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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Discurso de posse de Ernesto Araújo confirma minhas expectativas

Por André,


Nos textos em que expliquei meu voto em Bolsonaro, coloquei a política externa em muita alta conta e como elemento importante de justificativa do meu voto.

Quem preferir se perder nos preciosismos, que se perca.

Quem preferir se perder nas picuinhas também.

Quem quiser reclamar porque ele cita Guenón e Evola, realmente, isso vai mudar o eixo da terra de lugar, pode acreditar.

Ao que tudo indica meu voto está suficientemente justificado.

O discurso foi transcrito pela brilhante Estudos Nacionais e pode ser lido aqui.


domingo, 11 de novembro de 2018

Ditadura brasileira foi branda e universitários brasileiros são analfabetos

Por André,

Achou que foi o Olavo de Carvalho que disse esses "impropérios", né? Não, não. Foram duas vacas sagradas do esquerdismo acadêmico:


Safatle:

"A ditadura militar brasileira não foi uma ditadura do assassinato: foi uma ditadura dos processos jurídicos. Você vê o número de assassinatos e desaparecimentos, e fala 'Ah, foi uma ditadura branda'. Foram 500 desaparecidos, enquanto na Argentina foram 30 mil. Só que isso foi compensado pelo desenvolvimento de um aparato jurídico que só nos primeiros anos já tinha 30 mil processos. A lógica era: você paralisa as pessoas jogando processo atrás de processo."


VLADIMIR SAFATLE, professor universitário (USP) e filósofo de esquerda (https://bit.ly/2QyU2VP).


José Paulo Netto:


"Temos, no Brasil, alunos que chegam semianalfabetos ao mestrado e saem do doutorado analfabetos especializados".


JOSÉ PAULO NETTO, professor universitário e intelectual da tradição marxista (https://youtu.be/2WndNoqRiq8).

domingo, 11 de fevereiro de 2018

As 12 camadas da consciência

Por André,

Aula 83 do Curso Online de Filosofia sobre a teoria das 12 camadas da consciência. Vale muito a pena assistir:

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Olavo de Carvalho debate a questão do globalismo com Paulo Roberto de Almeida

Por André,




ACREÇO COMENTÁRIO REDIGIDO POR MIM NO FACEBOOK EM 06/01:

Até agora eu tô meio perdido com a "argumentação" do Paulo Roberto de Almeida contra o Olavo na entrevista para o Brasil Paralelo. 
Para ele não há globalismo porque o globalismo é materialmente impossível de ser estabelecido. 
Ora, além do que fora apontado pelo professor Olavo de Carvalho, de que do fato da economia planificada do socialismo ser impossível nunca decorreu que seus proponentes abandonassem a tentativa de realizá-la, eu fico pensando, certas áreas de pesquisa simplesmente não partem justamente do princípio de que seu objetivo final é impossível?
Pra pegar um exemplo de ciência dura: viajar no espaço a longas distâncias é uma possibilidade bastante remota, viajar no espaço à velocidade da luz, por exemplo, é virtualmente impossível pelo que sabemos de ciência hoje. Disso decorre que a pesquisa de exploração espacial é infundada? Não! Disso decorre que nada de concreto até hoje veio das pesquisas realizadas nesse campo? Também não! 
O que é impossível hoje pode ser possível amanhã e isso nunca impediu que uns pares de pessoas tentassem (e eventualmente alcançassem ou não). E mesmo que a coisa prossiga impossível, nada impede que seus arquitetos pavimentem o caminho para a realização do fato impossível. 
Logo, a impossibilidade de realização do "telos" do globalismo não pode jamais configurar como prova de sua INEXISTÊNCIA. O Paulo confunde lógica com ontologia e sempre é custoso acreditar que algo tão simples seja mero erro.

domingo, 9 de abril de 2017

Olavo de Carvalho palestra em Harvard

Por André,

Olavo fala na palestra em Harvard que 80% dos brasileiros nas universidades não são completamente alfabetizados, e ainda cita a fonte da pesquisa.

Na plateia, uma menina universitária, em tom de provocação, fala que isso não é verdade, citando outro estudo, e diz "que esse debate tem que se dar no plano da realidade e não de achismos". Quando foram consultar o estudo que ela cita, descobriu-se que este, quando lido corretamente, ou seja, por alguém que não é analfabeto funcional, diz EXATAMENTE a mesma coisa que o estudo que Olavo citou.

