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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Roger Scruton: "O modo errado de lidar com o presidente Putin"

Por MSM,

A paz entre a Rússia e o Ocidente foi assegurada enquanto o interesse próprio dos oligarcas russos assim exigiu. Porém, não está mais tão claro que a paz esteja dentre seus interesses.

Com a cegueira habitual sobre a sua situação real, a União Europeia respondeu ao confisco da Criméia com a imposição de 'sanções' à hierarquia russa. Os chefes da máfia que rodeia e dependem do presidente Putin não mais terão a permissão para viajar às suas villas na Toscana ou para fazer saques em suas imensas contas em bancos europeus. As amantes, com o coração partido, permanecerão solitárias por meses a fio a não ser que convidem um dos eurocratas no restaurante do andar abaixo. As mansões em Mayfair permanecerão fechadas até que o gesso comece a cair, times de futebol em dificuldades e cavalos de corrida buscarão em vão por um comprador. Pensar que essas coisas farão a mais mínima diferença na política externa expansionista russa é uma ilusão de uma inocência inacreditável. Mais importante do que isso, contudo, é a profunda ignorância histórica que essa medida revela.


Para tanto, vamos olhar para o passado, para o colapso da União Soviética no tempo do astuto Sr. Gorbachev. Por que razão, de forma súbita e sem nenhum aviso prévio verdadeiro, a elite Soviética abdicou do poder de mando e silenciosamente retirou-se do governo? A resposta é simples: porque era do interesse deles fazer tal coisa. Graças à estratégia do presidente Reagan e da Aliança do Atlântico Norte, tornou-se evidente que não seria possível tomar posse dos bens localizados a Oeste do Império Soviético mediante o uso da força. Porém, também tornou-se evidente que o uso da força não era mais necessário. Ao longo de um período de setenta anos, a União Soviética construiu um sistema de espionagem e um sistema bancário subterrâneo que em essência conferiu à elite da KGB praticamente total liberdade de movimento no continente europeu, bem como um sistema de finanças pessoais seguro. Já em 1989 os oficiais de alta patente que tomavam as decisões de liderança possuíam propriedades no Ocidente e já haviam transferido para suas contas em bancos suíços a sua parcela de bens furtados ao povo russo no decorrer de décadas.

Então eles perceberam que esse processo poderia ser completado sem nenhum custo adicional. Através da privatização da economia soviética para si próprios e pela adoção de uma máscara de governo democrático, a elite apartou-se do comunismo, ingressando no mundo das celebridades. Então eles passaram a ser cidadãos livres do mundo, aptos a viajar, a possuir propriedades, a gastar o seu bilhão roubado e a se divertir com seus próprios times de futebol. Quão estúpidos eles haviam sido ao longo de todos aqueles anos, mantendo a herança da paranoia comunista e crendo que seus papéis de machos-alfa dependiam de ameaçar, invadir, subverter, e atormentar quando a coisa toda podia ser obtida simplesmente sendo (um cara) legal!

E então o que se passou? Com alguns leads (1) de Gorbachev a KGB captou a mensagem. Privatize o seu pedacinho da economia soviética e, se necessário, mande prender seus competidores por evasão fiscal. Retire um salário vitalício da sua participação nos bens roubados. Mantenha a sua mansão em Londres, a sua conta na Suíça e o seu iate no Mediterrâneo e pose como um homem de negócios interessado em gás e petróleo. Construa uma carreira de alpinismo social e aventuras eróticas no Ocidente e deixe que as velhasmonotowns da Rússia virem pó (2).

Obviamente foi um espetáculo indecoroso, porém não tão indecente ao ponto que as elites alemãs fossem repelidas por ele. Pelo contrário, ao convidar o Gerhard Schroeder (3) para a diretoria da Gazprom, Putin tornou os social-democratas alemães parte do jogo. Por toda a Europa a elite da KGB esteve em condições de fazer solicitações por favores recebidos e, assim, construir o seu caminho numa sociedade que já estava apodrecida com negociações por debaixo dos panos. O resultado, inegavelmente torpe, não é desfavoravelmente comparado à situação anterior na qual a mesma elite retinha o poder por meio da opressão do povo russo, aprisionava o Leste Europeu e agitava conflitos violentos por todo o mundo.

