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sábado, 1 de agosto de 2020
sábado, 18 de julho de 2020
quinta-feira, 30 de maio de 2019
domingo, 10 de março de 2019
A urgência de um conservadorismo não-burguês
Por André,
“A burguesia tece a corda com que será enforcada”, dizia Lênin.
Muitas vezes, por tomarmos uma clara, evidende e antimarxista postura — única possível, caímos em esparrelas marxistas sem perceber. Por exemplo: tomar valores burgueses como bons (às vezes até sacrossantos) ou como essencialmente nossos, apenas porque o marxismo é um ataque à classe burguesa. “Se os marxistas são contra, deve ser coisa boa, então é coisa nossa”.
Contudo, não é bem assim. O formalismo burguês, o apego a regras de conduta supostamente invioláveis, que logo seja possível serão utilizadas contra os burgueses pelo seu inimigo, é excelente exemplo disso. É o clássico dilema do pacifista num mundo belicoso: quer ser pacifista, seja, os tanques inimigos sequer vão passar por cima de você por último. Não adianta se apegar a regras, por mais nobres que sejam, se os que estão ao seu lado não operam por elas.
Querem exemplos disso regados a humor? Vejam boa parte das publicações da página Todo Dia Um Liberal Passando Vergonha.
Como dizia Nikolai Berdiaev acerca do espírito burguês:
“(…) um estado espiritual, uma orientação da alma para uma certa direção, um gênero peculiar de auto-consciência”.
“(…) é algo espiritual, ontológico”.
“(…) esse espírito burguês amadureceu e subjugou a sociedade e a cultura”.
“(…) A sede de poder, de bem-estar e de riqueza triunfa sobre o anseio de santidade e genialidade. As realizações mais elevadas do espírito pertencem ao passado, a espiritualidade encontra-se em declínio, e uma época de decadência espiritual traz consigo a ascensão da burguesia”.
“O burguês, mesmo quando é um ‘bom católico’, acredita somente neste mundo, naquilo que é conveniente e útil”.
“O burguês adora dar esmolas ‘nas sinagogas e nas ruas’ para ser ‘elogiado pelas pessoas’”. [Berdiaev prevendo a sinalização de virtude dos liberais].
“Há burgueses conservadores, tanto quanto os há revolucionários”.
“O burguês idolatra a vaidade e considera suas próprias ações divinas”.
“O burguês, outrora um mero tipo psicológico entre outros, é hoje o tipo social predominante”.
BERDIAEV, Nikolai. Uma nova Idade Média. Curitiba: ed. Arcadia, p. 183–197.
É urgente um conservadorismo não-burguês.
quarta-feira, 16 de maio de 2018
A vantagem do conservador
Por André,
Estava a acompanhar uma discussão sobre a situação de calamidade da Venezuela num grupo universitário no Facebook. Um país que já gerou 1 milhão de refugiados, tem uma inflação de 12.000% e os comentários dos simpatizantes, adeptos e praticantes de ditaduras socialistas diziam:
"ainda bem que no capitalismo/livre mercado não tem gente passando fome".
São tantos erros que fica difícil começar. Primeiro: nesse caso, capitalismo de livre mercado (onde existe) real concorre com socialismo real (Venezuela), a briga não é entre capitalismo de livre mercado que concorre com mundo perfeito, arco-íris, céu de brigadeiro, mar de limonada (onde ninguém passa fome). Na comparação concreta, o capitalismo leva sim vantagem, embora não crie uma ordem social imaculada.
Porém, o conservador tem uma vantagem nesse debate em relação ao liberal e ao libertário (a quintessência do "capitalismo ideológico"), que tem um compromisso não com a vantagem concreta do capitalismo sobre o socialismo, mas estão na verdade ideologicamente comprometidos, tal como o torcedor de um clube nega qualquer milímetro de realidade contraditória que evidencie que seu time não é o maior do universo.
O compromisso do conservador com alguma forma de capitalismo se dá com base na realidade testada que mostra que, a despeito de quaisquer problemas (alguns simplesmente naturais, outro solucionáveis), a experiência "capitalista" é superior à socialista, mesmo que alguns ainda passem fome. Quem promete paraíso na terra, mundo perfeito etc são RELIGIÕES POLÍTICAS, ideologias modernas e o conservador, se bem atinado com a literatura que é herdeiro, é cético e sabe que problemas de ordem social sempre vão existir. Não existe ideologia que cure todos os males e crie a ordem social perfeita.
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
Lee Kuan Yew, o homem responsável pelo que Cingapura tem de melhor e de pior
Lee Kuan Yew, o homem responsável pelo que Cingapura tem de melhor e de pior: Cingapura se tornou independente da Malásia em 1965. Na verdade, o país foi praticamente expulso da Malásia. À época, Cingapura era um país pobre e atrasado -- uma mancha estéril, improdutiva e sombria em uma das mais perigosas regiões do mundo. Com efeito, a renda per capita de Cingapura em 1965 seria equivalente à de um país como Angola ou Kosovo hoje, ajustada pela inflação. No entanto, Cingapura contava com um líder, um fundador visionário: Lee Kuan Yew. E ele tinha ideias claras sobre como modernizar o país. Sua estratégia continha os seguintes elementos: moeda forte e estável; nada de ajudas estrangeiras; empresas privadas de primeiro mundo, plenamente competitivas, operando em um arranjo de livre comércio pleno e sem sofrer regulações onerosas; e um arranjo de lei e ordem. E, para cumprir esses objetivos, o segredo da estratégia era ter um governo pequeno e transparente; um governo minimalista em termos econômicos, que não impunha complexidades e nem burocracia -- daí a contínua presença de Cingapura no topo do ranking da Doing Business, entidade que mensura a facilidade de se empreender ao redor do mundo.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
domingo, 29 de novembro de 2015
A simples verdade sobre a verdade simples de J.S. Mill
Por Theodore Dalrymple,
Tradução: André Assi Barreto
Tradução: André Assi Barreto
Existem dois argumentos
principais, um de ordem filosófica e outro de ordem prática, para a legalização
das drogas cujo consumo é atualmente proibido. Lidarei com o primeiro aqui e
com o outro em texto distinto.
A defesa filosófica para a
legalização das drogas deriva da famosa passagem de John Stuart Mill em seu Sobre a Liberdade (1859), que é
provavelmente (no mundo moderno) a mais influente de toda a filosofia política.
Mill disse, para parafraseá-lo, que o indivíduo é soberano sobre si próprio,
portanto, nenhuma autoridade e ninguém possui o direito de dizer o que ele pode
fazer acerca de tais questões que dizem respeito a ele, ou principalmente,
sobre ele.
Posso fazer o que me aprouver e
consumir o que gostar, desde que não cause danos a outrem.
Qualquer um pode se mostrar
simpático a essa tentativa de demarcar as relações entre o indivíduo e o estado
ou outras autoridades poderosas. Todo governo hoje é, na prática, vastamente
mais opressor que aquele de George III nas colônias americanas. Quem de nós não
sente o peso crescente da regulação, proibição e compulsão que vem de cima – a
maior parte dela nos dias de hoje supostamente para o nosso bem – para nos
ajudar a ter uma vida melhor ou mais longa, quer queiramos ou não? Como vamos
repelir a avalanche de intromissão oficial nas nossas vidas sem um princípio
que distinga a intromissão legítima da ilegítima?
Tal postura assume que a política
é, e não poderia ser de outro jeito, a aplicação, em qualquer situação, de
alguns axiomas básicos inquestionáveis, como se esta fosse um tipo de geometria
euclidiana. Tenho observado o mesmo impulso – o que poderia ser chamado de
desejo por pureza filosófica – na ética médica. O princípio da autonomia do
paciente força o próprio a escolher entre alternativas quando tudo que ele
deseja é que uma autoridade lhe diga o que fazer, o que, afinal de contas, é o
motivo que ele inicialmente foi ao médico. Nem todos veem, ou querem ver, a
totalidade da vida como um extenso e vasto supermercado em que tudo, do mais
sério ao mais trivial é, compulsoriamente, uma questão de escolha pessoal.
Escolher é importante, mas não importante em absoluto, como pode atestar
qualquer um que já tenha tomado alguma escolha insignificante.