Provar o argumento da outra parte tentando contra-argumentá-la: nada mais Brasil que isso. Feliz que estamos exportando o melhor do nosso volkgeist para as maiores universidades do mundo.

sábado, 4 de março de 2017

A politização absoluta da vida

Por André,

Uma das coisas que mais me irrita são pessoas que só conseguem ver um sentido e um objetivo político em cada ato humano. Gente que acorda, come e dorme política. 


George Steiner, na brilhante conversação que manteve com Pierre Boutang na TV francesa sobre a "Antígona" de Sófocles em 1987, fez uma observação que basta para dar por terra com todas as tentativas de reduzir atitudes morais a tomadas de posição ideológicas: No confronto entre o rei de Tebas e a moça que exige um sepultamento honroso para os seus irmãos mortos em batalha, Antígona e Creonte não se colocam no mesmo plano: ela não tem NENHUMA VONTADE DE GOVERNAR, NENHUM INTUITO DE TOMAR O PODER. Ela fala em nome de um princípio universal que transcende infinitamente a esfera da concorrência política. 

Volta e meia encontramos patifes que, por terem colocado suas vidas a serviço de uma facção política -- seja por genuína convicção ou por interesses menores, pouco importa --, não são capazes de conceber motivações superiores às suas, e explicam os nossos atos como se fossem os seus próprios com sinal partidário invertido.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Mensagem do prof. Olavo de Carvalho aos que se encontram no conflito entre o estudo e a vida financeira

Por André,



"A mensagem do filósofo aos jovens estudantes, no que diz respeito à dificuldade financeira, é simples, quanto pior ficar a sua condição econômica, mais se apeguem à sua vocação intelectual. Não cedam à pressão de um mundo que quer matar em vocês o espírito à força de atormentá-los com problemas financeiros. O mundo, no sentido bíblico do termo (isto é, a sociedade mundana), só respeita quem o despreza. Na Primeira Guerra Mundial, o físico Werner Heisenberg, então um adolescente, numa cidade reduzida à miséria pelo cerco e pelos bombardeios, se escondia no porão de uma igreja para ler Platão e discutir com seus amigos a metafísica de Malebranche. 

Foram os anos decisivos de sua formação: ele poderia tê-los perdido, aguardando melhores dias para estudar. Mas nada, neste mundo, pode vencer a determinação do homem que é fiel à vocação espiritual. Não se intimidem, não desistam. Quanto mais pobres vocês ficarem, mais se dediquem aos estudos. A porcaria reinante não prevalecerá sobre a sinceridade dos seus esforços. Digo isto com a experiência de quem, ao longo de mais de duas décadas de pobreza, com mulher e filhos para sustentar, jamais deixou de estudar um único dia, aproveitando cada momento livre e abdicando de toda sorte de viagens e divertimentos. Nunca esperei que minha situação melhorasse para depois estudar, e garanto: seja teimoso, e um dia o mundo desiste de tentar dominar você pela fome."

Fonte: http://www.jmpsiquiatria.com.br/edicao_19/entrevista_olavo_19.htm

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Mérito literário por Olavo de Carvalho

Por André,



"Eu já vi algumas teses universitárias, que o pessoal me manda, às vezes [com] coisas altamente requintadas de filosofia e um erro de ortografia em cada linha. E onde tem erro de ortografia fatalmente você vai ter erros de sintaxe também. Você tem um material que às vezes está altamente elaborado do ponto de vista lógico, mas não tem uma elaboração equivalente do ponto de vista gramatical, o que significa que não vão se tornar produto de cultura superior. Se o sujeito escreve uma tese que está cheia de boas idéias, está bem pensada, bem articuladinha, mas não está corretamente escrita e adequadamente escrita, então aquilo vai ser sempre uma demonstração de força pessoal. Quer dizer, ele mostrou que ele é capaz de fazer, mas ele não fez ainda. Os produtos de cultura superior se caracterizam sobretudo pela forma acabada. Eles tem uma forma que é estabilizada e se incorpora então na cultura superior. Se não tem a forma então é como se fosse uma estátua que você fez em barro, mas o barro não seca, então aquilo toda hora perde a forma.

