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domingo, 30 de dezembro de 2018

Afinal de contas, muçulmanos são radicais?

Por André em Análise Inversa,


Muitos já devem ter visto o vídeo feito por Ben Shapiro intitulado “O Mito da Minoria Radical Muçulmana”. No vídeo, o ativista conservador Ben Shapiro traz alguns dados mostrando que mesmo em países muçulmanos considerados “moderados” uma considerável parcela da população sustenta posições radicais, genericamente em forma de adesão à lei da sharia e especificamente como favoráveis ao apedrejamento de mulheres adúlteras, punições físicas ou morte para homossexuais e apóstatas, tratar praticantes de outras religiões como cidadãos de segunda classe, apoio moral a atendados terroristas etc. Com variações de país a país, as parcelas menores de apoio a estas causas chegam a 20% e as maiores ficam entre 70 e 80%.

O site apologético muçulmano IQARA Islam decidiu fazer um check fact em relação ao check fact de Shapiro. Confesso que não achei a resposta das melhores. O que eles fazem basicamente não é mostrar que existem dados que revelem a parcimônia e moderação dos muçulmanos, mas que alguns pressupostos de Shapiro estariam errados, como, por exemplo, o que realmente significa o apoio à sharia. Afirmam eles que alguns muçulmanos apoiam a sharia, mas que ela seja aplicada apenas a muçulmanos. Afirmação que muito me estranha, pois desde seu nascimento o islã é uma religião cujos adeptos nunca hesitaram em usar o fio da espada para converter todos os não-muçulmanos em muçulmanos. E muitos outros interpretam a jihad como um chamado espiritual para a conversão de infiéis ao maometanismo.

domingo, 20 de maio de 2018

Rousseau entusiasta de Maomé

Artigo originalmente publicado no Mídia sem Máscara,




          No terceiro capítulo de A Nova Ciência da Política, o filósofo e cientista político germano-americano Eric Voeligen, na esteira do propósito da obra, faz uma análise do problema da representação no império romano. O que e a quem o imperador representa? A teologia “pagã” funcionava como teologia supernaturalis, mas necessária e imprescindivelmente também como teologia civilis. O destino da política estava diretamente atrelado ao culto devido aos deuses: se as coisas iam bem, era graças aos sacrifícios prestados e à sua proteção; se iam mal, era sinal que a adoração havia falhado de alguma maneira. Isto é, a funcionalidade da sociedade dependia diretamente da intervenção dos deuses no mundo e a expectativa das pessoas era que os deuses intervissem; fazer parte da sociedade em questão envolvia necessariamente a adoração dos mesmos deuses, já nas palavras de Rousseau “(...) seu governo não distinguia seus deuses de suas leis” (ROUSSEAU, 1989, p. 150).

            No bojo da ascensão do cristianismo (também com a proposta de servir de teologia civil, de proteger melhor o império que os velhos deuses), contudo, uma “desdivinização” do mundo ocorreu. A realidade passou a estar irremediavelmente cindida. Santo Agostinho nomeou a cisão em “Cidade de Deus” ou Cidade Celeste e “Cidade dos Homens” ou Cidade Terrestre. O cristianismo pode até ser a religião de Estado, mas príncipe e pontífice são pessoas distintas e o tipo de religiosidade que opera essa divisão é, para Rousseau, “tão evidentemente mau que constitui perda de tempo o divertimento de demonstrá-lo” (ROUSSEAU, 1989, p. 154), visto que “tudo quanto rompe a unidade social não serve para nada” (ibidem). O critério que depreendemos é bastante simples: se incrementa a coesão social é bom (o próprio sumo bem), se não o faz, então é mau.

            O chamado problema do “contratualismo” traz, à sua maneira, o mesmo problema à superfície do debate: um “contrato” humano calcado na política pode criar uma convivência harmoniosa perene? Rousseau acreditava que sim e, nessa sociedade, uma “teologia civil” se mostra indispensável, podendo haver um problema: o cristianismo pode ser uma pedra no sapato rumo à concretização da tal sociedade harmônica, visto que desdiviniza o mundo, minando a expectativa de uma ordem social terrena perfeita. Para o filósofo genebrino, o “cristianismo do Evangelho” cria maus soldados, despreza este mundo e esta vida e atrapalha a coesão social; ainda afirma que “uma sociedade de verdadeiros cristãos já não seria uma sociedade de homens” (ROUSSEAU, 1989, p. 155).



Grosso modo, um dos pontos axiais da obra de Eric Voegelin vai justamente na contramão dessa percepção rousseauniana: uma ciência política exclusivamente “positiva” é impossível pois o homem está irremediavelmente vinculado ao transcendental; há uma ordem suprema à qual a ordem social não pode ser dissociada e qualquer um que pretenda abordar o problema da representação sem tomar isso em conta enfrentará problemas.

Isso posto, salientamos que, enquanto o cristianismo está atinado a esta verdade diagnosticada por Eric Voegelin, visto que exorta que “a César o que é de César” (Mateus, 22:21) e que “no mundo tereis aflições” (João, 16:33), como já tivemos a oportunidade de apontar e como concorda Rousseau, o islamismo é um modelo funcional de como conjugar uma teologia política e uma teologia sobrenatural. A religião de Maomé nem de longe coloca para um teórico da coesão social perfeita os mesmos problemas colocados pelo cristianismo, conforme afirma Rousseau:

O culto sagrado permaneceu sempre ou veio a tornar-se independente do soberano e sem ligação necessária com o corpo do Estado, Maomé teve objetivos muito salutares; soube ligar muito bem seu sistema político e, enquanto a forma de seu governo subsistiu sob a direção dos califas que lhe sucederam, tal governo foi exatamente coeso e, por isso, bom (ROUSSEAU, 1989, p. 152, grifos nossos).

A despeito da convenção de se chamar islamismo, cristianismo e judaísmo de “religiões monoteístas” – dando a entender que as três mais se assemelham que se distanciam –, numa época em que o islam político cresce e sua natureza de cosmovisão é salientada, faz-se mister frisar que o aspecto político da religião de Maomé não é um aspecto marginal ou historicamente ocasional (como pode ser apontado para os casos de cristianismo ou judaísmo), mas sim algo constitutivo de sua natureza mesma e por isso digno da saudação de Jean-Jacques Rousseau (demarcando também um bom ponto de inflexão entre o islam e judaísmo e cristianismo).

Para corroborar nossa tese, vale aqui a exegese (de Salmir El Hayek e nossa) do talvez mais famoso trecho do Alcorão em tempos de terrorismo islâmico: 5ª surata, versículo 32: “Por isso, prescrevemos aos israelitas que quem matar uma pessoa, sem que esta tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade”. Não seria isto evidência que o islam prega a paz e rechaça o assassinato incondicionalmente? Na verdade não. Em retaliação a outro homicídio é lícito matar, mas igualmente o é matar aquele que semeia corrupção na terra. Considerando a literatura disponível, como podemos entender do que se trata?

A única separação reconhecida pelo islam é entre ele e o resto. Não à toa todo não-muçulmano é chamado de “kafir” (infiel que não professa o islam), o que não sem explicação faz com que em muitos países muçulmanos fieis de outras religiões sejam tratados como cidadãos de segunda classe. Se Jeová é amor (I João, 4:8), isto é, ama a todos incondicionalmente: hindus, muçulmanos, pecadores, ateus etc, Allah só ama aqueles que o amam de volta (diversos versículos atestam isso, entre eles destacamos 30:45 e 03:32). Logo, todos que não adoram Allah, “adeptos do Livro ou politeístas” (98:6, 3:110) semeiam a corrupção no mundo. Não pode surpreender, portanto, a prescrição de regras específicas sobre como dirigir o mundo de maneira que a corrupção não seja semeada: podendo incluir desde a eliminação sumária dos corruptores até orientações sobre como escovar os dentes.

Samir El Hayek, em comentário a sua tradução para o português brasileiro do Alcorão para o trecho que analisamos trata, inclusive, de “traição contra o Estado” quando se está a “espalhar a corrupção na terra”; relata também as quatro penalidades adequadas para os que pecam contra o Estado e contra Allah: “execução (cortar a cabeça), ‘crucificação’, aleijamento ou exílio” (Alcorão, Marsam Editora, p. 132n). El Hayek está apenas explicitando o que está implícito em toda a doutrina islâmica e foi objeto de elogio de Rousseau: há uma fórmula bastante específica e totalizante de dirigir a vida em sociedade neste mundo – e a jihad é apenas uma face dessa fórmula – que deve fazer das pessoas não apenas bons devotos, preocupados com o reino espiritual, mas também cidadãos subservientes a regras estatais bastante específicas.

