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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Richard Dawkins destrói relativismo cultural em trecho de "O Rio que Saía do Éden"

Por André,

Malgrado sua ingenuidade filosófica e polêmicas gratuitas, Dawkins escreve como poucos e faz de seus leitores leigos gênios. A cultura ocidental pôs o homem na Lua:

Aponte-me um relativista cultural a 10 quilômetros de distância e lhe mostrarei um hipócrita. Aviões construídos de acordo com princípios científicos funcionam. Eles mantêm-se no ar e o levam ao seu destino escolhido. Aviões construídos de acordo com especificações tribais ou mitológicas, tais como os aviões de imitação dos cultos de carregarmento nas clareiras das selvas ou as asas coladas com cera de abelha de Ícaro, não funcionam. Se você estiver voando para um congresso internacional de antropólogos ou de críticos literários, a razão pela qual você provavelmente chegará lá – a razão pela qual você não se esborrachará em um campo cultivado – é que uma multidão de engenheiros ocidentais cientificamente treinados realizou os cálculos corretamente. A ciência ocidental, com base na evidência confiável de que a Lua orbita em torno da Terra a uma distância de 382 mil quilômetros, conseguiu colocar pessoas em sua superfície. A ciência tribal, acreditando que a Lua estava um pouco acima do topo das árvores, nunca chegará a tocá-la, exceto em sonhos.
In: DAWKINS, Richard. O Rio que Saía do Éden. Rio de Janeiro: Rocco, 1996, p. 39-40.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O porquê de Richard Dawkins se recusar a debater com William Lane Craig



Fonte: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/oct/20/richard-dawkins-william-lane-craig

Este ‘filósofo’ cristão é um defensor do genocídio. Eu prefiro deixar uma cadeira vazia do que dividir uma tribuna com ele.

Não se sinta envergonhado se você nunca ouviu falar de William Lane Craig. Ele se autopromove como filósofo, mas nenhum dos professores de filosofia que consultei jamais ouviu seu nome. Talvez ele seja um ‘teólogo’. Já há algum tempo Craig tem sido cada vez mais importuno em seus esforços para me persuadir, constranger ou difamar num debate com ele. Eu tenho consistentemente recusado, seguindo o espírito, se não a letra, de uma famosa réplica do então presidente da Royal society: “Isto ficaria muito bem no seu currículo, mas não tão bem no meu”.


A última investida persecutória de Craig assumiu a forma de uma série de desafios cada vez mais intimidatórios para confronta-lo em Oxford neste mês de outubro. Eu mais uma vez tive o prazer de recusar, o que lançou-lhe e a seus acólitos num frenesi de acusações de covardia através de blogs, twitters, canais do Youtube e fóruns de discussão online. A estes eu diria apenas que recuso centenas de convites mais respeitáveis todos os anos, e que já debati publicamente com um arcebispo de New York, dois arcebispos de Canterbury, vários bispos e o rabino-chefe, e estou esperando por meu iminente, sem sombra de dúvidas mais civilizado encontro com o atual arcebispo de Canterbury.

Numa síntese de sua arrogância intimidatória, Craig agora propõe colocar uma cadeira vazia numa tribuna em Oxford na próxima semana para simbolizar minha ausência. A idéia de capitalizar sobre a reputação alheia pela conivência em dividir com outro uma tribuna dificilmente é nova. Mas o que faremos desta tentativa de transformar minha ausência numa proeza da autopromoção? Pelo bem da transparência, eu assinalaria que não é somente Oxford que não irá me ver na noite em que Craig pretente debater comigo in absentia: você também pode me ver não aparecer em Cambridge, Liverpool, Birmingham, Manchester, Edinburgh, Glasgow e, se o tempo permitir, Bristol.

