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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Disforia de gênero é um problema psicológico, mas programa de Fátima Bernardes quer tratar como escolha de crianças de 3 anos

Por André,



O programa da Fátima Bernardes "versou", no dia 17 de fevereiro, sobre "crianças trans" - não quero abusar das aspas. O vídeo tem 27 minutos. Destaco apenas alguns pontos:

1. A apresentadora afirma trazer o assunto porque é tabu e o problema acomete muita gente. Em seguida, ela mesma traz estatísticas: 1 caso a cada 100 mil homens; 1 caso a cada 400 mil mulheres. Muita gente?!

2. No início do programa, o psiquiatra convidado afirma que os profissionais do ambulatório de transtorno de identidade de gênero e orientação do Hospital das Clínicas de São Paulo não interferem (suponho que não influenciem de forma alguma) nas escolhas da criança - "ninguém vai operar a criança, ninguém vai dar hormônio". Será? Então, em seguida, o ator pergunta: "quando começam a interferir?". A resposta é clara e dá o que pensar: "com o começo da puberdade". Ou seja, no momento mesmo em que um processo natural se inicia, o médico vai lá e...pimba!, interrompe - com o quê? Para quê? Por que tal informação é veiculada nas "entrelinhas"?

3. Deixando de lado o apelo emocional do programa (na televisão brasileira, seja aberta, seja fechada, não há programa que não apele ao emocional), podemos trazer o que diz a American College of Pediatricians:

"A crença de uma pessoa de ser algo que ela não é, na melhor das hipóteses, é um sinal de pensamento confuso. Quando um menino biologicamente saudável acredita que é uma menina, ou uma menina biologicamente saudável acredita que é um menino, existe um problema psicológico objetivo, que está na mente, não no corpo, e deve ser tratado dessa forma. Essas crianças sofrem de disforia de gênero, formalmente conhecida como transtorno de identidade de gênero, uma desordem mental reconhecida na edição mais recente do Manual Diagnóstico e Estatístico da American Psychiatric Association. A psicodinâmica e as teorias de aprendizagem social dessa desordem nunca foram refutadas."

O assunto é tabu porque há uma razão para ser tabu: é um transtorno. O que se espera de um canal de televisão, que é uma concessão pública e líder de audiência, é que o assunto seja debatido, não enfiado goela abaixo - e logo pela manhã. Por que não levaram médicos que discordam da abordagem do psiquiatra?

Ainda segundo a American College of Pediatricians, e agora falando de adultos, "as taxas de suicídio são vinte vezes maiores entre adultos que usam hormônios do sexo oposto e passam por cirurgias de mudança de sexo, mesmo na Suécia, que é um dos países de maior ação afirmativa LGBQT. Que pessoa razoável e compassiva condenaria crianças a esse destino, sabendo que depois da puberdade 88% das meninas e 98% dos meninos aceitarão o seu sexo real e terão saúde física e mental?".

O dr. Paul R. McHugh, ex-psiquiatra chefe do Hospital John Hopkins e autor de seis livros e tantos outros artigos médicos, considera "transgenerismo uma desordem mental" que requer tratamento. Ele também confirma o alto índice de suicídios entre os transgêneros e reforça o que a American College of Pediatricians enfatizara sobre o abandono das tendências transgêneras pelas crianças de maneira espontânea. Ele cita estudos realizados pela Vanderbilt University e London’s Portman Clinic: 70% e 80% de crianças que apresentaram sentimentos transgêneros, com o tempo, perderam espontaneamente esses sentimentos.

Ao final do programa, para variar em encontros progressistas, a pessoa é "do bem" quando concorda com o que eles, os progressistas como Bernardes apresenta - ou a Globo, se preferirem - dizem.

E preparem-se, pois ela prometeu mais programas com o assunto.
Interromper quimicamente a puberdade de uma criança, seja com que desculpa for, é abuso de menores - em dado momento do vídeo, o médico chama seu local de trabalho de "laboratório". Bem a calhar.

Links:

Transgender Surgery Isn't the Solution (conteúdo pago):
https://www.wsj.com/articles/paul-mchugh-transgender-surgery-isnt-the-solution-1402615120
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Johns Hopkins Psychiatrist: Transgender is ‘Mental Disorder;' Sex Change ‘Biologically Impossible’:
http://www.cnsnews.com/news/article/michael-w-chapman/johns-hopkins-psychiatrist-transgender-mental-disorder-sex-change
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Associação de pediatria dos EUA declara-se formalmente contra a ideologia de gênero:
http://www.semprefamilia.com.br/associacao-de-pediatria-do…/
.
Primeira parte do documentário norueguês "Lavagem cerebral" - "O paradoxo da igualdade":
http://www.andreassibarreto.org/2013/11/o-paradoxo-da-igualdade-o-problema-da.html

Link para o programa "Encontro com Fátima Bernardes":
https://www.youtube.com/watch?v=8zXytBHCbRA

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Demétrio Magnoli alerta para destruição do ensino de História e a institucionalização da doutrinação

Por O Globo,

História sem tempo

A ordem do dia é esculpir um Brasil descontaminado de heranças europeias


Renato Janine, o Breve, transitou pela porta giratória do MEC em menos de seis meses. No curto reinado, antes da devolução do ministério a um “profissional da política”, teve tempo para proclamar a Base Nacional Comum (BNC), que equivale a um decreto ideológico de refundação do Brasil. Sob os auspícios do filósofo, a História foi abolida das escolas. No seu lugar, emerge uma sociologia do multiculturalismo destinada a apagar a lousa na qual gerações de professores ensinaram o processo histórico que conduziu à formação das modernas sociedades ocidentais, fundadas no princípio da igualdade dos indivíduos perante a lei.

O ensino de História, oficializado pelo Estado-Nação no século XIX, fixou o paradigma da narrativa histórica baseado no esquema temporal clássico: Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea. A crítica historiográfica contesta esse paradigma, impregnado de positivismo, evolucionismo e eurocentrismo, desde os anos 60. Mas o MEC joga fora o nenê junto com a água do banho, eliminando o que caracteriza o ensino de História: uma narrativa que se organiza na perspectiva temporal. Segundo a BNC, no 6º ano do ensino fundamental, alunos de 11 anos são convidados a “problematizar” o “modelo quadripartite francês”, que nunca mais reaparecerá. Muito depois, no ensino médio, aquilo que se chamava História Geral surgirá sob a forma fragmentária do estudo dos “mundos ameríndios, africanos e afro-brasileiros” (1º ano), dos “mundos americanos” (2º ano) e dos “mundos europeus e asiáticos” (3º ano).

O esquema temporal clássico reconhecia que a mundialização da história humana derivou da expansão dos estados europeus, num processo ritmado pelas Navegações, pelo Iluminismo, pela Revolução Industrial e pelo imperialismo. A tradição greco-romana, o cristianismo, o comércio, as tecnologias modernas e o advento da ideia de cidadania difundiram-se nesse amplo movimento que enlaçou, diferenciadamente, o mundo inteiro. A BNC rasga todas essas páginas, para inaugurar o ensino de histórias paralelas de povos separados pela muralha da “cultura”. Os educadores do multiculturalismo que a elaboraram compartilham com os neoconservadores o paradigma do “choque de civilizações”, apenas invertendo os sinais de positividade e negatividade.

A ordem do dia é esculpir um Brasil descontaminado de heranças europeias. Na cartilha da BNC, o Brasil situa-se na intersecção dos “mundos ameríndios” com os “mundos afro-brasileiros”, sendo a Conquista, exclusivamente, uma irrupção genocida contra os povos autóctones e os povos africanos deslocados para a América Portuguesa. A mesma cartilha, com a finalidade de negar legitimidade às histórias nacionais, figura os “mundos americanos” como uma coleção das diásporas africana, indígena, asiática e europeia, “entre os séculos 16 e 21”. O conceito de nação deve ser derrubado para ceder espaço a uma história de grupos étnicos e culturais encaixados, pela força, na moldura das fronteiras políticas contemporâneas.

A historiografia liberal articula-se em torno do indivíduo e da política. A historiografia marxista organiza-se ao redor das classes sociais e da economia. Nas suas diferenças, ambas valorizam a historicidade, o movimento, a sucessão de “causas” e “consequências”. Já a Sociologia do Multiculturalismo é uma revolta reacionária contra a escritura da História. Seus sujeitos históricos são grupos etnoculturais sempre iguais a si mesmos, fechados na concha da tradição, que percorrem como cometas solitários o vazio do tempo. Na História da BNC, o que existe é, apenas, um recorrente cotejo moralista entre algoz e vítima, perfeito para o discurso de professores convertidos em doutrinadores.

Na BNC, não há menção à Grécia Clássica: sem a Ágora, os alunos nunca ouvirão falar das raízes do conceito de cidadania. Igualmente, inexistem referências sobre o medievo das catedrais, das cidades e do comércio: sem elas, nossas escolas cancelam o ensino do “império da Igreja” e das rupturas que originaram a modernidade. O MEC também decidiu excluir da narrativa histórica o Absolutismo e o Iluminismo, cancelando o estudo da formação do Estado-Nação. A Revolução Francesa, por sua vez, surge apenas de passagem, no 8º ano, como apêndice da análise das “incorporações do pensamento liberal no Brasil”.

