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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Vide editorial lança minha tradução do romance "Cântico" da filósofa Ayn Rand

Por André,



A tradução feita por mim deste pequeno - porém precioso - romance de Ayn Rand já se encontra disponível nos sites das principais livrarias.

Além da obra em si mesma, seu caráter curioso dada a concatenação da prosa, convido os leitores a acompanharem a apresentação que redigi, onde destaco alguns aspectos cruciais que tornam Cântico uma distopia um tanto quanto peculiar, seja com relação às outras da autora (A Revolta de Atlas, A Nascente) quanto a clássicos como 1984 e Admirável Mundo Novo, além de mostrar como o objetivismo (a filosofia da autora) é um antídoto perfeito contra os modismos anti-intelectuais universitários (relativismo, niilismo etc).

A obra pode ser comprada:

No site da VIDE Editorial.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

"Filosofia: quem precisa dela" por Ayn Rand

Por André,



Filosofia: quem precisa dela

Tradução: André Assi Barreto e Breno Barreto

Ayn Rand

Nova York, 6 de março de 1974.

Já que sou uma escritora de ficção, comecemos com uma pequena estória. Suponha que você é um astronauta cuja espaçonave perde o controle e se choca com um planeta desconhecido. Quando você retoma a consciência e descobre que não está gravemente ferido, as três primeiras questões que viriam à sua mente seriam: Onde estou? Como posso descobrir isso? O que devo fazer?

Você observa vegetação não familiar lá fora e percebe que existe ar para respirar; a luz do sol parece mais pálida do que você se recorda e também mais fria. Você se vira para olhar o céu, mas para. É acometido por um sentimento repentino: caso não olhe, não terá de saber que, talvez, você esteja longe demais da terra e que retornar não é possível; enquanto você não souber disso, estará livre para acreditar naquilo que desejar – e você, então, experimenta um tipo obscuro e prazeroso, ainda que, mas um tanto cheio de culpa, de esperança.

Você se volta para os seus instrumentos: eles podem estar danificados, você não sabe o quão seriamente. Mas você para, acometido por um medo repentino: como confiar nesses instrumentos? Como ter certeza de que eles não o enganarão? Como saber se eles funcionarão num mundo diferente? Você se afasta dos instrumentos.

Agora você começa a refletir por que não tem vontade de fazer nada. Parece tão mais seguro apenas esperar que algo simplesmente aconteça; é melhor, você diz a si mesmo, não mexer na espaçonave. Bem adiante, você vê algum tipo de criaturas vivas se aproximando: você não sabe se são humanos, mas vê que são bípedes. Eles, você decide, dirão a você o que fazer.

Nunca mais ouvem falar de você.

Vocês diriam que isso é fantasia? Que vocês não agiriam dessa forma assim como nenhum astronauta? Talvez não agissem. Mas é essa a maneira como a maioria dos homens vive suas vidas aqui na terra.

A maioria dos homens gasta seus dias lutando para evitar três questões, cujas respostas subjazem a todo pensamento, sentimento e ação do homem, quer esteja consciente disso ou não: Onde estou? Como posso saber disso? O que devo fazer?

Quando os homens estão velhos o suficiente para entender essas questões, julgam saber as respostas. Onde estou? Digamos, na cidade de Nova York. Como sei disso? É autoevidente. O que devo fazer? Aqui, eles não estão muito certos – mas a resposta comum é: o que quer que todos façam. O único problema parece ser que eles não são muito ativos, nem muito confiantes, nem muito felizes – e eles experimentam, às vezes, um medo sem causa e uma culpa indefinida, que não conseguem explicar ou se livrar.

Eles nunca descobriram que o problema vem das três questões que não respondidas – e que há apenas uma ciência capaz de respondê-las: a filosofia.

A filosofia estuda a natureza fundamental da existência, do homem e da relação do homem com a existência. Diferente das ciências especiais, que lidam apenas com aspectos particulares, a filosofia lida com aqueles aspectos do universo que pertencem a tudo que existe. No reino da cognição, as ciências especiais são as árvores, mas a filosofia é o solo que torna a floresta possível.

A filosofia não lhe diria, por exemplo, se você está em Nova York ou em Zanzibar (embora ela pudesse lhe fornecer os meios para descobrir). Mas eis o que ela de fato lhe diria: você está num universo que é dirigido por leis naturais e que, portanto, é estável, firme, absoluto – e inteligível? Ou está num caos incompreensível, um reino de milagres inexplicáveis, um fluxo imprevisível e ininteligível, o qual sua mente é incapaz de compreender? As coisas que estão ao seu redor são reais - ou são apenas ilusões? Elas existem independentemente de qualquer observador – ou são criadas pelo observador? Elas são o objeto ou o sujeito da consciência do homem? Elas são o que são - ou podem ser alteradas por um mero ato de consciência, tal como um desejo?

A natureza das suas ações – e da sua ambição – será diferente, de acordo com o conjunto de respostas que você vier a aceitar. Estas respostas constituem a província da metafísica – o estudo da existência enquanto tal, ou, nas palavras de Aristóteles, do “ser enquanto ser” – o ramo básico da filosofia.

Não importa as conclusões que você alcançará, você será confrontado pela necessidade de responder outra questão corolária: Como eu sei? Já que o homem não é onisciente ou infalível, você tem de descobrir o que você pode afirmar ser conhecimento e como provar a validade das suas conclusões. O homem adquire conhecimento por um processo racional – ou por revelação repentina de um poder sobrenatural? A razão é uma faculdade que identifica e integra o material fornecido pelos sentidos do homem – ou é preenchida por ideias inatas, implantadas na mente do homem antes do seu nascimento? A razão é competente para perceber a realidade – ou o homem possui alguma outra faculdade cognitiva que seja superior à razão? O homem pode alcançar a certeza – ou ele está condenado à dúvida perpétua?

A dimensão da sua autoconfiança – e do seu sucesso – será diferente, de acordo com o conjunto de respostas que você aceita. Essas respostas constituem a província da epistemologia, a teoria do conhecimento, que estuda os meios de cognição do homem.

