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sábado, 23 de setembro de 2017

Roger Scruton e a Beleza como valor universal

Por André,

Artigo publicado originalmente em: BARRETO, Andre Assi. "A Beleza Como Valor Universal". Revista Filosofia Ciência&Vida, São Paulo, ano VII, n°73, p. 24-31, agosto, 2012.

O artigo estava hospedado no site da revista, mantido pelo UOL, mas não se encontra mais disponível, portanto, disponibilizo-o na integra aqui. Felicita-me ter ajudado a divulgar em 2012 o importante documentário "Por que a Beleza importa?", bem como Sir Roger Scruton e sua obra em geral, quando o filósofo britânico ainda estava em tímida ascensão em território brasileiro.

Segue o texto, com pequenas variações:



Muito provavelmente todos já tiveram a experiência de, ao estar diante de obras de movimentos como surrealismo, dadaísmo, cubismo etc. – que podemos reunir sob o nome de “modernistas” –, ser preenchido por um sentimento de estranheza diante dessas obras pois, na maior parte das vezes, não primam pelo tradicional e universal critério da beleza; por muitas vezes serem feias ou simplesmente não terem (aparentemente) sentido algum. O próximo passo é rejeitar essas obras e não as considerar como arte. Essa é a reação do apreciador dotado do mero senso comum, que os adeptos das correntes estéticas “modernas” atribuem à incompreensão (pois o vulgo não teria o aparato necessário para “compreender”) ou ao preconceito.

            Contudo, há quem discorte. As coisas não são assim de acordo com a argumentação do filósofo inglês e nosso contemporâneo, Roger Scruton (1944), que dedica-se a este (entre outros) problema, faz uma apologia da Beleza e clama por uma retomada dela; Scruton faz isso especialmente em duas (de um universo de várias) de suas obras: o documentário encomendado pela BBC Why Beauty Matters? (Por que a Beleza importa? 2009) e no livro Beauty (Beleza, 2009, É Realizações, 2013). Para sustentar sua posição, Scruton remete-se a inúmeros filósofos, desde Platão, passando pelo Conde de Shaftesbury e indo até Kant (que teve seu pensamento influenciado pelo conde); também relembra que o objetivo da arte, seja a poesia, a música ou as artes plásticas, para qualquer pessoa letrada que viveu entre os séculos XVII e XIX, era a busca da Beleza (é importante notar essa lembrança feita por Scruton, tendo em vista que ele é um conservador, pretende reestabelecer parte da ordem desta época), um valor universal equivalente ao Bem e à Verdade (reportando-se também, portanto, a Platão).



            Um dos motes para exemplificar a argumentação de Scruton é o clássico “Urinol”, do francês Marcel Duchamp (1887 – 1968), obra em que Duchamp assinou um urinol com um nome fictício e o enviou para um museu para ser exposto como obra de arte. A partir do século XX, assevera Scruton, a arte deixou de buscar a Beleza e passou a fazer um culto à feiura, além de, por exemplo, ter por objetivo a originalidade a qualquer custo. Tal tendência não se restringiu apenas às artes plásticas, mas também tomou conta da arquitetura (Scruton também tem um excelente livro, este traduzido para o português, sobre arquitetura, intitulado Estética da Arquitetura, Edições 70, 2010), que se tornou estéril, o que, na opinião de Scruton, explica a quantidade de prédios abandonados e depredados na Grã-Bretanha e a popularidade de pequenos comércios com a tradicional arquitetura vitoriana.

            Dois cultos são responsáveis por essa tendência de certas correntes de arte moderna, o culto à feiura, já mencionado, cujo qual, ao virar às costas para a Beleza, faz com que a arte perca sua principal realização, que é ajudar-nos a atribuir sentido à vida, nos consolando das tristezas da vida ou, como para Platão, nos aproximar de Deus ou ainda, para os filósofos iluministas, nos ajudar a galgar alguns degraus que nos colocam para além das banalidades da vida cotidiana; e o culto à utilidade, cujo qual, faz com que o valor das coisas resida estritamente em sua utilidade prática; como Scruton menciona em seu documentário, Oscar Wilde já havia afirmado que “toda arte é inútil” – o que fora reafirmado por, por exemplo, Hannah Arendt. A Beleza (e a arte) não tem utilidade (no sentido pragmático moderno), mas é justamente nesse fato que Scruton ressalta sua importância enquanto valor universal, enraizada na natureza humana, escorando sua teoria em Shaftesbury e Kant, a fruição da Beleza é uma atividade desinteressada e, portanto, inútil. Mas isso desmerece a contemplação? Não, no mesmo sentido que a amizade, o amor ou a mera atitude de ouvir uma música, igualmente sem “utilidade prática”, não perdem seu valor.