Há momentos em que a ausência de
escolha pode ser um alívio. Insistir que uma pessoa escolha quando ela não quer
fazê-lo (porque escolher é doloroso para ela) é uma forma de sadismo.
Ademais, o mero desejo por um
princípio simples (e o próprio Mill se orgulhava que seu princípio era simples,
inclusive, muito simples) que pode servir como papel de tornassol para
distinguir entre o permitido e o não-permitido não quer dizer que ele exista.
Nosso desejo que algo exista não traz a coisa desejada à existência. Pode ser o
caso que o mundo seja irremediavelmente caótico, não apenas fisicamente, mas
também eticamente.
As objeções à premissa de Mill em
favor da legalização das drogas são bastante conhecidas. O homem é um animal
tanto político quanto social e exceto para aqueles poucos que vivem em
isolamento genuíno, quase tudo que fazemos afeta outras pessoas. Evidentemente,
o grau que as ações de alguém afetam os outros varia; mas o fato é que esse
grau é um continuum e não categorial
e isso significa que a autoridade para interferir, proibir ou controlar é uma
questão de julgamento. Tal autoridade não pode ser exercida à luz de um
princípio simples. O fato de as vezes julgarmos algo como certo e outras vezes
não, não significa que, para interferir nas ações de um homem, tenhamos ou
devamos ter em nossas mentes uma linha demarcatória abstrata estabelecida com
clareza.
Podemos, na verdade, devemos ter
um viés ou uma predisposição favorável à liberdade individual e também devemos
ter uma apreciação vívida do fato que, interferir na liberdade para prevenir
que outros se machuquem pode mais causar que prevenir dano. Ademais, visto que
a liberdade é boa em si mesma, a perda dela é um mal em si mesmo, algo que deve
ser sempre levado em conta.
Nada disso significa que existe
um princípio claro que defina previamente os limites da liberdade tal como Mill
deseja (e que os pretensos legalizadores das drogas poderiam se escorar).
Nem mesmo o mais libertário dos
libertários pensa que não deveria haver limites para o consumo de substâncias
capazes de alterar a mente. Por exemplo, não acreditamos que crianças de quatro
anos devem consumir cocaína mesmo que elas queiram. Pais que permitissem que os
filhos saciassem tal desejo seriam rápida e corretamente privados do direito de
controle parental. (Que fique claro, entretanto, que não há nada tolo o
suficiente que não haja alguém querendo fazê-lo; conheço pais que, crentes na
capacidade nutritiva total das cenouras, alimentaram os filhos apenas com suco
de cenoura). A idade que um indivíduo se torna capaz de decidir por si mesmo é
precisa na lei (em certa medida), mas arbitrária na justificativa. Não há
momento preciso em que uma criança efetivamente se torna um adulto. Na
Inglaterra você pode servir o exército e praticar sexo consensual aos 16,
dirigir e beber aos 17, votar, comprar cigarros e casar sem consentimento dos
pais aos 18.
Tentar fazer com que a lei se
adeque a limites “naturais” sem qualquer grau de arbitrariedade que seja é o
que Mill e os legalizadores – isso soa como uma banda ruim da década de 1960, John Stuart Mill e os legalizadores –
tentam fazer. Contudo, a natureza não se organiza conforme a conveniência da
lei.
Aceitamos que, em muitas
circunstâncias, talvez na maior parte da vida das pessoas no mundo moderno elas
simplesmente não podem se intoxicar como bem entenderem. Não podemos dirigir
bêbados e muitos aceitariam que essa proibição é razoável mesmo se a maioria
dos bêbados chegarem a seus destinos sem ferir mais ninguém. Não esperamos até
que eles batam e matem alguém para considera-los culpados.
O que se aplica aos motoristas se
aplica a muitas outras situações. Um empregado não pode dizer que foi
injustamente demitido apenas porque não havia lei alguma contra o fato dele
estar bêbado em seu local de trabalho. Mães alcoólatras que são incapazes de
cuidar dos filhos podem ter a maternidade removida. Não esperamos que nossos
professores, médicos, pilotos, juízes e uma miríade de outras pessoas estejam
bêbados ou de fogo enquanto trabalham, ou então intoxicados por alguma outra
droga que não seja o álcool. Não esperamos que um cirurgião bêbado estrague uma
operação antes de proibi-lo de operar.
É verdade que algumas das
proibições são mais uma questão de tradição ou mores em vez de codificação legal, mas a lei não oferece proteção
contra aqueles que a infringem. Não existe direito de estar empregado e beber:
houve uma escolha entre as duas coisas. Se alguém consistentemente escolhe
beber, isso mais cedo ou mais tarde gerará custos, usualmente grandes custos, para
os outros. Qualquer um que tenha lidado com alcoólatras sabe que eles não são
os únicos a sofrer com seus hábitos.
A posição libertária com relação
às drogas seria mais convincente se os custos das escolhas daqueles que as
tomam recaísse apenas sobre eles próprios. Sabemos que, na prática, eles são
compartilhados com os outros. Nós (ou eu pelo menos) não deveríamos nos
importar em viver numa sociedade que, por exemplo, um viciado em heroína
encontrado inconsciente na rua fosse abandonado até a morte a menos que fosse
provado que ele pode ser submetido a tratamento porque iria pagá-lo depois ou,
de maneira alternativa, que ele poderia, posteriormente, ser posto em trabalho
forçado para pagar o que devesse conforme o tratamento dado. (A propósito,
Mill, numa das partes menos populares de Sobre
a Liberdade, diz que um pai que rejeita apoio ao filho tendo capacidade de
apoia-lo poderia legalmente ser posto sob trabalho forçado). Uma sociedade em
que os custos fossem determinados de maneira tão rigorosa seria tanto
intolerante quanto um pesadelo burocrático.
Um legalizador poderia, com
razão, dizer que a sociedade está satisfeita em repartir os custos, seja por
meio de seguros públicos ou seguros privados, desde a atividade voluntária de
alguns de seus membros. Entretanto, o que dizer dos desportistas, maiores
afligidos por ferimentos físicos na sociedade ocidental? A sociedade assume os
custos porque, acertada ou erroneamente, ela aprova, ou ao menos não desaprova,
o esporte. Ela não concordou, ao assumir os custos, com nenhuma atividade feita
por quaisquer de seus membros.
Ela concorda em repartir os
cursos como favor e de bom grado, por uma questão de sábio arbítrio e não de
acordo com algum axioma filosófico.
Em resumo, não há nenhum “princípio
simples”, do tipo que Mill anunciou, com certa eloquência que disfarçou seu
caráter vazio, que estabeleça como inerentemente errada a proibição que
cidadãos consumam quaisquer drogas que bem entenderem. Da mesma maneira, não há
nenhum princípio simples que determine quais drogas devem ser permitidas e
quais devem ser banidas.
Caso se torne correto permitir o
consumo de uma droga até então proibida, deve ser em alguma outra base que não
na “única finalidade pela qual a humanidade está autorizada a, individual ou
coletivamente, interferir na liberdade de ação um número qualquer dos seus, a
autoproteção”. Como disse Einstein, uma teoria deve ser o mais simples
possível, mas não mais simples que possível.
sábado, 26 de setembro de 2015
Nova edição da "Carta sobre a tolerância" de John Locke contará com introdução minha
Por André,
Eis que uma nova edição da Carta sobre a Tolerância, do filósofo inglês John Locke, chegará em breve ao mercado publicada pela editora Libertar. A versão contará com uma introdução minha da obra, além do prefácio original de William Popple, apresentação de Santiago Staviski (Diretor do Instituto Liberal de Alagoas), novo prefácio por Paulo Batista (advogado, líder religioso, representante do Movimento Civil XV de Março e empresário) e posfácio de Italo Lorenzon Neto (acadêmico de Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos e co-fundador da seção rioclarense do Instituto de Formação e Educação).
terça-feira, 21 de julho de 2015
Brasil: a Grécia de amanhã. Paper de três economistas causa depressão sobre futuro econômico brasileiro
Por Veja,
É bem pior do que você imagina.
Um artigo de nove páginas escrito por três economistas com trânsito junto à academia, empresários e políticos está causando choque e depressão em quem o lê.
Em “O ajuste inevitável,” Mansueto Almeida Jr., Marcos Lisboa e Samuel Pessôa tentam quantificar, pela primeira vez, o aumento do gasto público já contratado para os próximos 15 anos.