Estes dois ramos da filosofia constituem a fundação teórica da filosofia. O terceiro ramo – a ética – pode ser considerado a sua tecnologia. A ética não se aplica a tudo que existe, apenas ao homem, porém se aplica a todos os aspectos da vida do homem: seu caráter, suas ações, seus valores, sua relação com toda existência. A ética, ou a moralidade, define um código de valores para guiar as escolhas e ações do homem – as escolhas e ações que determinam o curso de sua vida.

Da mesma forma que o astronauta da minha estória não sabia o que deveria fazer, porque se recusava a saber onde ele estava e como descobrir isso, você também não pode saber o que deve fazer até que você conheça a natureza do universo com que está lidando, a natureza de seus meios de cognição – bem como sua própria natureza. Antes de chegar à ética, você deve responder as questões postas pela metafísica e pela epistemologia: o homem é um ser racional, capaz de lidar com a realidade – ou é um desajustado impotente e cego, uma migalha empurrada pelo fluxo universal? Realização e satisfação são possíveis ao homem na terra – ou ele está condenado ao fracasso e desgosto? A depender das respostas, você pode prosseguir e considerar as questões postas pela ética: o que é o bem ou o mal para o homem – e por quê? A preocupação primeira do homem deve ser uma busca pela alegria – ou uma fuga do sofrimento? Ele deve manter a autorrealização – ou a autodestruição como meta em sua vida? O homem deve perseguir seus valores – ou deve colocar os interesses de outras pessoas acima dos seus próprios? Deve buscar a felicidade – ou o autossacrifício?

Não preciso apontar as diferentes consequências desses dois conjuntos de respostas. Você pode observá-las em toda parte - em vocês e ao redor de vocês.

As respostas dadas pela ética determinam como o homem deve tratar os outros homens, o que vai determinar o quarto ramo da filosofia: a política, que define os princípios de um sistema social adequado. Como um exemplo da função da filosofia, a filosofia política não lhe dirá a quantidade de gasolina racionada que deve ser dada a você, nem qual o dia da semana – o que ela dirá é se o governo tem qualquer direito de impor racionamento sobre algo.

O quinto e último ramo da filosofia é a estética, o estudo da arte, o qual se baseia na metafísica, na epistemologia e na ética. A arte lida com as necessidades - o reabastecimento - da consciência do homem.

Agora, alguns de vocês podem dizer, como muitas pessoas dizem: "Ah, eu nunca penso em termos tão abstratos - Eu quero lidar com os problemas concretos, particulares, da vida real – para que eu preciso de filosofia?" A minha resposta é: para ser capaz de lidar com os problemas concretos, particulares, da vida real – i.e. para ser capaz de viver na terra.

Você pode afirmar - como a maioria das pessoas afirma - que vocês nunca se influenciaram por filosofia. Vou lhes pedir para checar essa afirmação. Alguma vez vocês pensaram ou disseram o seguinte? "Não tenha tanta certeza - ninguém pode ter certeza de nada." Vocês tomaram essa noção de David Hume (e de muitos e muitos outros), mesmo que vocês nunca tenham ouvido falar dele. Ou: "Isso pode ser bom na teoria, mas não funciona na prática." Vocês tomaram de Platão. Ou: "Isso foi uma péssima coisa de se fazer, mas foi apenas humano, ninguém é perfeito neste mundo." Vocês tomaram de Agostinho. Ou: "Pode ser verdade para você, mas não é verdade para mim." Vocês tomaram de William James. Ou: "Eu não pude evitar. Ninguém pode evitar aquilo que faz!". Vocês tomaram de Hegel. Ou: "Eu não posso provar, mas eu sinto que é verdade." Vocês tomaram de Kant. Ou: "É lógico, mas a lógica não tem nada a ver com a realidade." Vocês tomaram de Kant. Ou: "É mau, porque é egoísta." Vocês tomaram de Kant. Vocês já ouviram os ativistas modernos dizerem "Primeiro agir, depois pensar"? Eles tomaram de John Dewey.

Algumas pessoas poderiam responder: "Tudo bem, eu disse essas coisas em momentos diferentes, mas eu não tenho que acreditar em todas elas ao mesmo tempo. Pode ter sido verdade ontem, mas não é verdade hoje". Elas tomaram de Hegel. Elas poderiam dizer: "Consistência é a fantasia das mentes pequenas." Eles tomaram de uma mente muito pequena, Emerson. Eles poderiam dizer: "Mas não podemos conciliar e tomar emprestado ideias diferentes de filosofias diferentes de acordo com a conveniência do momento?" Eles tomaram de Richard Nixon - que tomou de William James.

Agora, perguntem-se: se você não está interessado em ideias abstratas, por que você (e todos os homens) sente-se compelido a usá-las? O fato é que ideias abstratas são integrações conceituais que abrangem um número incalculável de concretos - e que sem idéias abstratas você não seria capaz de lidar com os problemas concretos,
particulares, da vida real. Você estaria na posição de um bebê recém-nascido, para quem todo objeto é um fenômeno único, sem precedentes. A diferença entre o seu estado mental e o dele está no número de integrações conceituais realizadas pela sua mente.

Você não tem escolha sobre a necessidade de integrar suas observações, suas experiências, seu conhecimento em idéias abstratas, i.e., em princípios. Sua única escolha é se esses princípios são verdadeiros ou falsos, se representaram suas convicções racionais conscientes - ou um emaranhado de noções arrebatadas ao acaso, cujas fontes, validade, contexto e conseqüências você desconhece, noções que, mais normalmente do que não, você jogaria fora como uma batata quente se soubesse.

