Mostrando postagens com marcador Roger Scruton. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Roger Scruton. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Apreensão do transcendente: uma conversa entre Roger Scruton e Jordan Peterson

Por André para o Análise Inversa,






Roger Scruton e Jordan Peterson se engajaram numa interessante conversa sobre o tema do transcendente na universidade de Cambridge, mais especificamente no departamento de estudos platônicos. Scruton é um filósofo inglês, além de músico e autor de romances, sabidamente conservador e já (felizmente) bastante conhecido no mercado de ideias brasileiro. Peterson é um psicólogo canadense que ganhou renome internacional por sua defesa da liberdade de expressão e oposição a um projeto de lei (C-16), que deseja regular o discurso dos indivíduos de forma que usem a “linguagem apropriada” para se referir a pessoas “transgênero”. Peterson se define como um liberal clássico.

Antes de traçar um breve resumo da conversa, um preâmbulo sobre os dois é necessário. Discorrer sobre o tema do “transcendente” parece tarefa para religiosos – ou pelo menos é isso que deve pensar alguém com alguma definição mais imediata de transcendência. Cumpre notar que nem Scruton e tampouco Peterson são adeptos praticantes da religião. Scruton tem uma vinculação nacional e institucional com a igreja anglicana – hoje um poço de progressismo. Peterson afirma em seus debates sobre religião que “não acredita em Deus, mas leva a vida como se ele existisse” – o que faz os ateus militantes imediatamente jogá-lo no colo dos conservadores religiosos. A confusão com Peterson se dá porque ele enxerga valor, verdade e sentido no legado literário das grandes religiões. Há Verdade (transcendência?) nos textos sagrados e isso é uma heresia não permitida para os ateus cientificistas, que por corolário de suas crenças precisam tratar qualquer texto religioso como contos de fadas nocivos para crianças crescidinhas.

Em tempos de ascensão do conservadorismo, especialmente nas jurássicas terras e mentes brasileiras, é bom ver um pouco de legítima diversidade por aí. Conservadorismo, na boca de esquerdistas, significa “fundamentalismo” religioso, seja à moda de uma TFP católica ou do neopentecostalismo evangélico. Portanto, é bom ver que há mais coisas no mundo civilizado das ideias do que pressupõe o vão “progressismo” das classes falantes brasileiras.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Roger Scruton sobre Harry Potter

Por André,




Um historiador do futuro, olhando para o tempo em que vivemos, certamente identificará J.K. Rowling como uma figura de elevada importância. De uma forma que tinha poucos precedentes desde “Peter Pan” e “O vento dos salgueiros”, ela capturou a imaginação coletiva do povo britânico e preencheu nossas mentes com personagens e atitudes que serviram como um quadro de referência compartilhado. Não apenas em nossos devaneios, mas também em nossas esperanças e intenções. 


[...] Há alguns entre meus colegas literários que rejeitam os livros de Harry Potter como literatura inculta, baseada em personagens descartáveis lançados em enredos extravagantes que não vão a lugar nenhum. 

Eu não concordo com eles. J.K. Rowling desfruta do tipo de sucesso que apenas um escritor que tocou em sentimentos reais e universais pode alcançar. Ela tem talento para inventar personagens que engajam os sentimentos de leitores comuns e situações em que as emoções do dia-a-dia são, repentinamente e alarmantemente, colocadas em teste. Os enredos dela podem ser extravagantes, mas existem poucas – se houverem – pontas soltas; e tudo corre suavemente, da descrição ao diálogo, e vice-versa.

Ela também tem algo do talento de Dickens quando se fala em nomes. Dumbledore, Voldemort, Malfoy, Hagrid, Hogwarts. Esses e muitos outros são propriedades domésticas como Magwitch, Peggotty e Oliver Twist. De um modo geral, eu daria crédito à J.K. Rowling por dar uma real contribuição à literatura, ainda que literatura infantil. 

Há literatura infantil de dois tipos: de um lado existem as histórias que abordam especificamente o estado de espírito da criança, e brincam com aquelas emoções primordiais que são resíduos dos tempos das cavernas – deste tipo são os contos populares coletados e embelezados pelos Irmãos Grimm. Por outro lado, existe a literatura que não é voltada para a criança, mas para a idéia da criança; literatura que retrata a mente infantil, valoriza-a, e também usa-a para transmitir verdades sobre o mundo adulto. Entre as obras deste segundo tipo estão algumas das obras primas da nossa literatura, incluindo os livros de Alice, por Lewis Carroll, e a história de Mark Twain sobre Huckleberry Finn. 

Literatura infantil deste segundo tipo é sobre o mundo como realmente é, mas escrito de uma forma que coloca a inocência e a ingenuidade da criança no centro da narrativa. A literatura infantil do tipo menos artístico não é sobre o mundo como realmente é, mas é sobre o mundo na percepção da criança, quando privado da sabedoria e da experiência adulta. É um mundo mágico, organizado por poderes ocultos e feitiços. É também um mundo simplificado onde bem e mal são revelados em termos concretos e dividem a realidade entre eles. É um mundo sem responsabilidades, uma vez que elas estão em outras mãos. 

E a criança que cai num mundo como esse só precisa de um tipo de conhecimento, que é o conhecimento de feitiços que irão invocar as forças do bem para protegê-la e afastar as forças o mal.

Tal mundo é o descrito e ricamente mobiliado por J. K. Rowling e sua narrativa astuta, que irão trazer total aprovação de todos aqueles que algum dia tentaram contar uma história de ninar. Mas isso levanta questões importantes sobre nossa cultura. Apesar dos livros de Harry Potter serem para crianças, eles deixaram de ser histórias de ninar e invadiram o dia-a-dia de trabalho adulto. Os nomes dos personagens estão na boca de todo mundo; a internet oferece os nomes de Harry Potter para cachorros, gatos e pôneis; a própria J.K. Rowling te convida para batizar seu político mais odiado com os recursos do léxico dela: A Sra. May* é claramente uma Dursley, mesmo que Corbyn** não tenha alcançado o status de Dumbledore.

O aspecto mais interessante das histórias de Harry Potter, antropologicamente falando, é que elas acreditam numa forma de fascínio antiquada e bem inglesa, ao mesmo tempo que evita qualquer tipo de referência a nossas crenças religiosas tradicionais. Hogwarts é uma escola tradicional inglesa, com abadias e uniformes, com jogos que instigam as velhas virtudes esportivas e a disciplina hierárquica, associada com jantares formais e discursos cerimoniais. É uma grande catedral gótica, mas sem altar, hinos ou orações. 