Até 2030 — ou seja, antes que um brasileiro nascendo este ano possa votar — o gasto anual do Estado brasileiro terá subido 300 bilhões de reais, uma aumento de 20 bilhões de reais por ano.
Para neutralizar este aumento de despesas, será preciso criar um imposto equivalente a uma nova CPMF a cada mandato presidencial de quatro anos (entre este ano e 2030). Para ficar claro: não se trata de renovar a CPMF a cada quatro anos, e sim de cobrar uma nova CPMF em cima da anterior, sucessivamente, a cada novo governo.
Este aumento de 300 bilhões é a soma apenas dos aumentos nos gastos com previdência, educação e saúde já contratados por conta da legislação vigente.
Mas antes disso, há o desafio atual: para estabilizar o tamanho da dívida pública como percentual do PIB, o Brasil tem que transformar o rombo de 32 bilhões de reais no ano passado em um superávit de 3% do PIB (quase 170 bilhões de reais). Isto significa que a sociedade terá que achar 200 bilhões de reais por ano para passar do ‘vermelho augustín’ para o ‘azul levy’. E, até 2030, achar aqueles outros 300 bilhões por ano.
Em outras palavras, se a cultura de ’taxar e gastar’ não for mudada, daqui a 15 anos o Estado brasileiro estará demandando da sociedade 500 bilhões de reais a mais — por ano — para honrar com suas obrigações.
O ‘paper’ de Almeida, Lisboa e Pessôa destrói a análise superficial que diz que o problema fiscal brasileiro é apenas uma questão de ajustar a rota depois de alguns anos de gastos exorbitantes.
Se o desafio conjuntural chega a ser paralisante, o problema estrutural das contas públicas é mortal.
Os economistas mostram que, desde 1991, a despesa pública cresce a uma taxa maior do que a renda do País, em parte porque o Estado está sempre distribuindo novos benefícios a grupos organizados.
Para bancar estes gastos, o Executivo e o Congresso se uniram e aumentaram a chamada carga tributária (o conjunto dos impostos pagos pelos eleitores) de 25% do PIB em 1991 para cerca de 35% do PIB no ano passado. É para isso que você trabalha um terço do ano: para financiar os gastos com programas sociais, inclusive a Previdência, e para manter a União, Estados e municípios funcionando.
E, como há os tais aumentos de gasto encomendados; a única forma de financiá-los será aumentar ainda mais os impostos.
Além da rigidez do gasto público — que só pode ser alterada com vontade política e emendas constitucionais — o problema fiscal brasileiro vai se agravar também por conta do fim do chamado bônus demográfico, o período em que o país tinha tantos jovens na força de trabalho que eles conseguiam pagar pela previdência dos mais velhos. Como a taxa de natalidade caiu, o Brasil envelheceu, e um ‘velho’ custa duas vezes o que o Estado paga para manter a população na escola. (A conta é feita comparando-se os gastos da previdência com os gastos em educação pública.)
Ao contrário do que pode parecer, esta não é uma conta que dê para pagar com uma grande privatização. Pausa para checar o dicionário.
[Privatização: s.f. Tentativa de levantar caixa ou melhorar o desempenho da economia, mas que produz, no imaginário político de países atrasados, ‘entreguistas’ de um lado, ‘verdadeiros patriotas’ do outro, e ‘iludidos’ no meio.]
O Brasil tem hoje um problema de fluxo, além do estoque de dívida — da mesma forma que alguém que gaste mensalmente 1,5 vez o seu salário pode até vender a casa e abater a dívida, mas continuará para sempre fadado ao cheque especial.
De onde vem tanta gastança?
“O Brasil tem uma tradição de concessão desenfreada de benefícios, de forma descentralizada, e sem analisar o conjunto da obra e o impacto que isto tem na sociedade,” diz Lisboa, já conhecido no debate público por alertar sobre o problema da ‘meia entrada’, os benefícios que grupos de interesse conseguem do Estado e que são bancados por toda a sociedade. “Se isto não for resolvido de alguma forma, o Brasil pode enfrentar um problema como o da Grécia na próxima década.”
Em tese, haveria uma saída para o Brasil conseguir financiar o aumento do gasto público já contratado até 2030 sem mexer no ‘pacote de bondades’ que o Estado oferece e sem aumentar impostos. Mas neste cenário, a economia teria que crescer 5% ao ano daqui até lá para turbinar a arrecadação e, mesmo assim, algumas despesas vinculadas ao PIB teriam que ser alteradas. Obviamente, as chances disto acontecer são remotas, dada a ausência de reformas na estrutura do Estado.
Essas reformas teriam que atacar benefícios concedidos por Brasilia que não custam dinheiro diretamente — ou seja, não tem impacto fiscal —, mas que reduzem a concorrência e sufocam a produtividade da economia, desde regras de conteúdo nacional a barreiras não-tarifárias que criam reservas de mercado, incluindo os inúmeros benefícios tributários dados a setores ‘estratégicos’.
Como é que o Brasil ainda não havia se dado conta de que o buraco fiscal era tão mais embaixo?
“Um ponto essencial do nosso argumento é o entorpecimento que a arrecadação excepcional entre 2000 e 2010 produziu na sociedade e nos analistas,” diz Pessôa. “Nós ‘congelamos’ um setor público que somente se sustenta se a arrecadação crescer acima do PIB para sempre.”
E como no Brasil os gastos públicos são fixados como um percentual do PIB, nem uma inflação mais alta resolve o problema. Além do que, “a inflação só não é pior que uma guerra civil como forma de gestão do conflito distributivo,” diz Pessôa.
Talvez a maior contribuição do artigo — cuja íntegra está aqui — seja mostrar que serão necessárias coragem e visão de Estado para o País fazer o que tem que ser feito.
Para além de todo o barulho de curto prazo sobre o destino deste ou daquele político, as pessoas responsáveis — nos partidos, nas empresas e na sociedade — deveriam usar este diagnóstico como o ponto de partida de uma conversa séria e urgente.
Por Geraldo Samor
sábado, 11 de julho de 2015
domingo, 28 de junho de 2015
A hipocrisia dos que celebraram a legalização do casamento gay nos EUA
Por André,
- desde 1993 a união civil de pessoas do mesmo sexo é permitida em Israel;
- desde 1993 a homofobia é crime em Israel;
- desde 2006 o casamento gay é ratificado em Israel;
- desde 1993 gays são aceitos nas forças armadas;
- desde 1993 existe Parada Gay em Israel;
- desde 2005 gays podem adotar filhos em Israel;
- desde 2006 é ensinado o respeito a homossexuais em escolas de Israel;
- desde 1963 as relações homossexuais são legais em Israel;
- desde 2013 transexuais podem servir o exército com o novo gênero em Israel;
- desde 2011 cônjuges homossexuais garantiram a lei do retorno em Israel;
- desde 2014 homossexuais são protegidos nas escolas de Israel;
- desde 1970 existem organizações a favor dos direitos LGBT em Israel;
Esquerdistas descobriram que as instituições americanas são o que de melhor foi produzido em termos de organização política. Suas instituições, a democracia, o liberalismo, o capitalismo. Tudo isso junto forma o caldo que permite a preservação legal e moral de direitos individuais legítimos. É também uma vitória do tipo de direito praticado na América, como mais uma vez ilustrou brilhantemente o amigo Flavio Morgenstern.
Quando confrontados com esse fato, esquerdistas tentaram explicar a comemoração: é vitória do "movimento", não do país. Não passa pela sua cabeça que a mera existência do tal movimento só é possível e só faz sentido numa nação com as instituições supracitadas. Basta pensar porque o movimento conseguiu isso na América e não na Venezuela, no Irã ou na Rússia. É só fazer a equação, cortar o que todos esses países têm em comum e ver o que sobra. CQD. Os militantes não percebem isso porque são homem-massa:
José Ortega y Gasset dizia lá no seu "A Rebelião das Massas" que uma característica marcante do homem-massa é que este seja "destituído de sua história". O homem-massa acha que a roda foi inventada ontem, para uso dele e que ele não deve sequer um "obrigado" para quem a inventou. O homem-massa não se vê como herdeiro de nada; tudo caiu do céu ontem para seu bel-prazer.