Mas os princípios que você aceita (consciente ou subconscientemente) podem colidir com ou contradizer uns aos outros; eles também têm de ser integrados. O que os integra? A Filosofia. Um sistema filosófico é uma visão integrada da existência. Como um ser humano, você não tem escolha sobre o fato de que precisa de uma filosofia. Sua única escolha é se você define sua filosofia por um processo consciente, racional e disciplinado de pensamento e deliberação escrupulosamente lógico - ou se você permite que o seu subconsciente acumule uma pilha inútil de conclusões injustificadas, falsas generalizações, contradições indefinidas, slogans não digeridos, desejos, dúvidas e medos não identificados, jogados juntos ao acaso, mas integrados pelo seu subconsciente como uma espécie de filosofia mal formada e fundida por um único peso firme: a autodúvida, semelhante a uma corrente e uma bola de ferro no lugar onde as asas da sua mente deveriam ter crescido.

Você poderia dizer, como muitas pessoas dizem, que nem sempre é fácil agir por princípios abstratos. Não, não é fácil. Mas o quão mais difícil é ter de agir de acordo com eles sem saber quais são eles?

Seu subconsciente é como um computador – um computador mais complexo do que os homens poderiam construir - e sua principal função é integrar suas idéias. Quem o programa? A sua mente consciente. Se você se omite, se não chega a quaisquer convicções firmes, seu subconsciente é programado por acaso - e você se entrega ao poder de ideias que você não sabe que aceitou. Mas de um jeito ou de outro, a cada dia e a cada hora, o computador imprime o resultado do seu funcionamento, na forma de emoções - que são rápidas estimativas das coisas ao seu redor, calculadas de acordo com os seus valores. Se você programou seu computador com pensamento consciente, você conhece a natureza dos seus valores e emoções. Se você não o programou, não sabe.

Muitas pessoas, particularmente hoje, afirmam que o homem não pode viver só pela lógica, que há o elemento emocional da sua natureza a considerar, e que elas dependem da orientação das suas emoções. Bem, o mesmo pode ser dito do astronauta da minha estória. A peça foi pregada contra ele - e contra todos: os valores e emoções do homem são determinados por sua visão fundamental da vida. O programador principal do seu subconsciente é a filosofia - a ciência que, de acordo com os emotivistas, é impotente para afetar ou penetrar os mistérios obscuros dos seus sentimentos.

A qualidade da informação de saída de um computador é determinada pela qualidade da informação de entrada. Caso seu subconsciente seja programado pelo acaso, sua informação de saída terá um caráter correspondente. Você provavelmente ouviu o eloquente termo criado pelos operadores de computador, “gigo” – que significa “lixo entra, lixo sai” [garbage in, garbage out]. O mesmo raciocínio se aplica à relação entre o pensamento e as emoções de um homem.

Um homem que é governado por suas emoções é como um homem governado por um computador cujas informações de saída ele não pode compreender. Ele não sabe se o que está sendo programado é verdadeiro ou falso, certo ou errado, se o conduzirá ao sucesso ou à destruição, se está a serviço dos seus propósitos ou àqueles de algum poder maléfico e desconhecido. Está cego em duas frentes: cego para o mundo que o rodeia e para seu próprio mundo interior, incapaz de compreender tanto a realidade como seus próprios motivos, e se encontra numa condição de terror crônico de ambos. As emoções não são ferramentas de cognição. Os homens que não estão interessados pela filosofia precisam dela mais urgentemente: estão impotentes com relação ao poder que ela tem.

Os homens que não se encontram interessados pela filosofia absorvem seus princípios da atmosfera cultural que os circula – de escolas, faculdades, livros, revistas, jornais, filmes, TV, etc. Quem determina o tom de uma cultura? Um pequeno punhado de homens: os filósofos. Sua liderança é seguida por alguns, seja por convicção seja por omissão. Por cerca de duzentos anos, sob a influência de Immanuel Kant, a tendência dominante na filosofia tem sido direcionada a um propósito único: a destruição da mente humana, da sua confiança no poder da razão. Hoje, estamos vendo o clímax desse padrão.

Quando os homens abandonam a razão, descobrem não apenas que suas emoções não podem guia-los, mas que não podem experimentar nenhuma emoção, exceto uma: o terror. A propagação da dependência de drogas entre os jovens, trazida pelas modas intelectuais de hoje em dia, demonstra o insuportável estado interior de homens que estão privados de seus meios de cognição e que buscam fugir da realidade – do terror da sua impotência para lidar com a existência. Observe o terror da independência que esses jovens possuem e seu frenético desejo de “pertencer”, de anexarssem a algum grupo, “panelinha” ou gangue. Muitos deles nunca ouviram falar da filosofia, mas sentem que necessitam algumas respostas fundamentais para questões que não ousaram perguntar – e esperam que a tribo lhes diga como viver. Eles estão prontos para ser tomados por qualquer mago, médico, guru ou ditador. Uma das coisas mais perigosas que um homem pode fazer é entregar sua autonomia moral a outros: como o astronauta de minha estória, ele não sabe se são humanos, embora sejam bípedes.

Agora você pode se perguntar: se a filosofia pode causar este mal, por que alguém deveria estudá-la? Particularmente, por que alguém deveria estudar as teorias filosóficas que são flagrantemente falsas, não fazem sentido e não têm qualquer relação com a vida real?

Minha resposta é: autoproteção – e em defesa da verdade, da justiça, da liberdade e qualquer outro valor que você tenha tido ou possa ter.

Nem todas as filosofias são danosas, embora muitas delas sejam, particularmente na história moderna. Por ourto lado, na raiz de toda realização civilizada, como a ciência, a tecnologia, o progresso e a liberdade – na raiz de todo valor que aproveitamos hoje em dia, inclusive o nascimento deste país – você encontrará a realização de um homem, que viveu há mais de dois mil anos atrás: Aristóteles.

 Se você não sente nada além de tédio quando lê as teorias virtualmente inteligíveis de alguns filósofos, você tem minha profunda simpatia. Mas se você coloca-os de lado, dizendo: “por que eu deveria estudar coisas que eu sei que são tolices?” – você está errado. São tolices, mas você não sabe disso – não enquanto você aceita todas as suas conclusões, todas as frases viciadas produzidas por aqueles filósofos. E não enquanto você não for capaz de refutá-las.