Se não tem forma, se tem apenas 'conteúdo', conteúdo significa uma intenção que está indo em direção a uma forma, mas ainda não chegou lá. Mais ainda: a única coisa que sobra de fato das grandes obras da cultura é a forma, por que o “conteúdo” é comum a toda a humanidade. Tudo aquilo que Shakespeare escreveu está mais ou menos na alma de cada um. A única diferença é que Shakespeare conseguiu apreender aquilo como uma forma — não só apreender, mas conseguiu registrar de algum modo. É como se esses conteúdos estivessem constantemente fluindo por todas as mentes, mas de uma maneira muito rápida e inapreensível, de maneira que o sujeito percebe a coisa e no instante seguinte já esqueceu.

Certamente a diferença de nível de consciência nas pessoas não está na diferença de sensitividade. A nossa sensitividade é mais ou menos igual. A diferença está exatamente na capacidade de retenção, e portanto na capacidade de criar uma forma com aquilo. Esta é a única diferença. Isso é uma coisa que eu tenho observado: muitas pessoas me escrevem dizendo: 'Puxa, você disse exatamente aquilo que eu queria dizer e não conseguia'. Só que no Brasil isso significa o seguinte: que você não tem mérito nenhum, o mérito é de quem percebeu sem conseguir dizer. O cara que disse, ele está ali apenas como uma espécie de boneco de ventríloquo... quando, justamente, você conseguir dizer o que os outros também estão percebendo[, mas sem conseguir dizer,] é o único mérito literário que existe. Exatamente o único.

A única diferença entre Shakespeare e eu é que ele conseguiu dizer umas coisas que eu também pensei, mas eu não consegui dizer. Eu pensei por uma fração de segundos, não me tornei proprietário daquilo. Até a expressão “criação literária” é um termo um pouco exagerado. Não existe propriamente uma criação, mas um registro; existe uma retenção e um registro. E na diferente capacidade de retenção e registro reside a diferença entre o Seu Zé Mané e Shakespeare ou Camões.

Também não se trata do conteúdo: os conteúdos que nós percebemos são mais ou menos os mesmos. Nós temos as mesmas sensações, as mesmas emoções. Todo mundo percebe a mesma coisa, mas um percebe por uma fração de segundo, e o outro retém. É uma questão também de fixação da atenção. Porém, se a base fônica não está perfeita, se o indivíduo não tem as distinções e a retenção das distinções entre milhares de fonemas diferentes, então ele também não vai ter, no grau seguinte, as distinções entre as várias percepções."

COF, aula 88, gritos meus.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Filmes recomendados por Olavo de Carvalho

Por Gigantes Recomendam,

North by Northwest, Alfred Hitchcock, 1959
 
Diamonds are forever, Guy Hamilton, 1971 

Rio grande, John Ford, 1950 

The shootist, Don Siegel, 1976 

High noon, Don Siegel, 1952 

The great escape, John Sturges, 1963 

Rooster cogburn, Stuart Millar, 1975 

Cahill U.S. Marshal, Andrew V. McLaglen, 1973 

She Wore a Yellow Ribbon, John Ford, 1949 

Nevada Smith, Henry Hathaway, 1966 

The Hunt for Red October, John McTiernan, 1990 

Big Jim McClain, Edward Ludwig, 1952 

Force 10 de Navarone, Guy Hamilton, 1978 

Per un pugno di dollari, Sergio Leone, 1964 

Os Comancheros, Michael Curtiz, 1961 

Os boinas verdes, John Wayne/Ray Kellogg, 1968 

El dorado, Howard Hawks, 1966 

Rio lobo, Howard Hawks, 1970 

Winchester ’73, Anthony Mann, 1950 

The Maltese Falcon, John Huston, 1941 

The Sting, George Roy Hill, 1973 

How the West Was Won, John Ford / Henry Hathaway / George Marshall, 1962 

Gunfight at the O.K. Corral, John Sturges, 1957 

The Sons of Katie Elder, Henry Hathaway, 1965 

The Spy Who Loved Me, Lewis Gilbert, 1977 

You Only Live Twice, Lewis Gilbert, 1967 

Live and Let Die, Guy Hamilton, 1973 

For Your Eyes Only, John Glen, 1981 

The Fugitive, Andrew Davis, 1993 

Witness, Peter Weir, 1985 

Never Say Never Again, Irvin Kershner, 1983 

The Searchers, John Ford, 1956 

The Man Who Shot Liberty Valance, John Ford, 1962 

Roma, Cidade Aberta, Roberto Rossellini, 1945 

Diário de um Pároco de Aldeia, Robert Bresson, 1950


Agradeço imensamente ao colega Lucas Cavalcante, que me repassou essa lista.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Olavo de Carvalho: "Decadência e submissão"

Por Diário do Comércio,

Não lembro quem disse, mas, no fim das contas, um romance nada mais é que uma vida, a biografia de um personagem imaginário. Não necessariamente uma biografia completa, do berço ao túmulo, mas um apanhado dos episódios essenciais que marcam a figura de um destino individual de tal modo a fazer dele um símbolo, um modelo aproximativo de muitos destinos possíveis.