A questão do "devemos agradecer aos EUA" pela legalização do casamento gay passa por esse ponto. NÃO é vitória do movimento coisa nenhuma. Esse movimento existe e surgiu onde, no vácuo? Não, meus caros. Ainda que tenha sido uma canetada do judiciário com consequências possivelmente nefastas, o tal ~movimento~ só existe porque as instituições ali vigentes permitiam que ele existisse. As leis, as normas, a Constituição que garante a liberdade de expressão. Movimentos existem em diversos lugares, mas apenas graças aos dispositivos legais vigentes naquele lugar os movimentos fazem algum sentido.
Nada de querer levar todo o crédito, nada de achar que as instituições e poderes seculares foram inventados por você ou para você. SE essas pessoas fossem honestas, coisas que elas não são, e SE realmente estivessem preocupadas unica e exclusivamente com direitos individuais, o que também não é verdade, elas deveriam fazer o que não estão fazendo, agradecer à história que permitiu sua mera existência.
Se você acha que a vitória é do movimento pergunte porque os movimentos LGBT não conseguiram coisa parecida em países não-ocidentais, destituídos das nossas instituições e aparelhos democráticos.
O mesmo é válido para todos os demais países que já legalizaram o casamento homossexual: países ocidentais, com instituições ocidentais:
E inclusive para Israel, uma vanguarda ainda mais significativa para o tema. Será que teremos mais boicote a Israel? Eis o que temos em Tel Aviv (será que temos na Palestina?). A mesma esquerda limpinha que boicota Israel se rejeita a boicotar o ISIS, enquanto este ultimo semanalmente divulga vídeos de gays sendo arremessados do alto de prédios.
Vejam só o que a nação que merece boicote, sanção da ONU e mais ojeriza que o ISIS fez pelos homossexuais nos últimos 50 anos:
- desde 1993 a homofobia é crime em Israel;
- desde 2006 o casamento gay é ratificado em Israel;
- desde 1993 gays são aceitos nas forças armadas;
- desde 1993 existe Parada Gay em Israel;
- desde 2005 gays podem adotar filhos em Israel;
- desde 2006 é ensinado o respeito a homossexuais em escolas de Israel;
- desde 1963 as relações homossexuais são legais em Israel;
- desde 2013 transexuais podem servir o exército com o novo gênero em Israel;
- desde 2011 cônjuges homossexuais garantiram a lei do retorno em Israel;
- desde 2014 homossexuais são protegidos nas escolas de Israel;
- desde 1970 existem organizações a favor dos direitos LGBT em Israel;
Embora a vitória dos direitos individuais seja uma vitória que deveria ser creditada e atribuída a liberais e a conservadores, quem sai no débito dessa coisa toda é a direita. Perdemos a guerra política há 50 anos atrás para a "New Left" americana, a turma do Bill Ayers, do Saul Alinsky, os herdeiros dos herdeiros do marxismo, os caras que conseguiram forjar uma nova ação revolucionária para a esquerda, depois que ninguém mais queria matar a burguesia porque o capitalismo colocou todo mundo na classe média. A esquerda que queria matar o último burguês enforcado com a tripa do último padre hoje coloca arco-íris no avatar de uma rede social americana e consegue sair com saldo positivo da disputa. Em postagem de sua página o amigo Alexandre Borges mostrou qual a caminho a direita deve tomar caso queira vencer as disputas públicas.
Esse debate, como tantos outros encabeçados por essa mesma esquerda, tem duas camadas: gente que realmente está preocupada com os direitos de indivíduos homossexuais e gente que instrumentaliza a questão para puxar pro debate público outros tópicos da sua agenda. Isso pode ser observado pela argumentação utilizada em favor do apoio.
Toda a histeria coletiva das redes sociais foi movida pelos perigosíssimos slogans "mais amor por favor", "o amor venceu", "é tudo uma questão de amor". Se o grande mote para a defesa do casamento gay é apenas uma questão de amor, então estamos em maus lençóis. Devemos imediatamente legalizar a poligamia (se eu amo 6 mulheres e essas 6 mulheres me amam, quem pode/deve me proibir de casar com todas elas? Se o critério simplesmente for o "amor", ninguém) - essa pauta já se encontra em discussão; devemos imediatamente legalizar a pedofilia, pois esta não é uma doença, um comportamento abjeto, um crime, mas apenas uma variante de comportamento afetivo que deve ser legalizado e talvez incentivado - essa pauta também já está mais que presente no debate público (e aqui). É o velho problema de tentar criar qualquer tipo de política a partir dos sentimentos das pessoas, sentimentos, que são por definição subjetivos, não podem servir de arcabouço para a criação de leis. Além da poligamia e da pedofilia, isso nos levará à celebração legal da zoofilia e até mesmo do "casamento" com objetos inanimados. Judeus odeiam nazistas, nazistas odeiam judeus, apenas com o sentimento de ódio dos dois, o que é possível fazer legalmente?
Desse modo, os que trocaram de foto no Facebook são tão hipócritas quanto Obama, Hillary e toda a esquerda que está interessada em instrumentalizar a população LGBT para sua agenda maior. Onde quer que direitos LGBT existam, o imperativo econômico e político NÃO é o socialismo/comunismo. A vitória da semana foi da tradição ocidental, da América, da democracia, do liberalismo, de tudo que o partido Democrata e a esquerda mais odeia. Ainda assim deixamos eles saírem com a vitória pública.
sábado, 6 de junho de 2015
Reagan: "O gigante pragmático"
Atuar em Hollywood, participar da direção de uma das maiores empresas do mundo, desbravar a política a ponto de, em menos de duas décadas, alcançar o posto de presidente, além de ser um dos principais artífices do fim da Guerra Fria. Realizar um dos feitos descritos acima já comporia uma vida especial. Alcançar todos eles aconteceu apenas com Ronald Reagan (1911-2004). Não à toa, o historiador americano H.W. Brands considera que o calhamaço de 805 páginas que escreveu sobre o ex-presidente, que acaba de ser lançado nos Estados Unidos, é modesto para fazer jus à sua história. Em Reagan: The Life, Brands conta o que encontrou ao vasculhar seus diários e arquivos guardados pela Agência de Segurança Nacional, que só vieram a público recentemente. Trata-se da primeira biografia feita com base nesses documentos. Brands conclui que Reagan foi um gigante: “Ele tinha o poder de engajar as pessoas e costurar alianças sem trair seus princípios. Não se pode entender a história recente sem conhecer Ronald Reagan”. Leia trecho da entrevista do historiador a VEJA.
O MUNDO QUE ELE CRIOU
Reagan está entre os maiores presidentes dos Estados Unidos pelo impacto que teve no campo da economia e da política internacional. Vivemos em um mundo que funciona sob as regras que ele criou. Sob essa ótica, o seu grande contendor no século XX é Franklin Delano Roosevelt. Alguns dirão que Roosevelt foi um presidente terrível, que abriu as portas do país para o socialismo ao criar um sistema de bem-estar social. Dirão coisas semelhantes sobre Reagan. Mas mesmo os que são críticos da política que eles criaram têm de reconhecer que ainda vivemos sob seu impacto. Poucos presidentes deixam marcas desse tipo. Reagan é um deles.
DE DEMOCRATA A REPUBLICANO
O primeiro envolvimento político de Reagan foi no campo democrata. Sua transição para o campo conservador se deu em dois passos. Primeiro, nos anos 50, houve a “caça às bruxas” promovida pelo senador Joseph McCarthy, que tentou identificar simpatizantes do comunismo em diversos setores da vida americana, inclusive no meio artístico. Reagan era ator em Hollywood e tinha um cargo importante no Screen Actors Guild (SAG), o sindicato da categoria. Reagan teve embates duros com a ala socialista do sindicato e foi acusado de ser dedo-duro. Chegaram a ameaçá-lo fisicamente. E isso o deixou com um ranço incancelável em relação às ideias socialistas e a tudo o que, no partido democrata, remetesse ao socialismo. Outro momento decisivo para sua mudança partidária foi quando abandonou a carreira em Hollywood e foi trabalhar na General Electric como alto executivo, uma espécie de porta-voz. Nesse período, entre as décadas de 1950 e 1960, Reagan vivenciou as dificuldades impostas aos negócios nos Estados Unidos. Havia ainda efeitos do New Deal na economia americana que prejudicavam a vida empresarial. E, por último, como Reagan recebia altos salários, também pagava as mais altas alíquotas de imposto. Por isso, desenvolveu ojeriza às mordidas profundas do Fisco.
