora das espécies vive em colaboração e cooperação.

Referências bibliográficas

SINGER, P. Compêndio de Ética. Madrid: Alianza editorial.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sam Harris e a ciência como fonte objetiva de valores, o projeto de "The Moral Landscape"



Comunicação oral apresentada em 22/09/11 no XVII Simpósio Multidisciplinar da USJT no auditório do Subsolo, sobre o livro The Moral Landscape do filósofo americano Sam Harris.



Apresentação de PowerPoint utilizada:

http://www.4shared.com/document/P-3xGKy8/Sam_Harris_e_a_cincia_como_fon.html

Resposta mais elaborada à pergunta do professor Paulo Henrique:

Talvez minha apresentação tenha focado demais na irreligiosidade do Sam Harris, contudo, no tocante ao projeto do The Moral Landscape - uma moral objetiva que tenha por fonte a ciência - a questão da religiosidade é apenas secundária. O que assusta Sam Harris é que apenas religiosos possam acordar de manhã e terem certeza da existência de uma moral objetiva, pessoas que muitas vezes acreditam no parto de virgens e que o Universo tem 6.000 anos.

Harris quer fugir do relativismo moral, fundar uma moral OBJETIVA, que não tenha, obviamente, Deus por fundamento.

Portanto, como toda religião teísta faz isso, funda seus preceitos morais em Deus, não faz sentido diferenciar entre religiões ou entre modalidades de religião. Talvez minha apresentação tenha dado a entender isso porque eu foquei nas punições dadas às mulheres nas sociedades muçulmanas e no criacionismo (sem falar na total rejeição aos homossexuais em termos éticos, o assassinato de médicos responsáveis por clínicas de aborto, etc), a moral objetiva que eles podem oferecer conduz a posições absurdas.

É nesse sentido que a falsidade da religião e seu conflito com a ciência moderna é enfatizado, secundariamente, por Harris em The Moral Landscape.