Sob o sólido silêncio de nossas universidades, o MEC endossa propostas pedagógicas avessas à melhor produção universitária, que geram professores “obsoletos” em seus conhecimentos e métodos. Marc Bloch disse que “a História é a ciência dos homens no tempo”. Suas obras consagradas, bem como as de tantos outros, como Peter Burke, Jules Michelet, Perry Anderson, Maurice Dobb, Eric Hobsbawm, Joseph Ki-Zerbo, Marc Ferro, Albert Hourani, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda e José Murilo de Carvalho, não servem mais como fontes de inspiração para o nosso ensino. A partir de agora, em linha com o decreto firmado pelo ministro antes da defenestração, os professores devem curvar-se a autores obscuros, que ganharão selos de autenticidade política emitidos pelo MEC.

Não é incompetência, mas projeto político. Num parecer do Conselho Nacional de Educação de 2004, está escrito que o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana “deve orientar para o esclarecimento de equívocos quanto a uma identidade humana universal”. Equívocos! No altar de uma educação ideológica, voltada para promover a “cultura”, a etnia e a raça, o MEC imolava o universalismo, incinerando a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A trajetória iniciada por meio daquele parecer conclui-se com uma BNC que descarta a historicidade para ocultar os princípios originários da democracia.

Doutrinação escolar? A intenção é essa, mas o verdadeiro resultado da abolição da História será um novo e brutal retrocesso nos indicadores de aprendizagem.

Demétrio Magnoli é sociólogo e Elaine Senise Barbosa é historiadora


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

"O Jardim dos Ideólogos"

Por A Palavra Descoberta,


Inúmeras são as obras que oportunamente analisaram – para usarmos a expressão de John Adams – “a ciência da idiotice“, doravante: a Ideologia. Entretanto, com uma precisão incomum, igualmente pontual, escreveu Kenneth Minogue: “É característica de todas essas doutrinas, a incorporação dos erros de todas as outras.” (‘Alien powers: the pure theory of ideology‘.) Entre todas subjaz tanto a imanentização dos símbolos do eschaton judaico e cristão, ou seja, elementos gnósticos (tese clássica, sustentada por Eric Voegelin e Gerhart Niemeyer), bem como o anseio de perfectibilidade (tese de Anthony Meredith Quinton). Consumando-as simbolicamente ao modo de uma unidade sintética, o resultado será a compreensão da ideologia como o anseio intramundano e perfectível, há muito empenhado em podar indesejadas ervas daninhas em um jardim real e imaginário. Portanto, se afiliar a uma ideologia é buscar habitar este jardim, sem o senso proporcional de culpa habitual, com efeito, tudo passar a ser impremeditamente justificado.

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Por Ivan Pessoa

§1

O esforço deliberado de destruir opositores indesejados subjaz, potencialmente, em todo receituário ideológico. Daí porque endosso – sem ressábios – Gerhart Niemeyer: “Todas as ideologias modernas têm a mesma raiz irracional” (‘Ideas have also roots‘). Crescente desde a modernidade, e crucial a partir da crise do mundo medieval, tal receituário se empenharia em descrever a realidade como um sistema, reduzindo-a parcialmente a determinados anseios mecanicistas e regulares. Ora, como encerrar as disposições humanas, e mais especificamente as escolhas políticas, dentro de uma visão unilateral como se a realidade fosse invariavelmente linear? Dentro desta estrutura descritiva, todos os fenômenos passam a ser catalogáveis sistemicamente, à maneira do espírito jardineiro perante a natureza, empenhado que é em controlá-la. Ao tomarmos o jardim como a oposição dialética entre: natureza e cultura, civilização e barbárie, logo percebemos que o cultivo dessa analogia espacial, fora determinante no decurso da civilização Ocidental, ganhando um sentido simbólico a partir da tensão entre a Idade Média e a modernidade, resultando dai a metáfora para o controle das diferenças, à maneira de uma técnica manual para podar eventuais ervas daninhas; otimizar sua execração, e massacrar ameaças biologicamente indesejadas. Como tônica – todo propósito jardineiro voltar-se-ia para a criação artificiosa de um estado supostamente perfectível, cuja mera existência de criaturas espontaneamente diferentes, já as credenciaria para o altar do sacrifício milenarista da história.

§2

Dentre inúmeras perspectivas acerca da arte da jardinagem, os medievais cultivavam tais jardins com anseios eminentemente espirituais, além é claro, de ilustrá-los como um sistema de catalogação dos saberes. Em 1250, Richard de Fournival desenvolveu – a partir de um modelo horticultural, um método intelectual e igualmente bibliotecário, comparando uma biblioteca a um jardim, de onde se poderia colher os frutos do conhecimento. Remetendo-se ao modelo das sete artes liberais (gramática, retórica, lógica, aritmética, geometria, astronomia e música) Fournival resgataria o cultivo do espírito como hortus deliciarum, cujo esforço seria o de compreender o homem como um ser decaído em meio à natureza, mas habilitado à cultivável transcendência. Ademais, outra leitura acerca da jardinagem surge a partir da leitura exegética dos Cânticos (4:12) como hortus conclusus, portanto, como o símbolo da pureza e da maternidade mariana, e da inviolável individualidade.

Como quem não mais contemplasse a totalidade do fenômeno observado, por mera incapacidade, o olhar que surge desde a modernidade passa a manipular o jardim como expressão da contingência do mundo real por meio do discurso científico, voltado à defesa redentora do espírito geométrico perante o caos. Passados alguns séculos e, decorrido o esfacelamento do mundo medieval, o conceito de jardinagem encamparia um apelo filosófico tão caro ao Iluminismo, trazendo para o bastidor da ação política, o reclame à racionalidade, à ordem e à tentativa asséptica de fundar uma sociedade perfeita. Tal fenômeno traria consigo, aquilo que Steven Lukes chama de: ‘espírito de retificação‘, ou seja, alentada justificativa para a correção de possíveis desigualdades naturais ou sociais com o usufruto de deliberada engenharia social. Do propósito, até sua entusiasmada consecução: o esforço em podar os indesejados; aguçar o espírito de retificação; ensejar a perfectibilidade humana, só seria possível desacomodando a ordem natural por meio da violência. Entretanto, dentro desta perspectiva, nada se sustenta sem justificativas.


§3


Pautando-se em planejamento, burocracia, planificação e aguçado senso messiânico, o espírito de retificação do estado jardineiro, compreenderia toda e qualquer oposição como bacilos sociais que, em condições imediatamente daninhas, são indignas à existência. Se no auge da solução final, durante o Holocausto nazista: judeus, homossexuais, ciganos e anônimos inocentes eram incriminados por cometer o crime de existir, como os imaculados cidadãos que eram pegos com óculos no Camboja de Pol Pot por subversiva alusão à intelectualidade burguesa: míope e letrada – o que surpreende em tais desmandos é tanto o esforço em retificar e corrigir os diferentes quanto o justificado discurso e sua autossuficiência. Indiferente à culpa de quem reconhece seus próprios erros, o espírito de retificação justifica-se com aguçado senso de autoindulgência, arremetendo a uma inculpação projetiva em nome da humanidade, do proletariado, da justiça social e da raça (todos imponderáveis e abstratos) o propósito de seus atos. Portanto, toda a retificação, ou seja, todo espírito jardineiro caracteriza-se pela remissão à coletividade e a culminância em um Indivíduo Absoluto que, por catalogar todas as diferenças a partir de suas inclinações ocasionais, as indispõem justificadamente. Como toda ideologia se assemelha; neste esforço de podar os indesejados com demasiado senso de autojustificativa, quem quer que pronuncie a frase seguinte, trocando apenas o sujeito ao bel-prazer de sua capacidade crítica (por exemplo, raça ariana em vez de classe do proletariado) desdobra ad infinitum o espírito de retificação: “A consciência de classe do proletariado é intencionalmente dirigida para a verdade – mesmo quando comete erros.” Que diferença faz se Joseph Goebbels tivesse pronunciado isso em vez de Lukács?
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(Na introdução deste livro, Roger Rosenblatt apresenta os horripilantes relatos sobre o Khmer Vermelho. Dentre eles, o caso dos óculos, que eram indicativos de hábitos burgueses, portanto, contra-revolucionários.) 


§4


Talvez todo o assombro do espírito jardineiro moderno com sua retificação autossuficiente, caiba nas palavras de Horace Walpole em menção ao paisagista William Kent, segundo o qual: “pulou a cerca e descobriu que toda a natureza era um jardim.” Espantada com a indiferença da natureza – múltipla, variável e orgânica -, a jardinagem moderna empenharia seu afã agrimensor até o limite da técnica, inviabilizando a espontaneidade da vida e sua variedade de manifestações. Aliás, por ser potentia: a vida é sempre uma ameaça. A partir deste processo, ao perder sua reserva ontológica e seu mistério, a vida decai a um nível exclusivamente biológico, resultando daí uma compreensão dessacralizada e, quando não, indiferentemente sanitária. Entretanto, se recorrermos à noção aristotélica de ‘bios theoretikos’ (vida contemplativa) – que se apresenta como o processo intelectual em toda sua maturidade, capaz de fomentar a noção integral sobre o ser humano; em sua acepção política, moral e teórica – a própria compreensão sobre a vida (meramente biológica) transcende seus condicionantes, para além dos meros mecanismos ideológicos. Diferentemente da noção pejorativa que se tem deste bios theoretikos, vale considerar que seu sentido efetivo só pode se consumar dentro da atuação individual na vida pública, de forma espontânea e livre, ou seja, sem as exigências culposas do discurso ideológico. De um modo alternativo à vida moderna, a melhor via de acesso ao bios theoretikos encontra-se na ‘Gramática do Assentimento’ (1870) de John Henry Newman, com seu conceito de ilação: “A vida é para a ação. Se insistirmos em provas para todas as coisas, jamais chegaremos à ação; para agir tens de supor, e tal suposição chama-se fé.” Haja vista, os quatorze atos de Misericórdia (sete atos espirituais e sete atos corporais) destacados magnificamente pelos Evangelhos, desdobráveis desde a passagem Mateus25:35-46.

