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sábado, 27 de abril de 2019

THANOS É UM REVOLUCIONÁRIO

Por André,



THANOS É UM REVOLUCIONÁRIO

Nas HQs, o titã Thanos quer eliminar metade do universo para impressionar Hela, sua naramorada (g4d0 d+). No filme as intenções do vilão são mais nobres, afinal, o caminho para o inferno sempre está pavimentado de boas intenções. Os recursos naturais do Universo estão se esgotando, a fome se alastrando. Uma solução para esses problemas? Uma alteração radical, ainda que rápida e indolor, na ordem da realidade: metade dos seres vivos eliminados num estalar de dedos. E pronto. O problema da pobreza, das "barrigas vazias" e do meio ambiente do Universo estão resolvidos.

Thanos é um malthusiano. É o Malthusithanos. A crença do titã louco é uma figurinha carimbada e um trombetismo do apocalipse já conhecido por aqueles que já leram sobre Thomas Malthus, que afirmava que o controle populacional radical era necessário ou, do contrário, os recursos naturais do planeta iam se esgotar e a população crescente ia morrer de fome e inanição. Desnecessário dizer que dessas ideias para o genocídio é um pulo.

Thanos, como todo bom ditador egótico e bem-intencionado, quer salvar o mundo e acha que encontrou a fórmula. Ele só quer as crianças felizes, de barriga cheia e com o meio ambiente funcional. Os fins nobres justificam os meios não tão nobres. As intenções de Thanos, corrigir os equívocos da realidade num golpe curto de alguém que "sabe" como fazer não o coloca nem um pouco longe de um Hitler ou Stalin. Quem se puser no meio do caminho não é menosq que um inimigo desse futuro paradisíaco de ordem universal corrigida. Isso está expresso em Vigadores Guerra Infinita.

Em Ultimato, a mentalidade revolucionária de Thanos fica completamente desnudada. Seu projeto revolucionário falha, a desejada correção na ordem da realidade não funcionou, pelo contrário, a realidade se tornou completamente disfuncional, as metrópoles faliram, o Universo não prosperou.

O que se esperaria de uma mentalidade prudente? Uma retirada, um pedido de desculpas, passos atrás, o reconhecimento humilde que não é possível conhecer uma fórmula final para solucionar todos os problemas da realidade. George Orwell dizia que um problema com o discurso revolucionário é que ele dizia ser necessário quebrar alguns ovos para a omelete vir (i.e., para o paraíso ser instalado na terra será necessário matar alguns problemas no meio do caminho), o problema é que o omelete nunca vem.

Mas um revolucionário nunca admite seus erros. Como dizia Brecht, "quanto mais inocentes são, mais merecem morrer". Thanos agora não pretende aniquilar metade do Universo, mas o Universo inteiro para remodelá-lo à sua imagem e semelhança, sem que ninguém possa carregar a memória do passado imperfeito.

A crença na posse do conhecimento adequado para corrigir a ordem da realidade, as boas intenções, a ética dos fins justificando os meios e o método radical e repentino de fazer essa correção fazem de Thanos o arquétipo do revolucionário.


domingo, 17 de fevereiro de 2019

Brexit, filme da HBO

Por André,




Assisti "Brexit", produção própria da HBO sobre o principal evento político do Reino Unido em décadas.

A narrativa é construída a partir da perpectica de Dominic Cummings, encarnado por Benedict Cumberbatch (Dr. Estranho).

O enredo, como se esperaria de uma produção da HBO, é maniqueísta e relata remainers como bonzinhos que lutavam pela economia e pelos empregos com argumentos racionais e leavers como sentimentalistas - curioso, não? Quem leu "Podres de Mimados: as consequências do sentimentalismo tóxico bem sabe quem investiu no sentimentalismo como moeda política nos últimos tempos - irracionais e trapaceiros. Mas acho que quem se interessa pelo assunto pode ver o filme.

Cummings foi uma espécie de Bannon/Alinsky do Brexit. O estrategista amoral e clinicamente cirúrgico que foi atrás da estratégia da vitória. Só que agiu bem mais por trás das cortinas que um Bannon, por exemplo. Tanto é que mesmo eu, que acompanho o debate sobre o Brexit desde 2015, antes do referendo, só vim a conhecê-lo bem depois.

Me parece que muita gente ainda não compreendeu (ou só lembrou dele depois de levar um belo by-pass) um fato elementar: a política, MUITO ANTES DE 2016, é dirigida no andar de cima por forças obscuras, por lobismo de grupos de interesse e jogos de poder. TODOS sempre fizeram isso (de todos os lados possíveis do espectro), apenas com recursos diferentes, limitados pelo tempo. Nesse aspecto, o filme contribui para essa impressão, embora possua diálogos que ao menos tentam esclarecer isso.

A novidade substancial dos anos recentes é o uso das redes sociais para a mesma finalidade da política de sempre. Isso colocou o foco do lobismo menos em figurões e em parlamentares, por exemplo, e mais nas pessoas que precisam ser convencidas a ir votar ou a escolher lados e que estavam acostumadas a ser absolutamente esquecidas e foram colocadas na rota das decisões pela descentralização da informação via redes sociais.

Digo isso porque o filme sugere, é claro, que o resultado foi manipulado via redes sociais, via hackers, via tecnologia. Nesse sentido, a aplicação política da tecnologia é como a aplicação de qualquer tecnologia: é amoral, a virtude de sua aplicação depende do aplicador. A esquerda com as mesmas armas na mão faria o mesmo uso ou pior.

It's the new politics, folks. E está só começando. A esquerda que dominava o debate político ainda não está conseguindo lidar com isso adequadamente, it's the new era. O afegão médio está de volta à arena.

sábado, 1 de julho de 2017

Breves comentários sobre Mulher Maravilha

Por André,


- O filme da Mulher Maravilha, cercado por polêmicas, foi, em meu modesto ver, o melhor de uma trilogia imaginária (Homem de Aço, Batman vs Superman).