            O segredo da arte tradicional, que servia de bálsamo para a vida, era sua valorização da criatividade, ao passo que os movimento artísticos atuais primam pela exaltação do feio, do banal e pela quebra de tabus morais, o que conduz primeiro à impressão e depois à óbvia certeza que todos, Scruton e nós, chegamos: boa parte do que aí está, sendo considerado obra de arte, não o é, algo não é transformado em arte, como num passe de mágica, por reproduzir as frivolidades cotidianas (um copo sobre uma prateleira de vidro – The Oak Tree, por Michael Craig, 1973 ou uma cama desarrumada – My Bed, por Tracey Emin, 1998) e chamá-las de arte, como se esse caráter fosse adquirido pelo decreto verbal do artista (para a tristeza dos desconstrucionistas, que acreditam que a realidade é determinada pela linguagem). Para que a arte retome sua trilha, é preciso que ela retorne sua face para a Beleza novamente, tal como fora prescrito pelos filósofos e praticado pelos artistas até então.




            A crítica de Scruton não se limita à arte, mas repousa sobre um diagnóstico muito mais amplo, que também é marca registrada da nossa época, chamada de pós-moderna: o total abandono e desprezo pela Razão, que fora tão bem tida pelos filósofos iluministas em especial e pelos modernos em geral. Deixam de existir os critérios universais – sejam lógicos ou de gosto – todas as opiniões são igualmente válidas, todas as culturas expressam formas de conhecimento igualmente dignas de consideração e têm o mesmo valor epistêmico. Grosso modo: trata-se do relativismo radical apregoado pela maior parte dos filósofos pós-modernos, que também são alvo da crítica feroz de Scruton, os mesmos Deleuze, Guattari, Foucault, Rorty et caterva. Isso significa que Scruton não se limita à esfera propriamente filosófica da questão (o que é Arte? Há critérios objetivos para defini-la e avalia-la? etc), mas avança no sentido sociológico do problema, isto é, tenta responder como chegamos a esse ponto, que tipo de sociedade produz e celebra o tipo de arte atualmente produzida etc.

            Certamente que, num mundo onde a ciência é considerada o mito fundante da nossa era, líderes islâmicos e prêmios Nobel são autoridades dignas de igual atenção tanto em matéria de física como de ética, pois, afinal, não há choque de culturas algum, nem “nossa” cultura está certa em permitir que homens e mulheres votem, tampouco a cultura islâmica está errada em desfigurar a face das mulheres adúlteras com ácido, trata-se apenas de culturas diferentes, dignas de igual respeito e consideração. Qualquer coisa diferente disso não passa de “preconceito ocidentalista”, argumenta Scruton, em algumas de suas obras e artigos.


            Inserindo a discussão estética nesse contexto mais amplo, fica claro que não há o menor espaço para a admissão de um gosto estético “melhor” ou “pior”, só existem gostos estéticos (sempre no plural): se o seu diz que uma lata contendo excrementos (Artist's Shit, por Piero Manzoni, 1961) é arte, quem são todos os outros para dizer que não? Isso porque não há verdadeiro ou falso, não há bem ou mal, certo ou errado, se nenhum desses existe, por que razão haveria espaço para o bom ou o mal gosto estético?

            Trata-se de um apelo colossal a um subjetivismo totalitário. Totalitário em que sentido? Nem mesmo os proponentes do relativismo acreditam no que propõem, pois são os primeiros a censurar aqueles que os reprovam, se todos os gostos estéticos são igualmente válidos, porque bradam bravamente contra os que têm um gosto estético fundado na Beleza? É muito simples: num contexto onde tudo é permitido, onde nada é proibido, é essencial proibir e censurar o proibidor. É um totalitarismo que exclui tudo ao seu redor, exceto os relativistas. E é exatamente o que é feito com Scruton, visto que o filósofo é, muitas vezes, deixado à margem do estabilishment acadêmico.

            Mas quais as razões que levam Scruton a rejeitar o subjetivismo estético? Como veremos a seguir, Scruton considera que a Beleza é um, dentre alguns outros, de uma série de valores que estão enraizados na natureza humana.