§5

Com a observação anterior se pode perceber que somente a consciência individual, no auge de seubios theoretikos voltada para a ação, contraria as implicações destrutivas do élan ideológico. Desta forma, se para os gregos antigos, a excelência da capacidade intelectiva; a sede da bios theoretikosencontrar-se-ia na cabeça, pois como nos diria Aristóteles: “o que é superior e mais nobre tende a estar no alto” (‘De partibus animalium‘) logo não é de estranhar que no auge da modernidade, com seu fôlego ideológico – mais especificamente com a Revolução Francesa – o estado jardineiro guilhotinasse seus respectivos inimigos com acaloradas justificativas, indispondo-os cabeça afora. Não por acaso – é na modernidade que surge a palavra inglesa: ‘grim‘, como sinônimo de sombrio, decorrente do medo que, uma cabeça desencarnada, perambulasse assustadoramente pelas cidades. Do sentido adicional da palavra: ‘grim‘, acrescenta-se – espectro ou fantasma. Estatisticamente, e em todos estes séculos: da modernidade para cá, quantas cabeças essas ideologias mais aclamadas já decapitaram, corroborando assim com as palavras de Lafcadio Hearn: “Estamos repletos de fantasmas” (?)


Por mais que contabilizássemos hipoteticamente pouco menos que duas vítimas em todos estes séculos, ainda assim nenhuma razão de ser; nenhum alento ideológico justificaria o massacre, o vilipêndio e o assassinato de um homem ou de uma mulher. Fazê-lo – excetuados aqueles excludentes de ilicitude, como a legítima defesa – requer a observância de insanidade, ou de um vezo incorrigivelmente ideológico. Entretanto, como não os vejo relativamente distantes, costumo pensar que todo apelo de retificação que parte de um ideólogo, se remete naturalmente à seguinte situação, com a insuspeitada defesa de um delírio sem remorsos. Passados uns anos, portanto, logo após os julgamentos de Nuremberg, e retornando ao estádio daquela cidade aos 70 anos, o arquiteto de Adolf Hitler, Albert Speer, vendo algo destoante entre os escombros da suntuosa, porém fantasmagórica construção, afirmou: “O Führer ficaria furioso se soubesse que o concreto deixava passar ervas daninhas.”. O que espanta é que muitos ainda reiteram essas palavras com nomes diversos e com outras bandeiras, no entanto, nada é mais espantoso que os fantasmas acéfalos dessas insepultas ideologias. No mais, das vítimas aos carrascos, todos seguem sem cabeça neste imprevisível jardim chamado história.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Gustavo Ioschpe: "Estamos acabando com o país"

Por Veja,

Há algumas semanas, dei uma palestra em um evento sobre educação, organizado por uma grande empresa e sediado em uma escola. Havia muitos educadores e alunos na plateia. Compartilhei alguns dos dados preocupantes sobre o fracasso do nosso sistema educacional. Expus minha oposição ao plano — agora consagrado em lei — de investirmos 10% do PIB em educação, notando que o único país que investe nesses patamares é Cuba. (Não porque aprecie sobremodo a educação, mas porque não tem PIB: qualquer meia dúzia de vinténs já dá 10% do PIB cubano...)

Depois da minha fala, vieram as perguntas do público. Sempre que há professores na plateia, estas perguntas se repetem: não é muito simplista/reducionista/alienado falar apenas em qualidade do ensino através do domínio dos conhecimentos de linguagem, matemática e ciências medidos por meio de exames como a Prova Brasil, o Enem e o Pisa? A função da educação não vai muito além disso? Não seria formar o cidadão crítico e consciente, engajado na construção de um país mais justo? Respondi o que sempre respondo nesses casos: a educação brasileira está tão mal — incapaz até mesmo de alfabetizar seus alunos ou ensinar-lhes as operações matemáticas básicas — que podemos gerar um consenso abarcando desde os stalinistas do PSTU até o neoliberal mais empedernido. Quer você deseje gerar o próximo Che Guevara, quer um operário preparado apenas para trabalhar numa linha de montagem, ambos precisam ser alfabetizados e dominar as operações matemáticas básicas. Então vamos primeiro focar a criação de um sistema educacional que garanta a 100% de seus alunos o direito de aprender pelo menos essas competências básicas, e deixemos as discussões ideológicas para outras áreas e outros momentos. Para mim, isso tudo é de uma obviedade mais do que ululante.

Qual não foi a minha surpresa quando, ao terminar, fui interpelado por uma meia dúzia de adolescentes, na faixa dos 15 anos, alunos daquela escola, dizendo-se indignados com meu desprezo por milênios de linguagem oral, meu menosprezo pelos analfabetos (“Então o senhor acha que é preciso ler para ter conhecimento?!”) e minhas críticas ao “grande” modelo cubano. Sim, sim, tem bastante gente ainda pensando assim em 2014, não estou brincando! Caiu o Muro de Berlim, e eles ainda estão sonhando em descer a Sierra Maestra. Você deve estar pensando que essa escola era da rede pública de alguma biboca do nosso interior profundo, administrada por uma prefeitura de partido socialista, certo? Pois é, eis a minha surpresa: essa escola, senhores e senhoras, está no Rio de Janeiro, na divisa entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá, e — esta é a melhor parte — pertence ao Sesc. Sim, o Serviço Social do Comércio, mantido pelos empresários e funcionários das áreas de comércio e serviço através de impostos cobrados na folha salarial. Longe de ser exceção, essa dinâmica é a regra: escolas e universidades de entidades privadas, algumas inclusive com fins lucrativos, estão entupindo o cérebro de seus alunos com a mais rasteira e ignóbil doutrinação política marxista. Depois, quando esses alunos se tornam adultos e passam a comandar o país, os donos e diretores dessas escolas e universidades passam anos a fio reclamando (com razão) do intervencionismo estatal e do viés antiempresarial dos líderes... que eles mesmos formaram!

Não acredito que esse tiro no pé seja intencional. É só miopia ou visão de curto prazo. Nas universidades, as áreas de pedagogia e licenciaturas são muito desprestigiadas, e acabam se tornando incompetentes. Formam maus professores, mas ninguém se importa, porque, como muito poucos prefeitos ou governadores são cobrados pela qualidade do ensino que oferecem, mesmo o mau professor não terá muita dificuldade de se encaixar no mercado, desde que tenha o diploma. Como os cursos não precisam ter qualidade, o jeito de reter aquele aluno é dizendo-lhe o que ele gosta de ouvir. De preferência, algo fácil de entender. Como esse é um público muito idealista, que já vem doutrinado do ensino médio, e como os pedagogos responsáveis por esses cursos também estão, na maioria dos casos, imbuídos de um sentido de missão revolucionária, o que você acha que esses cursos fazem? Trilham o caminho difícil de transmitir o domínio da didática e da matéria a ser ensinada ou optam por falar do papel revolucionário do professor, da missão grandiloquente da formação do cidadão crítico etc.? Sim, eles optam pelo caminho do ensino raso recheado por profundo doutrinamento. E assim se formam os professores que formarão as futuras gerações.

Lendo estas linhas você deve estar com um misto de compaixão e desprezo pelos proprietários de nossas universidades, investindo hoje na criação do seu opositor de amanhã. Mas eles não são os maiores culpados pela situação que vivemos. Sabe quem é? Você. Sim, você, que tem recursos para ler esta revista e, provavelmente, para pôr seu filho em uma escola particular. Você que faz parte da elite financeira e intelectual do país, que representa a sua liderança. Pois eu pergunto a você: qual foi a última vez que leu um livro didático de história ou geografia adotado pela escola do seu filho? Se você for como a maioria dos pais, deve fazer muito tempo. Você sabe que seus filhos estão ouvindo nas escolas diatribes contra o capitalismo e a burguesia brasileira (leia-se: você) e elogios ao modelo cubano e outros lixos socialistas? Provavelmente não sabia. É provável que só esteja preocupado com que seu filho entre em uma boa universidade, preferencialmente pública, em que o doutrinamento rastaquera praticado na escola será substituído por uma panfletagem esquerdista travestida de intelectualidade. Ou talvez até saiba o que está se passando mas não tenha vontade suficiente para debater com os professores e diretores, mantidos pela sua mensalidade, o lixo mental que seu filho recebe diariamente. Você que se preocupa com a saúde física do seu filho a ponto de obrigá-lo a comer arroz integral e tomar suco verde não dispõe da mesma energia e entusiasmo para fazer com que seu cérebro seja preservado dos detritos descarregados diariamente pela escola que você financia.

Talvez acredite que não importa o que seu filho ouve na escola: você corrige os desvios de caminho em casa. E pode ser até que tenha razão. Mas os 83% de alunos que estudam em escolas públicas têm pais cujo nível de instrução é muitas vezes insuficiente até para ajudar na alfabetização do filho. Certamente não conseguirão fazer o mesmo nem saberão que seu filho está sendo vitimado pela historiografia marxista, ou mesmo que há outras historiografias possíveis.