- Evidente que, por se tratar de uma heroína mulher, muitos querem emplacar a narrativa de que o filme seria "feminista", fato negado por sua diretorA. Embora a narrativa possa até ser relida como uma espécie de feminismo soft, não há nada explícito que garanta isso, especialmente nos atos da própria Mulher Maravilha, que não re rebela contra o "mundo dos homens" de maneira odienta em momento algum (e, é claro, trabalha para derrubar o Deus da Guerra que age por meio, também, de uma mulher "empoderada", uma cientista brilhante).

- Muitas justiceiras sociais sequer tentarão emplacar a ideia que o filme foi feminista por causa da belíssima Gal Gadot. Ela cometeu um pecado imperdoável pra essa gente seletiva na defesa das minorias: nasceu em Israel e serviu no exército de seu país, cumprindo a obrigação de qualquer cidadão. Além, é claro, de não ter dado mostras de ser feminista.

- Ares, o Deus da Guerra, pode ter sido considerado um vilão meia bomba por alguns. Mas talvez essa seja parte da ideia, para ilustrar que o mal nem sempre aparece nas suas expressões mais carrancudas (Ludendorff), às vezes, as expressões mais carrancudas são a segunda mão do mal disfarçado de alguma forma mais light, e COM UM DISCURSO PACIFISTA. Uma possível leitura a ser feita aqui é que Ares se vende como as principais peças de propaganda globalistas (ONU, UNESCO, União Europeia etc): pacíficos na casca, belicosos na essência. Prometendo e supostamente fomentando a paz para a plateia, mas germinando a guerra por trás das cortinas para, depois, vender-se como solução para o caos por eles próprios criados demandando mais e mais poder.

- As diversas referências simbólicas ao cristianismo, presentes nos outros filmes da trilogia seguem presentes em Mulher Maravilha (http://catholicexchange.com/lady-real-wonder-woman).

- A crítica está, nesse filme, entre dois pontos que não sabe qual aderir: investir na ideia do filme ser feminista, a contragosto da diretora e mentir descaradamente (não é tão difícil e muita gente tentou), falar mal do filme e revelar seu antissemitismo - uma cadela sempre à espreita pronta para latir -. ou reconhecer que o filme é bom, a despeito dos fatos anteriores.


domingo, 13 de novembro de 2016

Chuck Norris versus Comunismo

Por André,


Acabo de assistir o documentário "Chuck Norris versus Comunismo", peça que relata a vida sobre a ditadura comunista de Ceaucescu na Romênia e como parte do suspiro de sobrevivência das pessoas vinha da possibilidade de assistirem filmes "ocidentais" clandestinamente em suas casas.

O filme nos traz muitos insights: amantes ocidentais do comunismo são imbecis imorais; atividades que nós consideramos triviais se tornam absolutamente revolucionárias sob a cortina de um totalitarismo; não tivemos ditadura no Brasil; o imaginário das consciências individuais é a arma mais poderosa do mundo por, entre outras coisas ser, no limite, impenetrável. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Brevíssimas notas sobre Batman vs Superman

Por André,


A crítica é chata. Não gastei muito do meu tempo lendo as críticas da "crítica". Ela não importa há muito tempo. Dos comentários lacônicos e insignificantes do Edwald Filho e da análise governista do Pablo Villaça, a crítica de cinema sofre do mesmo mal de toda "crítica": não crítica nada, vende bandeiras. Nem sei se é o caso de Batman vs Superman, mas o fato é que a crítica só tem errado: crítica de arte, crítica literária e a crítica de cinema não fica de fora.

Pois bem:

- pelo que sei, a crítica reclamou do Lex Luthor. Achei que do ponto de vista psicológico (i.e., psicótico) esse foi o melhor Lex Luthor; ele transpirava loucura. Porém, a juventude me incomodou (compreensível, mas incomodou).

- Henry Cavill foi MUITO BEM. Vi Chistopher Reeve (literalmente) pelo menos duas vezes (uma delas quando voa em direção ao monstro de Krypton com a estaca de kryptonita em mãos); também tive esses vislumbres n'O Homem de Aço. Diversas vezes no filme ele teve que fazer a expressão de poucos amigos do Superman e considerei que ela foi feita com sucesso (embora o Superman seja um herói cuja moralidade é inflexível, ele não pode sequer PARECER frouxo, particularmente quando necessário).

- sou um fã incondicional do Superman. Minhas análises das franquias são tão benevolentes quanto as análises do socialismo feitas pelos livros do MEC, tanto é que gosto do Brandon Routh em Superman Returns. Sério. Isso posto, saí do cinema muito simpático ao Batman, nunca fui grande fã, mas minha simpatia vinha e vem numa crescente: milionário filantropo superinteligente que mostra as vantagens da justiça privada (bom), O Cavaleiro das Trevas Ressurge (Bane: o marxista) e agora, Batman versus Superman, entrei odiando e saí com os copos promocionais dos dois.

- as "três mortes" do Superman foram bem interessantes, gostei da costura da trama: quando o Batman tem a chance de cravar a estaca de kryptonita no peito dele, a bomba atômica do governo e o ataque do monstro de Krypton.

- Não sou leitor assíduo de HQs, mas segundo estes, o filme foi bastante fiel; isso é uma qualidade e tanto, penso eu.

- Houve aqueles que reclamaram da ausência de "piadas" no filme. Coisa de análise adolescente. Sempre achei essas piadas, desenhadas exatamente pra causar aquele riso coletivo no cinema uma besteira. Até achei que houve algumas delas: quando o Batman salva a sra. Kent e ela se refere a sua capa ou quando Batman e Superman perguntam com que a Mulher Maravilha está.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Precisando renovar seu desprezo pela revolução e pelos revolucionários? Assista o filme "A Cidade Perdida"

Por André,


Está ficando "velho" e too soft com a revolução e revolucionários?

Assista o belíssimo filme "A cidade perdida" de e com Andy Garcia para repor todo seu maior e mais profundo desprezo (por alguns segundos eu pensei em dizer "ódio", mas o ódio pode e costuma ser irracional, então o mais apropriado é desprezo) por revolucionários e revoluções de toda sorte.

Além disso, o filme nos rememora um outro fato inevitável sobre as revoluções: elas são todas iguais! Todas dependem de uma massa de ingênuos rendidos a uma retórica sentimentalista (claro que de muitas armas e sangue também, mas confesso que não vejo a possibilidade de uma revolução sanguinária vingar sem o apoio formal de uma massa ignara).