A Beleza enquanto inerente à natureza humana

            Talvez soe demodé falar de natureza humana hoje em dia (ou não, se aceitamos os interessantes argumentos de Steven Pinker em Tábula Rasa), quer em termos filosóficos quer científicos, mas a argumentação de Scruton segue esse caminho e indica que tanto a busca como a necessidade da Beleza são marcas indeléveis da natureza humana. Como uma das características essenciais da natureza humana é a racionalidade, é justamente na busca racional pela Beleza – autorizada pela nossa natureza, que podemos fugir do subjetivismo estético característico da nossa época: “nenhum gosto pode ser criticado, (...) já que que criticar um gosto nada mais é que dar voz a outro” (Beauty, 2009, p. IX, tradução nossa). Na contramão disso, Scruton argumenta no seu livro que os juízos estéticos têm fundamentação racional e, portanto, objetiva. Tanto o subjetivismo estético, “todos os gostos são equivalentes”, como o ceticismo, “não há verdade ou falsidade, erro ou acerto em termos de estética” são peremptoriamente rejeitados por Scruton com base na ideia que a Razão humana busca a Beleza.

            A Beleza, embora não entre em competição ou nem sempre necessariamente esteja lado-a- lado com a bondade, nossa incansável busca por ela enraíza ambas em nós, faz com que essa busca nos defina como humanos: “A Beleza está, portanto, firmemente enraizada no esquema das coisas, tal como a Bondade. Ela fala a nós, tal como a virtude fala a nós, trata-se de um preenchimento: não de coisas que desejamos, mas de coisas que devemos, porque a natureza humana as exige” (idem, p. 147, tradução e grifo nossos).

            Tal como as formas a prori da razão, apresentadas por Kant na Estética Transcendental, a Beleza é uma marca que nos define enquanto sujeitos racionais, capazes de compreender o mundo. Tanto sua busca como sua concretização nas mais variadas formas arte, são necessidades imprescindíveis a todo ser humano. Abdicar da busca pela Beleza, tal como a arte moderna faz, é abrir mão de uma herança cultural riquíssima, é fazer com que a vida seja mais difícil de ser vivida; é torná-la mais cinza fazendo com que a principal função da arte, que, como dissemos, é fornecer consolo para a vida diária, se perca.     

Retrato de Rosalba Peale, Remdbrandt

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes: 2007.

DUTTON, D. A darwinian theory of beauty. TED Talks, 2010. (Disponível em: http://www.ted.com/talks/lang/eng/denis_dutton_a_darwinian_theory_of_beauty.html)

SCRUTON, R. Beauty. Oxford University Press: 2009.

            . Estética da arquitectura. Edições 70: 2010.

            . The West and the rest.  ISI Books: 2002.

            . What ever happened to reason? 1999. (Disponível em: http://www.city-journal.org/html/9_2_urbanities_what_ever.html. Acessado em: 10/02/12)


            . Why Beauty Matters. BBC: 2009. (Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bHw4MMEnmpc.  Acessado em: 10/02/12)

sábado, 25 de março de 2017

O formalismo em estética continua vivo

Por Estadão,

Nick Zangwill já passou duas temporadas a trabalho no Brasil, mas em nenhuma delas teve a chance de apresentar suas ideias sobre estética na universidade. A entrevista que o filósofo nos concedeu da China, onde está trabalhando no momento, revela a oportunidade que perdemos. Catedrático da University of Hull, no norte da Inglaterra, Zangwill publicou em 2001 o livro The Metaphysics of Beauty, e desde então se tornou uma das maiores referências sobre o formalismo, uma corrente do pensamento estético que se tornou marginal pela influência das tendências pós-modernas e “desconstrucionistas” na filosofia.

O mercado editorial acadêmico ainda deve obrigar os leitores brasileiros a uma longa espera pela tradução de The Metaphysics of Beauty ao português. Pior para nós. A proposta de um “neformalismo moderado”, concebida por Zangwill, já se consolidou na estética contemporânea como uma passagem obrigatória para quem se interessa pelo tema. Ao revisar autores como Clive Bell e Roger Fry, a teoria de Zangwill demonstra que os excessos do formalismo ortodoxo eram bem mais razoáveis que o relativismo engajado do atual mundo acadêmico.

Na conversa abaixo, realizada a partir do interesse que a obra de Zangwill suscita no GEFAT (Grupo de Estudos Forma, Arte e Tecnologia, da Universidade Federal de Goiás), pudemos ouvi-lo sobre a sua trajetória acadêmica, as diferentes maneiras de fazer filosofia na universidade, o papel da crítica e dos curadores e, é claro, os principais aspectos da sua reflexão original sobre o formalismo.


Rodrigo Cássio: O formalismo é geralmente considerado um ponto de vista teórico envelhecido. Mesmo assim, em seu trabalho, você escreve em sua defesa na atualidade. Como você desenvolveu este interesse?

Nick Zangwill: Eu não acredito que alguém deva se preocupar com o que é novo ou velho. Nas Humanidades, pode haver um valor duradouro em visões antigas. Beethoven está na moda? Esta não é uma boa questão.