Então qual será o efeito das sanções propostas? Perceba que ela tem indivíduos como alvos e não o estado russo. As sanções foram expressamente desenhadas para aprisionar os oligarcas da Rússia novamente no país que eles arruinaram, e do qual, há um quarto de século, eles escaparam com arrogantes suspiros de alívio. Isto seria uma estratégia viável se a União Europeia possuísse os meios militares para conter os oligarcas atrás da fronteira russa. Esta fora a estratégia do presidente Reagan e que foi abandonada por Obama quando este decidiu não prosseguir com o sistema de mísseis de defesa que havia sido proposto para os países do Leste Europeu, e o qual de qualquer forma, nunca teve o endosso entusiasmado nem da França ou da Alemanha.

Desse modo nós voltamos para o ponto de partida: um poderoso zoológico de machos-alfa raivosos confinados atrás de um gradil que cederá ao primeiro chacoalhão que for dado com determinação. E é apenas uma questão de tempo até que o chacoalhão comece. A paz entre a Rússia e o Ocidente foi assegurada enquanto o interesse próprio dos oligarcas russos assim exigiu. Porém, não está mais tão claro que a paz esteja dentre seus interesses: ademais, assumir que eles irão respeitar os interesses de quem quer que seja é dar mostra de uma espantosa negligência com a história recente deles.


Notas:

1 - Leads, jargão jornalístico para referir-se ao resumo de uma notícia em uma ou em poucas linhas.

2 - Monotowns ou monogorod, em russo. Similar às “cidades militares”, as monotowns são cidades construídas pela planificação soviética teoricamente em localizações estratégicas e em torno de um único complexo industrial estatal, ou ainda, em torno de uma única fábrica/indústria. Com o desmantelamento da União Soviética e a imensa ineficiência do sistema produtivo Soviético essas cidades entraram em crise. Estima-se que 25 milhões de russos vivam nesse tipo de cidade.

3 - Gerhard Schroeder, foi Chanceler da República Federal da Alemanha de 1998 a 2005 pelo Partido Social Democrata. É amigo pessoal de Vladimir Putin a quem descreve como “um democrata sem falhas”, vide:http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/ukraine/10697986/Merkel-fury-after-Gerhard-Schroeder-backs-Putin-on-Ukraine.html



Tradução: Francis Lauer

quarta-feira, 19 de março de 2014

Retorno da URSS é realidade para presidente da Romênia e Dilma proíbe que Itamaraty contrarie Putin

Por André,


Órfã de um ditador poderoso e de uma metrópole que imponha o mínimo de respeito desde a queda da Antiga URSS a esquerda comunista está prestes a ganhar um novo ditador para chamar de seu.

domingo, 6 de outubro de 2013

Flávio Morgenstern: "Shutdown na democracia"


Há governantes que não sabem dividir o poder. Ou não conseguem trabalhar com o poder dividido. A democracia, em definição moderna, é o poder divido por definição. Alguns governantes não querem meio poder. Querem o poder total. Não são apenas ditadores. Os maus-tratos com a oposição são comuns em sistemas políticos em que os poderes se contrabalanceiam – mas nos quais grandes políticos chefiando um poder se sentem desconfortáveis com a “concorrência”. Barack Obama é um desses políticos. Às voltas com o Legislativo sabiamente recusando sua gastança desgovernada, reconstrói a narrativa dos fatos para sangrar os republicanos como grandes vilões, enquanto ele, sozinho, tenta salvar a América.

O orçamento americano prevê as despesas recorrentes. Não aprovadas até a data limite, são simplesmente cortadas – ao contrário da esbórnia brasileira, em que se usa orçamentos de anos anteriores sem dó. Elas incluem boa parte do que o governo gastará, vigiadas de perto pelos deputados (representatives). Não haver o “acordo” entre democratas e republicanos, portanto, gera o chamado shutdown, um “fechamento” para balanço geral, que afeta todo o país: desde funcionários públicos federais parados até as verbas que mantêm o Memorial da Segunda Guerra, em Washington – para onde Obama mandou sete agentes das forças de segurança para impedir uma manifestação pela sua manutenção, sem ter enviado nenhum desses agentes para Bengazi, na Líbia, durante um atentado terrorista. 