Há dois tipos de apoiadores de revoluções: idiotas úteis e canalhas.

Che Guevara foi um boçal assassino e totalitário.

Todo revolucionário crê agir em nome de alguma "força maior" e inexoravelmente de acordo com a máxima "os fins justifica os meios".

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Pondé sobre o filme "Crimes Ocultos" e o problema de caráter da esquerda

"Não há crimes no paraíso", por Luiz Felipe Pondé

Folha de São Paulo


O filme "Crimes Ocultos" (em cartaz nos cinemas), de Daniel Espinosa, deveria ser visto por todos os alunos que escutam bobagens da boca de seus "professores de humanas" sobre o socialismo.

Antes, um reparo. Estou longe de achar que a sociedade de mercado seja um docinho de coco. Pelo contrário, concordo com o sociólogo americano Daniel Bell em seu primoroso "The Cultural Contradictions of Capitalism".

Nessa obra, Bell deixa claro como as virtudes que produziram o capitalismo -a saber, autorresponsabilidade, contenção do desejo imediato, poupança, dignidade pensada como fruto do trabalho pessoal- estão em crise por conta de toda uma geração mimada, narcisista e consumista que nasceu da própria riqueza capitalista.

Entretanto, a sociedade de mercado continua sendo a única forma conhecida de produção de riqueza social e de preservação da autonomia individual, ainda que não devamos ser os otimistas ingênuos que acham que o mercado "cura" tudo.

Tampouco a direita fascista, homofóbica, escrota, serve. É um lixo. Dito isso, vamos ao que interessa.

"Crimes Ocultos" é uma aula de história sobre a URSS, tão necessária contra as mentiras dos socialistas brasileiros. Na época, anos 1950, a esquerda já era mau caráter e já mentia sobre a URSS. Mas quero pontuar uma questão específica que aparece no filme.

"Crimes Ocultos" narra a história de um oficial da polícia política socialista, a versão comunista da Gestapo, que investiga um serial killer que matava crianças. 

O governo stalinista negava que existissem homicídios na URSS porque isso era coisa do mundo podre capitalista.

Sendo assim, os superiores do herói recusam a investigação sob a rubrica stalinista de que "não há crimes no paraíso", leia-se, no socialismo. Ao final, fica claro como um serial killer era quase "um detalhe menor" no absurdo que era o mundo socialista real.

Qual a questão específica que quero pontuar no filme? É a seguinte: a "versão oficial" que o policial é obrigado a aceitar ao final, para criar um departamento de homicídios na polícia, é que todo e qualquer homicídio na União Soviética seria fruto da contaminação do paraíso socialista pela política do mundo capitalista. 

Não fosse por essa contaminação, não haveria crimes no paraíso socialista.

Voltemos ao Brasil hoje. Não vou falar de política propriamente dita, vou falar da modinha que muitos psicanalistas e associados hoje em dia pregam por aí, a saber, que "a verdadeira clínica é a política".

Ou, o que é a mesma coisa, que a diagnóstica, a ciência que organiza os padrões etiológicos (causas) da psicopatologia, deve ser mudada para que aspectos políticos e sociais tenham espaço na determinação dos sintomas.

Sei que o negócio é complicado, mas, trocando em miúdos, é o seguinte: os sintomas seriam fruto da ordem social injusta do capitalismo. Se mudarmos essa ordem via uma política socialista, muitas doenças desapareceriam.

Ou seja, segundo esses neostalinistas (envergonhados de confessar seu amor bandido pela sociedade totalitária), com o socialismo não teríamos pânicos, impotências, depressões e quadros afins.

Gostaria de ver uma conversa entre Slavoj Zizek (o guru dos neostalinistas tupiniquins), grande representante desse lacanismo meia boca que põe a "culpa" da psicopatologia no capitalismo, e os superiores do policial em "Crimes Ocultos".

Dizer que homicídios são fruto da sociedade doente capitalista, sujando o paraíso socialista, é a mesma coisa que dizer que a verdadeira clínica é a política.

Stálin dizia que o capitalismo gera assassinos, a trupe neostalinista afirma que o capitalismo gera quadros clínicos que noutra ordem deixariam de existir.

Ou seja: a política socialista cura o mundo das psicopatologias capitalistas.

Num mundo em que essa trupe mandasse ("sem porcos capitalistas e indústrias farmacêuticas"), quando deprimidos e afins continuassem a aparecer, eles iriam por a culpa em traidores que mantinham sua vida "promíscua" com as desigualdades do capitalismo. O problema da esquerda não é político, é de caráter.

domingo, 28 de setembro de 2014

Filme: Stalin, a personalidade de um tirano

Por André,




Uma obra de arte no relato da vida de um psicopata: a paranoia de ser espionado, a moralidade flexível o suficiente para fuzilar os próprios companheiros, a coragem para fazer o próprio povo passar fome.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Hannah Arendt, o filme

Por André,



Pessoal, quando assisti o filme ele estava disponível no youtube, agora parece que não está mais, então carreguei o arquivo na minha pasta do Novo Mega

terça-feira, 8 de abril de 2014

A vida sob uma polícia política: "A vida dos outros" (2006)

Por André,


Filme deveras curioso para ilustrar a vida sob um governo que mantém uma polícia política, no caso a Alemanha Oriental.

Algo curioso de ser observado e que venho notando na mentalidade revolucionária: a moralidade flexível, de um lado, e intransigente com "suspeitos" insuspeitos (inclusive socialistas). A personagem central do filme, grampeada pela polícia governamental, é um dramaturgo socialista e em nenhum momento do filme este se mostra um traidor da causa. O critério para persegui-lo é totalmente subjetivo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Filmes que assisti na escola ao longo do ensino médio

Por André,

- Quanto vale ou é por quilo?

- Entrevista com Milton Santos;

- Surplus;

- Daens: um grito de justiça;

- A Revolução não será televisionada;

- Uma verdade inconveniente;

- Ilha das Flores;

- Super size me.

Como dizem os americanos: does this ring the bells on you?