*Rousseau elogia Maomé em dois momentos de O Contrato Social: implicitamente no capítulo 7, livro 2 e explicitamente no citado capítulo 8, livro 4.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Alcorão Sagrado. Tradução e notas de Samir El Hayek. São Paulo: Marsam Editora Jornalística, 1994.

GUNNY, Ahmad. Prophet Muhammad in French and English Literature: 1650 to the present. Leicestershire: ed. The Islamic Foundation, 2011.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. São Paulo: ed. Martins Fontes, 1989.

VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política. Brasília: ed. UnB, 1982.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Reino Unido vê mais um caso de gangue islâmica de estupradores

Por André,




Após o indevidamente conhecido caso de estupros de Rotherham, igualmente perpetrado por gangues islâmicas contra garotinhas brancas, o Reino Unido vê mais um caso de estupro coletivo promovido por gangues de muçulmanos especificamente contra garotas brancas e, mais uma vez, não-denunciado pelas autoridades devido ao temor de represálias do tipo "islamofobia" e "racismo".

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Uma imagem contra a política de refugiados da Europa

Por André,



A Alemanha, graças a seu complexo de culpa pós-nazista, abriu suas fronteiras para cerca de 2 milhões de supostos refugiados. E mesmo após declarações do Estado Islâmico dizendo que infiltrou terroristas entre essa massa de pessoas, muita gente segue defendendo uma política de "open borders" sobre refugiados.

Vamos aqui, para fins argumentativos, admitir que há algum controle em quem entra (não há) e que a maioria é composta de gente decente, que não são imigrantes econômicos e que são bem-intencionados (se não sabemos quem entra não há como saber nada disso).

A escolha que se coloca diante dos burocratas da União Europeia e dos defensores de uma aceitação irrestrita de refugiados poderia ser chamada de "dilema dos M&Ms envenenados".

Suponha que você está na seguinte situação: alguém lhe oferece uma tigela com 1.000 M&Ms. Você sabe que desse universo de 1.000, 5 doces estão envenenados com uma substância fatal. Mesmo sabendo que a grande maioria dos doces não fará mal algum, você comeria tranquilamente os M&Ms? Daria a tigela para seu filho? Os cidadãos europeus estão exatamente diante desse dilema, mas talvez nem todos encarem a situação com esse grau de crueza e seriedade.

Embora o exemplo seja hipotético, a situação foi alvo de uma pergunta para o jornalista britânico Douglas Murray em palestra. Um membro da plateia foi perguntado se aceitaria normalmente 1 milhão de refugiados mesmo sabendo que entre esse milhão há um homem-bomba. O sujeito da plateia disse que seguiria aceitando o milhão (ao que me parece, pelo contexto da palestra, movido a algum tipo de culpa colonialista), ao Murray sempre de forma sagaz replicou: "isso é válido até seu filho querer ir a um show da Ariana Grande" [referência aos atentados de Manchester): https://goo.gl/asCLhw.

sábado, 27 de maio de 2017

Debate na Universidade de Stanford: o islam é compatível com os valores liberais do Ocidente?

Por André,


Esses debates, muito comuns nas universidades inglesas como Oxford e Stanford, costumam tanto me agradar como irritar. A plateia progressista me irrita. As perguntas da plateia me irritam.

Os debatedores, de ambos os lados, costumam me agradar (porque sinto falta de coisa parecida aqui debaixo do Equador).

Assistam esse debate e, talvez, cheguem à conclusão que cheguei: estamos em maus lençóis.

REPAREM: é preciso ser extremamente cuidadoso com os "apologetas moderados" do islam. Primeiro, porque muitos são fantoches de organizações radicais para reforçar a narrativa do "islam pacífico". Segundo, mesmo que não respondam a nenhuma organização em específico, podem se servir da taqiyya (a "mentira sagrada") como forma de realização pessoal da jihad (guerra santa). Terceiro, visto que por mais moderados que sejam, são incapazes até mesmo de aplaudir o eloquente discurso de seus oponentes, escondendo posições radicais como a não condenação do apedrejamento de mulheres adúlteras:


Para um pequeno respiro de ar puro, ou se estiverem sem paciência, vejam apenas a participação do sempre brilhante Douglas Murray:


E aos mais tradicionalistas, não se deixem levar pelo "frame" do debate: não se trata de ser um liberal no sentido imaginado. Se trata de: a) demarcar o que pensam os islamistas - em países islâmicos e no Ocidente e b) reconhecer que viver em meios aos tais "valores liberais" é e sempre será infinitamente melhor que viver sob a sharia.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Novas regras para identificar terroristas

Por André,



Ontem em falei que o "atacante" (termo do Globo pra se referir a terrorista) de Londres era muçulmano antes da informação sair em qualquer canto da mídia ou até mesmo antes das fotos começarem a pipocar.

Qual meu critério? Muito simples.

Eu cheguei em casa pro almoço e fiquei sabendo do ocorrido com um plantão da rádio Jovem Pan. Na hora pensei: faz 3 horas que o atentado aconteceu. Essa informação me bastou para poder afirmar que se tratava de um terrorista muçulmano.

Apliquei esse critério em outros casos e o método tem uma margem de acerto de 100%: quando mais retardam a divulgação da identidade do sujeito, pode ter certeza que é muçulmano.

Se fosse um "radical de extrema-direita" a informação seria divulgada em muito menos tempo. Até mesmo porque isso reforça a narrativa que interessa aos poderes vigentes da "ascensão da extrema-direita xenófoba", do perigo da "onda conservadora" etc, ao passo que esses mesmos poderes ficam cheios de dedos para declarar a identidade dos terroristas, quando não, muitas vezes, sequer desejam divulgá-la (o governo alemão tentou essa com os ataques de Colônia).

Não falha.


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Paraíso sueco? A crise migratória na Suécia e a fala de Donald Trump

Por André,

Todos devem ter visto que Donald Trump esteve envolvido em mais uma ~polêmica~ midiática essa semana: Trump disse que não gostaria de ver o que está acontecendo na Suécia acontecendo nos EUA.

Não tardou para que muitos escarnecessem do presidente americano, repetindo o mantra que a Suécia é alguma espécie de paraíso na terra (mito que, aliás, aqui mesmo já foi refutado).

A coisa começa a perder sentido quando o próprio âncora da BBC cita inúmeras estatísticas APENAS sobre a integração de imigrantes que contestam a coisa toda: a taxa de desempregados entre imigrantes é 5 VEZES maior que entre nativos, por exemplo.

No que diz respeito a violência, é simplesmente IMPOSSÍVEL determinar o background étnico porque o governo sueco não divulga e/ou autoriza tal tipo de "profiling". Considerando a fala de Trump, cada um pode deduzir por si se há a menor possibilidade dos responsáveis pelos crimes serem nativos brancos. Se fosse o caso com certeza saberíamos.

Nesse vídeo podemos ver uma parlamentar sueca, do partido social-democrata e claramente não-nativa, negando que algo esteja errado e sendo magistralmente refutada por uma das recomendações dessa página, o jornalista Douglas Murray.

domingo, 13 de novembro de 2016

Michel Houellebecq em entrevista para a Época sobre Trump, Le Pen e islamismo

Por Época,

Nascido na Ilha da Reunião, em 1956, Michel Houellebecq tornou-se conhecido em 1994 com um pequeno romance chamado Extensão do domínio da luta. Nele, a sexualidade é tratada como um “sistema de hierarquia social”. Em 1998, alcançou o sucesso mundial comPartículas elementares. Poeta, ator, cineasta, compositor, romancista e fotógrafo, Houellebecq é um falso tímido. Fala pouco, baixo e lentamente, mas cada frase tende a ser uma bomba. Em 2001, lançou Plataforma, história que termina com um atentado terrorista. Em 2010, venceu o Prêmio Goncourt, considerado o Nobel da literatura francesa, com O mapa e o território. Foi processado por ter classificado o islamismo como “a religião mais idiota de todas”. Em 2015, estava na capa do Charlie Hebdo quando o jornal satírico francês sofreu um atentado praticado por terroristas islâmicos. Era o dia da sessão de autógrafos – que precisou ser cancelada – de Submissão, romance no qual Houellebecq imagina um muçulmano na Presidência da França. Traduzido em mais de 50 países, ele ocupa o lugar de mais famoso e polêmico escritor francês atual. Em 2016, dominou o Palais Tokyo, em Paris, com uma exposição fotográfica louvada pela crítica. Na semana passada, fez uma conferência no ciclo Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre, onde criticou intelectuais franceses famosos como Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Jacques Lacan e Michel Foucault – para ele, obscuros, vazios e incompreensíveis. Nesta entrevista a ÉPOCA, Houellebecq fala sobre literatura, política, religião, sexo, intelectualidade e, claro, de Donald Trump. Ateu, Houellebecq persevera num paradoxo: sem Deus, a humanidade não tem salvação.