Aquela tolice lida com a questão mais crucial, de vida ou morte da existência humana. Na raiz de cada teoria filosófica significatica, há uma questão legítima – no sentido que há uma necessidade autêntica da consciência do homem, que algumas teorias lutam por esclarecer e outras por obscurecer, corromper e privar o homem de cada descoberta. A batalha dos filósofos é uma batalha pela mente do homem. Se você não entende suas teorias, você está vulnerável ao pior que existe entre elas.

A melhor forma de estudar filosofia é abordá-la como se aborda uma estória investigativa: siga cada trilha, pista e implicação, para descobrir quem é o assassino e quem é o herói. O critério de detecção se constitui de duas questões: Por quê? E como? Se uma determinada doutrina parece ser verdade – por quê? Se outra parece ser falsa – por quê? E como ela está sendo posta? Você não encontrará todas as respostas imediatamente, mas você irá adquirir uma característica inestimável: a habilidade de pensar em termos de fundamentos.

Nada é dado ao homem automaticamente, nem o conhecimento, tampouco a autoconfiança, a sinceridade interior ou a maneira apropriada de usar sua mente. Todo valor que ele precisa ou quer tem de ser descoberto, aprendido e adquirido – até mesmo a postura correta de seu corpo. Nesse contexto, quero dizer que sempre admirei a postura dos graduados de West Point, uma postura que projeta o homem de maneira orgulhosa e com controle disciplinado do corpo. Bem, o treino filosófico dá ao homem uma postura intelectual própria – um controle disciplinado e orgulhoso da sua mente.

Em suas próprias profissões, a ciência militar, vocês sabem a importância de manter o controle sobre as armas, estratégia e tática do inimigo – e estar preparado a contra-atacá-los. O mesmo é verdade na filosofia: você tem de compreender as ideias do inimigo e estar preparado para refutá-las, você deve conhecer seus argumentos básicos e ser capaz de destruí-los.

Em caso de guerra física, vocês não enviariam seus homens a uma armadilha: vocês fariam todo esforço possível para descobrir sua localização. Bem, o sistema kantiano é a maior e mais intrincada armadilha da história da filosofia – mas é tão cheio de buracos que, uma vez que você compreenda suas artimanhas, você pode desarmá-lo sem muito problema e seguir adiante de forma perfeitamente segura. E, uma vez desarmado, os kantianos menores – os níveis mais baixos de seu exército, os sargentos filosóficos, soldados e mercenários de hoje em dia – cairão pelo seu próprio vazio, por reação em cadeia.

Há uma razão especial pela qual vocês, os futuros líderes do Exército dos Estados Unidos, precisam estar filosoficamente armados hoje. Vocês são o alvo de um ataque especial orquestrado pelo estabelecimento Kantiano-Hegeliano-coletivista que domina nossas instituições culturais no presente. Vocês são o exército do último país semilivre que restou na terra, contudo, vocês são acusados de serem uma ferramenta do imperialismo - e "imperialismo" é o nome dado à política externa deste país, o qual nunca se engajou em conquistas militares e nunca lucrou com as duas guerras mundiais, as quais não iniciou, mas entrou e venceu. (O que, aliás, foi uma política incidentalmente ultragenerosa, que fez o país desperdiçar sua riqueza com ajuda tanto para seus aliados quanto seus ex-inimigos.) Algo chamado o "complexo industrial-militar" - que se trata de um mito ou coisa pior - está sendo culpado por todos os problemas do país. Terríveis delinquentes universitários exigem aos gritos que as unidades de capacitação de futuros oficiais militares sejam banidas dos campus universitários. Nosso orçamento de defesa está sendo atacado, denunciado e enfraquecido por pessoas que afirmam que a prioridade financeira deve ser dada a jardins de rosas ecológicos e aulas de autoexpressão estética para os moradores dos bairros pobres.

Alguns de vocês podem ficar perplexos por essa campanha e podem se perguntar, de boa fé, quais erros cometeram para ocasioná-la. Se esse for o caso, é urgentemente importante para vocês entender a natureza do inimigo. Vocês são atacados, não por seus erros ou falhas, mas por suas virtudes. Vocês são denunciados, não por alguma fraqueza, mas por sua força e competência. Vocês são penalizados por serem os protetores dos Estados Unidos. Em um nível mais baixo da mesma questão, um tipo similar de campanha é conduzida contra a força policial. Aqueles que buscam destruir o [este] país procuram desarmá-lo - intelectualmente e fisicamente. Mas não é uma mera questão política; política não é a causa, é a última consequência de idéias filosóficas. Não é uma conspiração comunista, embora alguns comunistas possam estar envolvidos – tal como vermes tirando proveito de um desastre que eles não tinham o poder de provocar. O motivo dos destruidores não é o amor pelo comunismo, mas o ódio pelos Estados Unidos. Por que ódio? Porque a América é a refutação viva de um universo kantiano.

A preocupação sentimental de hoje e compaixão pelo fraco, o imperfeito, o sofredor, o culpado é uma cobertura para o ódio profundamente Kantiano do [pelo] inocente, do forte, do capaz, do próspero, do virtuoso, do confiante, do feliz. Uma filosofia que intenciona destruir a mente do homem é necessariamente uma filosofia de ódio pelo homem, pela vida do homem, e por todo valor humano. O ódio do bem por ser o bem, é a marca registrada do século XX. Esse é o inimigo que vocês estão enfrentando.

Uma batalha desse tipo requer armas especiais. Ela tem de ser travada com um pleno entendimento da sua causa, uma plena confiança em si mesmo, e a mais plena certeza da retidão moral de ambos. Apenas a filosofia pode lhes fornecer essas armas.

A tarefa que me dei esta noite não foi vender para vocês a minha filosofia, mas vender a filosofia como tal. No entanto, eu estive implicitamente falando da minha filosofia em cada frase - uma vez que nenhum de nós e nenhuma afirmação pode fugir de premissas filosóficas. Qual é o meu interesse egoísta na questão? Eu tenho confiança o suficiente para pensar que se vocês aceitarem a importância da filosofia e a tarefa de examiná-la criticamente é a minha filosofia que vocês aceitarão. Formalmente, eu a chamo de Objetivismo, mas, informalmente, eu a chamo de uma filosofia para viver na Terra. Vocês encontrarão uma apresentação explícita dela em meus livros, particularmente em A Revolta de Atlas.