CONSERVADOR, MAS NÃO INTRANSIGENTE
Reagan acreditava no livre mercado, na presença pequena do Estado na economia e na desburocratização. Se o conservadorismo, por definição, é a defesa desses ideais, ele era conservador, e seu discurso pregava exatamente isso. Mas o Reagan dos discursos era diferente do Reagan da política. O político sabia transitar com tranquilidade entre pessoas de diferentes visões. Ele sabia que não é possível governar apenas com ideias, que é preciso pactuar. Assim, apesar de ser lembrado como um presidente que cortou impostos, ele também se viu obrigado a elevar taxas que deixariam os republicanos de hoje chocados. Também fez da reforma da imigração um ponto-chave de seu mandato. Ele acreditava que qualquer cidadão que estivesse trabalhando e pagando impostos nos Estados Unidos tinha o direito de regularizar sua situação, caso estivesse ilegal. Essa ideia não estava muito alinhada com o que pensavam os republicanos. Reagan foi ainda responsável por aumentar a contribuição previdenciária, enquanto, hoje, muitos republicanos falam em desmantelar a previdência. Reagan agia como exímio negociador, com um pragmatismo ímpar. Ele não hesitava em fazer concessões aos democratas em nome de um objetivo maior. Hoje em dia, num Congresso americano em que negociar é sinônimo de fraqueza para muitos republicanos, essa faceta mais moderada de Reagan causa desconforto sempre que é lembrada. Quanto aos integrantes do Tea Party, a ala mais radical do republicanismo, eles dizem inspirar-se no legado de Reagan, mas só entenderam metade do legado. Não sabem o que é governar.
POLÍTICA EXTERNA DAS GRANDES QUESTÕES
Reagan tinha uma visão muito clara de que a União Soviética era um “império do mal” e tinha de ser derrotada. Dizia isso com clareza em seus discursos. Mas, na hora de negociar com Mikhail Gorbachev, foi pragmático. Seus talentos de negociador levaram à construção de tratados, em especial o de 1987, que selava as bases para o fim da Guerra Fria. Sua dedicação a esse tema se explica pelo fato de ser o assunto mais importante para os Estados Unidos na época. Tomemos, por contraste, sua política para o Oriente Médio. O episódio que ficou conhecido como Irã-Contras foi um dos maiores fracassos de seu governo. Descobriu-se que oficiais dos Estados Unidos negociavam armas com o regime do aiatolá Khomeini em troca de apoio para libertar reféns americanos no Líbano. Na prática, sua administração reconheceu fazer acordos com terroristas. Foi um escândalo. Isso aconteceu porque, para Reagan, o Oriente Médio, naquele momento, não era prioridade. Não era a grande questão na política externa americana. E esse tipo de questão ele relegava a subordinados. Isso evidencia uma característica muito importante de Reagan: ele não era um bom gestor, não era um tipo de líder preocupado com os detalhes. Dedicava sua atenção às questões mais amplas.
O PROBLEMA DA AMÉRICA LATINA
Reagan agiu de forma contundente para financiar o combate a governos de esquerda em El Salvador, na Nicarágua, em Granada. O que contava então era a Guerra Fria. Se fosse eleito presidente hoje, não tenho dúvida de que Reagan pouco se envolveria com a América Latina, simplesmente porque não há nenhuma potência inimiga por trás desses países, como ocorria com a União Soviética. Ou seja, não há nenhum país por trás da Argentina ou da Venezuela que possa se beneficiar do discurso antiamericano de seus líderes.
REAGAN, O PENSADOR?
Reagan citou o economista austríaco Friedrich von Hayek em muitos discursos. Concordava com os preceitos do liberalismo econômico defendidos por ele e às vezes procurava em seus livros um apoio, uma segunda opinião. Mas a verdade é que ele não tinha um conhecimento profundo de suas teorias. Se lhe fizessem perguntas mais específicas, não saberia o que dizer. A proximidade com Hayek foi uma história que os assessores econômicos de Reagan espalharam para lhe atribuir uma faceta mais intelectual. Reagan não era um grande apreciador de filósofos e pensadores. Ele não era um teórico de nada. Ele gostava de fazer política.
A TEMIDA MARGARET THATCHER
É verdade: Reagan temia a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Ela tinha uma personalidade poderosíssima e exercia esse poder sobre ele. A tal ponto que Reagan se sentia mais confortável confrontando o russo Mikhail Gorbachev. Um exemplo: quando os Estados Unidos adotaram uma posição inicialmente neutra em relação ao conflito entre Inglaterra e Argentina sobre as Ilhas Malvinas, Thatcher se enfureceu, e Reagan, mais que depressa, mudou de ideia. Pessoas que conviveram com Reagan relatam que, sempre que ele atendia uma ligação de Thatcher e, de alguma forma, tinha de contrariá-la, assumia um tom de desculpa. Coisa que ele não fazia com nenhum outro líder mundial. Mas também é verdade que ele gostava muito dela. Justamente por isso não queria desapontá-la. Muitas vezes, ele a via como sua própria consciência em assuntos de política externa. Como uma guia. Eles concordavam em muitas coisas. E, como a Inglaterra sempre foi uma grande aliada dos americanos, ele se sentia na obrigação de não estragar essa relação.
TUDO POR NANCY
Reagan era um político muito irônico. Gostava de piadas e de fazer discursos divertidos. O bom humor era um dos segredos de seu sucesso como líder. Quando aparecia na TV, sempre estava sorrindo, com um aspecto afável. Era o tipo de homem que as pessoas tinham vontade de conhecer melhor, que julgavam ser uma companhia agradável, uma pessoa afetuosa. Mas esse bom humor não estava relacionado às emoções. Quem convivia com ele o classificava como frio e desapegado. Todas as suas emoções eram direcionadas a uma única pessoa: sua esposa, Nancy. Nem mesmo com os filhos ele era muito afetuoso. Reagan sempre relutou muito em demonstrar sentimentos e só conseguia dar esse passo com Nancy. Isso tem muito a ver com sua infância. Seu pai era alcoólatra. E desde muito cedo ele aprendeu que não podia contar com algo com que, em teoria, todos podemos ter, que é o apoio paterno. Isso fez com que Reagan desenvolvesse uma desconfiança aguda e não conseguisse se relacionar com ninguém de forma mais profunda. Era um homem extremamente fechado. Exceto com Nancy. Ela foi o amor de sua vida e sua única amiga. Como direcionava a ela toda a energia emocional que possuía, não sobrava espaço para outras pessoas.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Periódico Mises Brasil chega a sua quarta edição, conta com resenha minha do livro A Política da Prudência e apresenta regras para publicação
Por Alex Catharino,
Em reunião de editoria do periódico "Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia", realizada no dia 4 de maio de 2015, com a participação do Editor Responsável Ubiratan Jorge Iorio, do Gerente Editorial Alex Catharino, dos Editores Adjuntos Fabio Barbieri e José Manuel Moreira, do Jornalista Responsável Bruno Garschagen e do Presidente do Conselho Editorial Helio Beltrão, ficou decidido que seria feita uma convocação oficial para a submissão de artigos e de resenhas para as próximas edições.
O periódico acadêmico semestral "Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia" aceita submissão de artigos científicos relacionados ao pensamento daEscola Austríaca de Economia, escritos por professores universitários, doutorandos, mestrandos e pesquisadores. As análises não precisam necessariamente concordar com o pensamento austríaco, sendo aceitos artigos críticos a essa corrente teórica. Os artigos submetidos para a publicação deverão se enquadrar em uma das seguintes seções:
1ª) Epistemologia e Ética;
2ª) Economia, Metodologia e Praxeologia;
3ª) História do Pensamento Econômico;
4ª) Sociedade, Legislação e Política;
5ª) Cultura e Liberdade.
2ª) Economia, Metodologia e Praxeologia;
3ª) História do Pensamento Econômico;
4ª) Sociedade, Legislação e Política;
5ª) Cultura e Liberdade.