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A política em "Batman - The Dark Knight Rises"


Muita especulação sobre a política neste filme, mas o caráter conservador e antirrevolucionário do roteiro é inquestionável, a quantidade de referências que reforçam a ideia não dão margem a dúvidas: Bruce Wayne é um conservador e Christopher Nolan mais ainda. Um resumo do que é a política em “Batman – The Dark Night Rises”:

  • A figura central é o herói, um bilionário, que não tem superpoderes. Seu dinheiro, sua inteligência, seu caráter incorruptível e seus valores morais são suas armas contra o mal. E o mal existe.

  • Os problemas começam com as empresas do herói não dando lucro, o que tem consequências inesperadas e danosas para os necessitados. Crianças em orfanatos ajudados pela Wayne Enterprises enfrentam dificuldades e isso faz com que jovens sejam mandados às ruas (e esgotos). É o lucro privado de Wayne que ajuda essas crianças, não o Estado. Sem lucro, sem filantropia, mais crianças abandonadas nas ruas.

  • O vilão Bane vem de um ambiente quase idêntico a uma visão ocidental (ou eurocêntrica, para usar um termo que a esquerda adora) de lugares inóspitos como o Afeganistão, com suas cavernas e desertos, seus ditadores que ordenam castigos cruéis e torturas até para os próprios familiares.

  • A vilã principal usa como plano para destruir o ocidente um discurso pseudo-ambientalista, contra energia fóssil e a favor de fontes de energia sustentáveis, uma ótima máscara, politicamente correta, para alguém com dinheiro e péssimas intenções.

  • Bane é um terrorista que quer espalhar o caos com bombas, mas enquanto o Coringa do filme anterior é um agente do caos isolado, Bane é ideológico, tem ideias, e é um “mobilizador” de massas, quase um populista. Bane cria uma espécie de revolução jacobina misturada com Occupy Wall Street, “99% contra 1%”, que é de um didatismo sem igual sobre como nascem e o que são essas revoluções na verdade.

  • Bane começa sua revolução abrindo as portas da “Bastilha”, cujos presos são chamados de oprimidos e convidados a se vingar dos “opressores”, na verdade pessoas comuns usadas como bodes expiatórios.

  • Os revolucionários invadem ambientes luxuosos como faziam os jacobinos, criam tribunais de exceção como os jacobinos e dão sentenças sumárias como eles. E o primeiro a morrer é o rico que ajudou Bane. Ele pede a ajuda de Bane no momento do julgamento, achando que por ter dado dinheiro a ele antes da revolução isso salvaria seu pescoço, como todo rico de miolo mole pensa ao dar dinheiro para revolucionários. Churchill dizia que é como alimentar o crocodilo achando que será devorado por último.

  • Os ocupantes da bolsa de valores são jovens barbudos com roupas de universitários, quase copiados do Occupy; é o Occupy Gottham City.
  • Todo discurso de Bane é baseado em guerra de classes e ódio contra os ricos. Ele se coloca como um libertador contra os opressores para que o “povo” tome conta da cidade. Ele finge que o povo terá o controle para dominá-los.

  • Gottham estava em paz pela “Dent Act”, uma lei de exceção eficiente, feita pelos bons, bem intencionada, mas baseada numa mentira. O comissário Gordon pensa em contar a verdade sobre quem era Harvey Dent, mas fica em conflito porque sabe que a mentira funcionou para unir a cidade no combate ao crime: “metade dos criminosos de Gottham estão na cadeia por causa dessa lei e a morte de Harvey não foi em vão”. É quase um toque de Nolan para seus amigos conservadores: “vocês estavam certos, mas da próxima vez não usem de justificativas falaciosas, vidas foram salvas por conta do combate firme e sem tons de cinza contra o mal, era o que se tinha que fazer, mas mentindo vocês vão macular sua autoridade moral, em algum momento isso será usado contra vocês.”

  • Os inocentes úteis revolucionários, a serviço dos vilões, quebram a bolsa de valores, batem e matam os ricos, saqueiam suas casas, e o resultado é uma sociedade caótica e que está a caminho da destruição. Quem continua ajudando a população, mesmo que ela não saiba, é o rico altruísta retratado por Bruce Wayne. Depois do movimento revolucionário, Gottham vira uma ilha que ninguém pode entrar ou sair, aterrorizada, sem liberdade e dominada por um pervertido ideológico e assassino, como Cuba.

  • A verdade sobre Harvey Dent cai nas mãos dos vilões e é usada para causar a desunião, dúvidas e divisões do lado dos heróis. Gordon leva um puxão de orelha do jovem policial idealista, reforçando as críticas de Nolan.

  • A cena do estádio é o 11 de setembro. Uma criança cantando o hino americano num momento de pura inocência é tocante, inspirador, é o “american way of life” retratado em todas as cores e sons, algo que toca até Bane. Mas logo embaixo da “superfície”, do que o povo sabe ou vê, está o perigo. O preço da ignorância sobre o mal é a própria morte.

  • Bane manda as pessoas voltarem às suas casas e depois “assumir o controle da cidade”. Ele planeja destruir a cidade, mas antes quer dar uma sensação ao povo de que aquilo era um ato libertador.

  • Bane declara publicamente que dá o detonador da bomba a um cidadão comum, mas é mentira, revolucionários não fazem isso, são sempre eles, os vilões, que estão no controle.

  • O lado “do bem” é representado, além do bilionário moral, pela a polícia e pelas forças armadas do país, as forças da ordem, e não pelo prefeito e pelo presidente, políticos que fazem concessões demais ao populismo. O vilão é o estrangeiro anti-americano criado no deserto que quer fazer atentados terroristas e espalhar morte e terror nos EUA.

  • Os “cavaleiros das sombras” querem “reequilibrar o mundo” destruindo o ocidente como todo esquerdista anti-americano. O grupo não é assaltante, é ideológico. Alfred diz sobre Bane: “ele não é um bandido comum, vejo crença nele”.

  • Bane diz ao cientista russo que, pelo bem dos filhos dele, seu plano tem que dar certo. Seu plano terrorista para destruir os EUA beneficiaria a próxima geração de russos.