Como cheguei ao formalismo? Eu praticamente não estudei estética quando era estudante de graduação ou de pós-graduação. Entretanto, como uma pessoa razoavelmente inteirada, aproveitei várias atividades de natureza estética. Após terminar meu doutorado sobre metaética e começar a lecionar filosofia, eu descobri a estética filosófica. Fiquei surpreso com o consenso antiformalista, especialmente nos Estados Unidos. Então comecei a articular e defender o formalismo, que eu considerei a perspectiva mais sensata.

O antiformalismo parecia cego para aquilo que é obviamente importante. Além disso, os argumentos dos antiformalistas não eram tão bons como eles imaginavam. Na verdade, eram gritantemente petições de princípio ou argumentos de força limitada. Acredito que não ter feito meu doutorado em estética me deu um tipo de liberdade que me permitiu seguir na direção contrária da que alguém seguiria se tivesse sido escolarizado (submetido a uma lavagem cerebral, alguém diria?) no modo de pensar que é concedido aos estudantes de graduação.

Ademais, há o risco de você perder contato com os fenômenos quando está imerso na “literatura”. Você pode se tornar incrivelmente competente, mas enfadonho. Melhor ir ao encontro dos fenômenos com o olhar fresco.

Rodrigo Cássio: Na sua obra, Clive Bell e Roger Fry são criticados por suas posições sobre a “forma”, ao passo que Clement Greenberg, embora rejeitando o nome de formalista, é considerado um pensador sutil deste conceito. Como você classifica Greenberg?

Nick Zangwill: Bell e Fry, a despeito de suas virtudes, foram longe demais ao restringir a significação estética a questões formais. Este é um erro menor do que negá-las completamente, como fazem os antiformalistas. Em todo caso, há beleza na representação que está além da beleza formal das linhas e cores em uma superfície, e além da beleza formal das formas plásticas tridimensionais. É isso que nos diz o senso estético comum e a experiência.

Possivelmente, a emergência do formalismo em Bell e Fry coincide com o movimento modernista na pintura no começo do século XX. No entanto, eles fizeram afirmações de caráter mais universal. Eu penso que as afirmações de Greenberg foram restritas à arte significativa ou interessante de uma área particular. Greenberg provavelmente não estava fazendo afirmações universais, mas apenas dizendo que a melhor arte de seu tempo tinha preocupações e valores formais dominantes.

Muito se objeta que essa análise não se adequa ao surrealismo ou à pop art, mas talvez isso seja pior para o surrealismo e a pop art (que, afinal, podem ser muito triviais). Greenberg foi um crítico hábil que podia trazer à tona as virtudes formais da pintura em seus escritos. Mas eu diria que Greenberg pode ser demasiado voltado para os EUA: o que dizer de Dubuffet e Richter na Europa? Eles não entraram na narrativa americanista e triunfalista de Greenberg.

Rodrigo Cássio: Em The Metaphisics of Beauty foram publicados seus artigos sobre estética produzidos em um período de dez anos (1991-2001), incluindo a discussão sobre o formalismo. Você poderia explicar a sua proposta de um formalismo estético moderado?

Nick Zangwill: O formalismo moderado foi concebido para ser uma visão sensata e bastante desempolgada, que reconhece os valores formais suscitados pelos aspectos não representacionais da forma [design], a configuração espacial das cores e linhas na superfície, mas também outros valores estéticos que dependem de conteúdo representacional, ou ainda de outras funções não estéticas, como a história da produção [das obras].

O antiformalismo extremo tinha se tornado tão dominante, negando qualquer valor estético que emergisse da forma sem o conteúdo, o contexto ou a história, que o meu ponto de vista foi tido como como radical e até mesmo perverso. Eis o poder do paradigma.

Imagine a configuração de um texto na arte gráfica. As letras podem se adequar de maneira melhor ou pior ao espaço que há em torno delas, o que pode dar origem a uma grande arte, como no leste da Ásia ou na caligrafia islâmica. A adequação correta é o teste a ser feito. O que se chama de kerning na impressão de palavras significa que um “i” e um “m” ocupam diferentes quantidades de espaço. Sem o ajuste do kerning, um texto impresso parece horrível. O significado das palavras, embora possa estar relacionado com a forma das letras, é outro assunto. Ainda assim, questões relativas à pura forma visual são inevitáveis, mesmo se houver algo além da obra de arte visual. Tentar ver as pinturas simplesmente como artefatos de significado, ignorando sua visualidade, é algo muito pobre, é seguramente um desastre. As abordagens pós-modernas, é claro, são particularmente desastrosas, pois trazem à frente o significado, e isso bloqueia qualquer outra coisa.