ÉPOCA – Como viu o duelo entre Donald Trump e Hillary Clinton e a vitória do republicano? 

Michel Houellebecq Vi como algo enfadonho. Resolvi assistir a um dos debates. Cansei logo. No começo, os golpes baixos, as provocações, os blefes e as alfinetadas de todos os tipos até parecem interessantes. Depois, isso cansa e dá para ver o vazio do espetáculo. Não consegui localizar as ideias, os grandes planos, as propostas diferentes. Achei muita aparência para pouco conteúdo. É claro que cada lado exagera os perigos do outro. A estratégia de atemorizar os eleitores nunca é descartada. Não existe na França um equivalente a Donald Trump. No passado não muito distante, tivemos Bernard Tapie [empresário que foi presidente de clube de futebol e político],que era fanfarrão, exagerava sua fortuna e vivia envolvido em escândalos. Passou. Tapie era desprezado pelos verdadeiros empresários e as ideias dele não eram muito precisas. Tudo nele remete a Trump. É um erro associar Trump a Marine Le Pen [política francesa de extrema-direita]. São diferentes. Não sei o que vai resultar dessa eleição. Por um lado, se Trump, como ele disse, deixar de lado a Otan e investir menos em guerras, será ótimo. Perigoso era George Bush, que provocou uma tragédia no Iraque. Barack Obama já foi mais parcimonioso. Trump será perigoso se retomar o comportamento tradicionalmente belicista dos republicanos. Se não fizer isso, poderá não se sair mal.


ÉPOCA – A política o fascina tanto quanto a literatura?

Houellebecq – A política pode ser matéria da literatura. Eu a usei em Submissão. Meu interesse por ela, no entanto, é bastante variável. Há épocas em que acompanho muito o noticiário político pela televisão. Não sou muito de me dedicar aos jornais. Na França, os jornais estão sendo abandonados pelos leitores. Em outros momentos, porém, deixo de lado a política. Sou como todo mundo. A política tem um lado folhetinesco de jogos de poder, ambições, ascensões e quedas. Isso acaba nos chamando a atenção ou nos cansando. Li sobre a destituição da presidente do Brasil. Não consegui entender o que aconteceu. Parei de ler. O que me interessa mesmo na política é seu aspecto tático, o jogo, as estratégias, a disputa, não o conteúdo.


ÉPOCA – Suas posições sobre religião criam polêmica. O islamismo radical continua a ser a grande ameaça para o Ocidente?

Houellebecq – Certamente. Os atentados aconteceram e vão continuar a acontecer. Quando uma religião, com setores extremistas, é minoritária num lugar, surge a possibilidade da ruptura. Normalmente, as religiões ajudam a organizar as sociedades. No caso do islamismo radical, ocorre o contrário, uma desestruturação. E é só o começo.


ÉPOCA – Uma onda conservadora parece avançar no Ocidente. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, será presidente da França?

Houellebecq – Pode ser que ela chegue à Presidência da França algum dia, mas não será na próxima eleição. Apesar de estar sempre crescendo, ela ainda está muito distante de ter os votos necessários para ganhar uma eleição presidencial. O jogo já me parece jogado. François Hollande quer ser candidato, embora seja uma nulidade como presidente. Os socialistas talvez não saibam ainda como fazer para se livrar dele. Todos tentam convencê-lo a cair fora. Nicolas Sarkozy também quer voltar. Mas o próximo presidente da França deverá ser mesmo Alain Juppé [ex-primeiro-ministro, liberal, candidato nas primárias da direita francesa]. Ele largou na frente e tem tudo para ganhar. A rejeição a ele parece ser menor que a destinada a seus adversários.


ÉPOCA – O populismo ameaça as democracias ocidentais?

Houellebecq – O populismo é uma realidade. Também é verdade que se tem chamado de populismo qualquer tentativa de tirar o poder das elites. Há populistas demagogos e perigosos e há quem seja considerado populista por especialistas em estratégias de desqualificação. Os “novos progressistas”, gente da velha esquerda com roupagem nova, chamam de novos reacionários todos os que não seguem suas ladainhas. Quem não usa smartphone é reacionário. Quem quer mais democracia direta e menos politicagem convencional, também.


ÉPOCA – Há épocas de aceleração histórica inesperada. O Brexit representa um fracasso irreversível para a União Europeia?

Houellebecq – É uma pena que o Brexit não consiga derrubar a ideia de uma união europeia de vez. Não entendo a razão de tantos lamentos. Jamais encontrei um só ponto positivo no projeto europeu. Tudo está baseado em pilares falsos. Não há um só verdadeiro ponto cultural em comum entre os diferentes países para que eles queiram ou possam viver juntos abdicando de suas particularidades e da autonomia que cada um dispõe como nação independente. O fato de que a Justiça tenha decidido que o Parlamento britânico deve dar sua palavra sobre o que foi decidido em plebiscito é estranho, algo como uma invalidação da posição dos eleitores. Tomara que se confirme a saída. A União Europeia não passa de uma ideia de tecnocratas que nunca compreenderam bem as especificidades de cada país. Em todo caso, a saída da Inglaterra da União Europeia nada tem a ver com a chamada crise dos refugiados, como se costuma dizer por facilidade ou superficialidade. Os ingleses nunca se sentiram realmente parte desse projeto absurdo. A pergunta que todos deveriam se fazer todos os dias é esta: como foi possível embarcar tanta gente, tantos países, tantas línguas numa ideia tão inadequada e tão fadada ao fracasso?

sábado, 18 de junho de 2016

Documentário sobre as charges dinamarquesas de Maomé

Por André,

Por indicação do amigo Marcio Scansani, assisti esse belo documentário da TV portuguesa RTP. Um ótimo antídoto para aqueles dispostos a "dourar a pílula" do islã e serem mais realistas que o rei afirmando a natureza pacífica da religião de Maomé. 

Também fica mais uma vez nítido o embuste que é a distinção entre a "minoria radical" e a "maioria violenta": a maioria violenta age, incitada pelos líderes, com a cumplicidade dos pacíficos que simplesmente afirmam "aguardem a reação" (não será deles, os "pacíficos", mas virá de algum lugar e eles não farão nada sobre isso):

domingo, 22 de maio de 2016

A suspeita figura de Glenn Greenwald

Por André,

A esquerda histérica que jura de pé junto que odeia o imperialismo ianque e tudo que é (sic) estadunidense, que diz que é síndrome de vira-lata aceitar críticas estrangeiras sobre o Brasil, que vive na eterna esquizofrenia de aceitar ou rejeitar o que sai na The Economist está com a calcinha molhada com os vídeos da figura "jornalística" de Glenn Greenwald, o sujeito que informou o mundo sobre o suspeitíssimo Edward Snowden.

Greenwald é um extremo-esquerdista homossexual e judeu casado com um militante do PSOL e coube a ele denunciar na CNN o "golpe" neoliberal (risos) em curso no Brasil. A despeito de suas escolhas pessoais, Greenwald é um famigerado defensor do Irã (!!) e colocou os ataques à revista Charlie Hebdo na conta dos cartunistas.

Nesse vídeo Sam Harris expõe toda a hipocrisia de Greenwald com crueza, demonstra a fraude jornalística que ele é e como ele não deve ser acreditado em absolutamente nada porque é um farsante desonesto.