Em conclusão, permitam-me falar em termos pessoais. Essa noite significou muito para mim. Sinto-me profundamente honrada pela oportunidade de discursar para vocês. Eu posso dizer - não como um clichê patriota, mas com o pleno conhecimento das raízes metafísicas, epistemológicas, éticas, políticas e estéticas necessárias - que os Estados Unidos da América são o maior, o mais nobre e, em seus princípios fundadores originais, o único país moral na história mundial. Há uma espécie de calma luminosidade associada em minha mente ao nome West Point - porque vocês preservam o espírito desses princípios fundadores originais e vocês são o seu símbolo. Houve contradições e omissões nesses princípios, e pode haver nos seus - mas eu estou falando de fundamentos. Pode existir indivíduos em sua história que não viveram à altura dos seus mais elevados padrões - como existe em toda instituição – desde que nenhuma instituição e nenhum sistema social pode garantir a perfeição automática de todos os seus membros, isso depende do livre arbítrio de cada indivíduo. Eu estou falando de seus padrões. Vocês preservam três qualidades de caráter que eram típicas na época do nascimento da América, mas são virtualmente inexistentes hoje em dia: seriedade - dedicação - um senso de honra. A Honra é a autoestima tornada visível pela ação.

Vocês escolheram arriscar suas vidas pela defesa do país. Eu não os insultarei dizendo que vocês se dedicam a servir de forma abnegada – isso não é uma virtude em minha moralidade. Em minha moralidade, a defesa de um país significa que um homem não está pessoalmente disposto a viver como o escravo dominado de qualquer inimigo, estrangeiro ou nacional. Esta é uma enorme virtude. Alguns de vocês podem não estar conscientes disso. Eu quero ajudá-los a se darem conta.

O exército de um país livre tem uma grande responsabilidade: o direito de usar a força, não como um instrumento de compulsão e conquista bruta – tal como os exércitos de outros países fizeram em suas histórias – mas apenas como um instrumento de autodefesa de uma nação livre, o que significa: a defesa dos direitos individuais de um homem. O princípio de usar a força apenas em retaliação contra aqueles que iniciaram seu uso, é o princípio de subordinar o poder ao direito. A mais alta integridade e senso de honra são necessários para tal tarefa. Nenhum outro exército do mundo conseguiu isso. Vocês conseguiram.

West Point deu à América uma longa linhagem de heróis, conhecidos e desconhecidos. Vocês, formandos deste ano, têm uma tradição gloriosa para continuar - o que eu admiro profundamente, não porque é uma tradição, mas porque é gloriosa.

Desde que vim de um país culpado pela pior tirania da terra, eu sou particularmente capaz de apreciar o significado, a grandeza e o valor supremo daquilo que vocês defendem. Assim, em meu próprio nome e em nome de muitas pessoas que pensam como eu, quero dizer, para todos os homens de West Point, do passado, do presente e do futuro: Obrigado.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Que é Filosofia e Como Estudá-la