Mas Craig não é apenas uma figura cômica. Ele tem um lado negro, isto colocando de maneira generosa. Vários clérigos contemporâneos sabiamente negam os horríveis genocídios ordenados por Deus no Antigo Testamento. Qualquer um que critique a sede de sangue divina é ruidosamente acusado de ignorar desonestamente o contexto histórico, e de fazer uma leitura ingênua e literal do que nunca passou de uma metáfora ou de um mito. Você procuraria bastante até encontrar um pregador moderno disposto a defender a ordem de Deus, em Deuteronomio 20: 13-15, para matar todos os homens numa cidade conquistada e confiscar as mulheres, crianças e animais como espólio de guerra. E os versículos 16 e 17 são ainda piores:

Porém, das cidades destas nações, que o SENHOR teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida. Antes destrui-las-ás totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos perizeus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o SENHOR teu Deus.
Você pode dizer que tal chamado ao genocídio nunca poderia ter vindo de um Deus bom e amoroso. Qualquer bispo, vigário ou rabino decentes concordaria. Mas vejam o que Craig tem a dizer. Ele começa afirmando que os cananitas eram pervertidos e pecaminosos e portanto mereciam ser massacrados. Ele então considera a situação das crianças cananitas.

Mas tirar a vida de crianças inocentes? A terrível totalidade da destruição foi incontestavelmente à proibição da assimilação de nações pagãs. No ordenamento da destruição completa dos cananitas, o Senhor falou: ‘Nem te aparentarás com elas; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos; Pois fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses’(Deut 7:3-4)[...] Deus sabia que se se permitisse que estas crianças cananitas vivessem, elas poderiam tramar a destruição de Israel. [...] Além do mais, se nós acreditarmos, como eu acredito, que a graça de Deus é estendida para aqueles que morreram na infância ou como pequenas crianças, a morte destas crianças era verdadeiramente sua salvação. Nós somos tão apegados à perspectiva naturalista terrena, que nós esquecemos que aqueles que morrem estão felizes por deixar esta terra pela alegria incomparável do paraíso. Então, Deus não faz nada errado ao tomar suas vidas.

Não alegue que eu retirei estas passagens revoltantes do contexto. Que contexto poderia possivelmente justifica-las?

Então o que Deus faz de errado ao comandar a destruição dos cananitas? Não os cananitas adultos, porque eles eram corruptos e mereciam o julgamento. Não as crianças, porque eles herdaram a vida eterna. Então quem é o transgressor? Ironicamente, eu penso que a maior dificuldade de todo este debate é o aparente erro que os soldados israelenses fizeram a si mesmos. Você pode imaginar que seria como ter que invadir uma casa e matar uma mulher aterrorizada e seus filhos? O efeito brutal nestes soldados israelenses são perturbadores.

Oh, os pobres soldados. Esperemos que eles tenham recebido suporte psicoterápico após esta experiência traumática. Uma resposta posterior de Craig é – se possível – ainda mais estarrecedora. Referindo-se a seu artigo anterior (acima) ele diz:
Como resultado de uma leitura mais cuidadosa do texto bíblico, cheguei à conclusão de que a ordem que Deus deu a Israel a princípio não era que eles exterminassem os cananitas, mas que os expulsassem da terra.[...] Canaã estava sendo dada a Israel, a quem Deus Deus havia retirado do Egito. Se as tribos cananitas, vendo os exércitos de Israel, tivessem simplesmente escolhido fugir, ninguém teria sido assassinado, afinal. Não havia nenhuma ordem para perseguir e abater as pessoas cananitas. É, portanto, completamente errônea a caracterização da ordem de Deus a Israel como uma ordem para cometer genocídio. Em vez disso era em primeiro lugar uma ordem para expulsar as tribos do território e ocupa-lo, Somente aqueles que permanecessem deveriam ser completamente exterminados. Não havia necessidade de que todos morressem nesta situação.*