Eu mudei um pouco a maneira como caracterizo este tema. No livro de 2001, The Metaphisics of Beauty, enfatizei propriedades sensoriais, tais como as disposições das cores e dos sons. Agora eu gostaria de enfatizar propriedades sensíveis, vistas de uma certa maneira (ver meu artigo Clouds of Illusion in the Aesthetics of Nature, na revista Philosophical Quartely, de 2013). Penso que toda beleza depende da aparência, do modo como algo se mostra para a visão ou se dá a ouvir. Algumas vezes, outras funções e significados são combinados com as aparências para produzir uma beleza complexa. Mas sem a aparência não há beleza. Nisso, estou em desacordo com o Platão de O Banquete. Não há uma beleza superior à beleza sensível. Gostaria de recomendar o livro Visuality for Architects, de Branko Mitrovic, sobre esse assunto.

Rodrigo Cássio: Qual a relação entre os conceitos de beleza e forma?

Nick Zangwill: Bem, as palavras e conceitos, aqui, são um tanto maleáveis. Eu prefiro usar “beleza” para uma ideia abrangente do valor estético. Se eu uso o termo “forma”, trata-se dos elementos visuais imediatamente disponíveis, que estão no nível mais básico de responsabilidade pela beleza ou fealdade. Aquilo que está disponível imediatamente à visão não inclui e tampouco é informado por fatos como a história do objeto ou a sua relação com distintos objetos. De fato, alguém pode experimentar a aparência de um objeto, mesmo sabendo que ele não é como parece ser.

Rodrigo Cássio: Ultimamente, tem-se a impressão de que a arte contemporânea está se tornando cada vez mais antiformalista. Para vários críticos e curadores, o conteúdo é muito mais importante que a forma, especialmente quando questões políticas estão envolvidas. Por exemplo, a 32a Bienal de São Paulo enfatizou o aquecimento global e a extinção das espécies. Como o formalismo moderado pode contribuir para a crítica contemporânea e as atuais práticas curatoriais?

Nick Zangwill: As artes visuais podem ser mais ou menos formais e mais ou menos significacionais. Eu não sou contra o conteúdo na arte, pois podem existir interessantes combinações de forma e conteúdo. O problema começa quando você tem uma arte política pregadora e didática, do tipo que você provavelmente está descrevendo, e que, em geral, é politicamente superficial e tediosa de se ver. Aí se presume que os artistas tentam vender o seu trabalho vinculando-o a alguma causa política da moda. O radical chique é, com frequência, uma boa estratégia de marketing. Desde Elvis Presley, os empresários inteligentes já tinha entendido que a rebelião pode ser comercializada. O “Efeito Elvis”, como poderíamos chamá-lo, pode assumir vida própria, assim como as pessoas internalizam a sua atitude (o que também é conhecido como “falsa consciência”).

Quando estas obras superpolitizadas não possuem valores formais interessantes, então você tem um duplo fracasso. Mas algumas delas são, de fato, formalmente interessantes. Elas podem ser belas. Então alguém pode desculpar o conteúdo, do mesmo modo que se desculpa uma ópera com grande música, mas que possui uma história boba. O verdadeiro segredo é combinar forma e conteúdo de maneira convincente. Há muita coisa formalmente interessante na arte contemporânea. Por exemplo, os trabalhos de Anish Kapoor e Cornelia Parker têm beleza formal.

A crítica de arte formalista não deve ter medo de abordar a obra como forma visual, independente do contexto, do conteúdo, da história, das posturas políticas, dos papos pseudointelectuais dos seus vendedores e assim por diante. Todo mundo, na verdade, reconhece as qualidades formais da arte, especialmente os artistas, mas você não espera que falem delas – é como quando levantamos para ir ao banheiro. Fale sobre a forma como crítico, e as pessoas ficarão felizes por ter esse importante aspecto da experiência reconhecido e valorizado.

Além disso, curadores já levam em consideração a forma quando fazem escolhas entre obras similares com significados similares. O problema é que é difícil falar sobre a forma tão bem como Greenberg fazia. Nós ainda deveríamos tentar, uma vez que isso é realmente importante para quem consome e faz arte.

Rodrigo Cássio
: No GEFAT (Grupo de Estudos Forma, Arte e Tecnologia/UFG), estamos interessados em cinema e arte tecnológica. Como você caracterizaria uma abordagem formalista dessas artes?