Por Objetivista,

[Trecho do capítulo 1 de Objectivism: The Philosophy of Ayn Rand. Esta obra foi publicada no Brasil e pode ser adquirida através do Instituto Liberdade.]
A filosofia não é uma mera distração do intelecto, mas um poder do qual nenhum homem pode se abster. Qualquer um pode dizer que não necessita de uma visão da realidade, do conhecimento, do bem, mas ninguém pode por em prática esse credo. A razão é que o homem, pela sua natureza de ser conceitual, não pode de maneira alguma funcionar sem algum tipo de filosofia para servir como seu guia.
Ayn Rand discute o papel da filosofia em sua apresentação em West Point “Philosophy: Who Needs It”. Sem ideias abstratas, ela afirma,
“você não seria capaz de lidar com os problemas concretos, particulares, da vida real. Você estaria na posição de um bebê recém-nascido, para quem todo objeto é um fenômeno único, sem precedentes. A diferença entre o estado mental dele e o seu está no número de integrações conceituais que sua mente realizou. Você não tem escolha quanto à necessidade de integrar suas observações, suas experiências, seu conhecimento em ideias abstratas, isto é, em princípios.” [1]
Sua única escolha, ela continua, é se os seus princípios são verdadeiros ou falsos, racionais ou irracionais, consistentes ou contraditórios. O único meio de verificar de que tipo eles são é integrando seus princípios.
“O que os integra? A filosofia. Um sistema filosófico é uma visão integrada da existência. Como um ser humano, você não tem escolha quanto ao fato de que você precisa de uma filosofia. Sua única escolha é se você definirá sua filosofia por um processo consciente, racional e disciplinado de pensamento e por deliberação escrupulosamente lógica – ou se permitirá seu subconsciente acumular um amontoado de conclusões não justificadas, falsas generalizações, contradições indefinidas, slogans mal-digeridos, caprichos não identificados, dúvidas e medos, tudo isso reunido ao acaso, mas integrado pelo seu subconsciente em um tipo indefinido de filosofia e fundido em um único peso sólido: a autodúvida, tal como uma bola de ferro e uma corrente no lugar onde as asas da sua mente deveriam ter crescido.” [2]
A filosofia, na visão de Ayn Rand, é a força fundamental que molda cada homem e cada cultura. É a ciência que guia a faculdade conceitual dos homens e, assim, todos os campos de empreendimento que contam com essa faculdade. As questões mais profundas da filosofia são as raízes mais profundas do pensamento dos homens (ver capítulo 4), da sua ação (ver capítulo 12), da sua história (veja o Epílogo) – e, portanto, dos seus triunfos, dos seus desastres, do seu futuro.
A filosofia é uma necessidade humana tão real quanto a necessidade de alimentos. É uma necessidade da mente, sem a qual o homem não pode obter alimentos ou algo mais que a sua vida exige.
Para satisfazer essa necessidade, deve-se reconhecer que a filosofia é um sistema de ideias. Por sua natureza de ciência integradora, ela não pode ser um depósito de questões isoladas. Todas as questões filosóficas estão interrelacionadas. Não se pode, portanto, levantar tais questões de forma aleatória, sem o contexto necessário. Se alguém tentar a abordagem aleatória, então as questões (para as quais não teremos um meio de responder) simplesmente proliferarão em todas as direções.
Suponha, por exemplo, que você leu um artigo de Ayn Rand e apreendeu a partir dele apenas uma ideia geral, com a qual, você decide, está de acordo: o homem deve ser egoísta. Como, você logo irá questionar, esta generalização deve ser aplicada às situações concretas? O que é o egoísmo? Significa fazer o que quer que você sinta vontade de fazer? E se seus sentimentos forem irracionais? Mas quem pode dizer o que é racional ou irracional? E seja como for quem é Ayn Rand para dizer o que alguém deve fazer? Talvez o que seja verdade para ela não seja verdade para você, ou o que é verdadeiro na teoria não é verdadeiro na prática. O que é a verdade? Ela pode variar de uma pessoa para outra ou de uma área para outra? E, pensando nisso.  nós não estamos todos ligados uns aos outros? É possível a alguém realmente atingir metas pessoais neste mundo? Se não for possível, então não faz sentido ser egoísta. Que tipo de mundo é este? E se as pessoas seguissem Ayn Rand, isso não levaria a monopólios ou à concorrência selvagem, como os socialistas afirmam? E como alguém sabe as respostas para todas estas (e muitas) perguntas similares? Qual método de conhecimento devemos utilizar? E como sabemos disso?
Para que uma ideia filosófica funcione adequadamente como guia, é preciso conhecer o completo sistema ao qual ela pertence. Uma ideia arrancada do seu meio não tem valor, não pode ser validada, e não funcionará. É preciso conhecer o relacionamento da ideia com todas as outras ideias que lhe dão contexto, definição, aplicação e prova. É preciso conhecer tudo isso não como um fim teórico em si mesmo, mas com propósitos práticos; é preciso conhecê-la para ser capaz de contar com uma ideia, fazer uso racional dela e, em última instância, viver de acordo com ela.
***
A fim de se abordar a filosofia sistematicamente; devemos começar como os seus braços básicos. A filosofia, de acordo com o Objetivismo, consiste de cinco braços. Os dois básicos são a metafísica e a epistemologia. A metafísica é o braço da filosofia que estuda a natureza do universo como um todo. (A metafísica Objetivista é coberta no presente capítulo “Realidade”). A epistemologia é o braço que estuda a natureza e os meios do conhecimento humano (capítulos 2-5). Esses dois braços tornam possíveis uma visão da natureza do homem (capítulo 6).
Seguindo do que está acima estão os três braços avaliativos da filosofia. A ética, o mais amplo deles, fornece um código de valores para guiar as escolhas e ações humanas (capítulos 7-9). A política estuda a natureza de um sistema social e define as funções corretas do governo (capítulos 10 e 11). A estética estuda a natureza da arte e define os padrões pelos quais uma obra de arte deve ser julgada (capítulo 12).
Ao apresentar o Objetivismo, eu cobrirei os cinco braços em termos essenciais, desenvolvendo cada um deles em ordem hierárquica, e oferecendo a validação de cada princípio ou teoria assim que explicá-lo pela primeira vez.
O Verdadeiro, disse Hegel, é o Todo. Ao fim de nossa discussão, tomando esses termos de empréstimo, você verá um Todo único, o Todo que é a realização filosófica de Ayn Rand. Você poderá então julgar se é uma realização importante – e se ela é a Verdadeira.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Comentário a uma objeção ao egoísmo racional de Ayn Rand

Por André,

Me enviam o seguinte trecho, alegadamente retirado da American Chesterton Society:

"... I suspect that Rand’s Objectivist philosophy was, at bottom, an overreaction to what she experienced in Bolshevik Russia and also to the rise of Nazism. Since both regimes used the concept of “collective good” to justify their actions, Rand became, shall we say, philosophically allergic to the very idea of collective or common good and went off the deep end in the other direction, toward extreme individualism. 
Objectivism is a great philosophy for young, healthy, single people who have no responsibilities to anyone other than themselves. It loses its attraction pretty quickly once you marry, have children, get old or sick, or have sick or elderly parents/friends to care for. 
Rand never had any children, and although she was married to the same man for over 50 years, it was an “open” marriage in which both carried on affairs with others. She was also VERY pro-abortion (no surprise there) and referred to unborn children as “parasites”, although she also opposed any use of taxpayer funds to support abortion." - Elaine (aka Bookworm)

É comum a confusão entre egoísmo no sentido comum e no sentido proposto pelo objetivismo, a filosofia de Ayn Rand. Aliás, a confusão é repetida por tanta gente que soa até estranho ela ser apenas isso, uma confusão. Grandes mentes "se confundiram": Buckley, Hitchens, Chesterton e Olavo de Carvalho.

Tudo que Ayn Rand dizia é que nenhum indivíduo pode ser OBRIGADO a se SACRIFICAR em nome de algum outro indivíduo, coletivo ou "causa" (supostamente maior que o indivíduo). O sacrifício da individualidade é um vício.

Contudo, isso não significa abandonar sua esposa, filhos ou parentes e/ou amigos doentes. Nem mesmo se eles forem desconhecidos, aliás. Nathaniel Branden, salvo engano, afirmou em algum lugar: se você quiser ajudar alguém, seja lá quem for, ninguém vai te impedir.

O ponto é: 1) você não é obrigado a se sacrificar em nome de nada ou ninguém e 2) apenas o indivíduo pode ser o centro de gravitação da ética: "Apenas o próprio indivíduo tem o direito de decidir quando ou se deseja ajudar os outros; a sociedade - como um sistema político organizado - não possui qualquer direito nesse ponto" (RAND, 2013, p. 123).

O que muitos detratores do egoísmo racional deixam escapar é que toda a filosofia objetivista é um sistema encadeado por princípios lógicos. Uma coisa é consequência inevitável e imediata da outra. No terreno da ética, os valores são determinantes.