Serão publicadas, também, resenhas de livros. As obras resenhadas deverão ser de autoria de autores filiados à Escola Austríaca de Economia ou, caso contrário, deverão ser analisadas à luz do pensamento austríaco. Serão aceitas resenhas de livros cuja edição tenha sido lançada, no máximo, cinco anos antes da data de envio do texto.
Os artigos ou as resenhas enviados para publicação em "Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia" devem ser contribuições originais e não devem estar sendo examinados para publicação por qualquer outro editor.
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No período máximo de um mês será acusado o recebimento do material enviado por e-mail. Caso o autor não receba uma resposta nesse período, solicitamos o reenvio do material. O prazo de avaliação dos artigos e resenhas de livros enviados é de dois a seis meses.
A edição impressa publicará apenas textos em português. Trabalhos em outros idiomas serão traduzidos e as versões originais serão publicadas nas edições digitais. Os artigos deverão ter de 6 a 25 páginas e as resenhas devem ter de 2 a 5 páginas. O arquivo deverá ser formatado em folha A4, orientação retrato, margens de 2,5cm; fonte Times New Roman em tamanho 12, espaço de parágrafo simples, sem espaçamento antes ou depois dos parágrafos.
Os artigos deverão trazer obrigatoriamente um Resumo de 4 (quatro) a 8 (oito) linhas, que deverá ser traduzido para inglês como um Abstract. Os textos, também, deverão apresentar um conjunto de 3 (três) a 8 (oito) Palavras-Chave, traduzidas para o inglês nas Keywords. Os autores deverão, preferencialmente, incluir no texto os códigos da Classificação JEL, apresentando a(s) temática(s) do artigo. Não incluir Resumo, Palavras-Chave, Abstract, Keywords e Classificação JEL nas resenhas de livros.
Caso sejam utilizadas fontes especiais (grego, hebraico etc.) no artigo, os autores deverão enviar, também, os arquivos das fontes utilizadas. Quando forem utilizados imagens ou gráficos, os autores deverão enviá-los em arquivos individuais, indicando no corpo do texto o local de inserção das imagens. As imagens devem ter formato JPG e a resolução de 300 DPI.
O texto deverá seguir as regras da ABNT. As citações com menos de 4 linhas deverão vir no corpo do texto, entre aspas e em itálico. As citações com mais de quatro linhas deverão vir destacadas num bloco de texto com recuo de 1 cm à esquerda em fonte tamanho 11. Não incluir bibliografia ao final do artigo. As referências bibliográficas deverão ser inseridas em notas de rodapé, com fonte tamanho 10.
Todos os artigos e resenhas enviados para publicação serão analisados de forma anônima por dois membros do Conselho Editorial de "Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia, que elaborarão um parecer avaliando o trabalho. O processo de avaliação será de dois a seis meses a contar da data de recebimento do texto. Os editores entrarão em contato com os autores comunicando se o material foi aprovado ou rejeitado, justificando a decisão, bem como, informando a necessidade de correções no texto, caso necessário.
O não cumprimento dessas regras levará à notificação do autor, que deverá fazer as correções necessárias para a devida reavaliação pelo Conselho Editorial.
Os autores receberão um exemplar gratuito da versão impressa do número em que seu artigo ou resenha for publicado, além de poder adquirir mais exemplares da referida edição com um desconto de 40% sobre o preço de capa e acrescido, ao valor final, o custo da remessa.
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sexta-feira, 1 de maio de 2015
O jovem que encurralou Thomas Piketty
São Paulo - Em 30 de março, o americano matthew Rognlie, de 26 anos, deixou de ser um número. Até aquele momento, ele era só mais um entre cerca de 600 000 estudantes de pós-graduação dos Estados Unidos. Apenas um dos 129 alunos do curso de doutorado em economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, conhecido pela sigla em inglês MIT.
Naquela sexta-feira, Rognlie ganhou luz própria ao dar uma palestra na Brookings Institution, um dos centros de pesquisa de maior prestígio de Washington. Foi a primeira vez que um aluno de Ph.D. em economia apresentou um trabalho no lugar onde costumam se reunir chefes de Estado, ministros e grandes nomes do meio acadêmico.
Como acontece em várias áreas da vida, na economia também é possível medir o sucesso de alguém pelas pessoas que param para ouvi-lo. Na seleta plateia reunida por Rognlie estavam Robert Solow, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1987 e considerado o pai da teoria do crescimento econômico; George Akerlof, ganhador do Nobel em 2001 e marido de Janet Yellen, atual presidente do Fed, o banco central americano; e Olivier Blanchard, o respeitado economista-chefe do Fundo Monetário Internacional.
“Fiquei um pouco tenso no início, achando que não conseguiria dizer tudo no tempo que tinha, mas, no fim, saiu tudo como o planejado”, diz Rognlie. Aquele era o grande dia de Rognlie, mas todos estavam lá porque sua palestra era uma feroz — e elegante — crítica ao trabalho de um economista que não estava presente: o francês Thomas Piketty.
Professor e pesquisador da Paris School of Economics, Piketty conquistou fama global no ano passado ao publicar nos Estados Unidos O Capital no Século 21, um calhamaço de quase 700 páginas sobre o tema da desigualdade social. Contra todas as expectativas, o livro virou um sucesso de vendas, foi lançado em cerca de 30 países e pautou, desde então, o debate sobre as dinâmicas que movimentam o acúmulo e a distribuição das riquezas.
Piketty coletou e padronizou dados inéditos em inúmeros países ao longo de várias décadas — principalmente na França, na Grã-Bretanha, na Alemanha e nos Estados Unidos. Algumas séries históricas voltam mais de 100 anos.
Ao analisar esses dados, o economista francês disse encontrar, com uma certa regularidade, um mesmo padrão: o retorno sobre o capital — o que inclui propriedades, investimentos, terras e máquinas — tende a ser maior do que o crescimento da economia. Em outras palavras, Piketty sugere que haveria uma força concentradora de riquezas inerente ao capitalismo. Assim como tudo o que é lançado ao ar tende a cair, a vantagem dos donos do capital sobre os demais só faz aumentar.
De forma polêmica, Piketty colocou o tema da desigualdade no centro das atenções, um feito nada desprezível. Escreveu um best-seller e virou assunto obrigatório no meio acadêmico, duas coisas que não costumam acontecer ao mesmo tempo. No MIT, onde Rognlie estuda, não foi diferente.
Rognlie ficou sabendo da existência de O Capital no Século 21 por um colega que tinha uma versão em francês — o livro foi primeiro lançado na França, em 2013, sem chamar muita atenção. Quando saiu no mercado americano em março de 2014, Rognlie correu para comprá-lo.
“Li antes que virasse um grande estrondo editorial, e minha primeira impressão foi que os dados e a ambição de Piketty eram incríveis, mas que o arcabouço criado por ele para interpretar os dados era de alguma forma fraco e muito vago.” Começava ali uma reflexão que, um ano mais tarde, o levaria para o centro do debate global sobre desigualdade.
Ainda no começo do ano passado, Rognlie leu uma resenha sobre O Capital no Século 21, escrita por Paul Krugman, ganhador do Nobel de Economia em 2008 e colunista do jornal americano The New York Times. Achou que tinha algo a acrescentar e escreveu um post no blog especializado em economia Marginal Revolution, organizado por dois professores de economia americanos.
O comentário virou um sucesso, Rognlie se motivou a escrever um ensaio sobre o assunto, colocou o texto em seu blog pessoal e, no fim de 2014, já havia recebido o convite para escrever uma versão mais longa e apresentá-la na Brookings Institution em março.
Líquido e certo?
Em seu ataque, Rognlie tenta desfazer a ideia segundo a qual o retorno sobre o capital tende a ser constante e alto. Para sustentar sua tese, percorre dois caminhos. Ele argumenta que, numa situação em que o volume de capital de uma economia está crescendo, não é razoável achar que a taxa de retorno desse capital vai estar sempre constante, como diz Piketty.
Em algum momento ela vai começar a cair. Piketty argumenta que somente em situações extremas, como guerras, isso acontece. Rognlie diz que oscilações na taxa de retorno fazem parte do jogo.