O petismo global não poderia ter melhor representante.

domingo, 8 de maio de 2016

Prefeito eleito de Londres: trabalhista, muçulmano, associado a "radicais", acha que tem muita gente branca em Londres

Por André,



A previsão de Michel Houellebecq se concretizou. Não é a nível nacional, não é na França, mas o seio do mundo ocidental, democrático, leigo e liberal se rendeu ao islã. Hora da Submissão. A retórica que levou Sadiq Khan à prefeitura de Londres é aquela que você pode imaginar: a mesma que conduziu o "primeiro negro" à presidência dos EUA, a "primeira mulher" à presidência do Brasil. Sabemos bem o resultado a que essas eleições baseadas em "política de identidade" nos conduziu. A coisa ainda ia um pouco mais além: era o pobre, vítima da islamofobia, aluno de escola pública versus o rico, herdeiro de bilhões, de educação refinanada (e judeu!!). Foi assim que o jornal de esquerda El País optou por narrar a eleição de Khan.

Seja por sua moderação (sob suspeita) seja por ser mais um "moderado" disfarçado, a eleição de Khan é problemática. Mesmo que toda a moderação de Khan não seja fingimento, isso faz dele um alvo potencialíssimo de ataques por seus pares radicais.



sexta-feira, 25 de março de 2016

Discurso histórico do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban. A Hungria não se submeterá a Bruxelas!

Por André,

Brilhante discurso do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, acerca da invasão imigratória que se passa na Europa sob o incentivo da União Europeia com sua ideologia internacionalista e cosmopolita:


A Hungria, que já sobreviveu às ameaças e ocupações alemãs e soviéticas não vai se render. O recado foi dado em alto e claro bom tom.

sábado, 5 de março de 2016

Novo texto meu para o Mídia sem Máscara: "Por que o Estado Islâmico é muito islâmico"


Lewis Carroll colocou na boca de sua mais famosa criação literária, Alice, um diálogo que ele próprio jamais poderia imaginar que seria tão útil para explicar o conflito pelo qual passa a civilização ocidental, mormente no século XX. Certa feita, em Alice no País das Maravilhas, Alice está a conversar com a Rainha Branca sobre a possibilidade de se pensar em coisas impossíveis. A Rainha exorta a Alice que faça isso, ao passo que esta replica que isso já, por si mesmo, seria impossível; não satisfeita, a Rainha diz que é uma besteira e conta que ela própria costumava pensar todos os dias, por meia-hora, antes do café da manhã, sobre coisas impossíveis e com esse exercício conseguia pensar em ao menos 6 delas por dia. Somos diariamente bombardeados com coisas impossíveis (com a ressalva que não em forma de experimento mental, mas em forma de possibilidade ontológica viável): nacional-socialismoque não é socialismo, socialismo que não foi socialismo (!) e outras impossibilidades que muitos tentam vender ao mundo civilizado e que pretendo cobrir nesse artigo e, ainda, estão longe de ser as meras platitudes que aparentam: o Estado Islâmico que não é nem estado nem islâmico e a ideia que o islamismo é uma religião da paz.
Vários pontos mostram o caráter impossível dessas duas arraigadas farsas. A primeira que quero apontar tem relação com a natureza mesma do islam. Ao contrário do cristianismo, essencialmente ocupado do cultivo das almas como sementes que florescerão no paraíso pós-vida, o islamismo apresenta um plano completo de realização na terra: tem direito próprio (a famigerada sharia), economia própria (KUNG, p. 679-692), um extenso quadro de recomendações sobre o trato com os “kafirs” (não-muçulmanos) – que é maior que o quadro com recomendações para a vida do devoto islâmico, recomendações sobre a escovação dental (presentes nas “hadith” – os “ditos” do profeta Maomé) e até sobre como bater em sua mulher propriamente. Tudo isso, conforme quero reforçar, é corolário da própria natureza do islam: o muçulmano está completamente submisso a sua religião. Daí, entre outras coisas, que a integração de imigrantes muçulmanos seja tão complexa em sociedades seculares, cujas constituições laicas são soberanas (ou deveriam ser) frente às preferências islâmicas. Desnecessário dizer que o argumento da minoria radical versus maioria pacífica poderia ser invocado desde já; contudo, ao provar a relação umbilical do islam com as práticas dos radicais (além da miserável falha das “lideranças” islâmicas em condenar as radicalidades, tópico ao qual retornarei), mostro invariavelmente que a “maioria” pacífica o é a despeito do islam e não graças a ele.
É evidente que, mais em alguns momentos históricos que outros, todas as grandes religiões se imiscuíram com o poder político. Contudo, o judaísmo sempre fora um inimigo natural do Leviatã, desde o Egito Antigo e nos preceitos mesmos do cristianismo está a máxima de que os poderes de César e os poderes de Deus estão (e assim devem permanecer) irremediavelmente separados (Mateus 22:21). Ao passo que, como bem mostra Bernard Lewis (um dos maiores especialistas ocidentais em islamismo e autor do clássico e profético artigo “The Roots of Muslim Rage”, de 1990) em seu “A linguagem política do islão” (ed. Colibri, 2001): a doutrina política do islam é o próprio islam; no mundo cristão há as figuras do sacerdotium e doregnum, da igreja e do Estado, separados (que poderiam estar em harmonia, interferindo um na esfera do outro, mas nunca deixando de existir como coisas diferentes), ao passo que que no islam clássico “não existe equivalente para o termo ‘laicidade’, uma expressão quase sem sentido no contexto do islão” (p. 13 et seq.). Isso porque a natureza mesma da religião islâmica sequer concebe idealmente tal separação, tornando evidente que a ideia de se estabelecer um “estado islâmico”, um “califado universal”, tal como propõe o ISIS, está de completo acordo com a ortodoxia islâmica. Mais uma vez: se boa parte dos muçulmanos não deseja a instalação de um califado universal e os imigrantes desejam se integrar nas sociedades para as quais imigram, isso se deve mais a pontos de vista reformados, ou mesmo visões que ignoram a ortodoxia textual islâmica, que a posições bem locadas dentro de sua hermenêutica.
Há ainda um segundo ponto a ser estabelecido: as “autoridades” islâmicas falham ao tentar (quando e se tentam) condenar seus jihadistas radicais. A ideia de uma “autoridade islâmica” (me refiro aqui a autoridade religiosa e não acadêmica) é altamente problemática dentro do islam e em tese qualquer um pode autoproclamar-se autoridade e qualquer contra-autoridade que clame o contrário sobre a anterior não obteve o direito de fazê-lo em nenhum lugar especial que o primeiro não tenha consultado. Os resultados disso não levam apenas a uma verdadeira babel quando se faz necessário condenar os responsáveis pelo ataque à Charlie Hebdo ou ao Estado Islâmico, mas a aberrações como Anjem Choudary, figura desprezível que, conforme dito, se autoproclama “imam”, isto é, um líder religioso do islam. Choudary notabilizou-se na mídia internacional por diversas aparições em que defende o Estado Islâmico, a afirmar que a sharia será implementada na América e defender a morte para o pecado da apostasia. Quem tem autoridade para desautorizá-lo? Ninguém. Muitos outros muçulmanos o desacreditam, mas lhes falta a autoridade para fazê-lo em definitivo.
O que muitas autoridades islâmicas se limitam a fazer é condenar os jihadistas do Estado Islâmicomoralmente como terroristas, mas jamais como hereges, pois compreendem perfeitamente bem o que mostrei no primeiro momento do texto. Essa afirmação recai sobre os ombros dos especialistas da universidade egípcia de Al-Azhar, que num debate decidiram que os responsáveis pela morte de um piloto jordaniano queimado vivo foi um problema apenas porque os jihadistas cometeram o pecado da dessacralização de um corpo humano e por esse ato eles deveriam ser crucificados (!); contudo, se negaram a tratar esses mesmos terroristas como “não-islâmicos”, hereges ou apóstatas, isto é, cujas ações estariam em desacordo com a ortodoxia islâmica.
Como consequência inevitável, apontada pelo também intelectual de direito islâmico Sheik Mohammed Abdullah Nasr, o Estado Islâmico nasce do seio da doutrina islâmica oficial tal como é ensinada pela Universidade de Al-Azhar, é um subproduto das ideias centrais do islamismo e não uma interpretação radical mas sim razoável da “religião da paz”. Nas palavras do próprio Nasr:
Ela não pode [condenar o Estado islâmico como não-islâmico]. O Estado Islâmico é um subproduto daquilo que é programático em Al-Azhar. A universidade de Al-Azhar diz que deve haver um califado e que é uma obrigação do mundo islâmico [criá-lo]. Al-Azhar ensina a lei da apostasia e da morte por apostasia. Al-Azhar é hostil para com as minorias religiosas e recomenda coisas como que não se construa igrejas etc. Al-Azhar defende a instituição da jyzia [cobrança de tributos das minorias religiosas]. Al-Azhar ensina o apedrejamento de pessoas. Poderia Al-Azhar denunciar a si própria como não-islâmica?
Fica evidente, portanto, que conceber o islamismo como uma religião da paz é simplesmente impossível; contudo, o exercício de sair por aí afirmando isso não faz parte do repertório de experimentos mentais inofensivos do desjejum da Rainha Branca. Impossibilidades como essa, propagandeadas em conjunto a “o multiculturalismo é viável” (quem pode autorizar a ideia que a cultura barbárica que produz o Estado Islâmico está em pé de igualdade com tantas outras?) ou “a imigração em massa é uma política legítima e moral” (como crer que o escancaramento das fronteiras do mundo civilizado não representa o convite à entrada de jihadistas?) fazem parte do ferramental politicamente correto usado por nossos “especialistas” e imprensa em suas tentativas histéricas de livrar o islamismo de sua responsabilidade e autoria criadora do Estado Islâmico.
Das impossibilidades mentais à realidade concreta, a verdade é que o islam é um sistema de pensamento completo, que pretende abarcar todas as coisas, uma cosmovisão ou ainda um sistema integral (a palavra “jin” também é usada para descrever isso) cuja consequência inevitável no campo da ação é, inexoravelmente, algo da natureza do Estado Islâmico.