Então como o encanto é mantido? A resposta é: por magia. E essa magia é a criação soberba de Rowling, que preenche todo lugar que a religião teria ocupado, enquanto tira o conflito entre bem e mal do plano de fundo cósmico e o coloca num plano de ações humanas. O conflito é revelado nas formas e faces, nas fissuras e fantasias, nas silhuetas e sombras desta instituição assustadora. Como disse o poeta invocado por Shakespeare, Rowling deu “a dois nadas etéreos” (two airy nothings) um local habitado e um nome. 

Mas a forma de encanto dela também nos lembra por que religião e magia estiveram em oposição. A religião nos diz que nós não temos poder sobre o mundo e que devemos aceitar nossas limitações, reconhecendo que nossa salvação depende de Deus, que vai nos resgatar. Quando nós rezamos, não ordenamos que o mundo nos obedeça, ao contrário, nos humildemente admitimos nossa falta de poder e pedimos a Deus que intervenha em nosso bem. Oração é o reconhecimento da nossa fraqueza e ao mesmo tempo é a solução para merecer a ajuda de Deus. 

Nesse aspecto, orações são o exato oposto de feitiços. Aquele que conjura um feitiço está assumindo poder sobre a realidade. Ele não tem a necessidade de nenhum Deus, já que ele é Deus; ele está assumindo poder sobre o criador e subjulgando a vida e a matéria a sua vontade. 

[...] Eu distingui dois tipos de literatura infantil: o tipo que explora os medos e esperanças primordiais de uma criança, onde a magia desempenha um papel de controle; e a parte que olha, com os olhos da criança, o mundo adulto real, e traz uma medida de inocência que ensina à criança a ver a sua própria. 
Lewis Carrol, que elevou o segundo tipo de literatura ao nível artístico mais elevado, era um matemático – com um cérebro científico frio e claro – cuja heroína luta contra a ilusão com todo seu poder de raciocínio encantador. Ela é uma criança que quer ser adulta, explorando as sombras da própria imaginação e acendendo a luz da razão que irá afastar estas sombras.

As histórias de Harry Potter são o exato oposto disso. Elas mostram um mundo adulto completamente invadido por medos e delírios infantis: magia e mistério são a moeda em que todas as transações são mensuradas; a varinha, o feitiço e o estoque de conhecimento oculto dispensaram qualquer tipo de disciplina espiritual; todo personagem é bem ou mal por natureza e não há processo de desenvolvimento, nenhuma passagem de renúncia ou oração, onde o herói ou a heroína pode se preparar para enfrentar as provações da real existência adulta. Todos os obstáculos são sonhos que podem ser dissipados num passe de mágica, e ninguém precisa que nenhum poder que não possa ser obtido por coisas deste mundo, basta apenas conhecer os segredos. 

Nós esperamos que a criança pensa e sinta desse jeito por que elas ainda têm que se libertar do tempo das cavernas. Mas nós também esperamos que elas cresçam, saiam disso, e dirijam-se ao mundo com total consciência de sua complexidade, aceitando o paciente trabalho da ciência e a necessidade de humildade e entendimento. A religião é um dos caminhos para sair da magia primitiva e para encarar o mundo com clara compreensão dos fatos que não controlamos. Crescer significa que o mundo não vai entregar bens apenas por que nós queremos. A visão de mundo adulta é o oposto da postura mental do Potterismo. 

Mas o Potterismo está começando a prevalecer. O herói de Rowling e suas circunstâncias invadiram tanto a cultura que pessoas estão começando a viver numa “Hogwarts cibernética”, acreditando que tudo está sob do seu poder, uma vez que querer alguma coisa é metade do caminho para obtê-la. [...] Se você sofre de uma overdose de Harry Potter – e vê o mundo real também em termos de poderes ocultos e feitiços que os libertam – você é mais suscetível a pensar que o que você quer será conseguido apenas clicando numa tela. 


ORIGINALMENTE EM:

sábado, 23 de setembro de 2017

Roger Scruton e a Beleza como valor universal

Por André,

Artigo publicado originalmente em: BARRETO, Andre Assi. "A Beleza Como Valor Universal". Revista Filosofia Ciência&Vida, São Paulo, ano VII, n°73, p. 24-31, agosto, 2012.

O artigo estava hospedado no site da revista, mantido pelo UOL, mas não se encontra mais disponível, portanto, disponibilizo-o na integra aqui. Felicita-me ter ajudado a divulgar em 2012 o importante documentário "Por que a Beleza importa?", bem como Sir Roger Scruton e sua obra em geral, quando o filósofo britânico ainda estava em tímida ascensão em território brasileiro.

Segue o texto, com pequenas variações:



Muito provavelmente todos já tiveram a experiência de, ao estar diante de obras de movimentos como surrealismo, dadaísmo, cubismo etc. – que podemos reunir sob o nome de “modernistas” –, ser preenchido por um sentimento de estranheza diante dessas obras pois, na maior parte das vezes, não primam pelo tradicional e universal critério da beleza; por muitas vezes serem feias ou simplesmente não terem (aparentemente) sentido algum. O próximo passo é rejeitar essas obras e não as considerar como arte. Essa é a reação do apreciador dotado do mero senso comum, que os adeptos das correntes estéticas “modernas” atribuem à incompreensão (pois o vulgo não teria o aparato necessário para “compreender”) ou ao preconceito.

            Contudo, há quem discorte. As coisas não são assim de acordo com a argumentação do filósofo inglês e nosso contemporâneo, Roger Scruton (1944), que dedica-se a este (entre outros) problema, faz uma apologia da Beleza e clama por uma retomada dela; Scruton faz isso especialmente em duas (de um universo de várias) de suas obras: o documentário encomendado pela BBC Why Beauty Matters? (Por que a Beleza importa? 2009) e no livro Beauty (Beleza, 2009, É Realizações, 2013). Para sustentar sua posição, Scruton remete-se a inúmeros filósofos, desde Platão, passando pelo Conde de Shaftesbury e indo até Kant (que teve seu pensamento influenciado pelo conde); também relembra que o objetivo da arte, seja a poesia, a música ou as artes plásticas, para qualquer pessoa letrada que viveu entre os séculos XVII e XIX, era a busca da Beleza (é importante notar essa lembrança feita por Scruton, tendo em vista que ele é um conservador, pretende reestabelecer parte da ordem desta época), um valor universal equivalente ao Bem e à Verdade (reportando-se também, portanto, a Platão).