Outro ponto discutido por Rognlie é o fato de Piketty usar o conceito de retorno bruto sobre o capital. Parece um detalhe qualquer, mas tem uma grande implicação. O cálculo bruto não considera a depreciação de propriedades, investimentos, terras e máquinas. Ao utilizá-lo, Piketty estaria inflando artificialmente o retorno do capital e chegando a uma conclusão errada sobre a principal causa do aumento da desigualdade.
“Alguns pontos citados por Rognlie já tinham sido falados por alto antes, mas ninguém organizou e embasou essas ideias como ele. É a melhor crítica feita até agora”, afirma a economista Monica Baumgarten de Bolle, tradutora para o português de O Capital no Século 21 e pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, um importante centro de pesquisa localizado em Washington.
Também ouvido por EXAME, Piketty pegou leve com Rognlie: “Para ser honesto, acho que não há nada de novo na crítica que ele me faz. Fico contente de ver que o debate sobre desigualdade continua bem vivo. Isso deve explicar o interesse por trabalhos como esse”.
Com base na reação da seleta plateia de ganhadores de Nobel e economistas renomados durante a apresentação na Brookings, não se chega a um veredito. “Muitos comentários foram bem elogiosos ao trabalho de Rognlie”, relembra Steve Cicala, professor de políticas públicas da Universidade de Chicago e um dos presentes no auditório. Mas ouviram-se críticas também.
Ainda que tudo isso possa parecer uma discussão estéril de especialistas, o que está em jogo é a busca do conhecimento sobre as causas da desigualdade social, uma questão que andou por muito tempo fora do debate público.
Conclusões apressadas e imprecisas sobre suas causas podem levar governos a adotar políticas equivocadas — uma boa reflexão para o Brasil no momento que o governo de Dilma Rousseff pensa na taxação de fortunas e no aumento do imposto sobre heranças como solução.
Na disputa acadêmica sobre a acumulação de riquezas, a bola da vez está com Piketty. É ele quem precisa digerir o que foi dito na Brookings e apresentar uma resposta robusta. Para Rognlie, o relógio já bateu as 12 badaladas. Depois da palestra, levou uma bronca do professor do MIT que o orienta, para evitar o assédio da imprensa e tratar de acabar logo sua tese de doutorado.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Artisca sueco é refugiado em seu próprio país. Seu crime? Desenhar Maomé
Por Folha de São Paulo,
Para o artista plástico sueco Lars Vilks, autor de uma das maiores controvérsias recentes no mundo da arte, a provocação está em falta.
Ele diz já ter feito sua parte. Vilks, 68, é autor do desenho de 2007 em que o profeta do islã, Maomé, aparece retratado no corpo de um cachorro.
Antes dessa obra, Vilks não era conhecido fora da Suécia. No país, era relacionado a duas gigantes esculturas de madeira em forma de torre que erguera numa reserva ambiental em 1980. A crítica ignorava sua obra.
O desenho fez seu nome ficar conhecido –e ele acabou na lista de procurados da Al Qaeda. Desde 2007, Vilks recebeu ameaças de morte, foi agredido durante uma palestra em 2010 e foi o provável alvo do ataque que aconteceu mês passado em um café em Copenhague, na Dinamarca, onde participava de um debate sobre liberdade de expressão. Duas pessoas morreram.
O tiroteio ocorreu um mês após o atentado em Paris ao semanário "Charlie Hebdo".
Escondido e sob proteção policial, ele falou à Folha, por telefone –não pode receber jornalistas para não revelar onde está–, sobre detalhes do ataque, a crescente islamofobia na Europa e seus motivos para fazer uma obra controversa envolvendo Maomé.
Antes da entrevista, o artista agradeceu "a companhia numa noite solitária".
Folha - O sr. foi o alvo do ataque em Copenhague?
Lars Vilks - Acho provável. Estou na lista da Al Qaeda. Sou um alvo natural.
O que aconteceu naquele dia?
Fomos pegos de surpresa. Uma palestrante do [grupo feminista] Femen estava falando quando ouvimos "bang, bang", repetidamente. Meu guarda-costas me protegeu e me empurrou para o chão. Fui levado para a parte de trás do café. Tudo começou e terminou rapidamente.
Onde o sr. está agora?
Escondido em algum lugar da Suécia. Minhas cortinas estão fechadas, não posso olhar pela janela para não ser visto. Depois do ataque, a polícia me tirou de casa [em Hoeganaes, no sul da Suécia]. Agora tenho um aparato de segurança para me proteger. Tive que me adaptar –tenho um estúdio, que é só uma mesa, onde pinto e desenho. Não tenho filhos, vivo só. Saio de vez em quando, acompanhado. Hoje caminhei 6 km ao ar livre e fui ao mercado. Amanhã não sairei.
O sr. se arrepende de ter feito o desenho em que retrata Maomé como um cachorro?
Um artista trabalha com provocação. Não fiz nada de errado. O que eu fiz faz parte de uma discussão importante. Não me arrependo.
Para que fazer esse desenho?
Não fiz isso para o público em geral, fiz como uma crítica ao mundo da arte. Na Suécia, enquanto esteve só numa galeria, todos entenderam. Mas, quando saiu na imprensa –alguns jornais suecos publicaram o desenho–, vários muçulmanos ficaram bravos.
O sr. preferiria que o desenho não tivesse sido publicado?
Não. Não podemos nos rebaixar ao nível de quem se recusa a entender o contexto.
Mas o sr. quis provocar o mundo da arte ou o islã?
Ambos. O problema do islã é a mistura de política com religião. Eles não deveriam receber tratamento especial, serem vistos como um tabu. A arte tem a obrigação de provocar o islã.
Faltam artistas provocativos?
Sim. Na Bienal de São Paulo de 2010, por exemplo, houve reclamações contra uma obra que envolvia urubus ["Bandeira Branca", do artista Nuno Ramos]. Proibiram os animais na obra. Se alguém faz algo diferente, essa pessoa é censurada. Não há provocação, todos são bem-vindos, e o público tem de estar satisfeito, feliz. O elemento provocativo sumiu.
E as outras religiões?
Elas não são tão ligadas à política como o islã. A religião deve ser um negócio privado, mas o islã não é.
A Igreja Católica não é ligada à política?
É. Mas ela não diz: "Faça como mandarmos, senão te matamos". De todo modo, você pode criticar a Igreja Católica, a política americana, Israel. Mas essas não são provocações, porque são críticas esperadas, politicamente corretas. Estão no espectro dos temas tratados pela arte. Um espectro que é, tradicionalmente, esquerdista.
O que foge desse espectro, além do islã?
Criticar a imigração, os negros... Isso é ir contra o politicamente correto.
Há limites para essas provocações? O "Charlie Hebdo" ultrapassou limites do humor?
Não. Se começarmos a negociar com a violência, perdemos a ideia básica da democracia. O "Charlie Hebdo" atacava também o partido direitista na França. Não se pode dizer que o islã era o alvo preferencial.
Os fatos recentes estimulam a islamofobia na Europa?
A islamofobia tornou-se real porque há motivos verdadeiros para ficar com medo. As pessoas atiram em outras. Não dá para não ter medo.
Que tipo de trabalho faz agora?
Desde 2010 faço releituras de obras-primas, sempre com o cachorro com a cabeça de Maomé em algum canto.
Não está explorando essa imagem em benefício próprio?
O cachorro virou minha marca. Não tenho como me desvencilhar dela.
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Algo que surpreende na entrevista de Vilks é sua lucidez (destaco as respostas em itálico). Embora seja um refugiado em seu próprio país - uma democracia ocidental laica, democrática e secular - suas posições estão perfeitamente atinadas com os diagnósticos realistas sobre os problemas do islã na Europa. A liberdade de expressão é vítima da tentativa do estabelecimento de leis anti-blasfêmia para uma religião indiferente ou nociva à existência do continente europeu.
Islamofobia? Desde quando o medo de estar num evento público ser alvejado DEVIDO A SUAS CONSIDERAÇÕES artísticas se tornou uma espécie de medo irracional? Essa resposta de Vilks me lembrou do seguinte comentário de Peter Hitchens sobre a famigerada "islamofobia":
Vilks ainda destacou que o politicamente correto é, atualmente, o maior inimigo da liberdade de expressão no mundo no momento. É a representação maior do "sou a favor de X, mas...".