Pequena bibliografia utilizada e recomendada:

KÜNG, Hans. Islão. Lisboa: ed. Edições 70, 2010.

[Este livro traz uma abordagem histórica bastante completa do islam e trata, por exemplo, do empreendimento turco de fazer uma sociedade islâmica, porém “secularizada” e “laica”, embora isso tenha ocorrido, a Turquia segue apresentando índices consideráveis de posturas “radicais” entre sua população].
LEWIS, Bernard. A linguagem política do islão. Lisboa: ed. Colibri, 2001.
                          . Os assassinos: os primórdios do terrorismo no islã. Rio de Janeiro: ed. Jorge Zahar, 2003.
Disponho numa nota de Facebook algumas referências bibliográficas iniciais sobre o tema do totalitarismo islâmico que podem ser úteis ao recém-chegado no assunto: https://goo.gl/feksrG.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

"Quando a tampa da esquerda não fecha", episódio 2: Richard Dawkins e a equivalência entre islamistas e feministas

Por André,

Há algum tempo escrevi a postagem "quando a tampa da esquerda não fecha", onde trato de uma espécie de "ranqueamento" de causas na agenda da esquerda; o que é e o que não é prioridade na agenda da militância esquerdista radical? Por exemplo, o ateísmo não ocupa um lugar muito alto nesse ranking, os militantes esquerdistas estão, no momento, muito mais propensos a relativizar as mazelas do islamismo radical (que, evidentemente, é fundamentalista e teocrático) em nome do "multiculturalismo" do que defender alguma forma de ateísmo. O mesmo para direitos homossexuais. O fato desses serem muito mais respeitados em Israel do que em qualquer outro país do Oriente Médio rapidamente é descartado como "pinkwashing", pois fazer a cama para o islamismo radical está, no momento, num dos pontos mais altos do ranking das causas esquerdistas.

Muitos dos assim chamados "neoateus" vêm sentindo na pele esse problema (embora não veja nenhum deles diagnosticando com precisão o problema - muitos têm falado de "esquerda regressiva" - por oposição a esquerda progressista, de traição dos "liberals" - quando o problema simplesmente é que há uma ordem de fatores na agenda dessa esquerda e, sendo a destruição do Ocidente tal como conhecemos o topo da lista, a relativização do islamismo radical é um dos meios mais poderosos para se fazer isso): Sam Harris, Bill Maher, Richard Dawkins.

O caso mais recente foi com Richard Dawkins. O amigo Marcelo de Mattos Salgado fez um apanhado do ocorrido no facebook:

Richard Dawkins, o biólogo ateu que escreveu livros sensacionais como "O gene egoísta" e homem que originou a expressão "meme", tão querida por aqui, sofreu um derrame poucos dias atrás.  
Dawkins fora expulso recentemente de uma conferência de ciências porque publicou um vídeo cômico no Twitter (!!!) sobre as semelhanças entre muçulmanos e feministas — algo sobre ambos serem, às vezes, intolerantes a críticas e viverem reclamando e se fazendo de vítimas. Que ironia. Tal é o estado da liberdade de expressão em nosso mundo... 
A expulsão se deveu à pressão de feministas e grupos de esquerda e islâmicos. Dawkins, segundo ele mesmo um homem "de esquerda" e "feminista" — mas que, como cientista, entende que devemos criticar também (especialmente!) aquilo com que simpatizamos — está desolado com a forma como os seus pares "progressistas" jogaram-no à fogueira rapidamente. O cientista é crítico do pós-modernismo e de excessos relativistas das ciências humanas (bem como Noam Chomsky — um socialista, aliás). 
Nossas prioridades estão todas distorcidas. Matamos e calamos heróis e almas corajosas e damos voz e destaque para mentiras e idiotices.  
Todos os vídeos em inglês. 
Dawkins critica o relativismo pós-moderno e o feminismo: 
https://www.youtube.com/watch?v=eKPWW5uu200 

Chomsky critica o pós-estruturalismo, o pós-modernismo e Foucault:
https://www.youtube.com/watch?v=OzrHwDOlTt8https://www.youtube.com/watch?v=OjQA0e0UYzIhttps://www.youtube.com/watch?v=pt2fdivw4cs 

Sobre Dawkins: quem quiser saber o que aconteceu.
https://www.youtube.com/watch?v=1428tqVc7BUhttps://www.youtube.com/watch?v=RlXdNOXU3_M 

Aliás, outros vídeos pra quem quiser acordar um pouco. Sustos garantidos, busca sincera pela verdade, idem. 
https://www.youtube.com/watch?v=LjN8xP0i6Akhttps://www.youtube.com/watch?v=AasuUt1d_fE

O vídeo que rendeu a polêmica é uma pérola, justamente porque expõe o padrão moral duplo dessa esquerda militante e ironiza a incrível semelhança de comportamento entre feministas radicais e islamistas militantes:


Muita gente, identificada com a própria esquerda já notou que a "tampa não fecha", porém estão falhando miseravelmente na correção do diagnóstico como um todo. Mas devemos confessar que a não-adesão ao relativismo moral de ateus como Harris, Maher e Dawkins é digno de nota como algo positivo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Meu debute no Mídia sem Máscara: artigo sobre a crise "imigratória" europeia e a necessidade de uma direita forte

Por Mídia sem Máscara,

O público brasileiro, carente de qualquer direita organizada, costuma enamorar-se com toda sorte de pretensos direitistas: centro-direitistas, social-democratas, democratas cristãos, liberais e até mesmo meros anticomunistas. Contudo, a crise “imigratória” da Europa tem ajudado a revelar as fraquezas desses ditos políticos “de direita”. Foram as políticas de Angela Merkel, da União Democrata-Cristã (CDU), de centro-direita, que arreganharam as fronteiras da Alemanha para talvez um punhado de refugiados genuínos, mas outros milhares de jihadistas, simpatizantes do ISIS, interessados unicamente em duas coisas: os benefícios do estado de bem-estar social europeu e a implementação de uma governança islâmica sobre o ocidente (concretizando as profecias próprias do islã e de seus teóricos, como Guénon e Qutb). Isso tudo não, sem antes, espetáculos de molestação pública de mulheres e arrastões, como vimos na virada de ano em Colônia (na própria Alemanha).