Nick Zangwill: Formalismo no cinema e na arte tecnológica! Uma interessante questão. Isso não é algo sobre o que eu já tenha escrito ou pensado muito a respeito. Lamento! Mas alguns dos filmes que gosto têm uma dimensão de forma visual: Ida, por exemplo, ou o meu filme favorito, Medea, de Pasolini. Mas haveria aí uma questão sobre como os valores formais estão integrados com a narrativa. Você se importa se eu não disser mais que do isso? Precisaria pensar por um ou dois anos…. Ou talvez o seu grupo, GEFAT, traga-nos alguma coisa! Berys Gaut tem escrito sobre este tema. Eu recomendo seus trabalhos.

Rodrigo Cássio: No Brasil, os comentários sobre os teóricos continentais ainda prevalecem na pesquisa acadêmica em filosofia. Um dos poucos autores analíticos da estética traduzidos no país foi Arthur Danto, e apenas recentemente os livros de Roger Scruton vêm sendo publicados. Autores como Monroe Beardsley ou Frank Sibley são muito raros na maior parte das discussões. Você poderia descrever as contribuições mais importantes para a estética produzidas pela abordagem analítica nas últimas décadas, particularmente sobre o tema do formalismo?

Nick Zangwill: A maior parte da estética no Brasil não é produzida no estilo claro e argumentativo da língua inglesa, e tem sido deixada para o nonsense pós-moderno e o “discurso” político doutrinário de origem francesa e alemã. Isso é uma vergonha, principalmente porque é irrelevante para a experiência com a arte e a criação atuais, a não ser, como observei antes, como publicidade. Vomitar uma nuvem de confusão e de vocabulário difícil raramente é sinal de profundidade, e costuma ser a tentativa de evitar clareza, na esperança de que os ouvintes não o vejam de maneira transparente.

Fico feliz que as pessoas no Brasil estejam lendo Roger Scruton. Beardsley e Sibley não escreveram para um público amplo, mas são pensadores importantes dos anos 1950 e 1960. Em um exemplo, Sibley se interessou por saber como a elegância da pintura está relacionada aos elementos que a geram (ver o artigo Aesthetic/Nonaesthetic, na Philosophical Review, 1965). Ele argumentou que se trata de um tipo de dependência que não nos permite generalizar para outros casos. Não há regras para a descrição estética. Beardsley discordou, apresentando um número determinado de princípios. O trabalho de Sibley nos permite levantar problemas sobre o formalismo.

A questão é: o que é responsável pela elegância e a beleza? Os elementos responsáveis por ela incluiriam, alguma vez ou sempre, a história ou o contexto do objeto, assim como a sua natureza física e aparência? Se sim, algum tipo de antiformalismo está correto. Se não, o formalismo está correto.

Rodrigo Cássio: Você já viveu no Brasil como professor visitante. Como foi essa experiência para a sua pesquisa?

Nick Zangwill
: Eu estive duas vezes no Brasil como professor visitante, uma no Departamento de Música da Universidade de São Paulo, e outra no Departamento de Filosofia da Unicamp. Intelectualmente foi muito estimulante. Apresentei vários trabalhos pelo país, principalmente sobre metafísica e epistemologia da lógica, mas nenhum sobre estética. Em Porto Alegre tive o privilégio de conhecer o grande lógico brasileiro Newton da Costa.

Há boa filosofia no Brasil, mas parece que somente na parte da lógica, da metafísica e da epistemologia, ao passo que as value areas [ética, filosofia política, estética etc.] são deixadas para a tradição continental. Eu acredito que isso vai mudar. Vejo alguma mudança na área de ética, mas não ainda em estética e filosofia política.

Embora eu tenha inclinação para a chamada filosofia “analítica”, eu realmente penso que Nietzsche é interessante (e alguém deve se lembrar de que ele era crítico de várias coisas na Alemanha, em vez de ser mais um na linha dos filósofos pós-kantianos). Fiquei satisfeito ao ver como ele é popular no Brasil, e que você pode comprar seus livros nas máquinas do metrô.

Eu tive um ótimo momento quando estive no Brasil. Tenho um amigo no Rio que me levou a rodas de samba maravilhosas. Aproveitei as caipirinhas e dancei forró. Também viajei para Buenos Aires a fim de conhecer tango e o divino bife de lomo. Eu sonhava em conhecer Brasília, o que finalmente fiz. Eu me lembro de ficar olhando as imagens dos seus prédios quando era criança. Oscar Niemeyer é maravilhoso. Lina Bo Bardi também é impressionante.