Então, aparentemente, eram os próprios cananitas que estavam errados por não fugirem. Certo.
Você apertaria a mão de um homem capaz de escrever coisas como esta? Você subiria num palco com ele? Eu não o faria e não o farei. Mesmo se eu já não tivesse um compromisso em Londres no dia em questão, eu orgulhosamente deixaria a cadeira em Oxford eloquentemente vazia.
E se qualquer de meus colegas se encontrar intimidado ou enganado num debate com este deplorável defensor do genocídio, eu o aconselharia a levantar-se, ler em alto e bom tom as palavras de Craig citadas acima, e então deixa-lo falando não somente para uma cadeira vazia mas, esperaria-se, para um auditório se esvaziando rapidamente.
*Nota do Tradutor: Mais uma vez, é impossível resistir ao paralelo entre apologistas cristãos e negadores do Holocausto. Estes últimos, ao menos os que vomitam suas intrujices em português, costumam afirmar que a política de extermínio dos judeus levada a cabo pelo governo nazista era na verdade uma política de reassentamento dos judeus em territórios desabitados. De fato a palavra exterminar também significa, em português, “expulsar alguém de um território”. Mas o termo original alemão traduzido não possui essa acepção. E o termo hebraico original, será que possui?
 
Méritos ao blog Rebeldia Metafísica.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Richard Dawkins é covarde por não debater com William Lane Craig?



Como vocês puderam observar com base em posts recentes, considero o exercício de debater extremamente proveitoso. Se partirmos do princípio que um dos dois lados está errado, muito dificilmente os proponentes de uma posição ou outra dificilmente mudarão de opinião, contudo, aqueles que se encontram num "limbo intelectual" podem fazer proveito de um debate em alto nível - quando os dois lados buscam a honestidade intelectual.

William Lane Craig fará um "tour" pela Grã-Bretanha em outubro, quando debaterá com Peter Atkins e um filósofo ateu que me foge o nome agora. Ele também debateria com Polly Toinbee, contudo a jornalista britânica desistiu do evento.
Assistam o vídeo acima. Craig e suas craiguetes não parecem reduzir a questão a um mero "flamengo vs fluminense"? Ou pior, a um embate de boxe?!

Reparem no momento em que Craig diz "Hello, I'm Bill Craig..."

Eu já havia sido alertado, POR UM CRISTÃO, que Craig é bastante pedante. De fato, confesso que até mesmo eu relutei por um tempo em aceitar isso, mas é verdade. Ele se considera um boxeador imbatível e não se dá ao trabalho de esconder isso...


Contudo, tendo em vista o alvoroço todo causado pelas seguidas negações de Dawkins em debater com Craig, a primeira pergunta que me vem à mente não é se Dawkins é covarde e Craig imbatível, mas sim, "vencer" (o que quer que seja isso) um debate é sinônimo de deter a Razão no assunto?

Penso que nesse sentido Craig e as craiguetes superestimem o "poder" de um debate.

Enfim.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O ateísmo lúcido de H.P. Lovecraft



Paulo Brabo

 Meu professor de redação H. P. Lovecraft, de quem herdei o vício de abusar de adjetivos, era um ateu convicto, ocasionalmente militante. A mesma convicção materialista que o fez eliminar dos seus contos de terror qualquer traço do sobrenatural levou-o a duvidar de todas as manifestações tradicionais de religião. Suas histórias não são povoadas por vampiros, fantasmas ou assombrações, e pelo mesmo motivo no seu universo não há espaço para Deus ou para intervenções sobrenaturais1. Tudo no cosmos é gerado pelo acaso, e este domado apenas pelas leis cegas da física. No grande contexto do universo, a vida orgânica na terra não passa de “um acidente minúsculo e temporário”, sendo a própria humanidade “um acidente ainda menor e mais temporário”.
Essas convicções, mais ou menos populares hoje em dia, estavam longe de serem comuns na década de 1930, a última do autor. Acho particularmente notável, no entanto, que a grande reserva que Lovecraft encontrou para apresentar contra o cristianismo não foi o fato de a fé cristã pressupor um universo sobrenatural que contrariava sua visão de mundo materialista. Sua indignação era ao mesmo tempo mais profunda e mais lúcida2:
O cristianismo não tem como ser levado a sério. É ingênuo e anticientífico culpar o mundo por não se conformar a ele – visto que se trata de uma ilusão quimérica e poética totalmente alienígena à natureza humana. [O cristianismo] é absurdo, porque nenhuma raça ou nação poderia (ou deveria) jamais chegar a conformar-se a ele.
E basta este trecho para Lovecraft se mostrar mais agudo e inclemente do que Richard Dawkins ou qualquer outro ateu militante da nova geração. Em particular, Lovecraft enxerga que o cristianismo é uma ameaça para o conceito de raças e nações justamente por propor um ideal elevado demais, um sonho de fraternidade aparentemente impraticável e “totalmente alienígena à natureza humana”.
Ao contrário dos ateus militantes contemporâneos, ele sabe avaliar o verdadeiro peso do seu adversário. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça à civilização por ser uma religião como as outras; para Lovecraft, é uma ameaça justamente por não ser uma religião, já que as religiões tendem a apoiar e legitimar o estado de coisas. Para Dawkins o cristianismo é um risco perene porque recusa-se a reconhecer a natureza última da realidade; para Lovecraft, ele é um risco porque sonha teimosamente poder alterá-la. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça por patrocinar a injustiça; para Lovecraft, é uma ameaça por sonhar uma justiça excessiva: por ser uma intransigente ingenuidade e uma declarada insensatez, uma poesia que pode transtornar o mundo se raças e nações não resistirem ao apelo evangélico de conformarem-se a ela. Para Dawkins o escândalo está em, diante de todas as evidências, o cristianismo recusar-se a reconhecer que não há céu; para Lovecraft está em, diante de todas as improbabilidades, o cristianismo insistir em implantá-lo na terra.
Dos dois, só Lovecraft sabe do que está falando.