Mas são os congressistas que escolhem onde se corta. A atual composição das casas indica maioria republicana na Câmara e maioria democrata no Senado. Eis que surge Obama, e vincula o seu Obamacare aos gastos governamentais. O Obamacare já passou como lei, faltando a votação de seu orçamento. É estratégia republicana aberta e declarada, agora, discutir esses novos gastos governamentais, que já estão deixando a América à bancarrota. 

Não se discute, portanto, o Obamacare, mas seus custos. Obama, vinculando-os ao orçamento federal na marra como uma coisa única, vende a esparrela de que está fazendo uma lei pelos pobres, e os malvados republicanos lutam contra uma lei já aprovada. Sabendo que toda a imprensa mundial está a seu lado (onde mais recebe críticas é em seu próprio território), sua narrativa cola como grude.

O Poder Executivo ser contrabalanceado pelo Legislativo foi sempre admitido como norma nas democracias modernas. É como uma indicação de juiz ao STF: ela parte do Executivo, mas o juiz precisa de uma sabatina dos deputados. Isso nunca antes havia sido questionado em mais de 200 anos de república americana.

A historieta de Obama passa à retórica violenta. Diz que os republicanos estão armando um golpe de Estado, mirando uma lei já votada. Bill Clinton passou 28 dias com um shutdown em mãos sem apelar para essas invencionices. Newt Gingrich, então presidente da Câmara, acertou as contas para o adversário democrata, que, após se submeter a contragosto à austeridade, forjou a ideia de que ele próprio construiu o arranjo. It’s the economy, stupid.

Hoje a situação se obnubila, e Barack Obama, o presidente plenipotente com um Nobel da Paz em mão, pode apelar à busca por inimigos da pátria, como bem clamou seu guru, o anarquista radical Saul Alinsky. É do feitio da mentalidade dos golpistas encontrar golpistas em cada cérebro que saiba ligar pontos sem precisar do poder central e de seu sorridente rosto que sabe ganhar eleições.

Flávio Morgenstern é analista político do Instituto Millenium e colaborador do site 

sábado, 5 de outubro de 2013

Preces para o Deus Obama

Por André,




Ao estudar o fenômeno do esquerdismo é impossível não se remeter à frase de Chesterton: aquele que não acredita em Deus acredita em qualquer coisa, até Obama.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

sábado, 20 de julho de 2013

Documentário "Agenda": por que a esquerda está vencendo?

Por André,


O documentário pode ser baixado diretamente do link da minha conta no Novo Mega.

Você é daqueles que acha que o comunismo acabou, que com a queda do muro de Berlim o comunismo se foi junto dele, não poderia estar mais enganado.

Essa afirmação pode ter algumas explicações: a) a do esquerdista desonesto que não quer seus planos expostos a qualquer um, b) a do esquerdista "honesto" porém altamente limitado intelectualmente, frustrado, que não percebe suas próprias ideias a todo vapor ou, pasmem c) você pode ser um libertário brasileiro (entendedores entenderão), que constata que a liberdade econômica cresce no mundo e só, isso é suficiente para resolver todos os problemas do globo.

Antes de prosseguir, uma informação essencial que corrobora uma tese essencial do documentário:


O documentário mostra, basicamente, como a tese de Antonio Gramsci de "vamos dominar a cultura para dominar todo o resto" foi igualmente implementada nos EUA.

Remontando a John Dewey, responsável pela criação da educação pública nos EUA, que foi até a URSS estudar marxismo nos anos 30, passando por Saul Alinsky, um dos mentores intelectuais de Obama e pela Escola de Frankfurt.

O que alguns libertários mela-cueca fingem não perceber, jogando o joguete sujo da esquerda, é que a ideia de revolução armada, de revolução implementada via força, foi abandonada pelo comunismo há tempos, e que é perfeitamente possível militar pelo comunismo sem se reconhecer como um comunista!

O documentário também resvala na questão da formação comunista de Obama, que é melhor observada neste outro documentário (que falta faz gente assim no Brasil...):



Play de "race card". Os números sobre crimes de negros contra negros nos EUA

Por The Blaze,

‘Race Wars’ Part 1: The Shocking Data on Black-on-Black Crime

 

Black-on-black crime is a sensitive subject in this increasingly polarized nation.  While covered in academia and occasionally addressed by talking heads on television, some believe it rarely, if ever, receives the type and depth of attention it deserves. Instead, critics argue that this national tragedy is usually swept under the rug by powerful interest groups and individuals more concerned with elevating their own racially-driven agendas than addressing the real issues at hand. The Trayvon Martin case is only the most recent example of this grim hypocrisy.