  • O presidente não negocia com terroristas, mas também não os confronta diretamente, ele acaba aceitando os termos dos terroristas mesmo sem reconhecer isso publicamente, uma crítica mitigada ao poder constituído que não combate o terror.

  • Batman é finalmente convencido de que ele precisa fazer uma guerra para vencer o mal, ele usa essa palavra literalmente. O Batman que não mata e não usa armas morreu, nasce o Batman que mata e faz guerras para combater terroristas e o mal.

  • A Mulher-Gato tem sentimentos e dúvidas morais que acabam com sua ideia inicial sobre ser “Robin Hood” e ela se redime, inclusive casando com Batman no final. Ela é a americana revolucionária que, ao perceber no que dá se envolver com isso, cai na real e volta atrás, se juntado aos que defendem seu país.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Clark Kent leitor de Platão: resenha de 'O Homem de Aço'

Por André,

Jovem Clark lê Platão. Em busca da Justiça?

Uma nova versão do herói favorito de muita gente - O Super-homem - teve seu lançamento oficial na última sexta-feira (dia 12) com o título de "O Homem de Aço".

Pode parecer óbvio para os mais atentos, mas não a todos, que a questão essencial da história do Superman é moral. As implicações de ser invencível ou ter super-poderes já foram objeto de análise dos filósofos; o "anel de Giges" (que tornava seu usuário invisível) descrito na República de Platão é um exemplo disso. Superman é a representação maior de um ícone moral. Pois bem, esta versão do Homem de Aço nunca esteve tão filosófica. Como diz Jonathan Kent, Clark é a resposta para as perguntas "o que é ser humano?" e "estamos sozinhos no universo?".

Sem dar muitos spoilers, quero registrar minhas impressões acerca do filme aqui:

O filme é EXCELENTE em diversos sentidos, se você quer ter emoção total e ainda não viu o filme, assista e volte para ler minha resenha depois, pois garanto que vale a pena. A produção de Christopher Nolan (nosso reaça de Hollywood) já inspirava confiança nos fãs antes do lançamento e as expectativas foram confirmadas, o filme é um sucesso (embora, é claro, você certamente encontrará críticas contundentes por aí, como tudo que mexa com os brios de um número grande de fãs).

O início da película dá um relato completo da destruição iminente de Krypton e do envio de Kal-el para a Terra, bem como do conflito entre Jor-el e Zod (duas linhas comparativas podem ser estabelecidas - dissociadas uma da outra: uma entre o filme e a mística cristã, a que me referirei depois e outra com Superman II, dirigido por Richard Lester, meu favorito do quarteto de Christopher Reeve). O relato (destruição de Krypton e envio de Kal-el para a Terra) tem seus 20 minutos, com mais 20 ou 30 de "encontro da identidade".

Há diferenças no filme que a primeira vista me assustaram, mas que avaliei positivamente após reflexão: o relato da adolescência e vida de Clark Kent é apresentado de forma intercalada, flashes entre a adolescência e a busca por sua identidade quando adulto; apenas após isso, um retorno para casa e um sombrio recado entregue para toda a Terra dado por Zod vem à tona o conflito com o general supremo de Krypton. As imagens do filme são futurísticas e relativamente sombrias (coisas que entendo como qualidades, embora Krypton pudesse ser menos cinza).

O motivo da desavença entre Zod e Jor-el? O general deseja promover uma "limpeza étnica" em Krypton, almejando purgar o planeta das raças que o levaram à destruição. Ambos podem, inclusive, ser considerados como exemplos de "reis filósofos", ambos homens racionais com visão ampla e ideal de defesa da pátria, um pela via da guerra (Zod) e outro pela via da ciência (Jor-el).

Toda criança de Krypton era concebida de acordo com o papel que iria cumprir na sociedade: trabalhador, guerreiro ou líder (distopia eugênica de inspiração darwinista social).

Super-homem nunca esteve tão politicamente incorreto: 

- Diversas referências ao Evangelho (o filho do homem que vem à Terra para guiar e salvar os humanos, "você será como um deus para eles", o general Zod o enfrenta aos 33 anos, o propósito de Kal-el é nos guiar e oferecer esperança). Embora as ligações já pudessem ser feitas desde o princípio (confesso que cheguei a essa conclusão pela primeira vez n'O Retorno, quando Superman observava a Terra).

- Superman luta por um senso moral objetivo: a moral do General Zod tem de ser derrotada e eliminada.

A fala de Faora-Ul - braço direito de Zod - num momento de conflito com Superman, é significativa:

"Na verdade, você tem um senso de moralidade, ao passo que nós não temos. Isso nos confere uma vantagem evolutiva."

- O crime cometido por Jor-el, pai de Kal-el, foi tê-lo gerado numa relação papai-mamãe tradicional e não dentro do esquema eugênico vigente em Kripton por milhares de anos. Zod pode ser tido, inclusive, como a mente organizadora do futuro distópico, da ditadura genética descrita, por exemplo, por Huxley em Admirável Mundo Novo.

- Superman tinha, e manteve em sua versão repaginada, uma namorada do sexo feminino (que assim nasceu e assim permaneceu).

Todo o filme soa nostálgico para a humanidade que, atualmente, está sem ideal de Justiça, sem ideal de moralidade objetiva, sem qualquer referência. Se um herói surgir amanhã, não teremos qualquer critério para defini-lo como herói ou como vilão. Os perigos dessa "zona cinza", bem como a denúncia dos riscos de uma sociedade tecnocrática, podem ser vistos como a mensagem transmitida por Christopher Nolan, Zack Snyder e David Goyer.


Post Scriptum

O lançamento mundial do DVD foi esta semana e tive a chance de rever o filme. Vale um novo adendo:

Por que o Super-homem dos cinemas nada tem a ver com o Super-homem de Nietzsche?  

Para mostrar que o conceito nietzscheano nada tem a ver com os heróis do cinema basta, em primeiro lugar, recorrer à própria semântica. A tradução da palavra Übermensch - palavra usada por Nietzsche para exprimir seu conceito - como "super-homem" é equivocada. O Übermensch é, como diz o próprio Nietzsche no início de seu Assim Falou Zaratustra algo além do próprio homem (daí muito tradutores optarem por "além-do-homem" em vez de "super-homem") - "o homem é o elo intermediário entre o animal e o além-do-homem"; da mesma forma que o homem está para além do animal, o super-homem está para além do homem, supera o que há neste último.