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Polônia é sucesso econômico dos últimos 25 anos graças ao livre mercado. Enquanto isso, na Banânia somos obrigados a discutir com quem acredita em comunismo
Por InfoMoney,
Já escrevi sobre minha profunda irritação com o debate público brasileiro, onde nos encontramos pelo menos 70 anos atrasados, discutindo a legitimidade do lucro e a malvadeza dos empresários. Em suma: discutindo a viabilidade das propostas econômicas centrais do marxismo.
Nem mesmo filósofos que se consideram herdeiros intelectuais de Marx se encontram nessa masturbação coletiva eterna, já admitiram que o livre mercado é a melhor coisa inventada até hoje para proporcionar a criação de riqueza, o desenvolvimento e a distribuição de renda.
Se a declaração de filósofos não é suficiente, temos um relato bastante superior: o da realidade. A Polônia é a sensação econômica dos últimos 25 anos (ouviu falar da crise de 2008 na Polônia? Eu também não!), superando indústrias atrasadas da época soviética, privatizando indústrias e liberalizando os mercados. A realidade manda outro gigante dedo do meio para os jurássicos comunistas brasileiros.
A tradução do artigo sobre a Polônia pode ser lido clicando no hyperlink grafado com "InfoMoney", logo acima.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Sam Harris está enfrentando a fúria esquerdista por suas críticas ao Islã.
Por André,
Sam Harris recentemente esteve no programa de Bill Maher na HBO, onde defendeu a radical ideia que o islamismo é uma religião que justifica a violência, boa parte dos muçulmanos compartilha ideias que justificam ações violentas ou é conivente com aqueles que praticam. Na bancada teve Bill ao seu lado na defesa dessas ideias e outros três convidados contrários, entre eles o diretor e ator Ben Affleck. A acusação, como alguém pode antever, foi que Harris é "preconceituoso" e "racista":
Um dos pontos do debate é sobre a postura de esquerdistas diante do problema islâmico. O esquerdismo (liberalism) defende a liberdade de expressão, a tolerância, o respeito mútuo etc. Como lidar com terroristas e radicais muçulmanos se eles não compartilham esses valores? Para Maher e Harris os liberais se perderam nesse ponto e com medo de parecerem preconceituosos preferem não condenar o Islã como uma religião que legitima a violência.
Percebam que esse tema não é inédito aqui. Tratei dele quando o mesmo Harris e Dawkins foram atacados pela militância esquerdista já por críticas ao Islã ou por se posicionar ao lado de Israel na guerra contra o radicalismo. Em certos casos, a tampa da esquerda simplesmente não fecha.
Pois bem, o debate na mesa de Maher não parou ali. Uma montanha de ataques a Harris pulularam pela web e ele foi convidado por um de seus detratores para uma conversa esclarecedora que acabou durando três horas. Quanto ao interlocutor de Harris no vídeo - Cenk Uygur - nunca vi mais gordo e a julgar pela entrevista me parece um sujeito intelectualmente limitadíssimo:
O que falta no repertório de análise de Harris, provavelmente porque ele próprio se considera limpinho demais para admitir isso, é o fator da "guerra cultural" em curso contra o Ocidente.
Seus amigos esquerdistas que fazem doce para condenar as ações islâmicas na verdade apenas preferem se aliar ao inimigo que é inimigo do meu inimigo. O que o ISIS e a esquerda radical compartilham é seu ódio pelo modo de vida ocidental cujo maior e melhor representante é a América. Como expliquei no texto sobre a "tampa" da esquerda: na ótica esquerdista radical, é mais interessante relativizar as motivações das mazelas do ISIS e associar-se aos radicais islâmicos do que conceder o direito de condenação ao ISIS para o também esquerdista Sam Harris.
Isso é guerra e a guerra pode requerer sacrifícios dos seus próprios.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
sábado, 13 de setembro de 2014
Hélio Beltrão debate a crise de 2008 com Paul Singer e Carlos Eduardo Carvalho
Por André,
Segundo presentes da palestra, tratou-se de um massacre:
Eu estive na palestra – melhor: na mesa redonda que teve na PUC-SP. O Hélio, cercado por dois comunistas, petistas históricos. Na teoria deles, era para o Hélio ser massacrado. Mas… Eis que acontece o contrário!
O Paul Singer (fundador do PT, todos sabem) desdenhou a platéia e foi puro enbromation na sua fala. Pombas, até eu que desconheço economia, sei que ele falou muitaaaa m… ali. Dai vem o Hélio. Passadas as cordialidades de praxe, ele DETONA o sistema bancário e financeiro atual, o BC, o BNDES – que disse que é um Robin Hood às avessas, já que ele pega dos pobres para dar a empresários muito ricos.
Ele quebrou as pernas do terceiro debatedor e professor da casa, Carlos Eduardo, ao atacar os bancos e defender… os pobres! Ele, sem saída, teve que mudar na marra o discurso dele. Ficou o tempo inteiro entre atacar o Paul Singer (fogo amigo estratégico para não ficar mal no debate) e ser contra algo que o Hélio colocava.
Foi um massacre do Hélio, sendo que ao final da palestra/debate, muitos alunos estavam dizendo que nunca tinham ouvido isso que ele falou, que queriam pensar e ler mais a respeito etc. Em outras palavras: vencemos, arrasamos, convencemos.
O Hélio “mitou” diversas vezes no debate. Uma delas, após uma professora da casa tomar o microfone e fazer loas a Paul Singer e dizer que não sabia que raios estava ali, se era “um ultra liberal, um anarco sei la o que”, foi defender o marxismo histórico. E tomou duas vezes. Primeira, que o Hélio, com a classe que ele tem, disse: “se o Marx disse no capital, então ta”, acabando com o argumento dela. Em seguida, o professor da PUC que estava na mesa, disse que a história mostrou que onde o socialismo foi governo só teve mortos – melhor ele falou! – e que isso não pode voltar de novo, que é um erro. Ou seja: ela tomou do companheiro de armas dela!
Outro momento fenomenal, cômico, foi no fim, quando o professor tentando salvar o discurso deles, disse que a regulação no mercado é necessária e que o mercado de alimentos – por ex – sem regulação estatal, levaria ao envenenamento dos consumidores! Ah, mas o todinho com detergente, o Ades com soda foi o que, senão uma reguladora estatal? Como se o cara fosse matar aquele que lhe trás lucro, traz seu pão! Só se ele fosse louco de internar no manicômio.
Ademais, em off, o mediador do debate, do curso de Relações Internacionais da PUC, disse que ficou fã do Hélio após o debate. E mesmo aquele professor que estava no debate, disse que nunca viu o auditório tão animado.
Que noite, que tudo!!!!! Uma noite histórica e eu pude fazer parte dela!
Privar de uma companhia maravilhosa, conhecer mais pessoas e saber que estamos influenciando positivamente universitários em plena PUC-SP, onde sempre foi reduto de esquerdalhas é muitooooo bom! As conversinhas após a palestra deixaram isso muito claro. E embora “aparentasse” para a geral que ficou empatado, esse empate é uma vitória nossa, pois davam de boa que seriamos triturados. E na verdade o contrário aconteceu!
Eles viram que viemos e não viemos para brincar, não! Pra valer, não queremos saber de WO e mais: não arregamos diante da luta não! Terão que repensar tudo, pois viram que do outro lado há muita gente e pessoas pensantes, que darão trabalho a eles! Yeah!!!
Agora que de verdade começa o trabalho duro. Cultivar essas sementinhas lançadas ali. E será muito bom saber que poderemos estar no meio de uma geração histórica, pois vamos mudar muita coisa nesse pais ainda, se Deus quiser, aguardem. Alegria estar ao lado de quem fará parte da mudança real desse pais! Estamos juntos, sempre e sempre! Viva a liberdade!
Aux armes!
Eu sempre atribuí exatamente a isso a fuga como diabo da cruz de debates com determinados formatos e convidados. Eles fogem do conflito direto. O depoimento da prática pode ser catastrófico diante de embustes ideológicos. Parabéns ao Helio Beltrão pelo serviço prestado. Nesses ambientes sempre há aquele estudante mais acanhado que fica se perguntando "será que só eu vejo isso?", esse aí precisa mais do que ninguém de desmascaramentos públicos como este.
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