Indeed, statistics support a very different narrative than the one usually offered by “race hustlers,” as Pastor C.L. Bryant calls them, who routinely portray an America where members of the black community are selectively targeted and brutalized by white racists.

A 2007 special report released by the Bureau of Justice Statistics, reveals that approximately 8,000 — and, in certain years, as many as 9,000 African Americans are murdered annually in the United States. This chilling figure is accompanied by another equally sobering fact, that 93% of these murders are in fact perpetrated by other blacks. The analysis, supported by FBI records, finds that in 2005 alone, for example, African Americans accounted for 49% of all homicide victims in the US — again, almost exclusively at the hands of other African Americans.

To put these number in perspective, recall that over 6,400 U.S. service men and women have been killed in Iraq and Afghanistan combined over the course of a decade-long war fought in those nations. During the Vietnam War, which lasted nearly 13 years, some 58,000 Americans were killed — nearly 13 percent of whom were African American.

Graph courtesy of the 2007 Department of Justice Report
Shocking Black on Black Crime Murder Statistics Revealed in the Wake of Trayvon Martin Shooting

Extrapolating black-on-black crime data reveals that, by comparison, approximately 100,000 African Americans have been killed on our own streets at the hands of other African Americans in roughly the same stretches of time. It is difficult to find anyone who would white-wash these mind-numbing statistics.

Equally as startling, the same study reveals African Americans were victims of an estimated 805,000 nonfatal violent crimes in just one year alone. 

What’s more, blacks comprise roughly 12.5 percent of the U.S. population. 

While fatalities persist in every major metropolitan area across the nation, there are of course certain cities most impacted by violent crime. Take Cincinnati, for example, where, after the fatal shooting of a young black man by a white police officer in 2001, a wave of riots ensued. Since that time, Cincinnati has set the record for the number of murders carried out each year, with a persistent violent crime rate at a staggering 88 percent.

The now all-too-familiar statistics reveal that black males are killed far more often than any other demographic: “The vast majority of people being murdered are African American in the City of Cincinnati,” said Hamilton County Prosecutor, Joe Deters in an interview.

“The vast majority. Well outside the 40 percent of the population it should be. In 2009, the City of Cincinnati did not have a single white victim of a homicide. (That) tells me that we have a subset in the underclass of Cincinnati which is committing a lot of violent crime and they tend to be black. And the reality is, you almost always commit murder within your racial classifications. So when we’ve got a young black man up in the coroners office, it’s almost always a result of another young black man shooting him.”

That same year, 2009, no white men were killed in Cincinnati, but 44 black males and 11 females were the victims of homicide in the city.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Senador Rand Paul sobre os EUA, Obama, sua economia e as verdadeiras razões que tornaram os EUA um país tão próspero

Por André,

"Um governo grande não é seu amigo"

"O governo Obama te dá coisas de graça. Mas sua política os mantém pobres" 

"Queremos que você tenha um emprego; e um caminho para o sucesso"

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Dos Estados Unidos à Europa por João Pereira Coutinho

Por Folha de São Paulo,

1. OS AMERICANOS vão hoje às urnas. Não sou vidente. Não vou cansar o leitor com análises detalhadas sobre os "swing states", os votos colegiais, as últimas pesquisas. Tudo é possível.

Mas, dentro do possível, confesso que gostaria muito que Mitt Romney ganhasse. Eu sei, heresia: lemos a imprensa "liberal" (no sentido americano da palavra, ou seja, esquerdista) e Romney é apresentado como um fanático que acredita em extraterrestres. Pior: um fanático que pretende entregar os Estados Unidos à plutocracia doméstica, de que ele faz parte.

Barack Obama, pelo contrário, é a personificação da bondade e do realismo. Mesmo Guantánamo, que continua a funcionar, tem outro sabor com Obama: no tempo de Bush, a prisão era o inferno terreno e a prova da malignidade republicana. Com Obama, Guantánamo é um jardim de infância.