            Um dos motes para exemplificar a argumentação de Scruton é o clássico “Urinol”, do francês Marcel Duchamp (1887 – 1968), obra em que Duchamp assinou um urinol com um nome fictício e o enviou para um museu para ser exposto como obra de arte. A partir do século XX, assevera Scruton, a arte deixou de buscar a Beleza e passou a fazer um culto à feiura, além de, por exemplo, ter por objetivo a originalidade a qualquer custo. Tal tendência não se restringiu apenas às artes plásticas, mas também tomou conta da arquitetura (Scruton também tem um excelente livro, este traduzido para o português, sobre arquitetura, intitulado Estética da Arquitetura, Edições 70, 2010), que se tornou estéril, o que, na opinião de Scruton, explica a quantidade de prédios abandonados e depredados na Grã-Bretanha e a popularidade de pequenos comércios com a tradicional arquitetura vitoriana.

            Dois cultos são responsáveis por essa tendência de certas correntes de arte moderna, o culto à feiura, já mencionado, cujo qual, ao virar às costas para a Beleza, faz com que a arte perca sua principal realização, que é ajudar-nos a atribuir sentido à vida, nos consolando das tristezas da vida ou, como para Platão, nos aproximar de Deus ou ainda, para os filósofos iluministas, nos ajudar a galgar alguns degraus que nos colocam para além das banalidades da vida cotidiana; e o culto à utilidade, cujo qual, faz com que o valor das coisas resida estritamente em sua utilidade prática; como Scruton menciona em seu documentário, Oscar Wilde já havia afirmado que “toda arte é inútil” – o que fora reafirmado por, por exemplo, Hannah Arendt. A Beleza (e a arte) não tem utilidade (no sentido pragmático moderno), mas é justamente nesse fato que Scruton ressalta sua importância enquanto valor universal, enraizada na natureza humana, escorando sua teoria em Shaftesbury e Kant, a fruição da Beleza é uma atividade desinteressada e, portanto, inútil. Mas isso desmerece a contemplação? Não, no mesmo sentido que a amizade, o amor ou a mera atitude de ouvir uma música, igualmente sem “utilidade prática”, não perdem seu valor.



            O segredo da arte tradicional, que servia de bálsamo para a vida, era sua valorização da criatividade, ao passo que os movimento artísticos atuais primam pela exaltação do feio, do banal e pela quebra de tabus morais, o que conduz primeiro à impressão e depois à óbvia certeza que todos, Scruton e nós, chegamos: boa parte do que aí está, sendo considerado obra de arte, não o é, algo não é transformado em arte, como num passe de mágica, por reproduzir as frivolidades cotidianas (um copo sobre uma prateleira de vidro – The Oak Tree, por Michael Craig, 1973 ou uma cama desarrumada – My Bed, por Tracey Emin, 1998) e chamá-las de arte, como se esse caráter fosse adquirido pelo decreto verbal do artista (para a tristeza dos desconstrucionistas, que acreditam que a realidade é determinada pela linguagem). Para que a arte retome sua trilha, é preciso que ela retorne sua face para a Beleza novamente, tal como fora prescrito pelos filósofos e praticado pelos artistas até então.




            A crítica de Scruton não se limita à arte, mas repousa sobre um diagnóstico muito mais amplo, que também é marca registrada da nossa época, chamada de pós-moderna: o total abandono e desprezo pela Razão, que fora tão bem tida pelos filósofos iluministas em especial e pelos modernos em geral. Deixam de existir os critérios universais – sejam lógicos ou de gosto – todas as opiniões são igualmente válidas, todas as culturas expressam formas de conhecimento igualmente dignas de consideração e têm o mesmo valor epistêmico. Grosso modo: trata-se do relativismo radical apregoado pela maior parte dos filósofos pós-modernos, que também são alvo da crítica feroz de Scruton, os mesmos Deleuze, Guattari, Foucault, Rorty et caterva. Isso significa que Scruton não se limita à esfera propriamente filosófica da questão (o que é Arte? Há critérios objetivos para defini-la e avalia-la? etc), mas avança no sentido sociológico do problema, isto é, tenta responder como chegamos a esse ponto, que tipo de sociedade produz e celebra o tipo de arte atualmente produzida etc.

            Certamente que, num mundo onde a ciência é considerada o mito fundante da nossa era, líderes islâmicos e prêmios Nobel são autoridades dignas de igual atenção tanto em matéria de física como de ética, pois, afinal, não há choque de culturas algum, nem “nossa” cultura está certa em permitir que homens e mulheres votem, tampouco a cultura islâmica está errada em desfigurar a face das mulheres adúlteras com ácido, trata-se apenas de culturas diferentes, dignas de igual respeito e consideração. Qualquer coisa diferente disso não passa de “preconceito ocidentalista”, argumenta Scruton, em algumas de suas obras e artigos.


            Inserindo a discussão estética nesse contexto mais amplo, fica claro que não há o menor espaço para a admissão de um gosto estético “melhor” ou “pior”, só existem gostos estéticos (sempre no plural): se o seu diz que uma lata contendo excrementos (Artist's Shit, por Piero Manzoni, 1961) é arte, quem são todos os outros para dizer que não? Isso porque não há verdadeiro ou falso, não há bem ou mal, certo ou errado, se nenhum desses existe, por que razão haveria espaço para o bom ou o mal gosto estético?

            Trata-se de um apelo colossal a um subjetivismo totalitário. Totalitário em que sentido? Nem mesmo os proponentes do relativismo acreditam no que propõem, pois são os primeiros a censurar aqueles que os reprovam, se todos os gostos estéticos são igualmente válidos, porque bradam bravamente contra os que têm um gosto estético fundado na Beleza? É muito simples: num contexto onde tudo é permitido, onde nada é proibido, é essencial proibir e censurar o proibidor. É um totalitarismo que exclui tudo ao seu redor, exceto os relativistas. E é exatamente o que é feito com Scruton, visto que o filósofo é, muitas vezes, deixado à margem do estabilishment acadêmico.

            Mas quais as razões que levam Scruton a rejeitar o subjetivismo estético? Como veremos a seguir, Scruton considera que a Beleza é um, dentre alguns outros, de uma série de valores que estão enraizados na natureza humana.