Mesmo depois do ocorrido em Colônia, e de tantos outros por toda a Europa, os políticos da dita direita não mudam sua postura. Seguem atinados à agenda politicamente correta, multicultural e anti-ocidental a que, invariavelmente, pertencem (na Suécia isso é fato estabelecido há bons tempos). Quanto à mídia, o quadro é o mesmo ou ainda pior (a BBC só relatou o ocorrido de Colônia pelo menos dois dias depois e diversos outros órgãos substituíram a expressão “refugiados muçulmanos” por “imigrantes do Norte da África” – como a Deutsche Welle, por exemplo). A prefeita de Colônia sugeriu, como solução para o problema a criação de um código de conduta para as mulheres. Um imã salafista da cidade afirmou que as mulheres foram estupradas porque elas estavam “seminuas e usando perfume”. Exatamente como no lamentável caso da Charlie Hebdo, onde o sangue dos cartunistas ainda estava quente quando políticos e analistas sociais já estavam preocupados com as eventuais “reações (sic) islamofóbicas” que os ataques gerariam. O ministro alemão da Justiça, pouco preocupado em investigar o caso, teme as reações “xenofóbicas” da “extrema-direita”. No parlamento britânico discute-se a possibilidade de impedir a entrada de Donald Trumpna terra da rainha enquanto a pregação radical em escolas, universidades e mesquitas segue livre.

A polícia alemã, que pouco fez (ou estava autorizada a fazer) nos arrastões em Colônia, agiu e age de maneira ostensiva nas manifestações do grupo Pegida, que propõe restrições à imigração: Tommy Robinson, outra voz potente contra a imigração muçulmana para o Reino Unido e criador do “Pegida britânico” foi, recentemente (mais exatamente, dois dias depois de criar a organização), preso (enquanto o clérigo radical que propõe a implementação da sharia na Grã-Bretanha e nos EUA e ameaçou a ativista Pamela Geller ao vivo, Anjem Choudary, continua solto).

É nesse contexto que surge um pequeno, porém importante livro, escrito pelo sueco Daniel Fribergchamado “A verdadeira direita” (a ser publicado pela editora Simonsen, em tradução minha, com campanha de crowdfunding em andamento). Friberg é figura central e basilar para a existência de uma nova direita realna Suécia, sendo que sem Daniel ela provavelmente não existiria, conforme atesta seu amigo, sócio e prefaciador do livro, John Morgan. Considerando o laboratório de causas progressistas que é a Suécia, podemos certamente depreender o elevado mérito de Friberg não apenas por fazer manter algumpensamento de direita no país nórdico, mas bem como por fazer existir um pensamento de direita coeso, forte e ativo.

Três importantes e urgentes lições, tanto para direitistas europeus quanto brasileiros, podem ser deslindadas a partir do livro de Friberg (que tem por subtítulo, pertinentemente, “um manual para a oposição de verdade”): 1) uma direita forte não apenas é possível como é necessária, 2) a já moribunda e falsa direita pode e deve ser definitivamente rechaçada e 3) o caminho para a vitória da direita é pela via de uma batalha no terreno da “metapolítica”.

A Europa, ao menos, já teve uma direita forte, o que leva os teóricos da Nova Direita a se reportarem a políticos, pensadores e situações do passado que representaram bem a corrente de pensamento, ao passo que nós, brasileiros, não podemos ir tão longe*. Estamos, geralmente, acostumados a uma oposição insossa ao esquerdismo tão tipicamente latino, um anticomunismo de manual por parte dos sociais-democratas ou, nos servindo de um exemplo extraído da realidade atual para ilustrar o sentimento, um tímido antipetismo “democrático”; uma direita frágil, acuada, envergonhada e usuária dos cacoetes linguísticos da esquerda (e que, por isso, invariavelmente, pensa como ela).

Friberg mostra em seu livro como essa direita, já moribunda na Europa, pois não atende aos anseios das pessoas (segundo Friberg, por exemplo, embora os políticos “de direita” sejam partidários das políticas imigratórias malucas que têm levado à destruição da antiga cultura sueca e aos episódios ocorridos em Colônia, uma fatia considerável do povo sueco é favorável a políticas imigratórias restritivas, carecendo apenas de uma representação política que faça jus à sua vontade) deve ser absolutamente rechaçada e extirpada da vida política séria para que os problemas mais urgentes da realidade política atual sejam superados; tanto essa direita fraca quanto a esquerda são culpadas pelos problemas que assolam o continente europeu no momento.

Em determinada altura do livro, Friberg dá, literalmente, dicas práticas de como lidar com esquerdistas militantes hostis, como reagir a um jornalista militante de esquerda que bate à sua porta etc.; e a lição é bastante simples, a direita pode e deve ser forte, o que inclui uma militância ativa e ostensiva: Friberg é criador do empreendimento “Motpol”, que, além de assessorar vítimas de assédio ideológico esquerdista (algo extremamente comum na Suécia), é uma força crescente na imprensa, na área editorial, como think-tank e cresceu vertiginosamente em diversas outras atividades ao longo de sua década de existência completada em 2015.

E ainda mais importante, Freiberg é enfático em afirmar que para a direita vencer a guerra, o campo de batalha é a cultura ou, conforme Friberg chama, a “metapolítica”. Não se trata de meramente ganhar eleições, ocupar parlamentos, enfim, vencer a “política de rua”, é mister que as instituições produtoras de cultura sejam retiradas da alçada do esquerdismo radical. Escolas, universidades, imprensa, editoras etc. devem voltar a servir os interesses genuínos das pessoas e não à agenda do progressismo frankfurtiano e da estratégia gramscista. No livro, Friberg oferece todo o passo-a-passo de como essa ofensiva cultural de direita deve ser empreendida para que obtenha sucesso.

Os episódios que chamei a atenção no início do artigo mostram como o diagnóstico de Friberg é preciso: a esquerda preparou o terreno cultural para (entre outras coisas, evidentemente) a aceitação de políticas de imigração em massa, por exemplo, acusando todos que discordam dela de “fascista”, “racista” ou “nazista” e a dita direita, covarde, acuada e cúmplice, sorveu tudo que veio desse caldo politicamente correto que escorreu das universidades sob a alcunha de “multiculturalismo” e de “politicamente correto”, autorizando legal e moralmente a coisa toda. Uma direita que acerta no campo econômico (vale novamente o exemplo alemão, a mesma Merkel que abriu as fronteiras para qualquer um é o principal bastião da ortodoxia e da austeridade econômica) mas erra em todo o resto está invariavelmente fadada ao fracasso e não merece nenhum apoio consistente.


* Para ser justo, Friberg cita no livro a figura de Plinio Correa de Oliveira (1908-1995) como um importante representante das ideias contra-revolucionárias.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Bill Warner e alguns "short facts" sobre o islã

Por André,

Infelizmente ainda sem legenda em português. O prof. Bill Warner desmistifica uma série de factóides sobre o islã. Um dos mais curiosos: está formalmente correto dizer que mais da metade dos textos sagrados do islamismo não tratam de como ser muçulmano, mas sim dos "kafir" (infiéis, isto é, não-islâmicos)!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Pequena interação com Guga Chacra, ou: a longa marcha do processinho

Por André,

Ontem tive o prazer de algumas interações com o comentarista de política internacional da inefável Globo News, Guga Chacra. No canal ele ocupa a cadeira que antes pertencia ao ilustre Emir Sader, intelectual orgânico do PT:

Emir, catedrático da flor do Lácio, torcedor da canarinho, provável membro da esquerda multicultural.

Emirzão, combatente firme contra a direita (islamofóbica?), de esquerda (coisa que o Guguinha não é).

Quero aqui apenas registrar o ocorrido, de forma que exponho um dos expedientes mais comuns da esquerda hipster (progressista, PSOL, Vila Madalena, barzinho, mestrado em antropologia indígena, Jean Wyllys etc) quando é obrigada a lidar com a discordância intelectual. Não há exatamente nada de novo para ser dito: o mínimo que você precisa saber sobre Guga Chacra foi publicado no blog do Felipe Moura Brasil, na Veja, por ocasião da carteirada "chupa-cabra"-tenho-mestrado-na-Columbia-você-não-tem. Guguinha é auto-proclamado membro da "direita multicultural": aquela que, segundo ele, não é "jeca", "islamofóbica", "racista" e outros gatilhos psicológicos utilizados - PASMEM! - pela esquerda (a qual Guga garante não pertencer!) para encerrar qualquer debate racional que envolva política externa, racismo e muçulmanos. Guga se orgulha de ser "multicultural" e, provavelmente (provavelmente, viu Guga? Não estou pondo nada na sua boca, não sou desses!) de ser "politicamente correto", deve (DEVE) ser daqueles que canta "Imagine" do John Lennon pra combater o jihadismo e, portanto, não percebe o engodo intelectual que é o tal "multiculturalismo" - ou talvez ele compre a balela que diz que ser multicultural é ver filmes indianos, comer num restaurante italiano e sair pra conversar com a amiga chinesa. O multiculturalismo é, na verdade, a perniciosa ideia que TODAS AS CULTURAS SÃO COGNITIVA E MORALMENTE EQUIVALENTES, um filho legítimo e pródigo do relativismo que infesta as mentes e as universidades desde os primórdios do século XX. 