Sejamos sérios: o julgamento sobre Obama, quatro anos depois, não pode ser brando ou entusiasmante. Fato: em 2008, Obama recebeu de herança uma nação quebrada. Novo fato: em 2008, Obama dispunha de condições incomparáveis -aprovação popular em níveis estratosféricos, Congresso favorável etc.- para fazer mais e melhor.

Não fez. Um crescimento econômico que se arrasta penosamente nos 2% é tímido, para usar um eufemismo. O desemprego perto dos 8% seria o suficiente para que ele perdesse a reeleição. E a República, agravando o desvario iniciado por George W. Bush, continua dramaticamente endividada -e a endividar-se.

Como escreveu certeiramente Tim Stanley, no "Daily Telegraph", o problema de Obama não é ser o anti-Bush. É, ironia das ironias, repetir os erros de Bush ao permitir um Estado sem controle na despesa e disposto a infiltrar-se na vida comum do cidadão comum.

É por isso que a eleição de hoje não é apenas mais uma eleição na história da América. É, como afirma Romney e sobretudo o seu candidato a vice, Paul Ryan, uma espécie de plebiscito sobre o tipo de sociedade que a América pretende ser no século 21.

Para Obama, o ideal seria que a América se aproximasse da Europa e do modelo de bem-estar social.
Infelizmente, alguém deveria explicar ao presidente Obama que a crise corrente que ameaça destroçar a União Europeia está diretamente relacionada com a insustentabilidade desse modelo social.

Cuidado, América: para Europa, já basta a que temos. 

2. E por falar em Europa: leio no "Times Literary Supplement" uma passagem notável das memórias de Madame de Staël.

Conto rápido: já depois da Revolução de 1789, o ministro de guerra Louis de Narbonne-Lara discursava na Assembleia Legislativa.

A páginas tantas, o infeliz ministro introduziu no discurso a expressão "apelo aos mais distintos membros desta Assembleia". Foi a revolta geral, com os jacobinos a relembrarem ao ministro que, naquela Assembleia, todos os membros eram igualmente distintos.

A história é interessante para conhecermos a cabeça do fanatismo igualitário em ação. Mas mais interessante é a observação de Madame de Staël: "para os jacobinos", escreve ela, "a aristocracia de talento era tão repugnante como a aristocracia de berço".

Relembro esta história, hoje, ao saber que na mesma França da Bastilha o presidente François Hollande pretende banir do sistema educativo os deveres de casa.

Corrijo: Hollande não quer banir os deveres. Pretende apenas que eles sejam integralmente realizados na escola, não em casa. Isso permitirá que as diferenças socioeconômicas das famílias não tenham qualquer interferência no respectivo mérito escolar dos filhos. Todos iguais, todos na escola.

Claro que, para sermos perversos, poderíamos perguntar ao senhor presidente o que tenciona ele fazer se alguns alunos, em manifesto desrespeito igualitário, violarem a medida. Como?

Estudando na escola e, depois, estudando um pouco mais em casa, ou nos cafés, ou nas bibliotecas. Será permitida essa busca da excelência extracurricular?

Ou o Estado francês, em nome da igualdade, também pretende instalar um policial em cada casa, café ou biblioteca, disposto a vigiar e punir o mais leve sintoma de curiosidade intelectual?

Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O xerife Clint Eastwood solta o verbo

Por Estadão,

Para se encontrar com Clint Eastwood, o repórter transpõe os portões da Warner. O estúdio localiza-se em Culver City e a primeira surpresa é que, lá fora, com exceção de um pôster gigantesco do up coming Man of Steel (Superman), todas as imagens nas paredes são de séries de TV. A entrevista não se realiza no bangalô da Malpaso, a empresa produtora de Eastwood, abrigada na Warner. O encontro ocorre num estúdio no qual foram montadas duas mesas. Cada uma delas reunirá cinco jornalistas vindos de diferentes partes do mundo - e o entrevistado. Clint chega. Alto, magro e rijo. Elegante. Fala manso. Responde sobre tudo - o novo filme, no qual é só ator (Curvas da Vida estreia dia 23), o apoio a Mitt Romney (ele ainda não fez encenação sobre a cadeira vazia de Barack Obama) e também Sergio Leone e Don Siegel.

O senhor havia anunciado que iria se concentrar na direção e não atuaria mais. O que o fez aceitar Curvas da Vida?
 