O resultado das últimas eleições mostra que não é possível construir um país nos três meses que antecedem a votação. Mostra que, sim, é ótimo que a nossa elite ganhe muito dinheiro, progrida e tenha condições de passar um tempo em Miami, Paris ou onde bem lhe aprouver, mas que só isso não basta: precisamos de uma elite empenhada em alterar a realidade do país, não em fugir dela. O Brasil está criando pessoas que desconfiam da democracia, dos valores republicanos, de sua própria capacidade empreendedora. Se as lideranças do país continuarem se abstendo da discussão que mais importa — a de valores, de identidade, de aspirações nacionais —, continuaremos colhendo atraso e frustração. Não se constrói um país desenvolvido sem elites. Esse debate é indelegável.

Já passou da hora de termos uma escola apolítica, sem doutrinação, que consiga fazer com que nossos alunos pensem e tenham os instrumentos para pôr de pé seus sonhos de vida. Não podemos nos furtar desse debate nem adiá-lo. Ele começa hoje, na sua sala de jantar, na escola de seus filhos. Aproveite essa liberdade enquanto a temos.

O governo que nos educa, por Demétrio Magnoli

Por Globo,

RIO — “A figura da Espanha tem a forma de uma Cruz. E lembra o Cristo que pintou Velázquez: o Redentor do Mundo e dos homens. Por isso, o destino da Espanha é cristão e universal. Porém, para cumprir este sublime Destino, a Espanha sempre precisou, imitando o divino Salvador, sofrer martírios, sacrifícios, sangue derramado, infinitas amarguras. E duras lutas.”

O manual España Nuestra, de Giménez Caballero, publicado em 1943, que introduzia a versão espanhola do fascismo no ensino do país, é um dos incontáveis atestados documentais da ambição das ditaduras de moldar a consciência política dos jovens desde os bancos escolares. No Brasil democrático de hoje, as provas do Enem refletem uma ambição similar. A escritura ideológica, patente ou subjacente, atravessa todos os anos as questões de ciências humanas, configurando um padrão facilmente reconhecível.

A propaganda explícita das políticas racialistas é uma marca do Enem. Na prova aplicada anteontem, emerge duas vezes. Por meio da questão 42 (Prova Branca), o jovem candidato é conduzido a aplaudir o Parecer do Conselho Nacional de Educação que instituiu a “Educação das Relações Étnico-Raciais”. A formulação da questão cita um trecho do documento oficial, consagrado a difundir “posturas que eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial” – ou seja, uma pedagogia do “orgulho racial”. Num outro trecho, não citado, o Parecer conclama as escolas a desfazer os “equívocos quanto a uma identidade humana universal”, o que equivale a rasgar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Por meio da questão 37 (sempre da Prova Branca), sutilmente, o Enem traça um fio histórico entre as atuais políticas racialistas e antigas demandas políticas dos “negros”. A formulação cita um trecho do estatuto da Frente Negra Brasileira (FNB), fundada em 1931 e explica que a entidade foi “fechada pela ditadura do Estado Novo”. Em seguida, conduz o estudante a selecionar a única alternativa viável, que enfatiza o engajamento da FNB na “luta por direitos sociais para a população negra no Brasil”. Os examinadores oficiais operam por seleção e omissão, ocultando a proximidade doutrinária da FNB com os integralistas, também proibidos após o golpe do Estado Novo. O subtítulo do jornal da FNB era “Deus, pátria, raça e família”. Daria uma bela questão, num outro Enem, pautado pelas dificuldades da reflexão crítica, não pelas simplórias certezas do discurso ideológico.

O antiamericanismo é um traço obsessivo do Enem. Ele aflorou desta vez na questão 26, a mais panfletária de toda a prova. Segundo a formulação, o grupo dos BRICS é formado por “países que possuem características político-econômicas comuns”, uma tese ousada que deve ser compulsoriamente admitida pelos candidatos, chamados a “comprová-la” pela seleção da alternativa “correta”. A única alternativa coerente com a formulação cimenta a unidade do grupo na lenda de que seus integrantes constituem uma “frente de desalinhamento político aos polos dominantes do sistema-mundo”. Por esse caminho, o Enem sacrifica no altar da retórica de nossa política externa as profundas divergências geopolíticas entre os países dos BRICS, notadamente o alinhamento estratégico da Índia com os EUA.

(Nota aos candidatos: certamente aturdidos pela ideia de uma unidade antiamericana dos BRICS, os cursinhos preferiram marcar como certa a alternativa C, que não indica uma “característica político-econômica” do grupo e, portanto, não satisfaz logicamente a demanda da questão. Talvez o INEP desvie seu gabarito para o rumo indicado pelos cursinhos, destruindo a lógica para salvar a cara...).

A imprensa é má; o governo é bom — eis uma ideia-força das provas do Enem. Na questão 23, o “presidente do jornal de maior circulação do país” justifica sua “adesão aos militares em 1964” em nome da “manutenção da democracia”. Na questão 24, a Comissão Nacional da Verdade surge como “iniciativa do Estado” que “resultou da ação de diversos movimentos sociais”. Os examinadores não mentem: giram os holofotes para iluminar as verdades parciais, habilidosamente selecionadas, que lhes interessam. A imprensa anda junto com os generais. O governo reflete a vontade dos movimentos sociais. As duas questões não falam, realmente, de 1964, mas de 2014. Não deveria ser “socialmente controlada” essa imprensa golpista?

O Brasil do Enem não é a Espanha de Giménez Caballero. No manual do fascista, uma figura de Cristo crucificado aparece sobreposta ao mapa da Espanha, com os braços estendidos da Galícia aos Pireneus e os pés encaixados em Gibraltar. Por aqui, o Enem contenta-se com esboços sugestivos e rascunhos sumários. Não “faz a cabeça” de ninguém, obviamente. Mas certamente contribui para a miséria intelectual em nossas escolas.

* Demétrio Magnoli é sociólogo

sábado, 8 de novembro de 2014

Questão do ENEM usa texto de professor da UNCAMP que afirmou que o mensalão não existiu. Questão faz caricatura do conceito de "conservadorismo"

Por André,

Essa é mais uma daquelas evidências pra você mostrar pro seu amigo esquerda light que acha que propaganda ideológica de esquerda nas escolas/universidades é coisa de reacionário que vê comunista embaixo da cama.

De entrevista publicada aqui.

Muitos saem pela tangente alegando duas coisas: 1) cânone e 2) direitos humanos. Claro que questões formuladas com base nas teorias de Karl Marx estão no cânone oficial e é normal que façam parte de avaliações como um todo, porém, segue sendo surpreendente a frequência. Ainda assim, o questionamento não é e nunca foi da presença de autores esquerdistas nas provas, mas sim seu predomínio absoluto e hegemônico, quando seria questão de sanidade mental trazer vozes de oposição (especialmente para assuntos questionáveis e já exaustivamente questionados). E depois, nem sempre é uma questão de direitos humanos. Claro que defender a pena de morte bovinamente pode ferir os direitos humanos.

Mas o que dizer do exemplo da imagem? O professor Nobre não está no cânone, certamente. Nem o tema tratado versa sobre direitos humanos. O trecho selecionado não faz nada mais que fazer de seu opositor ideológico - o tal "conservadorismo" da sociedade brasileira - um espantalho. Uma caricatura.

Se não há viés ideológico, por que isso só acontece desse lado do espectro? Por que os exemplos sempre resvalam em questões, causas e pautas de esquerda e nunca de qualquer outra coisa (de centro, libertárias etc)?

Mais exemplos apenas do ENEM de 2014:


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Monty Phyton e o nonsense da militância de esquerda

Por André,

"Vivemos num momento realmente surrealista em que dizer que dois "iguais" não geram filhos é motivo de polêmica (...)

No filme mais engraçado de todos os tempos, "The Life of Brian" (Monty Python, 1979), que faz uma sátira impiedosa e brilhante dos movimentos revolucionários de esquerda que tomavam conta da Inglaterra e dos EUA no final dos anos 70, há uma cena em que o personagem "Stan", de Eric Idle, diz que quer ser uma mulher, que deve a partir daquele momento ser chamado de "Loretta" e quer "ter filhos".

O líder do grupo, "Reg", vivido por John Cleese, não entende como ele pode querer ter filhos: "você não tem útero! onde o feto vai ser gestado, numa caixa?". Stan (ou Loretta) diz que está se sentindo oprimido e começa a chorar.

A personagem Judith, intepretada pela atriz Sue Jones-Davies (que recentemente foi prefeita da cidade de Aberystwyth, no País de Gales), diz que mesmo sendo impossível Stan (ou Loretta) ter filhos ele (ou ela) tem o "direito" de ter filhos, o que faz todo sentido num cérebro esquerdista.
Quando Reg questiona qual é a razão disso tudo, Francis (Michael Palin) diz que é "simbólico na nossa luta conta a opressão", no que Reg responde: "é simbólico na luta dele contra a realidade". Melhor definição, impossível.

Se você ainda não viu "The Life of Brian", o que está esperando? Já houve um tempo em que era possível rir de tudo isso."

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

"A universidade - ou seja lá o que for"

Por André,


O texto é de 2001 e na melhor das hipóteses nada mudou. Ex-alunos fazendo cursos que contenham alguma matéria de humanas vêm me procurar e sempre fazer as mesmas perguntas; devolvo um "tá usando o livro da Marilena Chaui?", a resposta quase sempre é sim.