Ao passo que o super herói dos quadrinhos não é algo além do homem, mas sim um homem com tudo de bom que pode haver num ser humano de forma potencializada. Não é um homem melhorado a ponto de não ser mais homem, é um homem par excellence, é o homem naquilo que lhe há de melhor.

E a cena final do filme, do conflito entre Kal-el e Zod, é a prova definitiva: Superman lamenta ter de matar Zod, Superman lamenta ter matado Zod. Ele não está acima ou além da moralidade ("do bem e do mal"), ele crê e sabe da existência de uma moralidade objetiva a que ele próprio deve prestar respeito - mesmo quando a realidade lhe impõe o dilema de matar um vilão assassino ou assistir a morte de inocentes -, uma morte deve ser lamentada. Super Homem não é um "revolucionário do bem" que relativiza imoralidades "a depender do contexto". O assassinato é um fato objetivamente imoral, como prescreve o Tao de que falava C.S. Lewis em seu "A abolição do homem" e nem o Super-homem está autorizado a desconsiderar esta verdade objetiva da realidade.


Guilherme Freire, do Círculo de Estudos Políticos, também fez comentários preciosos sobre o filme:

sexta-feira, 5 de julho de 2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pondé: "Amando uma mulher inteligente"

Hoje é Carnaval. Carnaval é um saco. Morei muitos anos na Bahia, falo de cátedra. Não existe festa mais autoritária do que o Carnaval e a devastação que causa em nome de sua alegria barulhenta. 

Mas gosto não se discute, lamenta-se. Por isso, hoje vou falar de coisa mais séria; vou falar de amor romântico e de um filme maravilhoso para quem gosta do tema e também de filosofia: "O Amante da Rainha, filme dinamarquês dirigido por Nikolaj Arcel, com Mads Mikkelsen (o amante) e Alicia Vikander (a rainha) no elenco. 

Você acredita no amor romântico? Dito assim parece uma pergunta idiota. Alguns dirão que pessoas maduras sabem que o amor não existe. Outros, que é diferente de paixão, sendo esta passageira, enquanto o amor seria algo mais sólido, dado a parcerias de longa duração. 

Nada mais pernicioso para um casamento de longa duração do que a expectativa de amor romântico depois de um certo número de anos, diriam os "maduros". Expectativas assim seriam "coisa de mulher", o que também é uma besteira. Homens sonham com momentos de paixão com suas mulheres no dia a dia. "Ter uma mulher" significa exatamente isso. 

Supor que os homens são animais de cerveja, futebol e sexo é não entender nada sobre os homens. Pensar que os homens só pensam em cerveja, futebol e sexo é a mesma coisa que pensar que mulher é um ser menos inteligente. 

A suposta simplicidade masculina é tão falsa quanto a também suposta irracionalidade feminina.
O tema encanta, apesar de alguns teóricos afirmarem que o amor é uma mera invenção da literatura europeia medieval (como o Papai Noel), universalizada, de modo equivocado, pelos autores românticos dos séculos 19 e 20. 

Digo "equivocada" porque, para os medievais, nem todo mundo seria capaz de viver ou suportar tal forma de amor avassalador. Já para os românticos, modernos, todo mundo poderia viver essa forma de encantadora doença da alma. 

Eu não acredito que o amor romântico seja uma invenção da literatura, mas concordo com os medievais: muita gente passa pela vida sem experimentá-lo. Uma pena, pobres miseráveis... 

A narrativa medieval descreve essa "maladie de la pensée" (doença do pensamento, do espírito), dito no original provençal (um tipo de francês comum na Idade Média), como um modo de obsessão que arrasta o homem e a mulher, fazendo com que fiquem presos no desejo de estar um com o outro e atormentados quando não podem se encontrar, quando não podem se tocar. 

Segundo os medievais, ele ficará horas imaginando o que ela estaria fazendo, pensando, sonhando, com o desejo de penetrar em todos os segredos de sua alma e de seu corpo ("Tratado do Amor Cortês", de André Capelão, publicado pela editora Martins Fontes). 

A estrutura ideal supõe o amor impossível, no qual a morte espera os dois ou um dos dois --e a desgraça do que sobrevive. Quando o amante é amigo fiel do marido dela, a estrutura dramática encontra seu modo mais perfeito de impasse. 

Dirão os especialistas que o amor romântico cantado nos séculos 18 e 19 fala da destruição de qualquer forma de vida que não a interesseira, típica da burguesia e sua alma de "merceeiro", como diria Marx. 

"O Amante da Rainha" tem exatamente essa estrutura. O amante é médico e confidente do rei e se apaixonará enlouquecidamente, e será correspondido, pela rainha. 

Esse médico, chamado de "o alemão" pelos dinamarqueses (o personagem é alemão), é um iluminista (leitor de Rousseau e Voltaire) que crê na superação da barbárie pelo uso da razão e da ciência. Ela também. 

O amor dos heróis não é apenas construído a partir de "sentimentos" mas, também, do encontro entre suas almas inquietas com o mundo a sua volta. Ambos são filósofos de uma época em que a filosofia se revoltou com a estupidez do mundo (o filme se passa na segunda metade do século 18). Aliás, a filosofia sempre se revoltará, porque o mundo será sempre estúpido. 

Além de belas pernas e belos seios, a delícia de partilhar inquietações filosóficas com uma mulher que amamos pode ser uma das maiores formas de amor romântico que existe. Infeliz aquele que não sabe disso.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Filme "Mar Adentro", do espanhol Alejandro Amenabar e o tema da eutanásia

Por André,

Oscar de melhor filme estrangeiro em 2005 - Mar Adentro

Ramón (Javier Barden) é um paraplégico que sofre com sua condição há cerca de 28 anos. Sua vontade é por fim a seu sofrimento por meio da eutanásia. Sua condição o põe numa situação diferente do suicida comum, estar totalmente paralizado do pescoço para baixo faz com que ele depende de outras pessoas para pôr fim à sua vida.