Se seu pai, esposa ou irmão forem heróis para você, caso encarcerem valores que todo homem racional reconhece como bons, qualquer ação que você faça para eles não será um sacrifício.

Agora, se um dos seus parentes for um bandido, você deve amá-lo ou sacrificar-se por ele apenas por que é seu parente? Sob qual base? A moral da "sociedade"? Da sua "religião"? A ética objetivista rejeita tal tipo de sacrifício.

Para quem quiser um esclarecimento definitivo sobre o tema: "A virtudo de egoísmo" de Ayn Rand. O Instituto Liberdade reeditou os textos no ano passado.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Objetivismo e libertarianismo, entenda a controvérsia

Por Ayn Rand Institute,

Tradução: André Assi Barreto


A posição do ARI (Ayn Rand Institute) é o libertarianismo?

Não. Porém, o significado do termo “libertário” mudou ao longo das décadas. Consequentemente, indivíduos ou organizações que hoje se autointitulam “libertárias” podem ou não sustentar ideias às quais nos opomos.

O libertarianismo a que nos opomos é um conjunto específico de ideias, cuja essência é dedicada e profundamente subjetivista. O libertarianismo, nesse sentido, foi encabeçado por Murray Rothbard e seus seguidores nos de 1960 e 1970. Sua expressão política é o anarquismo ou “anarcocapitalismo”, como geralmente eles o chamam, além de uma política externa de um antiamericanismo radical (que eles tentam passar como “não-intervencionismo”).

Os “libertários”, nesse uso do termo, plagiaram o princípio da não-iniciação do uso da força de Ayn Rand e o converteram num axioma, negando a necessidade e a relevância dos seus fundamentos filosóficos – mas apenas a ética que o subjaz, mas também a metafísica e a epistemologia subjacente.

Essa é a posição anti-objetiva e anti-filosófica que, em 1985, o então presidente do conselho do ARI, Peter Schwartz, apropriadamente denunciou em seu ensaio “Libertarianismo: a perversãoda liberdade”. Essa compreensiva crítica do libertarianismo expôs a essência do movimento: o niilismo. (Uma versão condensada desse artigo está publicada no“The Voice of Reason: Essays in Objectivist Thought” sob o mesmo título). Nós concordamos e seguimos concordando com a essência da análise de Peter Schwartz.

Como fora longamente mostrado pelo sr. Schwartz, este libertarianismo declara que o valor da liberdade e o mal de iniciar o uso da força são coisas primárias auto-evidentes, não precisando de justificação ou até mesmo explicação – deixando conceitos-chave como “liberdade”, “força”, “justiça”, “bem” e “mal” indefinidos. Reclama compatibilidade entre todas as visões da metafísica, epistemologia e ética – até mesmo subjetivismo, misticismo, ceticismo, altruísmo e niilismo – substituindo o “ódio pelo estado” por conteúdo intelectual.

Esse é o motivo pelo qual Ayn Rand se opôs a ele desde o começo.

Num impresso de 1972, Rand expressou esse alerta para indivíduos interessados em defender o capitalismo:

“Antes de tudo, não se junte aos grupos ou movimentos que adotam uma ideologia errada, com a finalidade de “fazer algo”“. Por “ideológicos” (nesse contexto), me refiro a grupos ou movimentos que proclamam alguns objetivos políticos vagamente generalizados, indefinidos (a, normalmente, contraditórios). (Exemplos: o partido conservador, que subordina a razão à fé e substitui a teocracia pelo capitalismo; os hippies “libertários”, que subordinam a razão a seus caprichos e substituem o anarquismo pelo capitalismo). Juntar-se a tais grupos significa reverter a hierarquia filosófica e vender princípios fundamentais em nome de alguma ação política que está fadada ao fracasso. (What Can One Do? The Ayn Rand Letter, vol 1, nº 7)

O ARI sempre viu o movimento que mantém esse conjunto de ideias e atitudes como um inimigo do capitalismo e da liberdade, e continuamos a pensar assim. Nunca sancionaremos ou cooperaremos ou colaboraremos com qualquer organização que advogue o “libertarianismo” nesse sentido descrito. O princípio envolvido foi identificado por Ayn Rand: “Em havendo qualquer colaboração entre dois homens (ou grupos) que sustentam princípios básicos diferentes, é o mais malévolo ou irracional que vence” (“The Anatomy of Compromise” Capitalism, The Unknown Ideal).

Quando essa abordagem subjetivista com relação à filosofia e à política dominou o movimento libertário nos anos 70 e 80, o ARI se recusou a cooperar com qualquer um pertencente a ele. Tal colaboração teria constituído uma sanção da anti-ideologia do libertarianismo. Entretanto, hoje nós vemos evidência que sugere que não existe mais um movimento libertário coeso. O movimento se tornou fragmentado e sem liderança (tanto intelectual como em termos de organização), e o termo “libertário” está progressivamente perdendo seu sentido original.

Assim, quando alguém ou alguma organização se intitula ou é considerada por outros como “libertária”, não deve-se assumir que isto significa que a pessoa ou organização é parte do movimento anti-filosófico denominado libertário. O que importa, ao avaliar esses indivíduos e organizações, são as ideias que eles de fato sustentam e advogam.

O termo “libertário” tem sido usado de forma crescente nos últimos anos e com um significado vagamente atrelado à liberdade e mais relacionado ao controle governamental. Muitas pessoas, incluindo repórteres e comentadores, percebem que nem “esquerdistas” e tampouco “conservadores” são advogados da verdade. Os comentadores precisam de um termo diferente para descrever aqueles que parecem estar mais perto da liberdade e que normalmente usará o termo “libertário”.

Entretanto, nenhum dos três termos políticos – “esquerdista”, “conservador” ou “libertário” – tem um significado definido, porque não existem ideologias claramente definidas. Consequentemente, o fato de hoje alguém se intitular ou ser considerado por outros como “libertário”, não diz absolutamente nada acerca do seu ponto de vista político: ele poderia ser um religioso, um anarquista, um capitalista laissez-faire, um “em cima dom muro”, etc. Dada a confusão terminológica corrente, nós observamos o conteúdo das ideias defendidas, não apenas o rótulo ligado a elas.