Nenhum clássico é lido, mas um Marx(inho) não falta. Abobrinhas pós-modernas jamais deixam de ser cometidas. Gente "crítica" é formada com as mesmas ideias há anos.

Quando o professor de Brasília chamou a Popozuda de pensadora eu falei que a discussão era outra. Era a discussão que ocorreu nos EUA na década de 70 sobre o cânone, discussão essa vencida pela esquerda que hoje vende seus (vazios - nas duas acepções da palavra) de literatura lésbica e geografia feminista.

O texto:


Foi com muita tristeza que li o artigo de Kujawski no Jornal da Tarde (12/10/2001). Sempre que um intelectual desqualifica outro por estar opinando sobre um campo do saber que não é sua "especialidade", vejo-me atacado de uma forte vontade de pegar meu passaporte e partir desse país. Durante 4 anos de estudos na PUC de Belo Horizonte, onde estudei Comunicação, sempre vi confirmadas na prática todas as acusações feitas por pessoas como Meira Penna, Olavo de Carvalho e José Carlos Azevedo.

Quando estava no primeiro período, cursei uma disciplina que se chamava "Filosofia 1". Passamos - eu e minha turma - pelos pré-socráticos e gregos em três semanas, graças à ajuda de nosso glorioso Jostein Gaarder e seu "Mundo de Sofia", publicação infanto-juvenil (e olhe lá) que há muito substituiu os manuais de filosofia nos cursos superiores. O conteúdo consistia basicamente em saber que filósofo pré-socrático gostava da água, qual deles achava que tudo vinha do fogo ou da terra. Mais adiante, veio Platão, que era o "da caverna" ou do "mundo das idéias". Aristóteles foi o que criou as ciências. Depois, fizemos alguns anúncios publicitários que deveriam "se inspirar" nos filósofos "estudados" (com bastantes aspas). Algo como: "Venha para a Boate Heráclito e encontre o fogo de que você precisa".

Então, depois de passar por cima de Sto. Tomás e de toda a Idade Média, chegamos em Descartes, que era o do "penso, logo existo" e dele pulamos para Sérgio Paulo Rouanet, que resumia em poucas linhas o que era o Iluminismo e quase tudo que veio depois. Fomos parar finalmente em Derrida, que foi o único filósofo que lemos no original, ou seja, o único que ficamos conhecendo diretamente, e não por meio de textos de terceiros.

Ainda no primeiro semestre, cursei "Sociologia", disciplina da qual saí com uma noção vaga de que Weber foi o que falou que o protestantismo possibilitou o sucesso do capitalismo nos EUA. Noção essa que adquiri lendo doze páginas da introdução da "Ética Protestante", que foi tudo que a professora exigiu para a prova. Durkheim e Marx foram ensinados através dos livros de Peter Berger. Entre os dois, Marx foi aquele que mereceu maior destaque, já que - feliz coincidência! - estava saindo na época um caderno "Mais!" sobre a atualidade do manifesto comunista, caderno que foi levado à sala de aula e amplamente discutido. Todo o conteúdo do semestre, exigido pela professora e "deixado no xerox", não somava 40 páginas.

Depois disso, cursei "Filosofia "", Disciplina totalmente ministrada através do "Convite à Filosofia", de Marilena Chauí, recentemente desmoralizado por Gonçalo Armijos Palácios, professor de filosofia da UFG, no jornal Opção, de Goiânia. Além dessa discilina, cursei muitas outras, todas elas fartamente apoiadas em filósofos pós-modernos, como Deleuze e Derrida, e em outros de tendência irracionalista e dualista, como Bergson. E sei que em outras universidades também é assim, pois muitos dos textos que li vinham da USP e de outras PUCs do Brasil.

De todas as disciplinas, entretanto, a que de longe tem mais destaque dentro do departamento é a de "Semiótica". A professora, admiradora incondicional de Charles S. Peirce e da "praga do pragmatismo", é a única - dentro do departamento - que faz admiradores e discípulos. Muitos desistem da publicidade para seguir carreira acadêmica, logo estabelecendo contato com a PUC de São Paulo - onde há um núcleo de estudos de semiótica - e com o departamento de Letras, onde há muito se ensinam os futuros professores e críticos a tudo interpretar pragmaticamente.

Durante todo o tempo em que estive na universidade, não li uma linha sequer de qualquer filósofo clássico. E as poucas linhas que li sobre alguns deles, escritas por terceiros, tiveram seu efeito anulado de longe pela enxurrada de textos sobre a pós-modernidade e seus infindáveis "novos paradigmas". Além disso, qualquer "crença" que o aluno queira ter na realidade das coisas deve ser guardada para si, pois Baudrillard (único "filósofo" de quem foi exigida a leitura - pasmem! - de um livro inteiro) ensina que tudo é virtual hoje em dia e Peirce, Lacan e Freud trabalham em conjunto para provar de uma vez por todas que os objetos não existem - mas apenas os "signos" deles em nossas mentes - e que a mente humana está isolada do mundo objetivo, mergulhada e presa que está na linguagem. Todo o conhecimento crítico que me fez enxergar o fosso onde me meti foi por mim adquirido por outros meios, entre os quais constam excursões esporádicas e solitárias à biblioteca, leitura de artigos de jornais, "passeios" pela Amazon.com, aulas e textos de Olavo de Carvalho, copiadas do site e coladas em meu computador.

É por tudo isso que mil Kujawskis não vão conseguir me convencer de que os maravilhosos professores que se formam em nossas universidades vão ensinar a verdadeira filosofia - e muito menos a sociologia - aos nossos jovens e dar a eles um chão firme para pisar em meio ao solo pegajoso do pseudo-conhecimento pós-moderno, pragmático, materialista ou seja lá o que for. É mais provável que Aristóteles saia de sua tumba e comece a escrever em português (com acentos).

Evandro Ferreira e Silva, estudante universitário, 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Ainda sobre funk

Por André,

"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário."
George Orwell

Comentei ontem o veto do prefeito Haddad ao projeto que previu proibir bailes funk, o amigo Flavio Morgenstern fez o mesmo, só que com a maestria que lhe é característica. Quero retomar o tema para fazer mais alguns adendos de ordem filosófica e antropológica.

O especialista em música Régis Tadeu participou de um "debate" sobre o funk com as "Tequileiras" e com "MC Rodolfinho" num programa da Redetv. Não conheço o trabalho de Régis, mas o sujeito claramente é um entendedor do assunto música, tanto do ponto de vista técnico quanto histórico, ele segue o estilo "jurado linha-dura", marrento, exigente e de poucos sorrisos, esse é o estilo que ele faz quando trabalha como jurado no show de calouros do Raul Gil (ele é o Simon brasileiro do British Got Talent - a plateia vaia, xinga, mas os candidatos entram lá para impressioná-lo e saem de lá felizes quando recebem elogios dele). Régis é dono de um acervo pessoal de mais de 2.000 discos, certamente um estudioso da matéria.

Pois bem, ao "debate":


Vamos ignorar a total e completa falta de articulação e capacidade de argumentar dos convidados e partir para o que interessa. Após muito esforço, o que sobra dos "argumentos" em defesa do funk?

1) "mas as pessoas gostam" ou "temos público" - subjetivismo coletivo.

Isso certamente é verdade, mas de forma igualmente certa não depõe em favor da beleza estética do funk. Aliás, qualquer manifestação artística que precise recorrer ao apoio da voz popular, como se a Beleza/Arte/Cultura fosse algo decidido por maioria de votos, está num péssimo caminho.

Ademais, a maioria numérica das pessoas já gostou de muitas coisas admitidamente ruins. Por que no caso do funk isso serviria como critério de prova?

2) subjetivismo individual: "essa é a sua opinião, eu tenho a minha".

Num nível ainda inferior ao 1, apela-se ao puro sentimento individual de que sua opinião própria, mesmo que desprovida de argumentos sólidos, traz algum significado positivo à discussão.

É um argumento "imbatível", porém aplicável a QUALQUER coisa! Alguém que afirme que matar judeus é moralmente justificável porque estes são judeus não pode se defender da sua afirmação alegando que esta é apenas "sua" opinião e ponto final. O subjetivismo nada prova e legitima qualquer coisa.

3) apelo ao sensualismo e estetismo rasteiro.

Esse é um argumento com que os 'intelectuais' costumam flertar bastante (impossível não me remeter ao texto de Alexandre Borges "Mais uma jabuticaba brasileira: o sociólogo de entrevista" - 99% da classe intelectual "defensora" do funk é oriunda de alguma área das humanidades, cheio de fala malemolente e teorias mirabolantes - mas quantos experts em música do gabarito de Régis são convidados a opinar?).

No fundo, o funk é "lindo" porque é "agradável" aos olhos/ouvidos de alguns que o veem/ouvem. Por que é agradável? Porque ativa as áreas animalescas, do prazer sexual, daqueles que o assistem - ou tem, ou alega-se ter, uma "batida" agradável. Como os que assistem são, usualmente, pobres, é natural que o revolucionário que afirmar a verdade em duas frases ganhará uma empolada crítica dos intelectuais de boteco de plantão e causará críticas do tipo "fascista", "nazista" e "reacionário" aos que ousarem criticar o sensualismo que causa prazer nos pobres.

Hipnotismo sensualista
Está implícito no argumento que o funk não é grande coisa mesmo. Provavelmente não é belo nem possui qualquer outra virtude estética. Mas é agradável aos sentidos e nada mais importa. É a apoteose da sensação. Qualquer um deveria ver problema nisso, pedófilos sentem-se bem ao estuprar crianças, nazistas sentiam-se bem ao matar judeus. Desde quando o "sentir" pode ser critério racional para alguma coisa? Desde Aristóteles que sabemos que agir de maneira correta, isto é, moral, é justamente, não dar vazão às nossas "inclinações".