NOTAS
1. “O que posso dizer é que acho tremendamente improvável que exista qualquer coisa como uma vontade cósmica centralizada, um mundo espiritual ou a sobrevivência eterna da personalidade.” Carta de 16 de agosto de 1932 a Robert. E. Howard. []
Carta de 14 de dezembro de 1932 a Elizabeth Toldridge. []

domingo, 12 de julho de 2009

Richard Dawkins versus Harry Potter?




Recentemente, me deparei com uma declaração (apesar dela ser do ano passado) de um dos maiores divulgadores da ciência atual, um espetacular biólogo e proeminente defensor do ateísmo, Richard Dawkins sobre o famoso “bruxo” Harry Potter. Antes de mais nada, como cético, desejo fazer dois esclarecimentos, primeiro: a importância de Dawkins quanto a militância ateísta é incomensurável, mas alguns “ateus” que acabam por fazer do ateísmo algo dogmático, tomam Dawkins como um deus, um papa, um aiatolá, só que Dawkins não é um deus, é falível e em segundo lugar, o ceticismo não tem dogmas, não existe “igreja cética” e o mérito do ceticismo e da ciência está em justamente ter a ferramenta da auto-crítica embutida, ou seja, Dawkins não só pode, como deve ser criticado.
Dawkins disse que Harry Potter é “anticientífico” e obviamente que o é, não nego isso, só que Harry Potter é apenas um livro, tal como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve (e a Bíblia!) e tantos outros, o problema não está na série Harry Potter “em si”, mas sim nos pais que não acompanham a leitura dos filhos. Estes devem estar atentos ao que os filhos leem (e não só a isso, é claro) e instruí-los que aquilo é apenas uma estória, que pode instigar sua imaginação e despertar o gosto pela leitura. O fato de assistirmos filmes como Super-Homem não nos faz querer colocar capas vermelhas, desafiar a gravidade e levantar voo.
Confesso que fiquei desapontado com a declaração de Dawkins, não por ser leitor de Harry Potter (que tem seus momentos filosóficos), mas por que isso me lembrou aqueles crentes fundamentalistas que abominam a série por que a autora é “bruxa” e logo Satã soprou a obra em seu ouvido. Que crentes são incapazes de distinguir uma estória da realidade eu já sabia, agora eu sinceramente não esperava o mesmo de Dawkins.
O próprio Dawkins reconhece o valor cultural da Bíblia, ou seja, Harry Potter também tem seu valor, o problema, repito, é tomar o Sr. Potter (ou a Bíblia) como verdade única e última. Harry Potter tem seu valor, como os contos de fada que trazem sua lições também tem. Para não perder a alfinetada, a Bíblia e seus mitos tem seu valor, assim como o Corão, os Vedas e a Teogonia de Homero (até mais ricos que a Bíblia) também tem.