A Beleza enquanto inerente à natureza humana

            Talvez soe demodé falar de natureza humana hoje em dia (ou não, se aceitamos os interessantes argumentos de Steven Pinker em Tábula Rasa), quer em termos filosóficos quer científicos, mas a argumentação de Scruton segue esse caminho e indica que tanto a busca como a necessidade da Beleza são marcas indeléveis da natureza humana. Como uma das características essenciais da natureza humana é a racionalidade, é justamente na busca racional pela Beleza – autorizada pela nossa natureza, que podemos fugir do subjetivismo estético característico da nossa época: “nenhum gosto pode ser criticado, (...) já que que criticar um gosto nada mais é que dar voz a outro” (Beauty, 2009, p. IX, tradução nossa). Na contramão disso, Scruton argumenta no seu livro que os juízos estéticos têm fundamentação racional e, portanto, objetiva. Tanto o subjetivismo estético, “todos os gostos são equivalentes”, como o ceticismo, “não há verdade ou falsidade, erro ou acerto em termos de estética” são peremptoriamente rejeitados por Scruton com base na ideia que a Razão humana busca a Beleza.

            A Beleza, embora não entre em competição ou nem sempre necessariamente esteja lado-a- lado com a bondade, nossa incansável busca por ela enraíza ambas em nós, faz com que essa busca nos defina como humanos: “A Beleza está, portanto, firmemente enraizada no esquema das coisas, tal como a Bondade. Ela fala a nós, tal como a virtude fala a nós, trata-se de um preenchimento: não de coisas que desejamos, mas de coisas que devemos, porque a natureza humana as exige” (idem, p. 147, tradução e grifo nossos).

            Tal como as formas a prori da razão, apresentadas por Kant na Estética Transcendental, a Beleza é uma marca que nos define enquanto sujeitos racionais, capazes de compreender o mundo. Tanto sua busca como sua concretização nas mais variadas formas arte, são necessidades imprescindíveis a todo ser humano. Abdicar da busca pela Beleza, tal como a arte moderna faz, é abrir mão de uma herança cultural riquíssima, é fazer com que a vida seja mais difícil de ser vivida; é torná-la mais cinza fazendo com que a principal função da arte, que, como dissemos, é fornecer consolo para a vida diária, se perca.     

Retrato de Rosalba Peale, Remdbrandt

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes: 2007.

DUTTON, D. A darwinian theory of beauty. TED Talks, 2010. (Disponível em: http://www.ted.com/talks/lang/eng/denis_dutton_a_darwinian_theory_of_beauty.html)

SCRUTON, R. Beauty. Oxford University Press: 2009.

            . Estética da arquitectura. Edições 70: 2010.

            . The West and the rest.  ISI Books: 2002.

            . What ever happened to reason? 1999. (Disponível em: http://www.city-journal.org/html/9_2_urbanities_what_ever.html. Acessado em: 10/02/12)


            . Why Beauty Matters. BBC: 2009. (Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bHw4MMEnmpc.  Acessado em: 10/02/12)

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Bruno Garschagen entrevista o filósofo inglês Roger Scruton

Por André,

O amigo Bruno Garschagen gravou uma brilhante entrevista com o filósofo inglês Roger Scruton quando esteve na Inglaterra e um dos assuntos da entrevista foi seu livro "Como ser um conservador", traduzido pelo próprio Bruno e publicado pelo grupo Record, que divulga a entrevista:

terça-feira, 4 de novembro de 2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