O defensor desse argumento é o mais perigoso de todos. É um "Stalin filosófico". Para ele as coisas não guardam qualquer valor por elas próprias, só o que importa é o que as pessoas depositam nela (que pode ser algo bom, algo ruim, hoje algo bom e amanhã algo ruim e assim sucessivamente). Se todos gostam, é bom.

Se você é incapaz de notar como esse argumento poderia municiar simplesmente QUALQUER coisa, inclusive, por exemplo, o nazismo (não, eu não estou comparando o funk ao nazismo, apenas mencionando que o argumento utilizado para defender um poderia tranquilamente ser usado para defender o outro), você está em sérios problemas.

MC Rodolfinho é quase um filósofo pós-moderno: é relativista, sensualista e adepto do estetismo rasteiro que denuncio aqui, quando Regis afirma que ele é destonado, o MC replica "eu não acho". Oras, estar fora do tom não é uma questão de "achar ou não achar", é um dado objetivo da realidade teorizado pela análise técnica da música.

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Que um certo grupos de intelectuais está empenhando em avançar contra a realidade ostensiva e pragmaticamente desde, no mínimo, a década de 60, é evidente. Mas pergunto aos mais desavisados que podem não ver "nada demais" em toda a história: se sabidamente o funk é esteticamente ruim e também é ruim do ponto de vista estritamente técnico da teoria musical, qual o interesse subjacente dos sociólogos e "senhores das humanidades" (mesmo que, muitas vezes, as letras de funk tenham teor machista e de "ostentação" - coisas que deveriam deixar a intelligentsia esquerdista de cabelo em pé) em defender o ritmo, senão algum ardil puramente ideológico?

sábado, 30 de novembro de 2013

Perseguição ideológica na UFSC: grupo não pode associar a palavra "conservador" ao nome da universidade, comunista pode!

Por André,


O amigo Antônio José de Pinho recebeu uma notificação oficial (embora sem poder legal real, fica evidente que a intenção primeira é a mais pura intimidação) da Universidade Federal de Santa Catarina, que segue abaixo:



É claro que a supremacia de uma ideologia sobre outras nas universidades, especialmente nos departamentos de humanas, é um mito inventado por gente de "extrema direita". E claro que qualquer um que denuncie essa obviedade é um inquisidor macartista (faço aqui um adendo; qualquer um que tenha frequentado o ambiente universitário brasileiro - e digo, AMBIENTE UNIVERSITÁRIO, não necessariamente o ambiente acadêmico da SUA universidade e negue a hegemonia e truculência esquerdista está com os ponteiros desajustados, este é "apenas" um exemplo gritante do fenômeno. Para isso leia: Professores universitários negam "aparelhamento" esquerdista de universidade. É mesmo?).
"Para que o caso não ganhe contorno de perseguição ideológica (o que jamais passaria pela minha cabeça em se tratando de uma universidade pública), seria bom perguntar à coordenadoria que enviou a carta se os responsáveis pelos sites e perfis no Facebook da UFSC LGBT, UFSC à Esquerda, União da Juventude Socialista da UFSC, União da Juventude Comunista da UFSC também foram notificados por "utilização ilegal do nome" da UFSC." (Bruno Garschagen)

O próprio Antônio Pinho fez um histórico do ocorrido (reproduzido no site de Aloizio Amorim):

Um dos casos mais emblemáticos foi o recente anúncio da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) de um evento cujo palestrante seria o terrorista italiano Cesare Battisti, que o governo petista acolheu como refugiado político. A repulsa geral ao fato levou a universidade ao cancelamento do evento.
A UFSC que já teve os seus dias de glória hoje chafurda no esquerdismo, totalmente aparelhada pelos tarados ideológicos que submetem os jovens estudantes a uma permanente lavagem cerebral. A reitora é do PSTU, partido que se pretende mais comunista do que o PT. Portanto, de cima abaixo, a UFSC transformou-se num valhacouto de comunistas.
O resultado é que em boa hora está havendo reação de expressiva parte dos universitários. Tanto é que já existe a Juventude Conservadora da UFSC. Na verdade, esta salutar reação que ocorre na UFSC, se verifica em diversas universidades basileiras, como a UnB, a Universidade Federal de São Carlos e a Universidade Federal de Ouro Preto, onde medida judicial proibiu o funcionamento de um exótico Centro de Difusão do Comunismo.
Mas pelo que se constata, a comunização da UFSC rivaliza com as demais instituições de ensino no avanço esquerdista. Isto acaba ficar muito evidente depois que o ex-aluno da UFSC, Antonio Pinho, formado em Letras com Mestrado recentemente concluído, resolveu criar o blog UFSConservadora, que conta com a participação de alunos, ex-alunos e também de estudantes de outras universidades.
O blog se dedica à reflexão e análise de temas políticos e filosóficos sob a ótica conservadora. O grupo inclusive protestou no campus contra o evento que homenagearia do terrorista Cesare Battisti e também denunciou o fato no blog. Embora articulando-se informalmente, desvinculado de qualquer partido político, esse grupo conservador tem crescido e já possui grande atuação nas redes sociais.
Isto foi o bastante para que a Reitoria da UFSC, por meio de sua Procuradoria, partisse para a repressão pura e simples, endereçando ao editor do Blog UFSConservadora, Antonio Pinho, uma Notificação em que o acusa de usar o nome da instituição sem autorização e ameaça processá-lo judicialmente.
No Blog UFSConservadora, Antonio Pinho postou artigo noticiando o fato ao mesmo tempo em que denuncia estar sofrendo perseguição político-ideológica e invoca a cláusula pétrea da Constituição que dispõe sobre a liberdade de expressão.
Transcrevo a parte inicial do artigo com link ao final para leitura completa.
Leiam:
Dia 26 de novembro de 2013. Esta é a data em que me senti metamorfoseado em K., o conhecido personagem de “O Processo”, de Kafka.
Eu estava em minha escrivaninha, no computador, olhando mensagens pouco antes de sair a um compromisso, quando chega, em minhas mãos, uma carta em envelope oficial da UFSC. Na hora até brinquei: “A UFSC deve estar me processando hehehehe”. Pensei que era uma notificação qualquer, algo da burocracia normal da universidade, por eu ter sido aluno da UFSC. Mas, ao abrir o envelope e sacar o documento, vejo que aquilo que falei em tom jocoso era a pura verdade: eu estou de fato sendo acionado judicialmente pela UFSC. Na hora me veio à mente a imagem de Kafka: os oficiais entrando, logo de manhã, no quarto de K. para detê-lo. Minha vida transformada num roteiro surreal kafkiano. Processado? Por que motivo?
O motivo é obvio, apesar disso não ser dito na carta. É a velha perseguição ideológica pura e simples, que sempre é promovida pela esquerda contra aqueles que ousam defender valores contrários ao politicamente correto, que não vivem pautando sua existência na luta pela revolução. Muito menos tranquila é a vida de sujeitos como eu que gastam o tempo e o dinheiro que não têm, que procuram estudar e defender os valores que a Civilização Ocidental nos legou. Um dos principais desses valores é a liberdade de expressão, que é assegurada na Constituição do Brasil: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (Artigo 5, IX). No exercício da liberdade de expressão a Constituição proíbe apenas o anonimato, o que é completamente justo. Quem quer falar o que quer, tem que assumir as consequências públicas pelo que diz. Por isso anonimato é proibido, pois é um ato de covardia. Eu nunca publiquei algo anônimo. Todos meus escritos podem ser lidos em meu blog pessoal www.cibercronicas.blogspot.com , ou no blog da “UFSC Conservadora”  (www.ufscon.wordpress.com), do qual sou editor e criador. Nada do que fiz foi escondido.
Vivemos teoricamente numa democracia, na qual há, teoricamente, a possibilidade do pleno exercício da liberdade de expressão. As leis da nação em que nasci garantem isso, também em teoria. A Constituição é teoria, e não a realidade dos fatos. O fato é que ousei ir contra a maré da cubanização do Brasil, comecei a escrever e divulgar meus textos em blogs e no Facebook. Também acabei formando um grupo de estudantes denominado “UFSC Conservadora”.  A repercussão foi muito além da esperada. Meus textos começaram a ter milhares de acessos, bem como o blog UFSC Conservadora. Comecei a incomodar, e logo vieram as perseguições. Posicionei-me publicamente contra a greve das universidades federais de meados de 2012, num texto chamado UFSC em greve. Logo em seguida o blog UFSC Conservadora foi atacado e saiu do ar. Isso se deu na mesma época em que outros sites de perfil conservador também foram atacados, como o Mídia Sem Máscara. Mas a UFSC Conservadora continuou existindo, no início deste ano criamos outro blog, o UFSCon. Clique AQUI para ler o artigo completo.


Rodrigo Constantino também abordou o caso em seu blog na Veja.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Retórica esquerdista supervaloriza o conceito de ideologia

Por André,



Há um conceito muito caro à retórica esquerdista: o conceito de ideologia. O conceito remonta ao século XVIII (KOLAKOWSKI, 1978, p. 153), mas no ideário esquerdista ganha corpo com a conotação dada por Marx, a saber, um conjunto de falsas ideias, mantidas por todos, inconscientemente, que garante a manutenção do status quo de discrepância entre classes, isto é, ideias que preenchem o imaginário das pessoas, levando-as a crer que ser pobre é normal, uma vida de trabalho é moral e que a existência de classes com maior poder aquisitivo é aceitável.