Minha piada filosófica sobre o Brasil é que os seus fundadores criaram o lema nacional errado. Eles erraram ao escolher a constante lógica “e”, em vez de “se, então”. O lema atual diz “Ordem e Progresso”, quando deveria dizer “Se Ordem, então Progresso”. Eu adoraria voltar ao Brasil para aprender mais sobre este imenso país e sua população diversa, além de participar da sua vida intelectual.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A Arte Contemporânea é uma farsa: Avelina Lésper

Por Incubadora de Artistas,

Com a finalidade de dar a conhecer seus argumentos sobre os porquês da arte contemporânea ser uma “arte falsa“, a crítica de arte Avelina Lésper apresentou a conferência “El Arte Contemporáneo- El dogma incuestionable” na Escuela Nacional de Artes Plásticas (ENAP), sendo ovacionada pelos estudantes na ocasião.

A arte falsa e o vazio criativo

“A carência de rigor (nas obras) permitiu que o vazio de criação, o acaso e a falta de inteligência passassem a ser os valores desta arte falsa, entrando qualquer coisa para ser exposta nos museus “

A crítica explica que os objetos e valores estéticos que se apresentam como arte são aceites em completa submissão aos princípios deuma autoridade impositora. Isto faz com que, a cada dia, formem-se sociedades menos inteligentes e aproximando-nos da barbárie.

O Ready Made

Lésper aborda também o tema do Ready Made, expressando perante esta corrente “artística” uma regressão ao mais elementar e irracional do pensamento humano, um retorno ao pensamento mágico que nega a realidade. A arte foi reduzida a uma crença fantasiosae sua presença em um mero significado. “Necesitamos de arte e não de crenças”.

Génio artístico

Da mesma maneira, a crítica afirma que a figura do “génio”, artista com obras insubstituíveis, já não tem possibilidade de manifestar-se na atualidade. “Hoje em dia, com a superpopulação de artistas, estes deixam de ser prescindíveis e qualquer obra substitui-se por outraqualquer, uma vez que cada uma delas carece de singularidade“.

O status de artista

A substituição constante de artistas dá-se pela fraca qualidade de seus trabalhos, “tudo aquilo que o artista realiza está predestinado a ser arte, excremento, objetos e fotografias pessoais, imitações, mensagens de internet, brinquedos, etc. Atualmente, fazer arte é umexercício ególatra; as performances, os vídeos, as instalações estão feitas de maneira tão óbvia que subjuga a simplicidade criativa, além de serem peças que, em sua grande maioria, apelam ao mínimo esforço e cuja acessibilidade criativa revela tratar-se de uma realidade que poderia ter sido alcançada por qualquer um“.

Neste sentido, Lésper afirma que, ao conceder o status de artista a qualquer um, todo o mérito é-lhe dissolvido e ocorre uma banalização.“Cada vez que alguém sem qualquer mérito e sem trabalho realmente excepcional expõe, a arte deprecia-se em sua presença e concepção. Quanto mais artistas existirem, piores são as obras. A quantidade não reflete a qualidade“.

Que cada trabalho fale pelo artista

“O artista do ready made atinge a todas as dimensões, mas as atinge com pouco profissionalismo; se faz vídeo, não alcança os padrões requeridos pelo cinema ou pela publicidade; se faz obras eletrónicas, manda-as fazer, sem ser capaz de alcançar os padrões de um técnico mediano; se envolve-se com sons, não chega à experiência proporcionada por um DJ; assume que, por tratar-se de uma obra dearte contemporânea, não tem porquê alcançar um mínimo rigor de qualidade em sua realização.

Os artistas fazem coisas extraordinárias e demonstram em cada trabalho sua condição de criadores. Nem Damien Hirst, nem Gabriel Orozco, nem Teresa Margolles, nem a já imensa e crescente lista de artistas o são de fato. E isto não o digo eu, dizem suas obras por eles“.

Para os Estudantes

Como conselho aos estudantes, Avelina diz que deixem que suas obras falem por eles, não um curador, um sistema ou um dogma. “Suaobra dirá se são ou não artistas e, se produzem esta falsa arte, repito, não são artistas”.

O público ignorante

Lésper assegura que, nos dias que correm, a arte deixou de ser inclusiva, pelo que voltou-se contra seus próprios princípios dogmáticos e, caso não agrade ao espectador, acusa-o de “ignorante, estúpido e diz-lhe com grande arrogância que, se não agrada é por que não apercebe“.

“O espectador, para evitar ser chamado ignorante, não pode dizer aquilo que pensa, uma vez que, para esta arte, todo público que não submete-se a ela é imbecil, ignorante e nunca estará a altura da peça exposta ou do artista por trás dela.Desta maneira, o espectador deixa de presenciar obras que demonstrem inteligência”.