“Sobre a defesa da Beleza”, Roger Scruton

Da Revista Terminal,


Para o bem ou para o mal, eu fui identificado pelo establishment britânico como a pessoa com quem se pode contar para defender o indefensável e que pode receber permissão para defender o indefensável até em uma televisão estatal (quer dizer, a BBC), desde que a defesa seja suficientemente diluída por outros que defendem o óbvio. No código oficial, “indefensável” quer dizer “conservador”, enquanto que “óbvio” quer dizer “liberal-esquerdista”. Assim sendo, quando a BBC me pediu para participar de uma série de televisão sobre a beleza [exibida em 2009], esperava-se que eu sustentasse que tal coisa realmente existe, que não é só uma questão de gosto, que ela está ligada ao nobre, àquilo a que se deve aspirar e ao que há de sagrado em nossos sentimentos, e que a cultura pós-moderna, que enfatiza a feiura, o desalento e a profanação, é uma traição a um chamado divino. Então, foi isto o que eu disse, já que, afinal de contas, era para isto que eles estavam me pagando. Para alcançar o equilíbrio que a BBC é obrigada por seu regimento a apresentar, dois outros programas foram encomendados, reafirmando as ortodoxias. Eles afirmaram que a arte não tem a ver com a beleza, mas com a originalidade, e que originalidade quer dizer você se exibir, com a língua (ou algum outro órgão apropriado) para fora.
Em Por que a beleza importa, eu falei um pouco sobre arte, mas estava mais preocupado em chamar atenção para o lugar da beleza na vida cotidiana — nas maneiras, nas roupas, na decoração de interiores e nos edifícios comuns em arquitetura vernacular. Eu critiquei tanto a arquitetura funcional de concreto e vidro, que destruiu cidades em todo o mundo, quanto as maneiras egocêntricas que fizeram o mesmo com a vida doméstica. Tentei explicar por que os filósofos do Iluminismo acompanharam Shaftesbury, ao colocarem a beleza no centro do novo código de valores seculares. Para Shaftesbury, Burke, Kant, Schiller e seus seguidores, sugeri eu, a beleza era o caminho de volta para o mundo que eles estavam perdendo com a perda do Deus cristão — o mundo do sentido, da ordem e da transcendência, que deve ser constantemente emulado neste mundo se quisermos que nossas vidas sejam verdadeiramente humanas e verdadeiramente plenas de significado. E afirmei em seguida que desde as piadas pueris de Marcel Duchamp, repetidas reiteradas vezes em toda mostra de faculdade de artes na Grã-Bretanha, um hábito de sarcasmo e profanação tinha se apoderado do exercício das artes visuais.
Daí os artistas britânicos de hoje — pelo menos os reconhecidos pela cultura oficial — não terem muito mais a nos mostrar além do quanto são repulsivos.  Parecia-me óbvio que a pintura de Delacroix mostrando sua cama por fazer (na Maison Delacroix, em Paris) era uma verdadeira obra de arte, que mostra algo sobre a condição espiritual humana, enquanto que a famosa cama de Tracey Emin (na galeria Tate Modern, em Londres) é só uma cama desarrumada. Podemos deduzir, pela visão desta cama, um bocado a respeito da pessoa que a desarrumou, mas isto não a distingue de nenhum outro entulho deixado no rastro de uma vida humana. O sentido superior que é a meta da arte — o sentido que mostra por que a vida importa — é algo que esta cama não alcança nem tem como meta.
Eu recebi mais de 500 e-mails de telespectadores, todos eles (exceto um) dizendo: “Graças a Deus alguém está dizendo o que é preciso ser dito,” metade deles acrescentando, “mas como é que deixaram você dizer isso na BBC?” Enquanto isto, os resenhistas juntaram-se em bando para lamentar o caráter triste, anômalo e reacionário do pobre Scruton, e agradecer à BBC por mostrar o absurdo e o anacronismo das opiniões do professor já idoso. Waldemar Januszczak, que fez um outro dos filmes da série sobre a beleza, preparou um verdadeiro libelo para assassinato de caráter no Sunday Times, a fim de aconselhar seus leitores, antes da exibição de meu filme, a desconsiderarem o que quer que eu pudesse tentar lhes dizer.
O episódio foi, para mim, revelador e instrutivo a respeito de meu país e sua cultura. Eu não digo que meu filme tivesse qualquer outro mérito além de sua honestidade. Mas ele gerou provas esmagadoras de que sua visão da arte e da estética é compartilhada por muitos espectadores britânicos, e de que a cultura oficial não só está divorciada destas pessoas como é profundamente hostil ao que elas acreditam, ao que elas sentem e ao que elas aspiram. A arte niilista de nossa época é repassada ao povo britânico como uma reprimenda, que ele deve aceitar com toda humildade e com um espírito de arrependimento por ter desejado algo de “superior.”  Não existe nada de superior — esta é a lição a ser aprendida com a  Jovem Arte Britânica, e com as pilhas de lixo sem nexo que ela manda para nossos museus e galerias. Só podemos entender a condição humana, ela nos diz, se adotarmos uma postura de grosseria e confrontação e se pusermos a língua para fora.
ESTE É SÓ UM ASPECTO DE algo que os americanos em visita à Grã-Bretanha notam cada vez mais. Nos anos 50 e 60, quando minha geração estava crescendo, os britânicos eram ativamente engajados pelo sistema educacional e os mundos da arte e da religião a uma cultura da aspiração. Esta foi a época de Henry Moore e Benjamin Britten, de Graham Sutherland e Michael TippettW. H. Auden era uma voz importante, assim como era o ex-americano T. S. Eliot. A Grã-Bretanha era um lugar de grande significação histórica e religiosa. Era um privilégio pertencer a esta terra, e por toda a parte a história nacional tinha deixado as marcas e os prodígios de um modo de vida superior. Correndo o risco de exagerar, pode-se dizer que meu país, naquela época em que a geração do baby boomavançava em direção a uma perpétua imaturidade, era um ensaio da redenção. Sua arte, cultura e religião eram devotadas ao ideal de uma comunidade na qual a decência, a curiosidade e a abnegação tinham o domínio de tudo. E nela restava, como uma espécie de sobra da propaganda do período da guerra, a crença no gentleman, que encara a vida com uma postura de devoção auto-sacrificial a ideais sem sentido – quer dizer, sem sentido segundo o ponto de vista do observador cínico, mas que não eram sem sentido de forma alguma, dado o espírito com que eram aceitos.
O americano em visita à Grã-Bretanha hoje, e sobretudo se ainda tiver lembrança daquele mundo extraordinário no qual a decência, a autocensura e o queixo duro eram os princípios dominantes, muitas vezes recua com horror diante do que encontra. A cultura pública é a do apetite e da sátira, e o país inteiro parece querer escandalizar, como se estivesse com uma língua coletiva para fora. Muitos amigos americanos me dizem isto e falam sentidos a respeito da mudança, daquela Grã-Bretanha que eles costumavam visitar com uma sensação de voltarem para casa, para a  Grã-Bretanha que eles visitam hoje, que é uma terra de estranhos. O interessante, entretanto (e a reação a meu filme parece confirmar isto), é que muitos dos britânicos concordam com eles. Os britânicos estão numa terra de estrangeiros, e a cultura que os governa é de uma natureza à qual muitos de meus compatriotas não podem pertencer de coração.
ethos oficial que predomina nas escolas e universidades, e também no Partido Trabalhista, é de desprezo e repúdio aos antigos ideais. A cultura oficial britânica é retratada com exatidão pela cama de Tracey Emin. É uma cultura de caos emocional e simpatias aleatórias, na qual lealdades tradicionais não desempenham nenhum papel. A própria Emin é filha ilegítima de um cipriota turco e sua situação é típica de sua geração. Incapaz de identificar-se com um país ou um modo de vida, educada por um currículo de contos de fada multiculturalistas e aprendendo na escola de arte que você encontra seu lugar no mundo através da transgressão e da autoexibição, ela teve o bom-senso de ser um verdadeiro caos visível ao público. Seus trabalhos podem não ser obras de arte, no sentido em que minha geração foi educada a compreender este selo honorífico, mas eles mostram um mundo que a cultura oficial da Grã-Bretanha optou por endossar.
A prova circunstancial da reação a meu filme não demonstra nada. O que eu sei é que muita gente por aí sente o que eu sinto. Eles concordam comigo em que a beleza importa, que a profanação e o niilismo são crimes e que deveríamos encontrar um modo de elevar nosso mundo e dotá-lo de uma significação mais do que mundana. Mas talvez outros tantos ou até mais acreditem na fábula “multicultural” oficial, que nos diz que não há nada de especial na Grã-Bretanha, que os antigos ideais e dignidades são meras ilusões e que o objetivo da arte é cobrir de desprezo os valores das pessoas antiquadas. E se a impressão dos visitantes americanos estiver correta, não é só a cultura oficial, mas também a geração ascendente de neobritânicos que se decidiu pela zombaria à dignidade e pela transgressão às normas da vida social. Se for assim, então, foi feita justiça a pelo menos uma parte de meu filme: a saber, que a beleza importa e que não se pode cobri-la de desprezo sem se perder de vista o sentido da vida.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Duchamp, o farsante

Por Revista Vila Nova,


duchamp-bicycle-smiling

Em O enigma vazio (Rocco, 2008), o ensaísta e escritor Afonso Romano de Sant`Anna, com coragem, rigor analítico e farto embasamento teórico, desmascara um dos maiores embusteiros do séc. 20, o blagueur francês Marcel Duchamp — “artista” que, valendo-se do desacerto de valores e da involução antropológica do homem contemporâneo, para utilizar a feliz expressão do filósofo da arte Ângelo Monteiro, tornou-se uma espécie do guru dos sub-vanguardistas, dos rebeldes sem causa e da quase totalidade daqueles jovenzinhos maconheiros e semicultos que infestam os cursos de artes plásticas das nossas universidades públicas.