Quem está em seu caminho? O estado (doravante grafarei o vocábulo com 'e' minúscula) espanhol. Nenhum hospital público se disporia a fazê-lo, seus familiares variam de posição e envolver um civil comum de forma clandestina pode fazer com que o ocorrido seja classificado como homicídio. Uma associação, chamada "morrer com dignidade" entra numa cruzada legal para atender o pedido de Ramón. O lema (corretíssimo, diga-se de passagem) é "viver é uma opção, não uma obrigação).

Embora eu titubeie um pouco quanto a questões polêmicas como por exemplo o aborto, no que diz respeito à eutanásia/suicídio minha posição é clara: ninguém mais possui a vida do indivíduo, nem o estado, nem outra pessoa e tampouco algum ser sobrenatural. A vida, por definição, pertence ao indivíduo, que, em posse plena de suas faculdades racionais tem o direito de pôr fim a ela, caso essa seja sua vontade.

Nas palavras do advogado do filme: qual o sentido de um estado que supostamente é laico e respeita a propriedade privada (sua vida é sua propriedade), não lhe conceder o direito de pôr fim à própria vida?

Leonard Peikoff (filósofo objetivista) sobre eutanasia e suicidio:


sábado, 26 de janeiro de 2013

João Paulo - O que nos espera (Amour)‏

Do Estado de Minas,

Todos os homens são mortais. Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal. O silogismo mais conhecido da história da lógica atravessou os séculos e parece que ainda não foi compreendido em sua essência. As pessoas entendem a concatenação interna do argumento, as duas premissas e a conclusão, mas parecem que denegam o sentido. Ninguém quer saber da morte pessoal. A de Sócrates, tudo bem, mas a própria morte é um tabu que paralisa a inteligência e a emoção durante a maior parte da existência. Apenas em momentos muito especiais somos atravessados pela certeza da aniquilação.

O filme Amor, do diretor austríaco Michael Haneke, possibilita um desses instantes de amarga consciência. Por isso tem sido tão falado, discutido e até mesmo evitado. Há muita gente que, sabendo da história, não quer ir ao cinema. A obra de Haneke não perdoa, machuca. Cineasta da crueldade, no limite do sadismo, ele faz questão de explicitar regiões que ficariam melhores silenciadas, como a capacidade de fazer o mal que parte do grupo e a perversão sexual que nos habita. Com Amor ele chega ao limite mais extremo e nos oferece, sem redenção, uma certeza mais dura que a morte: o morrer.

Depois de ganhar vários prêmios e ser indicado a outros, inclusive o Oscar nas categorias de melhor filme e melhor filme estrangeiro (como a mostrar a ambiguidade de ser ao mesmo tempo universal e singular), Amor se tornou um tema de reflexão, um objeto artístico incontornável, que não pode ser reduzido às categorias estéticas sem deixar vago o espaço que cobra em termos de filosofia e meditação intelectual e política. 

Não basta falar do roteiro, das estupendas interpretações de Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva e Isabelle Huppert, da direção de Haneke. Fica sempre de fora o tema da morte e suas ligações com vários fios que partem da existência em direção ao nada: a dor, o abandono, as perdas, a carência, a solidão. Como a remarcar as parcas certezas que nos definem, Amor primeiro tira o sentido da vida, depois acrescenta a perda da dignidade do espírito para completar com pura aniquilação da carcaça. 

É claro que essas reflexões vão sendo construídas por meio de elementos estéticos e de pensamento, o que torna o filme uma obra de arte, mas a materialidade da mensagem parece por vezes se destacar do filme para atingir diretamente a consciência. Há níveis diferentes de compreensão que cercam a experiência de assistir a Amor. Talvez essa via, tateante e complementar, ajude o espectador a se aproximar do filme.

Fronteira 

A primeira sensação é de desterro. Amor é um filme sobre outro mundo, ao qual não fomos convidados a entrar. A sensação de acompanhar, como um voyeur, a decadência física e intelectual da personagem de Emmanuelle Riva parece confirmar a exterioridade da morte, sempre uma experiência do outro. Naquele mundo não nos cabe adentrar. O casal, tão logo percebe o caminho que a eles se abre de forma incontornável, vai se afastando das outras pessoas. No território da morte não há visitantes.

O casal, em seu belo apartamento em Paris, sem luxo mas com marcas de longa convivência com seus cantos prazerosos e áreas desabitadas, vai se desapegando dos vizinhos, dos amigos, dos alunos de piano e até da família. Para esperar a morte com sua força totalizante, nada pode interferir, nem mesmo as demandas do mundo real. O personagem de Jean-Louis Trintignant, numa postura quase ciumenta, chega a vedar o acesso à mulher, recusando à filha o direito de partilhar de uma experiência que vai se tornando cada vez mais sua.

O roteiro, com suas elipses, vai também esvaziando o sentido, como se o filme passasse a ser embalado por uma mente em processo de dissolução. Se o primeiro contato com a fraqueza da mulher é cercado de raiva e estranhamento, à medida que as perdas se avolumam a narrativa se torna afásica, vazia, à cata de sentido num mundo habitado por vazios da memória. Quando o apartamento do casal se torna o mundo por antonomásia, o único contato com o exterior é feito por uma pomba, que voeja pelo apartamento com a inconsciência típica das pombas. 

A interpretação dos atores ganha destaque por motivos artísticos e extracinematográficos. Poucas vezes se viu no cinema um trabalho com tanta potência na expressão da fraqueza. Há uma entrega absoluta. Emmanuelle Riva, a inesquecível Elle de Hiroshima, mon amour, filme de Alain Resnais, de 1959, com uma beleza de impressionante dignidade, vai se desfazendo frente ao espectador, seja na tradução física de suas fraquezas, seja no desconsolo que emana de sua figura sem alma, quase só corpo, na mão de cuidadores e do próprio marido.