Ou seja, Michelangelo não fazia nada mais que alimentar o estômago feroz da ideologia ao pintar a Capela Sistina, o significado último de todas as produções intelectuais "burguesas" é manter os pobres acreditando que sua condição de pobreza é natural. O mesmo vale para a religião, a educação, a moral, a Divina Comédia de Dante e tudo mais, nada disso tem nenhum valor epistêmico ou estético, apenas o valor prático de calar a boca das massas (para mais detalhes, confira minha resenha do livro 'O que é ideologia' de Marilena Chaui).

O que pretendo fazer neste momento não é demonstrar mais uma vez a natureza autofágica do argumento (confira a resenha), mas sim ilustrar a supervalorização do conceito, usando da retórica anti-TV (a TV, consequentemente, entra no abrangente hall de semeadores da ideologia da classe burguesa) que circula pela internet como exemplo disso.


É mesmo? Já pensou em usar o controle remoto?

Montes de páginas anti-TV (mormente as que criticam a TV Globo) pululam nas redes sociais. Sem mencionar o quão cult pode soar (a depender da plateia) emitir um comentário crítico à TV (mais uma vez, crítico à rede Globo). Embora haja um fundo de verdade nas críticas (naturalmente que a qualidade da programação da TV aberta não será defendida, pois é realmente ruim), penso que elas sejam superestimadas e falhem miseravelmente em alguns pontos.

Implícita nas críticas está a ideia de que, se as pessoas desligassem a TV ou se a sede da rede Globo fosse invadida e destruída, então teríamos um paraíso terreno: as pessoas passariam a ler Goethe, ser poliglotas e se interessar por política. Ao que parece, a ideia vendida é que a TV faz as pessoas e não o contrário (a falha óbvia e essencial desse raciocínio é algo histórico-temporal de uma simplicidade díspar: as pessoas sempre foram idiotas - e quem não se arrisca a apostar que sempre serão - ao passo que a TV existe "apenas" desde os primórdios do século XX).

Exemplo mais famoso ainda é o do famigerado reality show Big Brother, a beira de iniciar sua décima terceira edição. A rede Globo lucra, a cada "paredão", apenas com as ligações, o prêmio oferecido ao vencedor (entre um e um milhão e meio de reais).

Pergunto: a culpa é de quem? De quem oferece ou de quem demanda?

Toda essa retórica anti-TV falha neste ponto: presume que a TV está, sozinha, a planejar malefícios, quando na verdade ela está apenas ofertando aquilo que as pessoas demandam!

Vocês realmente acham que a Globo atingiria picos de audiência de 30 pontos e receberia mais de um milhão de telefonemas para que o público escolhesse qual episódio de Cosmos (seriado científico de Carl Sagan) seria transmitido depois do jornal nacional?

Não, meus caros. A programação é medíocre porque, em linhas gerais, o público também o é. E este público está satisfeito com essa programação. Se a TV Globo não transmitisse o BBB, as pessoas mudariam de canal e assistiriam A Fazenda na concorrente.

Essa mesma lei - da oferta e da demanda - serve para explicar uma série de outros fenômenos: por que existe tanta pornografia na internet? Porque a internet é má e deve ser evitada, punida e regulada (já vi muitos idosos se ultrajarem com a existência da internet por esse motivo)? Ou simplesmente porque existe um ENORME público ávido e sedento por pornografia, que se não a encontrasse com facilidade na internet, simplesmente se retiraria e a procuraria em outro lugar? Penso que a última hipótese seja verdadeira - e sua verdade seja evidente.

Por que livros no Brasil são tão caros (e, divagando abertamente, porque a ligação para decidir o paredão do BBB custa apenas quarenta centavos)? Lei da oferta e da demanda, meus caros. Se houvesse uma demanda maior, haveria uma queda nos preços; isto exemplifica um fenômeno econômico básico - a lei da demanda. [Isso também acaba por evidenciar o axioma básico da escola austríaca de economia, exposto magistralmente por Ludwig von Mises em seu clássico Ação Humana, a saber, que é a vontade de seres humanos que dita o mercado. Mas isso é assunto para um artigo a parte].

Essa constatação enfraquece e muito o poder explicatório do conceito de ideologia, especialmente aquele insuflado pela retórica esquerdista: no fundo, a verdade das ideias SOBREPÕE-SE a seus poderes mágicos de influencia sobre as massas. Acima do caráter meramente alienante da programação da rede Globo, está um problema sociológico (e quiçá humano) muito maior. Explicada esta dimensão maior, a outra é abarcada por esta. O poder dominatório exercido pelas religiões existe? Certamente. Contudo, o valor epistêmico das suas proposições é mais relevante que este. Sendo as proposições solapadas ou provadas, a dominação exercida será explicada a partir destas.

Um fato ainda mais curioso: não penso que os alentadores dessa retórica o façam inocentemente, mas sim, com consciência de causa, o que torna a atmosfera ainda mais desonesta. Aqueles que clamam ser os iluminados, paladinos da verdade, os que se esgueiraram das garras quase inescapáveis da ideologia, não estão nada mais nada menos que a promover, igualmente, um discurso ideológico, com  ressalva que se trata do discurso ideológico DELES.

A importância da ideologia é secundária quando comparada à verdade dos argumentos em seu favor.
E isso só vem a provar a tese que expus acima: o foco não deve estar na "ideologia" de quem fala (dos leitores de A Ideologia Alemã e de Aparelhos Ideológicos de Estado, da direita ou dos libertários), mas na VERDADE dos argumentos dos que estão com a palavra. Todos os discursos estão, num certo sentido, imbuídos de alguma ideologia, resta avaliar qual "ideologia" possui os melhores argumentos.

Referência

KOLAKOWSKI, Leszek. Main Currents of Marxism. Oxford: Oxford University Press, vol. I, 1978.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Um ato pró-impunidade, por Sandro Vaia


Ficou tudo para o ano que vem. Os mensaleiros não foram presos em 2012 por causa do “trânsito em julgado” e dos “embargos infringentes”.

Tem gente que prefere apostar que nao vai acontecer nada com eles, mas é apenas reflexo do velho vício brasileiro da impunidade, que faz com que as pessoas nao acreditem nem em sentenças da última instância da Justiça.

Como a prisão ainda não se consumou, não se consumou também a série de manifestações que vinham sendo preparadas - ou se não preparadas pelo menos apregoadas -pelos partidários dos condenados.

A injustiça pretensamente cometida contra o “guerreiro do povo brasileiro”, a judicializaçao da política, mexeu com Lula mexeu comigo, a mídia golpista, futuros embargos contra a condenação - tudo isso entra na grande mixórdia que justifica a permanente ameaça de uma grande manifestação pública contra a condenação dos réus do mensalão.

Se acontecer, será efetivamente a primeira manifestação pública na história deste País declaradamente a favor da impunidade.

Seria uma ironia finíssima da História: no país onde as pessoas passam uma boa parte da vida queixando-se de que a impunidade é um dos grandes males da sociedade, há um movimento para que as pessoas vão às ruas defendê-la.

Só os malabarismos da política partidária são capazes de produzir aberrações como esta.

Voltando ao Jean-François Revel da semana passada, convém lembrar outra de suas frases lapidares: a ideologia é capaz de suspender a noção de realidade e o senso moral das pessoas.

O ex-presidente Fernando Collor, no auge de sua campanha para escapar do impeachment por seu envolvimento com o esquema de corrupção comandado por seu lugar tenente Paulo César Farias, teve a coragem de pedir ao povo que saísse às ruas num determinado domingo, carregando as cores da bandeira nacional.

O povo saiu, mas fez o avesso do que ele pediu, vestiu preto e pediu sua queda.

Collor era um cavaleiro solitário, não tinha uma estrutura partidária atrás de si, como têm os condenados do PT, e muito menos uma ideologia justificadora capaz de transformar o mal em bem.

Por isso, é difícil apostar que a História se repita. A ideologia é capaz de produzir milagres. Certo é que se alguém for pra rua, não será o povo, mas a militância de um partido, praticando seu ato de fé.
Como o ano terminou em paz, com prisões e manifestações adiadas, quem sabe o tempo aja como bom conselheiro e restitua a razão aos militantes, evitando que se materialize o vexame da primeira manifestação pública pró-impunidade que se tem notícia na nossa História.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. E.mail: svaia@uol.com.br

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

RESENHA 'O que é ideologia' Marilena Chaui, editora Brasiliense




RESENHA CRÍTICO-ANALÍTICA


Nossa resenha tomará a seguinte direção: tomando duas definições, dentre muitas, de resenha, num primeiro momento, menos extenso, faremos a chamada “resenha descritiva”, descrevendo de maneira bastante sucinta as ideias apresentadas no livro O que é ideologia e num segundo, mais extenso, estabeleceremos críticas às teses mostradas no livro.


A autora pretende trazer luz sob o vocábulo "ideologia" (CHAUI, 2008, p. 7). O conceito, por exemplo, não deve ser tomado no sentido de mero “ideário”. Na sequência, com intuito de estabelecer qual é o efetivo sentido de ideologia, Chaui mune-se de dois exemplos: a ciência e a metafísica antiga e moderna, por meio de seus idealizadores, a saber, Aristóteles e Descartes.