Que Duchamp era um picareta em toda linha não é preciso sequer demonstrar, pois que ele próprio o admite: “Sou totalmente um pseudo. Esta é a minha característica”(i). Mas Duchamp não era apenas um pseudo, era sobretudo um sociopata. Assim sendo, sua obra deveria interessar mais aos psiquiatras que aos estudiosos da arte— senão o que pensar de um sujeito que expõe sua chinela suja de sêmen num museu (ii), outorgando-lhe o estatuto de obra de arte? O que pensar de um “artista” cuja obra mais conhecida e influente é um urinol de louça, exposto em 1917 num salão da Associação de Artistas Independentes de Nova York? O que pensar de um iconoclasta cínico que, admitindo ser um pseudo, contraditoriamente chama um de seus detratores de “pseudofilósofo”(iii)? Eis o melancólico saldo de uma época em “que se oficializou que tudo é arte e todos são artistas e críticos”(iv), e onde, para a felicidade do rei dadaísta e de seus sequazes, “aboliu-se institucionalmente a norma”(v), para que a única norma fosse o definitivo sepultamento de todo e qualquer juízo axiológico, ou, nas palavras do próprio embusteiro, para que “a idéia de julgamento [em arte] desaparecesse”(vi).

O vigarista francês não era apenas um zombeteiro blasé; porquanto, como demonstra Afonso Romano de Sant`Anna, possuía grande interesse pela repercussão de sua obra, tanto assim que elogiou o ensaio de Octavio Paz sobre “O Grande Vidro”(vii), e chegou mesmo a viajar a Londres para acompanhar uma conferência do crítico Arturo Schwartz, que versava sobre essa mesma obra(viii). O curioso é que Duchamp tinha por objetivo dessacralizar a sua “arte”, mas sempre ficava bastante satisfeito com os estudos que apontavam nela uma dimensão sagrada. Era um embusteiro na arte e na vida. Enfim, um picareta em toda linha.

O que mais espanta, porém, não é a picaretagem do sub-artista de Blainville-Crevon, que, de modo irônico e cínico, proclamava-se anti-artista. O que mais espanta é a enorme repercussão de uma obra que, sob todos os aspectos, conduz o imaginário humano a patamares inimagináveis de degradação e de indigência espiritual. Diante de Marcel Duchamp, até mesmo o Encólpio de Petrônio pode ser considerado um serafim.

O motivo da fascinação de ensaístas valorosos como Otavio Paz pela obra duchampiana permanece um grande mistério. Talvez, devido ao declínio do sagrado em nossa época, os homens — sempre sedentos de grandes enigmas— tenham precisado recorrer a pseudo-enigmas, a puzzles pueris e a enigmas vazios. É que, como observa de forma certeira Mircea Eliade, “no fundo, a fascinação (…) pela incompreensibilidade das obras de arte, trai o desejo de descobrir um novo sentido, secreto, até então desconhecido do Mundo e da existência humana. Sonha-se em ser ‘iniciado’, em chegar a compreender o sentido oculto de todas essas destruições de linguagens artísticas, de todas essas experiências ‘originais”ix. Evitemos, pois, essas iniciações e experiências originais, sob pena de, desvirtuando o famoso aforismo de Protágoras, tornarmos o urinol, e não o homem, a medida de todas as coisas.

i SANT`ANNA, Afonso Romano de. O Enigma Vazio – Impasses da Arte e da Crítica. Rio de Janeiro: Rocco, 2008, p. 17.
ii idem, ibidem, p. 312.
iii idem, ibidem, p. 39.
iv idem, ibidem, p. 13.
v idem, ibidem, p. 48.
vi idem, ibidem, p. 48.
vii idem, ibidem, p. 32.
viii idem, ibidem, p. 35-36.
ix ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1998.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Bruno Garschagen: A traição dos tories

Bruno Garschagen: A traição dos tories: No jornal The Guardian, Roger Scruton ratifica a crítica feita em 1981 no livro The Meaning of Conservatism (cuja tradução será public...

segunda-feira, 25 de março de 2013

Casal 20: "Amor" (Roger Scruton)

Casal 20: "Amor" (Roger Scruton): - E nos seus períodos sombrios, onde você procura consolação? Em que século, em que espécie de música ou de poesia? - pergunta o entre...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

P Is for Poison by Roger Scruton

Por Spectator,

People poison themselves through consuming stuff that harms them. They also poison the world, by spreading venomous thought, venomous entertainment, and venomous waste. It is a strange feature of our societies that governments increasingly seek to control the first kind of poison, which threatens only the individual, while largely ignoring the second kind, which threatens us all. The reason for this lies in a deep disorder within democracies—namely the fear of moralizing, which leads legislators to order us about for the good of each of us, but never for the good of all.

We go a little way to understanding the matter if we consider the three great public poisons of our time, what they are doing to us, and why we find it so difficult to take action against them: political correctness, pornography, and plastic. The first poisons thought, the second poisons love, and the third poisons the world. Between them they put in question whether human life as we know it will survive, and whether it ought to survive, given what it will look like when the poisons have done their work.

Political correctness means soft censorship—censorship with penalties soft enough to be spread across us all. When people burned each other at the stake for uttering forbidden thoughts, they were also careful to draw a precise distinction between the forbidden and the permitted, so as to confine the danger. When the only penalty for uttering forbidden thoughts is to lose your job as a journalist, or your promotion in the academy, then the task of defining the forbidden area becomes less urgent. Moreover, for that very reason, the poison spreads rapidly through society, so that there is no longer any easy way to avoid it. When “homophobia” or “Islamophobia” are mere name-calling, without clear legal consequences for the victim, they can be used indiscriminately to ruin the career of whosoever might have stumbled, by whatever accident of fate, into the target area. When words become deeds, and thoughts are judged purely by their expression, and not by the arguments advanced in their favor, then there is no clear way of debating the issues of the day, however vital they might be. A universal caution invades the intellectual life; people mince their words, sacrifice style and grace for the clumsy armor of “inclusive” syntax, avoid all the areas where orthodoxies have taken root—sex, race, gender, religion, patriotism—and beat around bushes in which nothing hides.

It is thanks to political correctness that the academy has been overwhelmed by pseudo-scholarship. It is thanks to political correctness that the British government has adopted gay marriage as its policy, even though it never proposed this to the electorate. It is thanks to political correctness that a hospital worker can, in Britain, leave a patient unattended in order to say salat, but not perform his or her hospital duties while wearing a cross. In a hundred little ways our traditional forms of life are being censored out of existence. Every now and then there is a show trial conducted in order to remind the people of this, as when Larry Summers was driven from his position at Harvard for having dared to suggest that the brains of women are differently organized from the brains of men.