Em Soumission, de Michel Houellebecq (Paris, Flammarion, 2015), romance de sucesso mundial já traduzido no Brasil, a vida do personagem corre paralela à do seu país natal, num roteiro de decadência inelutável que desemboca na submissão quase simultânea de ambos ao islamismo. O paralelo é realçado pelos nomes: François-France.

“Submissão”, em vez de “conversão”, é a palavra correta. François e a França não se convertem ao islamismo: caem dentro dele como corpos fatigados que desabam na cama.

A história transcorre no ano de 2022, numa eleição nebulosa em que o Front Nacional ganha o voto majoritário no primeiro turno (34 por cento), tendo como principal concorrente a Fraternidade Muçulmana que, transformada em partido político, supera em votação os socialistas e a moribunda direita gaullista. O Front representa, em teoria, a identidade nacional francesa, mas muitos católicos lhe sonegam apoio porque são “demasiado terceiromundistas” (sic). Cenas de violência acompanham as eleições, mas, como só são noticiadas na mídia com muitos dias de atraso, tudo transcorre numa atmosfera de aparente normalidade. Para evitar a ascensão do Front Nacional ao poder, as facções minoritárias se aliam à Fraternidade e elegem presidente o muçulmano Mohammed Ben Abbes. É o velho mito comunista da “frente antifascista” restaurado, agora sob patrocínio islâmico.

O novo governante é um homem simpático e moderado, que mantém a ala radical sob rédea curta e faz toda sorte de concessões gentis aos partidos aliados, insistindo em manter sob controle islâmico tão somente... a educação nacional. De início estão todos felizes, porque parece que nada vai mudar substancialmente, mas François logo percebe a profundidade das reformas introduzidas por Ben Abbes quando vai dar suas lições de literatura na Universidade de Paris III – a Sorbonne -- e vê que a mais tradicional das universidades francesas, agora subsidiada por bilionários sauditas, virou oficialmente uma instituição islâmica na qual não há mais lugar para um agnóstico. Pouco após a demissão, convidado a dirigir a edição das obras do romancista J.-K. (Joris-Karl) Huysmans para a Bibliothèque de la Pléiade, ele vai a uma recepção elegante promovida pela editora Gallimard e nota que ali só há homens: as mulheres, no Islam, ficam em casa. Na escala maior da sociedade as mudanças não são menos portentosas: expelido o sexo feminino do mercado de trabalho, sobra emprego para todos os homens. Da noite para o dia, a França mudou de identidade sem nem mesmo perceber. Ben Abbes, o salvador da pátria, já sonha em integrar na Europa várias nações muçulmanas e restaurar o Império Romano em versão islamizada.

Ao longo da narrativa espalham-se muitas observações exatas sobre a lenta e inexorável decomposição cultural e ideológica da França, cada vez mais desprovida de uma autoridade moral e intelectual habilitada a infundir um sentido de ordem na vida nacional. Quando os partidos políticos, a Igreja, a Maçonaria, a intelectualidade e até o movimento nacionalista se mostram incapazes de compreender o enrosco em que se meteram, a entrada do Islam em cena surge como um alívio improvisado e humilhante, mas necessário: a nação confessa sua bancarrota e, com um pragmatismo entre derrotista e cínico, sem alegria nem tristeza, submete-se ao inevitável. Além de mostrar claramente aquilo que ninguém quer ver – que a força do Islam na Europa não está no terrorismo, e sim na imigração em massa --, a islamização da França, tal como a descreve Houellebecq, ilustra, mutatis mutandis, o conceito de “revolução passiva” de Antonio Gramsci.

Igualmente oportunista e leviana é a “conversão” do próprio François. Ela é magistralmente descrita sob a forma de um paralelo inverso com a biografia espiritual de J.-K. Huysmans. François é autor de uma tese universitária sobre o romancista de Là-Bas, com a qual granjeou algum prestígio acadêmico. Huysmans, na juventude, envolveu-se em ocultismo e satanismo e, através de uma longa e atormentada crise espiritual, acabou se convertendo ao catolicismo, encerrando seus dias como oblata de uma ordem religiosa.