Finalizando

Finalmente, Lésper sinaliza que a arte contemporánea é endogámica, elitista; com vocação segregacionista, é realizada para sua própriaestrutura burocrática, favorecendo apenas às instituições e seus patrocinadores. “A obsessão pedagógica, a necesidade de explicar cada obra, cada exposição gera a sobre–produção de textos que nada mais é do que uma encenação implícita de critérios, uma negação àexperiência estética livre, uma sobre–intelectualização da obra para sobrevalorizá-la e impedir que a sua percepção seja exercida comnaturalidade“.

A criação é livre, no entanto a contemplação não é. “Estamos diante da ditadura do mais medíocre”

fonte: Vanguardia

Assista aqui uma conferência proferida por Avelina Lésper:

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Arte, contemplação e Beleza

Por André,

Recebi por indicação de um dos grupos que participo o seguinte curta:


Gostei do trabalho por ilustrar que a Beleza não significa telas de paisagens naturais, calmas e "bonitinhas". Não apenas isso, pelo menos. A Beleza pode ser representada pelo erótico, pelo triste, pelo terrível, pelo pesar etc. etc.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A beleza segundo o Objetivismo



A beleza é um senso de harmonia. Quer uma imagem, uma face humana, um corpo ou um pôr-do-sol, tome o objeto que você considera belo como uma unidade [e pergunte a si próprio]: quais partes dele são feitas, quais são seus elementos constituintes, são eles todos harmoniosos? Se forem, o resultado é bonito. Se houver contradições e conflitos, o resultado será algo desfigurado ou positivamente feio.

O exemplo mais simples seria uma face humana. Você sabe quais traços pertencem a uma face humana. Bem, se a face for torta, com uma mandíbula indefinida, olhos pequeninos, uma boca bonita e um nariz comprido, você provavelmente teria de dizer que este não é um rosto bonito. Mas se todos esses traços estiverem harmoniosamente integrados, se todos eles preencherem sua visão e fizerem reconhecer a importância deles num rosto humano, então o rosto será bonito.

Com respeito a isso, seria um bom exemplo a beleza das diferentes raças de pessoas. Por exemplo, a face negra ou uma face oriental, constituem-se a partir de diferentes padrões e, portanto, o que seria bonito em uma face branca não seria bonito para as outras duas (e vice-versa), porque existe certo padrão racial nesses traços pelo qual você julga quais deles, quais rostos, de acordo com aquela classificação, se encontram em harmonia ou não.

Isso no que diz respeito à beleza humana. Quanto a um pôr-do-sol, por exemplo, ou a uma paisagem, você classificará como bonito, se todas as cores complementarem-se umas às outras, ou combinarem-se bem quando unidas, ou derem uma impressão dramática. E você considerará feio caso seja uma tarde chuvosa e o céu não estiver exatamente rosa tampouco cinza, mas algo como “moderno”.

Já que existe uma definição objetiva de beleza, é certo que pode haver padrões universais de beleza - desde que você os termos de quais objetos você irá classificar como belos e o que você considera como o ideal de relação harmoniosa dos elementos desse objeto em particular. Dizer que “está nos olhos de quem vê” seria, é claro, puro subjetivismo, se tomado literalmente. Não é uma questão de você decidir, por razões desconhecidas, o que é bonito. É verdade, é claro, que se não houvesse avaliadores, nada poderia ser valorizado como bonito ou feio, porque valores são criados pela consciência observadora – contudo, são criados por um padrão baseado na realidade. Aqui está o ponto da questão: valores, incluindo a beleza, devem ser julgados enquanto objetivos, não como subjetivos ou intrínsecos.

Autor: Leonard Peikoff
A Filosofia Objetivista, Leitura 11.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Revista "Filosofia, ciência & vida" publica meu artigo sobre Estética

Por André,



A primeira página do artigo:


Como assinante, recebi meu exemplar hoje, mas imagino que se a revista já não estiver nas bancas, deve estar muito em breve.

Uma excelente oportunidade para conhecer uma centelha do pensamento brilhante de Roger Scruton, um pensandor (entre muitos) quase que desconhecido do público brasileiro.

Confira outras postagens sobre Scruton (e assista o documentário):

Trechos da entrevista do filósofo inglês Roger Scruton à Veja (páginas amarelas);

Documentário por Roger Scruton: "Por que a beleza importa?";

Site "Direitas Já" publica tradução do texto "O que aconteceu à Razão" do filósofo Roger Scruton;

Why Beauty Matters?/Por que a beleza importa? por Roger Scruton. Agora legendado em Português brasileiro.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Bruno Garschagen: A beleza salvará o mundo

Bruno Garschagen: A beleza salvará o mundo: Excelente texto do João Pereira Coutinho na Folha de hoje : Para começar, o mundo é dos belos. Negar para quê? Faz parte da retórica ...