The poison of pornography has something in common with the poison of political correctness, namely that it is not noticed as a poison by those who promote it. The astonishing thing, indeed, is that American opinion formers have to be persuaded of the damage that pornography is inflicting. They have to be confronted with the overwhelming body of research, well known to the psychological community and in any case no more than common sense, which shows that porn is addictive, destructive of sexual confidence, undermining of sexual relations, and promoting of an entirely abusive and objectified view of women in particular and human beings in general. Not only is porn driving all romance and hesitation from the expression of sexual desire; it is reconfiguring that desire, so that it is no longer a free gift between persons but a form of enslavement.

It is right to see porn as a poison, because its effects cannot be confined. The addiction is only the smallest part of it. Far worse is the destruction inflicted on the emotional life and on the capacity to love. A difficult discipline, on which the future of society depends, and to which previous generations devoted all that was best in their nature, is being placed beyond the reach of young people. And as a result their emotional lives are increasingly disordered. (If you don’t believe this, then you must read the definitive account in James Stoner and Donna Hughes, The Social Costs of Pornography, Princeton, Witherspoon Institute, 2010.)

IS IT STEPPING FROM the sublime to the ridiculous to extend my argument to plastic? Some would say so. But just look at what plastic is doing to us. Go into any supermarket or drug store today, and you will see products almost entirely wrapped in non-biodegradable cellophane or polythene, which composes some 15 percent of the weight of the goods that leave the store. Most of this will be conveyed to a landfill. But not all of it. Even if only 0.01 percent escapes into the environment, to be blown by the wind, washed into rivers, buried in undergrowth, and eventually conveyed to the ocean, the effect over a matter of a few years is devastating—to wildlife, to the oceans, to the look of the landscape, and to the beauty of human habitations. You can see what I mean if you look from a railway train at those unvisited plots alongside the track. Bottles and wrappings from the passing traffic, few and far between compared with the trash that is collected from each train, have nevertheless accumulated to such an extent that for many miles, and especially through the towns, it is all but impossible to look from the window without a feeling of alarm and disgust. But that sight is a premonition of what the whole world may soon be like. We are told that a platform of plastic waste the size of Texas now swirls in the Pacific Ocean, and all across the world polythene bags drift in the trees, snag in the rivers, and end in the stomachs of animals and birds.

Why mention this in the same breath as the other two P’s? Because it tells us how to look for a remedy. Non-degradable plastic wrappings are unnecessary. They could be forbidden tomorrow and we would survive. Thanks to the agitation over climate change, environmentalists expend their energies on problems that cannot easily be solved, instead of on this one, which can. Forbid these wrappings in one country and the solution will spread to all other countries that are connected to it by trade. To forbid this poison would not be oppressive: it would not be forbidding us from taking pleasures that are meaningful to us, or from leading lives that we really want. Of course, I am not in favor of governments bossing us about. But forbidding this particular poison is not stopping a reasonable pleasure; it is merely compelling us—you, me, and the storeowner—to internalize our costs, and not to pass them on to future people.

HAVING PRODUCED a legal antidote to one of the poisons, why not extend the solution further? It was until recently regarded as wholly within the bounds of legitimate law to forbid the production and propagation of pornography. This changed only because wily lawyers were able to hoodwink judges into protecting pornography as “free speech” under the First Amendment. But it is neither free nor speech: it is a form of visual slavery, in which those who watch are enslaved by the sight of others similarly enslaved. Why not forbid it? What exactly would be lost?

But then what about political correctness? The contrast with the other two poisons reminds us that nothing is harder to overcome than the poisoning of thought. Where is the antidote, when the mental space in which it could grow has been invaded and sterilized? I have wracked my brains about this for quite some time, and come up with the following suggestion: we cannot forbid political correctness, since that would be simply reproducing the disease. But we can ridicule it. We can, by a collaborative effort, go on using language as we should, go on making remarks and expressing thoughts ruled offensive by the censors, and go on showing contempt for their censorious ways.
It seems to me that this is the only available antidote. It will work only if we look out for the people to ridicule and make effect arguments against them, and look out equally for the victims and offer them our support. I don’t see this happening to any great extent in America, and it is not happening at all in Europe. But surely it is worth a try? And maybe the way to begin is to fight those other two poisons that I mentioned. By doing so, we might persuade the world that we are serious about the most dangerous poison of all, the poison that prevents us from thinking.

domingo, 12 de agosto de 2012

Kant, Borges e o vinho, por Roger Scruton

Por André,



Kant

Embora Descartes tenha sugerido (va Monty Python) o título deste livro, foi Kant quem o pôs em funcionamento. Um amigo meu perguntou que diabo significava afirmar que existe uma "taça em si mesma", umas entidade numênica que não pode ser apreendida pelos sentidos e que foi revelada na "visão de lugar nenhum", a "intuição intelectual" que não está à disposição de ninguém fora Deus. Enchi a taça com o Hermitage branco "Chante Alouette" de Charpoutier - a excelente safra de 1977 cujo desaparecimento lamento profundamente. E tentamos uma experiência: primeiro levar o vinho à luz, cheirá-lo, tocar com os dedos a sua superfície fria - e então bebê-lo, de modo a "conhecê-lo de um outro modo". Foi como se tivéssemos entrado num castelo derrubando as suas defesas precárias e nos encontrássemos numa sala muito iluminada onde éramos acolhidos por pessoas deslumbrantemente vestidas. É isso que Kant nos tenta transmitir. O númeno e a perspectiva transcendental seguem juntos, e embora essa perspectiva não esteja ao nosso alcance, temos indicações de como seria se a adquiríssemos. A satisfação que o vinho nos dá ao descer é como a revelação da sua interioridade. E a sua interioridade é a interioridade em mim, que sempre escapa à minha apreensão - o eu transcendental e sua inexplicável liberdade. Repito essa experiência frequentemente e acho útil examinar o argumento da Dedução Transcendental das Categorias enquanto a realizo. Mas não recomendaria o Hermitage branco, que é caro demais e além disso tem sabor muito carregado, com a sedução do mel e da noz, que exige um prato de polvo para o abrandar. Eu recomendaria uma garrafa de Malbec argentino; e nunca é má ideia combinar a Crítica da razão pura de Kant com as histórias de Borges, cheias de paradoxos kantianos e que nos lembram de que não há necessidade de viajar para a Argentina.