Clint Eastwood - Robert Lorenz tem trabalhado comigo nos últimos anos como produtor associado. Há tempos ele sonhava com sua estreia na direção. Surgiu essa história sobre o velho olheiro de um time de beisebol. Ajudei-o a formatar o projeto, acompanhei a escritura do roteiro. O personagem ficou muito próximo de mim. Robert passou a vê-lo como uma extensão de mim e eu próprio me sentia confortável nos seus tênis. Foi assim que voltei a atuar.

É um longo caminho desde que o senhor começou, aqui mesmo na Warner, nos anos 1950. Dois diretores foram decisivos na sua evolução, Don Siegel e Sergio Leone. Foram seus mestres?
 
Clint Eastwood - Não diria que tenham sido só meus mestres. Foram mestres de muita gente. Sergio (Leone) tinha a minha idade, era só um ano mais velho. Sou de 1930, ele, de 1929. Sergio inventou um gênero, o spaghetti western. Formatamos o personagem, O Estranho Sem Nome, em conjunto. Eu lhe sugeri que o Estranho devia se explicar pelos gestos. Havia muitas falas desnecessárias. Sergio era filho de diretor, criado no e pelo cinema. Tinha entusiasmo, motivava as pessoas. E, embora ouvisse a gente, ele com certeza sabia o que queria. Don (Siegel) já era um veterano. Tinha quase 60 anos quando fizemos Meu Nome É Coogan (em 1968). Ele começou como assistente de montagem, fez um longo aprendizado nos estúdios. Don já pensava num filme como montagem. Só de ver os dois trabalharem, aprendi muita coisa.

Seu personagem em Curvas da Vida está ficando surdo e tem problemas com as filha. Ele fica na contracorrente das invenções tecnológicas. Não é um ataque à juventude?
 
Clint Eastwood - Você quer me dizer que o filme é reacionário? Fale com Robert (Lorenz). Embora o jovem disponha hoje de mais ferramentas, isso não significa que saiba mais, conheça mais nem que esteja mais preparado para a vida. O conflito de Curvas da Vida é entre pai e filha, mas também é entre esse homem que está ficando surdo e necessita de ajuda para 'ouvir' o som da jogada. É o som que lhe diz quem é o grande jogador. O jovem, com seu computador, não tem tempo para o ouvido. Não sou contra a técnica, seria absurdo, só acho que ela não é soberana. Acima da técnica existem inteligência, sensibilidade, humanidade. Não foi a técnica que fez a grandeza de Sergio (Leone) e Don (Siegel), mas o uso que eles fizeram dela.

Existe um culto ao senhor, mas na França surgiu um livro (Clint Fucking Eastwood) que contesta o mito. Diz que só os filmes não explicam sua fama. Critica o machismo. O que pensa disso?
 
Clint Eastwood - Não li o livro e, nesta quadra da minha vida, nem tenho tempo para isso. O que sei é que ninguém chega à posição em que estou mantendo minha independência na indústria e sendo uma unanimidade. Você é uma unanimidade? Com esses cabelos brancos, eu diria, mesmo sem conhecê-lo, que não. Quando se tenta agradar a todo mundo, não se agrada a ninguém, muito menos a nós mesmos. Provavelmente vão contestar muitas de minhas escolhas. Nunca quis ser uma unanimidade. Houve uma época em que as feministas adoravam me odiar. Nunca mudei para agradá-las. O que tento é ser coerente e defender minhas ideias sobre o cinema e o mundo. Acredite, é bem difícil.

O senhor tem apoiado a candidatura de Mitt Romney à Presidência dos EUA. Por quê?
 
Clint Eastwood - Não quero ser ofensivo com (Barack) Obama, mas com ele a América e o mundo andam à deriva. Gostem ou não as pessoas no exterior, a América representa o poderio militar e econômico. Não pode se vergar. As políticas de Obama são sociais. Muita intervenção do Estado para o meu gosto. Sou contra o intervencionismo. Detesto quando o estúdio vem me dizer o que tenho de fazer. Venho de uma família que passou dificuldades, até fome, na depressão dos anos 1930. Meu pai nunca esperou que o governo viesse nos salvar. Ele deu duro e nos ensinou a nunca depender dos outros. Um país é como uma casa. Precisamos de uma boa limpeza e quem pode fazê-la é Romney.