Nada de semelhante se passa com François. Sua aproximação com o Islam é tranqüila e sem dramas. Não tem, de fato, nenhuma profundidade espiritual. Mesmo a doutrinação que recebe é rala e brevíssima. Limita-se à leitura de um livreto de Robert Rediger, belga islamizado e discípulo de René Guénon, cuja ascensão na política francesa lhe permite viver com suas várias esposas – uma das quais de apenas quinze anos -- num casarão elegantíssimo outrora pertencente ao crítico Jean Paulhan (precursor do desconstrucionismo, portanto um dos pais da decomposição cultural), discursando sobre as virtudes do Islam e, contra o mandamento corânico expresso, bebendo vinho na maior tranqüilidade (um hábito que nos anos 80 notei ser muito comum entre intelectuais “perenialistas” islamizados).

Os argumentos com que Rediger muda a cabeça de François são de uma leviandade a toda prova. Consistem de:

(1) Uma promessa de reintegrá-lo no corpo docente da Sorbonne.

(2) Uma apologia do intelligent design em termos genéricos que serviriam para qualquer religião.

(3) Um discurso sobre as belezas da poligamia do ponto de vista darwiniano: condena os fracos e pobres ao celibato e oferece aos homens de prestígio, como por exemplo um professor universitário, o acesso fácil a mulheres..

Para o quarentão François, é uma oferta irrecusável. Após perder sua última namorada, uma moça judia que foge para Israel para escapar do anti-semitismo crescente na terra do capitão Dreyfus, ele se convence de que já não tem sex appeal, de que sua vida amorosa chegou ao fim: busca alívio na bebida e nas prostitutas, com as quais se entrega a toda sorte de extravagâncias eróticas sem nenhum prazer. O que Rediger lhe oferece é a restauração, por via legal, da virilidade evanescente: no Islam todos os casamentos são arranjados à distância por meio de alcoviteiras e da instituição dos dotes, poupando aos tímidos, fracos e velhos os desafios da conquista amorosa e favorecendo, em vez dos atrativos viris, a mera superioridade financeira (nem François nem seu novo guru percebem que isso vai contra o princípio da seleção natural).

Tal como a aliança da direita e da esquerda com a Fraternidade Muçulmana, a conversão de François é um arranjo de ocasião, improvisado sem qualquer exame de suas implicações morais e existenciais de longo prazo. François apenas contempla as mocinhas tímidas, mudas e indefesas que se substituíram às ousadas feministas da época pré-islâmica, e conclui, com uma espécie de cinismo inconsciente:

-- Não terei nada a lamentar.

No meio da narrativa, François, instigado por um amigo, faz uma visita à abadia de Rocamadour, imponente monumento da arquitetura medieval e foco de peregrinação tradicional onde se dera a conversão de J.-K. Huysmans ao catolicismo. Mas justamente ali, onde o autor de La Cathédrale vivenciara as mais profundas e arrebatadoras experiências espirituais, ele sente uma vaga emoção estética ante o ritual gregoriano e sai imune a toda mensagem cristã.

Sem nenhuma hostilidade especial ao cristianismo, ele aceita sem exame nem entusiasmo o argumento de Rediger contra a Encarnação, baseado exclusivamente no desprezo à espécie humana: Deus não desceria do Seu Trono de Majestade para se misturar com essa gentalha.

É impossível enxergar em Soumission o menor elemento autobiográfico: Houellebecq jamais freqüentou uma universidade (teve de documentar-se para descrever a vida na Sorbonne) e, com toda a evidência, não se identifica com o personagem central, cujo merecido desprezo por si mesmo transparece a cada linha da narração na primeira pessoa. Houellebecq é um daqueles gozadores a um tempo sádicos e discretos, que demolem tudo sem dar a impressão de estar fazendo nada de mais.

O duplo paralelismo – direto com o do destino nacional francês, inverso com a vida de J.-K. Huysmans – é a chave da sutil estrutura narrativa de Soumission: desaparecida do horizonte mental qualquer referência exceto museológica à experiência cristã, esfarelada a consciência entre mil e um artificialismos culturais e ideológicos – do desconstrucionismo ao darwinismo cínico da Nouvelle Droite --, a alma da nação e a do indivíduo caem juntas no leito cômodo do fato consumado.

Publicado no Diário do Comércio.