Nem todos os textos de Kant são tão fáceis de acompanhar quanto a primeira Crítica. Parece que nada complementa a segunda Crítica ou as outras obras de ética. E quando se trata da Faculdade do juízo, com sua breve referência ao "vinho das Canárias", eu me vejo experimentando primeiro o East India Sherry, depois o porto Tawny e finalmente o Madeira, sem chegar mais próximo da prova de Kant de que o julgamento da beleza é universal mas subjetivo, ou da sua derivação da "antinomia do gosto" - certamente um dos seus paradoxos mais profundos e perturbadores, e um paradoxo que precisa render-se ao argumento contido no vinho, se é que ele se rende a alguma coisa.


SCRUTON, Roger. Bebo, logo existo. São Paulo: ed. Octavo, 2011, p. 259 e 260.

sábado, 10 de março de 2012

Site "Direitas Já" publica tradução do texto "O que aconteceu à Razão" do filósofo Roger Scruton, feita por vosso blogueiro favorito, este que vos escreve

Por André,



Eis aqui o link:

http://direitasja.wordpress.com/2012/03/06/o-que-aconteceu-com-a-razao/#comment-127

No texto "What ever happened to Reason" Scruton faz uma defesa da cultura e dos valores ocidentais e demole as frágeis crenças dos gurus da esquerda moderna, mormente francesa: Gilles Deleuze, Derrida, Foucault além de Rorty e Said et caterva. 

O texto é relaticamente antigo, mas como as crenças dos ditos 'filósofos' está viva como nunca, a atualidade do mesmo não se perdeu.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Roger Scruton: “o santo padroeiro das causas perdidas”

Por Contra Mundum,



(publicado há uns anos na Atlântico. A propósito do novo livro)

Numa quinta algures no Wiltshire, Inglaterra, vivia um porco chamado Singer. O baptismo – uma homenagem a Peter Singer, o famoso utilitarista australiano de Princeton, teórico do infanticídio e dos “direitos” dos animais – coube a Roger Scruton, dono da quinta e do porco, que um dia dele fez umas deliciosas salsichas.

Scruton é provavelmente o mais polémico e intolerado dos pensadores ingleses vivos. É certamente o mais desconsiderado pela academia estabelecida, o mais vituperado pela imprensa progressista, o mais desvirtuado pelos intelectualmente desonestos. É chamado de xenófobo, racista, fascista e todos os restantes epítetos do catálogo. A tudo isto reage sem mover a sobrancelha. Não mostra ultraje nem revolta, apenas uma incredulidade serena que lhe sublinha a excentricidade num mundo em que cada vez mais os intelectuais públicos são figuras esbaforidas e de dedo em riste. A chave do seu pensamento é o conservadorismo de Edmund Burke e a nostalgia da ordem aristocrática pré-moderna (ou, pelo menos, pré-II Guerra), das velhas liberdades medievais e da desconfiança do poder centralizado. Tudo isso se revela a cada linha. Nas diatribes contra a arte moderna, na defesa da caça à raposa, do Estado-Nação e da ruralidade. Ou no mais belo dos seus livros, England: An Elegy, um adeus sentido às regras, instituições e costumes de uma Inglaterra que já não existe.

Segundo o próprio Scruton, o momento definitivo do seu nascimento político foi, como muitos da sua geração, o Maio de 68, ao qual assistiu da janela do quarto que arrendara no Quartier Latin. Enquanto os amigos – tudo burgueses entediados, magnificamente estabelecidos e de famílias possidentes - viravam automóveis e levantavam barricadas, o jovem Roger descobria-se exactamente do lado oposto. A epifania confirma a suspeita de que o conservadorismo é uma reacção estética. Foi-o também na geração Reagan e na do Onze de Setembro. Contra os comportamentos grotescos e a retórica desmiolada do progressismo acrítico; contra as ideias, os mitos e as frases feitas do politicamente correcto. 

Apesar da disposição engagée, foi breve e pouco frutífera a sua ligação à política partidária. Depois de lhe ter sido recusada a participação nas listas de candidatos do Partido Conservador às eleições de 1978 (por, alegadamente, ser “too bookish”), ainda fundou o Conservative Philosophy Group, mas foi-se progressivamente afastando, desiludido com o partido que se aburguesava no deslumbramento pela economia de mercado e pela ética yuppie. Já nos últimos dias do governo Labour que sucumbiria ao pés de Margaret Thatcher, escrevera The Meaning of Conservatism, a sua mais completa declaração de intenções, que, segundo o próprio, não teria tido o acolhimento esperado. Em Gentle Regrets, obra recente, retrospectiva e confessional, lembra a ocasião em que Harold Macmillan se dirigiu ao Conservative Philosophy Group e, no auge do discurso, repetiu: “É importante lembrar que… lembrar que… Esqueci-me do que ia dizer.” Scruton comenta o embaraço: “’Esqueci-me do que ia dizer’ é a verdadeira contribuição do Tory Party para a compreensão do governo nos nossos dias”.  

Roger Scruton é considerado o exemplo acabado do reaccionário. O simplismo é confortável, mas Scruton não é um reaccionário comprometido com mudanças políticas forçadas e abruptas (o revolucionário do avesso), antes o paladino dos passados irrecuperáveis, o gentil porta-bandeira da Reacção pacífica e utópica ou, como lhe chamou o Guardian, “o santo padroeiro das causas perdidas”. Como o próprio escreveu, o conservadorismo que defende não é meramente uma crença política – ou, sequer, a disposição que Oakeshott estudou. É uma visão duradoura da sociedade humana, difícil de perceber, pior de explicar e terrível de praticar. Especialmente neste tempo de utilitarismos e materialismos, de religiosidade frágil e uma economia global que corrói as solidariedades pessoais e as lealdades locais. Mas Scruton não desespera e lá vai continuando, com uma cadência de publicação e um ecletismo impressionantes, a tarefa de transcrever para o mundo moderno, sem a pureza e a estridência dos slogans, a filosofia que Burke nos ensinou. Na quinta do Wiltshire, na da Virginia ou na mais conservadora das moradas, o apartamento londrino junto a Savile Row.  

Os seus textos, de uma elegância terna e melancólica, e ainda que estranhos à cultura urbana omnipresente, são de leitura obrigatória. É impossível concordar com tudo. Mas só os espíritos menores apreciam apenas aquilo com que concordam.

sábado, 12 de novembro de 2011

Why Beauty Matters?/Por que a beleza importa? por Roger Scruton. Agora legendado em Português brasileiro.

Por André,


Agradecimento aberto d'O Bico do Tentilhão à alma caridosa que legendou o vídeo!


Link para download APENAS da legenda.


Compre os livros de Roger Scruton traduzidos para o português!

Clique nos links abaixo e compre os livros de Roger Scruton em português (será redirecionado para a cesta de compras do site da Saraiva, frete grátis e descontos):