Toma-se a teoria das 4 causas aristotélica e a dualidade corpo-alma cartesiana como exemplos que mostram que ideologia não é um ideário qualquer, mas um ideário histórico, social e política que visa, conscientemente ou não, ocultar a realidade. A teoria das quatro causas aristotélica não é resultado de investigação neutra e desinteressada, uma pura atividade científica que visa estabelecer como as coisas que existem se comportam (i.e., uma Física) tampouco revelar a natureza dessas coisas (i.e., uma Metafísica), mas sim, fomento para a ordem social grega (e posteriormente medieval) estabelecida à época de Aristóteles: o escravagismo (e o servilismo medieval). Os senhores identificam-se com as causas finais, a mais importante, ao passo que os escravos e servos com as causas motriz e eficiente, assegurando no terreno teórico a superioridade de uns sobre os outros. O mesmo modus operandi é válido para a famosa dualidade alma-corpo resultante da física e metafísica cartesiana, na modernidade, onde o trabalho torna-se um valor e o conhecimento é indissociado do poder (Bacon: “Saber é poder”), os corpos são identificados com o trabalho e as almas com os que mandam, sendo que na teoria cartesiana a alma é relatada como superior ao corpo. Para a crítica que faremos na segunda parte da resenha é importante ressaltar que a autora expressa claramente que o teórico faz isso de forma inconsciente, ele imagina que, honestamente, está fazendo uma descrição da realidade (CHAUI, 2008, p. 13).

A autora prossegue fazendo um pequeno histórico do termo e alerta que o sentido que ela pretende esclarecer é o mesmo adotado por Napoleão Bonaparte e, por sua vez, por Karl Marx: ideologia é uma inversão entre as ideias e o real (CHAUI, 2008, p. 30). Também é ressaltado que a doutrina fundada por Auguste Comte, o positivismo, é uma forma de ideologia; ao conceber o conhecimento científico como conhecimento per excellence e, consequentemente, atribuir ao cientista o status de guru social, aquele que domina o único saber que de fato existe é o que deterá mais poder e responderá todas as perguntas. Chaui parece se esquecer que Marx foi um positivista (estaria o criador do antídoto contra todas as ideologias imbuído de uma também?). 

Num terceiro momento do livro, Chaui aponta para a importância de fazer uma exposição resumida da filosofia de Hegel, da qual muito dos ditos “ideólogos” alemães estão imersos (Feuerbach, F. Strauss, Stirner, Bauer etc. etc.) e da qual o próprio Marx faz proveito, transferindo a mesma de seu plano excessivamente ideal para aquele que verdadeiramente lhe interessa, o material. E, finalmente, no capítulo IV, o antídoto que salvará toda a humanidade, de Tales a Descartes, do universo da ideologia é apresentado: a concepção de ideologia do economistai alemão Karl Marx. Nos furtaremos aqui de fazer uma maior exposição do conceito, diremos apenas que a inversão de ideias operada pela ideologia tem por objetivo salvaguardar o status quo da ordem vigente: o poder dos capitalistas burgueses, estabelecido por meio da divisão de classes e da luta de classes. De que maneira isso é feito? Por meio da alienação, da reificação e do fetichismo. O proletário pensa que a situação que ele se encontra está de acordo com a ordem natural das coisas e não que é resultado da ordem estabelecida, é alienado; o proletário resume-se a sua força de trabalho e a quanto ganha (seu salário), é reificado; os produtos que são resultado do trabalho empregado pelo proletário passam a ter relações sociais como se fossem pessoas, trata-se do fetichismo.

Resta então, aguardar que os doutores marxistas distribuam universalmente sua teoria (o materialismo histórico e dialético), como antídoto universal e que então, quando todos tomarem consciência que a condição em que se encontram é resultado de uma inversão da realidade operada pela ideologia da classe dominante, resulte com que a massa proletária ponha fim na luta de classes por meio da revolução.

Pensemos um pouco nas consequência da exposição do conceito de ideologia, pela ótica marxista, tal como exposto por Marilena Chaui. Há, no mundo, ao que parece, desde muito tempo, um mascaramento ideológico da realidade, operado inconscientemente pelos pensadores (ao menos até o advento do marxismo): filósofos, artistas, arquitetos etc. etc, quando Aristóteles escreve sua Metafísica não expõe a natureza da realidade, mas engana a si e aos outros fornecendo, em realidade, fundamento para o poder vigente, quando Michelangelo esculpe o êxtase de santa Tereza, não descreve a experiência mística (supostamente) vivida pela mulher, mas fomenta a ordem atual, quando um arquiteto esboça a planta de uma construção importante para uma nação, em verdade, não o faz de fato, apenas serve de combustível para que o estado atual das coisas se mantenha. Não é preciso ir muito mais a fundo para notar o grau elevadamente conspiratório da tese exposta, na verdade, não fazemos o que fazemos; tendo em mente que nem todos os corações foram tocados pelo marxismo, não fazemos arte, filosofia ou ciência, somos inconscientemente levados a subscrever o poder atuante. A coisa não para por aí, ao pensarmos na Escola de Frankfurt, onde une-se a cosmovisão marxista à psicanálise freudiana (noções de ego, superego e libido), a única conclusão palatável é de que não passamos de bonecos de ventríloquo impassíveis seguindo indiscriminadamente a marcha da ideologia da classe dominante. Concepção de realidade, como nota-se, extremamente reducionista, tudo se resume a reflexo ideológico inconsciente da sociedade em questão (aristocrata no caso de Aristóteles, burguesa em nosso caso e no caso de Descartes, o salto mágico é ainda maior, Descartes era um senhor feudal, mas sua filosofia visava fomentar uma ideologia, da classe capitalista industrial, que só surgiria dois séculos depois!).

Ressaltaremos ainda, de maneira breve, outros dois pontos: a confusão feita pela professora Marinela Chaui quando tenta dizer que uma montanha não é uma coisa e o comum uso de elipses no discurso que permeia todo seu breve texto.

Diz a professora: “O real não é constituído por coisas. Nossa experiência direta e imediata nos leva a imaginar que o real é constituído por coisas (sejam elas naturais ou humanas), isto é, de objetos físicos, psíquicos, culturais oferecidos à nossa percepção e às nossas vivências” (CHAUI, 2008, p. 20) e segue afirmando que uma montanha perde seu caráter de coisa, dependendo da relação social estabelecida: pode deixar de ser coisa para ser morada dos deuses (para uma tribo politeísta), uma propriedade privada (o capitalista que decide explorar os minérios da montanha) ou um campo de visibilidade (para um pintor) [Cf. CHAUI, 2008, p. 20 e 21].

Aparentemente, devemos seguir os passos de Marilena e superar a ilusão comum de considerar que conhecemos “coisas”. Ao que parece, Marilena confunde, conscientemente ou não, que a montanha não perde a condição de coisa (montanha) apenas por adquirir a função de morada dos deuses; estabelece-se uma mudança da condição de quem observa, mas não da natureza mesma da montanha. Como poderiam os deuses habitar uma não-coisa? A montanhicidade da própria não é suprimida por uma mudança de ponto de vista, aliás, como seres divinos habitariam um ponto de vista? A coisa é extrapolada no que diz respeito ao capitalista, a montanha deixa de ser coisa para ser uma própria “relação econômica”, não como objeto de uma relação econômica, como se não fosse preciso haver uma coisa para que uma relação econômica se estabelecesse, como extrair minério de uma relação econômica? A crítica pode ser estendida para o que é dito sobre o quadro, não se trata da observação de uma coisa abrangida por um campo de visibilidade, mas sim do retrato do próprio campo de invisibilidade (sem nada contido nele?)!

Ou seja, subjacente às confusões, existem premissas ocultas ao longo do texto figura de linguagem denominada elipse. Se Chaui usou e abusou da técnica intencionalmente ou não, não investigaremos aqui.

E last but not least, levantaremos uma objeção ao conceito próprio de ideologia tão como compreendido por Marx, defendido como a cura para todos os males por Marilena em seu livro. Ou a ideologia representa os interesses da classe a que seus porta-vozes pertencem (a ideologia burguesa favorece os burgueses, a ideologia aristocrata, os aristocratas) ou cada um é livre para proclamar ideologias agradáveis a outras classes que não a sua. Sob a ótica da primeira afirmação, jamais as ideias revolucionárias sairiam da cabeça de um burguês como Karl Marx (ou então, Descartes jamais fomentaria a ideologia dum sistema e duma classe que sequer existia quando redigia sua metafísica), já sob a ótica da segunda afirmação o elo entre ideologia e condição social do sujeito esvanece, havendo portanto apenas a ideologia pessoal que o sujeito atribui à classe que mais lhe apraz e, na sequência, ao inverter-se essa fantasia, surge como que por mágica a dita ideologia da classe adversária.


Referências bibliográficas

CARVALHO, Olavo de. A.A.V.R. Disponível em: http://www.olavodecarvalho.org/semana/060319zh.htm . Acesso em: 12 set. 2011.

CARVALHO, Olavo de. Lógica da Mistificação, ou: o chicote da tiazinha. Disponível em: http://www.olavodecarvalho.org/textos/tiazinha.htm. Acesso em: 12 set. 2011.

CHAUI, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Ed. Brasiliense, 2008.


É indispensável ressaltar neste momento que Marx venceu, o alemão afirmara que o motor da história é a economia, nenhum economista desacredita tal afirmação hoje em dia, nem mesmo os liberais que, supostamente, deveriam ser anti-marxistas.