Jean-Louis Trintignant, rosto conhecido de clássicos como Um homem, uma mulher, Z e O conformista, está devastado e carrega, além do personagem, os sofrimentos e limites de sua própria vida. O diretor chegou a dizer que o ator pensava em suicídio quando aceitou fazer Amor. O personagem, que parece a princípio marcado por certa reserva e dureza, vai ganhando uma suavidade que não ameniza em nada a aura de dor que parece carregar. Com o tempo, ele se torna um artífice da morte, seu servidor mais denodado. 

Sociedade 

Drama pessoal, Amor é também uma história que tem consequências sociais e políticas. Não há como deixar de pensar no nosso próprio fim e de que maneira vimos nos preparando para enfrentá-lo. Haneke tem a sábia intuição de localizar sua história num cenário materialmente resolvido. Dinheiro não parece ser problema e, com isso, toda a atenção sobre a velhice e a morte recai exclusivamente sobre as pessoas e suas emoções.

No entanto, a entrada da filha em cena, com sua fúria que parece desmedida e artificial, é baseada na relação com o dinheiro. A primeira conversa que ela tem com a mãe, já bastante prejudicada pela doença, trata de investimentos e propriedades, como se este fosse o mais humano dos assuntos. Ela não entende como a mãe pode se alienar desse tema, aparentemente interessante.

Em outro momento, a demissão de uma cuidadora mostra que há limites naquele arranjo, que o outro vai se tornando cada vez mais necessário, quanto mais a solidão parece ser um destino tão desejado. Essa constatação parece apontar o dedo para o espectador, seja na antevisão de sua própria velhice, seja nos cuidados que se esperam dele quando chegar a vez das pessoas que fazem parte de seu círculo de afetos. Nessa hora, nem mesmo a grana vai nos salvar.

Não é um acaso que a palavra amor, que nomeia o filme, ganhe materialização no gesto mais violento e distante como o qual costuma ser emparelhado. No território próprio da morte, com sua solidão e silêncio, o amor se reveste de outro sentido. 


E-mail: jpaulocunha.mg@diariosassociados.com.br 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Luiz Felipe Pondé: "Intimidade"


Duas coisas me encantam: o amor e a intimidade. Sou daquele tipo de pessoa que tem preconceito contra quem não é capaz de se sujar de intimidade. 

Sou um homem de obsessões. Uma delas é que não controlamos a vida. Mas, mesmo assim, devemos tentar ter algum controle sobre ela. Ao final, sempre somos derrotados. Se pensarmos nisso, nada vale a pena. Mas, antes da morte, tudo vale a pena justamente porque nunca venceremos a batalha. Não há qualquer outra dignidade na vida além da do herói épico que combate 1 milhão de inimigos. 

Revi o maravilhoso "Revelações", com Anthony Hopkins (Coleman Silk) e a bela Nicole Kidman (Faunia Farley). O filme é baseado no romance de Philip Roth "A Marca Humana". 

Este romance guarda um segredo que não deve ser revelado, sob pena de destruir seu impacto. Ele devia ser lido por todo mundo acometido da doença do século: a superficialidade de alma. Não se combate essa doença com alguma teoria sobre a vida (como pensam os superficiais ilustrados), mas unicamente com o mais puro impasse. 

Silk é um "scholar" de literatura que tem sua vida destruída porque usa a palavra "spook" ("fantasma", mas que tem um segundo possível significado, "negro", no sentido pejorativo) para dois alunos que nunca iam à aula. 

Apesar de que ele não os conhecia, e, portanto, não sabia que eram negros, os dois alunos "se ofendem" mortalmente e, por isso, Silk sofre um processo na universidade por racismo. É humilhado por seus colegas. Pede demissão. Sua mulher morre do coração de desespero. Ele tem sua vida arruinada. A universidade, como sempre, quanto se trata de política, é o pior antro de canalhas da face da Terra. 

Intelectuais são os "comissários do povo" mais temíveis da história. Comissários do povo eram canalhas comunistas que serviam a ideologia do partido. Intelectual com ideologia deve ser evitado como uma praga. 

Sou um vocacionado à tristeza, mas resisto bem. As pessoas a minha volta sempre me salvam, mesmo que sem querer. Livros e filmes como esses me deixam felizes porque vejo neles o que vejo em mim: o sentido da vida que brota do fracasso, do impasse. 

Roth sempre narra como indivíduos são esmagados por processos históricos. Neste caso, a hipocrisia neopuritana que se alimenta do antirracismo, fruto imundo da luta pelos direitos civis nos EUA, e que corrói a universidade como uma "peste do bem". Todos devem provar que não têm preconceitos (como em outros tempos teriam que provar a fidelidade ao partido ou a pureza racial) e, por isso, as palavras e os gestos são controlados no detalhe. 

Coleman e Faunia se apaixonam. Ele, um velho deprimido ("Graças a Deus inventaram o Viagra"), ela, uma jovem pobre desgraçada, faxineira, com três empregos, que "matou seus filhos" num incêndio, espancada pelo marido, abusada pelo padrasto, abandonada pelos pais. 

Todos são contra. Seus amigos, ex-amigos, inimigos, advogado. Ele é acusado de abusar de uma mulher jovem e pobre. Mulheres mais velhas odeiam quando mulheres mais jovens se apaixonam por homens mais velhos. Ela é acusada de querer dar o golpe da barriga. Ele é culto e sofisticado, ela fala "to fuck" ao invés de "fazer amor". Vulgar, se veste mal e limpa a merda dos outros o dia todo, todos os dias. 

Mas eles têm aquele tipo de amor que brota dos restos do gozo e da intimidade suja, do afeto úmido que mora entre as pernas das mulheres. Um microcosmo no qual o materialismo vence sua pobreza. Uma vitória do corpo sobre o medo. 

O filme é uma profunda prova do fracasso do sentido das coisas. Tudo na narrativa constrói a destruição do sentido da vida. O único lugar onde Coleman e Faunia existem é na solidão gloriosa do sexo. 

Num dado momento ela chama a atenção dele para que tudo que existe entre eles é sexo. Ele insiste que não. Ela diz para ele que ele pensa assim porque não faz sexo há muito tempo. 

A intimidade física entre uma mulher e um homem é de fato uma das maiores experiência da vida. Em meio aos restos dela, no encontro entre a saliva e o sexo, podemos encontrar alguma alma que valha a pena.