De forma que Chacra se converteu numa espécie de garoto propaganda de tais ideias: alarmismo com aquecimento global antropogênico, multiculturalismo, politicamente correto e toda sorte de causas "progressistas". Não apenas isso, mas o garantidamente não-esquerdista analista isento e imparcial Guga Chacra adere a todos os gatilhos "encerra-debate" da extrema-esquerda jeca: tudo é racismo, tudo é islamofobia, tudo é impróprio, tudo é "trigger warning", tudo é "safe space" etc. etc. e todas aquelas bobagens socialmente justiceiras que qualquer frequentador de qualquer universidade (seja a sede da esquerda americana, décima melhor do mundo, chacriana, Columbia ou até uma uniesquina da vida) conhece bem (até mesmo o artifício do "vou lhe processar").




Sobre essa condição que afeta nosso colega vale citar três parágrafos do texto extraído do blog do Felipe, em link já citado:

Os expedientes de esquerda  
Ignoro se Guga Chacra já chegou “esquerdizado” ao seu mestrado, mas que saiu de lá repetindo alguns dos expedientes mais canalhas consagrados pela esquerda, não resta a menor dúvida, a começar pela própria carteirada chupa-cabra. Como escreveu Evan Sayet, denunciando também a ideologia em Columbia: “Esquerdistas gostam de se gabar de seu intelecto superior, muitas vezes apontando para o número de anos que passaram a vagar nos campus bucólicos de grandes universidades. Mas ficar mais tempo no sistema de ensino só faz uma pessoa ficar mais inteligente se o que está sendo ensinado é verdadeiro. Se o que está sendo ensinado são mentiras, então quanto mais tempo nos cursos, mais estúpida ela se torna, o que é, de fato, exatamente o que nós vemos. É por isso que Dennis Prager (parafraseando George Orwell, creio eu) termina uma conversa com um interlocutor particularmente estúpido, dizendo: ‘Senhor, isto é de uma burrice tão grande que você só pode ter frequentado uma faculdade.'”  
O grande frequentador Guga Chacra pode até se julgar representante da tal “direita multicultural-liberal”, mas chamar também de homofóbico quem discorda dele sobre homossexualidade ou casamento gay, como faz com o republicano Rick Santorum e toda a ala conservadora do Tea Party, é coisa de esquerdista radical do naipe de Jean Wyllys. Sem citar e analisar uma só frase de Santorum, Chacra chega ao cúmulo de escrever no título de um texto que ele “é tão homofóbico quanto Ahmadinejad”(!), igualando-o ao ditador do país onde os gays são enforcados em praça pública. Para piorar, ainda o chama de islamofóbico, dando como prova disso, só no Facebook, a opinião do então pré-candidato a favor do perfilamento étnico de muçulmanos como uma das possíveis medidas de segurança nos aeroportos contra ataque terroristas, porque eles seriam os mais propensos a cometer esse tipo de crime, como o 11 de setembro fez acreditar. 
Santorum pode estar errado o quanto seja, estatística, estratégica ou religiosamente, e caberia a Chacra argumentar (o que inclui destrinchar analiticamente o seu comentário), mas xingá-lo como um sujeito que não distingue muçulmanos bonzinhos e malvados e odeia todos de antemão, e como se o perfilamento fosse o próprio paredón, é repetir e estimular o expediente teatral da patrulha histérica que impossibilita qualquer debate. 
Nessa mesma linha de histeria, Chacra divide a direita entre a “multicultural-liberal” dele (uma dissimulada “left-lib” politicamente correta) e uma outra “jeca, provinciana, islamofóbica (anti-muçulmana), antissemita, ultrapassada, homofóbica”. Para chamar alguém só de impostor, eu – que não tenho uma direita chacriana para chamar de minha – costumo demonstrar, com aspas, fontes e análises, as imposturas do sujeito, como sabem os leitores deste blog (quiçá deste texto). Mas se você é contra a legalização das drogas e de imigrantes sem documentos, cuidado: o “rapaz” Chacra pode xingar você de todos aqueles nomes.

A questão até aqui é essa, certo? Isso é um artifício DE ESQUERDA, utilizado por Guga Chacra e não há critério de separação entre "direita multicultural" e "direita jeca", só mesmo que quem tiver topado o curso de nova ciência política isenta e imparcial da Universidade de Moscou, ministrado em 1918.

Pois bem, nosso amigo atacou ontem novamente e não pude evitar duas interações EM SEU PERFIL no Twitter:

Não posso dizer melhor do que lá já disse

Percebam que aqui o curto-circuito já havia se iniciado. Quem falou em Brasil? Que importa onde eu moro? O que essa vírgula quer dizer - ele quer saber onde eu moro ou o que vem depois da vírgula faz parte da interrogação? O ministério da cognição adverte: muita Columbia e muito New York Times causam confusão mental constante.

Logo após isso escrevi um tweet irônico com os constantes posicionamentos de Guga, que vê islamofobia debaixo da cama dia sim e dia também. Não mencionei o Guga no tweet porque não pretendia o desprazer de interagir com ele, mas com as minhas duas réplicas acima, ele próprio se dirigiu ao meu perfil, coisa que ele próprio já havia feito (ele já havia dado uma pré-carteirada™ judicial, ao visitar meu perfil e ler uma piada ~islamfóbica~ para os seus padrões e insinuar que, por estar no Brasil, eu poderia ser acionado judicialmente e isso, por sua vez, dito em seu perfil ou página pessoal) e que, portanto, deve fazer parte do seu repertório de ações.





Percebam: se trata de uma ironia. Eu usei "DEVE". E esse meu "deve" é uma dedução completamente razoável, legítima e verossímil dos constantes posicionamentos de Guga. O rapaz ainda me chama de covarde, pois, segundo ele, não disse nada "na sua frente". Pois bem, Guga está nos EUA, eu estou em São Matheus, como a tecnologia de teletransporte ainda está em desenvolvimento, se trata de uma impossibilidade física de 12 horas que eu diga qualquer coisa "na frente" dele. Caso isso tenha sido um convite, estou aberto a dizer na sua frente, sem aspas. Embora não tenha sido na "sua frente", eu disse no meu perfil público, o que mais ele queria? Um pedido formal? Um telegrama avisando? Pombo correio? Correio elegante? Mais público e mais "na frente" que isso, dadas as circunstâncias, impossível. 


Aqui nosso nobre combatente ministra algumas palavras sobre meia covardia e sobre "colocar palavras na boca dele". Deve ser. DEVE SER.

Logo depois chegamos à parte interessante. A ameaça de processo (pra quem está a reclamar da covardia alheia, atitude das mais corajosas):



Depois de toda a epopeia (o desenrolar e o apoio dos amigos pode ser visto aqui) Guga ainda não havia me bloqueado, apenas após trocar afagos com um assecla puxa-saco que estava lhe entregando prints da minha postagem no Facebook, então ele me bloqueou (very tough guy, very tough guy, para parafrasear Donald Trump sobre Jeb Bush):


Após isso tudo só me resta: menos jornalismo hipster, menos pose, menos carteirada acadêmica (♫ eu também tenho mestrado, eu também tenho mestrado, lalalalalá, ♫ - e o meu está no site da USP a disposição do público, diferentemente da escrita pelo rapaz) e  last but not least, menos carteirada judicial.

E claro, mais um último ponto, ESSENCIALÍSSIMO:

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Olavo de Carvalho: "Decadência e submissão"

Por Diário do Comércio,

Não lembro quem disse, mas, no fim das contas, um romance nada mais é que uma vida, a biografia de um personagem imaginário. Não necessariamente uma biografia completa, do berço ao túmulo, mas um apanhado dos episódios essenciais que marcam a figura de um destino individual de tal modo a fazer dele um símbolo, um modelo aproximativo de muitos destinos possíveis.