Qual a posição política de um objetivista, se não a libertária?

O objetivismo não é esquerdista, conservador ou libertário. O objetivista tem princípios políticos claros, bem-definidos e únicos, que existem como consequências de seus fundamentos filosóficos. A melhor forma de um objetivista descrever sua posição político-social é usar os termos “pró-capitalista” e “capitalista laissez-faire”. O capitalismo, na definição de Ayn Rand, “é um sistema social baseado no reconhecimento de direitos individuais, incluindo direitos de propriedade, no qual toda propriedade é privada” [“What is Capitalism? Capitalism: The Unknown Ideal]. Como Rand escreveu em 1962 para descrever sua posição:

O objetivismo é um movimento filosófico; visto que a política é um ramo da filosofia, o objetivismo advoga certos princípios políticos – especificamente aquelas do capitalismo laissez-faire – como consequência e aplicação prática última de seus princípios filosóficos fundamentais.  Ele não considera a política como um objetivo separado ou primário, isto é: como um objetivo a ser alcançado sem um contexto ideológico mais amplo... Objetivistas não são “conservadores”. Somos radicais pelo capitalismo; lutamos por aquela base filosófica que o capitalismo não teve e sem a qual ele está condenado a perecer. [“Choose Your Issues”. The Objectivist Newsletter, vol. 1, nº 1].

É claro que um defensor da filosofia de Rand também pode simplesmente usar o termo “objetivista” para descrever sua ideologia política, nomeando “direitos individuais” como o princípio político essencial. Esses termos estão em ampla circulação hoje em dia, graças à familiaridade crescente com o pensamento de Rand.

Quais são as considerações que regem as decisões do ARI na hora de lidar com outra organização, especialmente uma que se descreva como libertária?

Ainda existem organizações ligadas à anti-ideologia corrupta do libertarianismo, no primeiro sentido da palavra. O ARI não lida com tais organizações. Embora lidar com uma organização ideológica não necessariamente implique concordância (por exemplo, quando o ARI co-patrocina um debate), não implica que se considere a organização legítima – o que, no caso da anti-ideologia dos libertários, não consideramos.

Porém o ARI busca trabalhar com outras organizações em assuntos ou projetos específicos com o propósito de aumentar o alcance e impacto do ARI. Nós avaliamos se é apropriado e benéfico para nossa missão trabalhar uma organização em particular, se for o caso, averiguaremos de que forma e sob quais condições. Por muitos anos, e especialmente com o crescimento do ARI tem juntado recursos e pessoas para fazer isso; temos trabalhado com muitas organizações e especialistas fora do ARI.

Algumas das diretrizes aplicadas pelo ARI para decidir se trabalharemos ou não com outra organização são:

1   Já que o ARI é uma organização ideológica – nossa missão é fazer avançar uma filosofia nova e radical – prestamos atenção especial à natureza ideológica de qualquer um que trabalhe e se junte nas atividades que nos engajamos. Tentamos nos assegurar que nossas ações não promovem, ainda que sem intenção, ideias filosóficas ou políticas às quais nos opomos. Não esperamos concordância completa, mas nunca trabalhamos com organizações que  ofusquem diretamente o Objetivismo ou Ayn Rand.

2   É vital na nossa relação com outras organizações que não forcemos uma concordância onde não existe uma. Por advogarmos uma nova filosofia - como disse Rand, os objetivistas são radicais pelo capitalismo, que lutam pela base filosófica que o capitalismo nunca teve de fato – raramente há concordância ideológica profunda. Até mesmo no nível da política, é raro para nós que haja concordância completa com a posição de outra organização, pois não vemos posições políticas como desvinculadas da filosofia. Consequentemente, devemos tomar cuidado ao estabelecer uma colaboração, para que ela não engendre confusão acerca do que defendemos.

3   Existem muitas organizações que não são primariamente ideológicas em sua missão ou atividades, mas em vez disso estão mais interessadas em afetar o direito e a política. Ao decidir se é ou não apropriado para nós lidar com tais organizações, nós avaliamos, em conjunto com os pontos 1 e 2 acima, a legitimidade e o valor da política e das mudanças legais que estão tentando trazer.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Luiz Carlos Prates em comentário sobre bons e maus alunos

Por André,


Concordo com o Prates (esse seu estilo escândaloso também me desagrada, mas isso é outra história). O modelo atual de ensino é uma fábrica de produção de medíocres em larga escala. A qualidade e o mérito são suprimidos, quando não punidos; a incompetência e o demérito dignos de premiação. A igualitarização forçada (onde fica-se subentendido: vocês todos são iguais. Igualmente medíocres) vem impedindo e impedirá o florescimento de gênios ou simplesmente dos mais hábeis - dos melhores. Um Einstein, um Darwin, um Edison jamais surgirão; eles estariam a bolinar os coleguinhas menos espertos, estariam sendo preconceituosos, teriam de, compulsoriamente, abrir mão de seus talentos e atender aos interesses da massa inerte, disforme e medíocre.

Impossível não me reportar aos três romances de Ayn Rand. Em primeiro lugar "Anthem", onde o heró -
Equality 7-2521, o indivíduo genial que vive em atmosfera coletivista, vira-se contra seus algozes e põe sua inteligência em prática, descobrindo a eletricidade (trouxe a luz tanto metaforica quanto factualmente). "A Nascente", onde mais uma vez, vemos o embate genialidade versus mediocridade, o arquiteto Howard Roark, inovador, o melhor de todos, entra em conflito com seus pares medíocres e "A Revolta de Atlas", onde temos um relato completo do caos que é o mundo igualitarista de faz-de-conta inventado por alguns, onde os gênios estão em extinção e o colapso que decorre disso, bem como uma distinção entre a filosofia que fomenta isso e aquela que se apresenta como única alternativa possível.