Em Soumission, de Michel Houellebecq (Paris, Flammarion, 2015), romance de sucesso mundial já traduzido no Brasil, a vida do personagem corre paralela à do seu país natal, num roteiro de decadência inelutável que desemboca na submissão quase simultânea de ambos ao islamismo. O paralelo é realçado pelos nomes: François-France.

“Submissão”, em vez de “conversão”, é a palavra correta. François e a França não se convertem ao islamismo: caem dentro dele como corpos fatigados que desabam na cama.

A história transcorre no ano de 2022, numa eleição nebulosa em que o Front Nacional ganha o voto majoritário no primeiro turno (34 por cento), tendo como principal concorrente a Fraternidade Muçulmana que, transformada em partido político, supera em votação os socialistas e a moribunda direita gaullista. O Front representa, em teoria, a identidade nacional francesa, mas muitos católicos lhe sonegam apoio porque são “demasiado terceiromundistas” (sic). Cenas de violência acompanham as eleições, mas, como só são noticiadas na mídia com muitos dias de atraso, tudo transcorre numa atmosfera de aparente normalidade. Para evitar a ascensão do Front Nacional ao poder, as facções minoritárias se aliam à Fraternidade e elegem presidente o muçulmano Mohammed Ben Abbes. É o velho mito comunista da “frente antifascista” restaurado, agora sob patrocínio islâmico.

O novo governante é um homem simpático e moderado, que mantém a ala radical sob rédea curta e faz toda sorte de concessões gentis aos partidos aliados, insistindo em manter sob controle islâmico tão somente... a educação nacional. De início estão todos felizes, porque parece que nada vai mudar substancialmente, mas François logo percebe a profundidade das reformas introduzidas por Ben Abbes quando vai dar suas lições de literatura na Universidade de Paris III – a Sorbonne -- e vê que a mais tradicional das universidades francesas, agora subsidiada por bilionários sauditas, virou oficialmente uma instituição islâmica na qual não há mais lugar para um agnóstico. Pouco após a demissão, convidado a dirigir a edição das obras do romancista J.-K. (Joris-Karl) Huysmans para a Bibliothèque de la Pléiade, ele vai a uma recepção elegante promovida pela editora Gallimard e nota que ali só há homens: as mulheres, no Islam, ficam em casa. Na escala maior da sociedade as mudanças não são menos portentosas: expelido o sexo feminino do mercado de trabalho, sobra emprego para todos os homens. Da noite para o dia, a França mudou de identidade sem nem mesmo perceber. Ben Abbes, o salvador da pátria, já sonha em integrar na Europa várias nações muçulmanas e restaurar o Império Romano em versão islamizada.

Ao longo da narrativa espalham-se muitas observações exatas sobre a lenta e inexorável decomposição cultural e ideológica da França, cada vez mais desprovida de uma autoridade moral e intelectual habilitada a infundir um sentido de ordem na vida nacional. Quando os partidos políticos, a Igreja, a Maçonaria, a intelectualidade e até o movimento nacionalista se mostram incapazes de compreender o enrosco em que se meteram, a entrada do Islam em cena surge como um alívio improvisado e humilhante, mas necessário: a nação confessa sua bancarrota e, com um pragmatismo entre derrotista e cínico, sem alegria nem tristeza, submete-se ao inevitável. Além de mostrar claramente aquilo que ninguém quer ver – que a força do Islam na Europa não está no terrorismo, e sim na imigração em massa --, a islamização da França, tal como a descreve Houellebecq, ilustra, mutatis mutandis, o conceito de “revolução passiva” de Antonio Gramsci.

Igualmente oportunista e leviana é a “conversão” do próprio François. Ela é magistralmente descrita sob a forma de um paralelo inverso com a biografia espiritual de J.-K. Huysmans. François é autor de uma tese universitária sobre o romancista de Là-Bas, com a qual granjeou algum prestígio acadêmico. Huysmans, na juventude, envolveu-se em ocultismo e satanismo e, através de uma longa e atormentada crise espiritual, acabou se convertendo ao catolicismo, encerrando seus dias como oblata de uma ordem religiosa.

Nada de semelhante se passa com François. Sua aproximação com o Islam é tranqüila e sem dramas. Não tem, de fato, nenhuma profundidade espiritual. Mesmo a doutrinação que recebe é rala e brevíssima. Limita-se à leitura de um livreto de Robert Rediger, belga islamizado e discípulo de René Guénon, cuja ascensão na política francesa lhe permite viver com suas várias esposas – uma das quais de apenas quinze anos -- num casarão elegantíssimo outrora pertencente ao crítico Jean Paulhan (precursor do desconstrucionismo, portanto um dos pais da decomposição cultural), discursando sobre as virtudes do Islam e, contra o mandamento corânico expresso, bebendo vinho na maior tranqüilidade (um hábito que nos anos 80 notei ser muito comum entre intelectuais “perenialistas” islamizados).

Os argumentos com que Rediger muda a cabeça de François são de uma leviandade a toda prova. Consistem de:

(1) Uma promessa de reintegrá-lo no corpo docente da Sorbonne.

(2) Uma apologia do intelligent design em termos genéricos que serviriam para qualquer religião.

(3) Um discurso sobre as belezas da poligamia do ponto de vista darwiniano: condena os fracos e pobres ao celibato e oferece aos homens de prestígio, como por exemplo um professor universitário, o acesso fácil a mulheres..

Para o quarentão François, é uma oferta irrecusável. Após perder sua última namorada, uma moça judia que foge para Israel para escapar do anti-semitismo crescente na terra do capitão Dreyfus, ele se convence de que já não tem sex appeal, de que sua vida amorosa chegou ao fim: busca alívio na bebida e nas prostitutas, com as quais se entrega a toda sorte de extravagâncias eróticas sem nenhum prazer. O que Rediger lhe oferece é a restauração, por via legal, da virilidade evanescente: no Islam todos os casamentos são arranjados à distância por meio de alcoviteiras e da instituição dos dotes, poupando aos tímidos, fracos e velhos os desafios da conquista amorosa e favorecendo, em vez dos atrativos viris, a mera superioridade financeira (nem François nem seu novo guru percebem que isso vai contra o princípio da seleção natural).

Tal como a aliança da direita e da esquerda com a Fraternidade Muçulmana, a conversão de François é um arranjo de ocasião, improvisado sem qualquer exame de suas implicações morais e existenciais de longo prazo. François apenas contempla as mocinhas tímidas, mudas e indefesas que se substituíram às ousadas feministas da época pré-islâmica, e conclui, com uma espécie de cinismo inconsciente:

-- Não terei nada a lamentar.

No meio da narrativa, François, instigado por um amigo, faz uma visita à abadia de Rocamadour, imponente monumento da arquitetura medieval e foco de peregrinação tradicional onde se dera a conversão de J.-K. Huysmans ao catolicismo. Mas justamente ali, onde o autor de La Cathédrale vivenciara as mais profundas e arrebatadoras experiências espirituais, ele sente uma vaga emoção estética ante o ritual gregoriano e sai imune a toda mensagem cristã.

Sem nenhuma hostilidade especial ao cristianismo, ele aceita sem exame nem entusiasmo o argumento de Rediger contra a Encarnação, baseado exclusivamente no desprezo à espécie humana: Deus não desceria do Seu Trono de Majestade para se misturar com essa gentalha.

É impossível enxergar em Soumission o menor elemento autobiográfico: Houellebecq jamais freqüentou uma universidade (teve de documentar-se para descrever a vida na Sorbonne) e, com toda a evidência, não se identifica com o personagem central, cujo merecido desprezo por si mesmo transparece a cada linha da narração na primeira pessoa. Houellebecq é um daqueles gozadores a um tempo sádicos e discretos, que demolem tudo sem dar a impressão de estar fazendo nada de mais.

O duplo paralelismo – direto com o do destino nacional francês, inverso com a vida de J.-K. Huysmans – é a chave da sutil estrutura narrativa de Soumission: desaparecida do horizonte mental qualquer referência exceto museológica à experiência cristã, esfarelada a consciência entre mil e um artificialismos culturais e ideológicos – do desconstrucionismo ao darwinismo cínico da Nouvelle Droite --, a alma da nação e a do indivíduo caem juntas no leito cômodo do fato consumado.

Publicado no Diário do Comércio.