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terça-feira, 21 de abril de 2015

José Serra não quer impeachment, está à esquerda do PT e considera o partido de Lula e Dilma "reacionário". Brasil vive campeonato de esquerdismo


Em palestra na Universidade de Harvard (EUA), o senador José Serra (PSDB-SP) disse que "impeachment não é programa de governo de ninguém" e defendeu que a oposição precisa ter responsabilidade.

"Impeachment é quando se constata uma irregularidade que, do ponto de vista legal, pode dar razão a interromper um mandato. E eu acho que essa questão ainda não está posta", disse o senador neste sábado (18).

A fala de Serra contraria o presidente do PSDB, Aécio Neves, que disse na última quinta (16) que a sigla pedirá o impedimento da presidente Dilma Rousseff caso se comprove a participação dela nas chamadas "pedaladas fiscais" –manobras feitas pelo Tesouro com dinheiro de bancos públicos para reduzir artificialmente o deficit do governo em 2013 e 2014.

Segundo Serra, o clima para o impeachment se deve ao desejo de "três quartos da população" que está insatisfeita.

"É óbvio que a crise é toda responsabilidade do governo. Não é a ação da oposição, nem do Ministério Público, nem do Congresso", afirmou.

O tucano defendeu que a oposição tem que se mobilizar em fazer denúncias, críticas e propostas. "Não dá para fazer de conta que o Brasil está sem problemas de médio e longo prazo."

As afirmações se alinham com as do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que no fim de semana afirmou que o pedido de impeachment depende de fatos objetivos e que seria "precipitação" abrir um processo neste momento.

À ESQUERDA DO PT

Bastante à vontade, Serra deu conferência de uma hora e meia, na qual disse ser "mais à esquerda que o PT", que classificou de "reacionário, um partido de corporações".

O senador condenou aspectos do ajuste fiscal proposto pelo ministro Joaquim Levy (Fazenda), que tem "um mundo de contradições", já que, na opinião do tucano, "piora a curto prazo tudo o que pretendia resolver."

"O ajuste fiscal é desajustado. Aprofunda a inflação, pela correção dos preços administrados defasados", afirmou.

"Desacelera a economia, perde a receita, aumenta o déficit. Aumenta juros, portanto aumenta a despesa. Só o aumento de juros que Dilma fez depois de eleita custa 27 bilhões de reais por ano. Isso é metade do resultado primário que se quer obter."

O senador reclamou à plateia de 300 pessoas, formada principalmente por estudantes brasileiros, que não se debate assuntos sérios no Brasil, "nem no Congresso".

Ele defendeu que a retomada do crescimento se daria com investimentos em infraestrutura, abertura para o comércio exterior "para aproveitar o câmbio favorável" e a "reconstituição do sistema de petróleo".

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Breve análise do resultado eleitoral e perspectivas futuras

Por André,



Muitos amigos estão literalmente tristes. Eu diria que estou decepcionado. Decepcionado porque nunca estivemos tão perto de tirar o PT do poder. Mas sigo com uma tese que carrego desde 2006 e cansei de expor no finado Orkut: o verdadeiro momento de derrotar o PT era aquele. Em verdade, era antes, em 2005, com o mensalão - o investigado, julgado e condenado mensalão, que faz nomes históricos do PT comemorarem a vitória direto da Papuda. A oposição preferiu a estratégia do "deixar sangrar até as eleições" e um Geraldo Alckmin sem apoio pleno do tucanato perdeu as eleições para Lula (com uma massa eleitora de votos maior que a de Aécio no primeiro turno, frisamos).

Deixar isso passar foi um erro estratégico impagável e imperdoável. É ele que até hoje dá vazão para petistas de carteirinha, gente com medo de perder a boquinha, petralhas e simpatizantes flertarem com o argumento que se tornou o carro chefe do posicionamento pró-PT entre gente parcialmente esclarecida:  "o PT rouba mas faz, rouba mas (sic) ajuda os pobres". É a clássica estratégia dos fins justificando os meios aplicada à realidade política nacional.

Já também em 2006 eu alertava para o terrorismo eleitoral do PT: a ideia que seus oponentes acabariam com o Bolsa Família se eleitos. Em 2006 e 2010 ninguém falou praticamente nada a esse respeito, o PT consolidou a prática e seria ilusório achar que não o fariam novamente este ano. A oposição deixou sangrar e ela que morreu de hemorragia. Também já nessa época eu chamava o Bolsa Família de uma "máquina legal de compra de votos". Com ou sem terror muita gente votaria no partido que lhe garante algum trocado todo mês. O programa neoliberal vingou. Nenhum oponente acabaria com o mesmo porque seria suicídio eleitoral. Talvez algum membro da oposição trabalhasse para que 1/4 do país DEIXASSE o programa por não precisar mais dele. Talvez. E é claro, caso o PT tivesse perdido agora e o próximo presidente NÃO acabasse com o BF (ou talvez expandisse o programa, como era a proposta do Serra em 2010).

É inegável que a campanha de 2014 foi a melhor da oposição. Mas ainda com diversas falhas. O marqueteiro do PT conseguiu a proeza de fazer o governo Dilma ter a melhor avaliação dos quatro anos apenas manejando cacoetes e slogans durante o período de campanha. É um feito e tanto.

Contudo, o PT sai derrotado em alguns sentidos: o congresso, até prova em contrário, tem uma oposição larga e bem estabelecida. Os governos estaduais continuam razoavelmente bem distribuídos, Dilma foi bastante mal votada nas regiões mais ricas e desenvolvidas do país (e isso tem mais que apenas um significado simbólico ou regionalista, mas também em termos de investimentos e oposição ao longo dos quatro anos). O PMDB estava a plenos pulmões para mudar de lado e isso pode ser útil em eventual CPI da Petrobrás e no desenrolar dos depoimentos de Alberto Youssef.

Estrategicamente falando, embora me mantenha extremamente cético quanto a possibilidade disso efetivamente acontecer, o que deve ser feito é o seguinte: toda essa massa que se cansou do PT e de seu projeto e pretendia tirá-lo do poder precisa ser capitaneada em torno de um líder (que poderia ser Aécio Neves, mas a julgar pelo seu discurso de derrota não é o que ele pretende ser) e formar uma militância que vai trabalhar pelos próximos 4 anos no mínimo e não aparecer na véspera da eleição a trancos e barrancos. É claro que isso é tarefa difícil, principalmente quando a oposição da concorrência é profissional, bem remunerada e especializada em fazer apenas isso. Mas esse quadro é indispensável para quem pretende concorrer com o aparelhamento das instituições, da cultura, das universidades, das escolas e de tudo mais que dita as regras do debate (por exemplo: quando você culpa o Nordeste pela vitória de Dilma, você debate no terreno do adversário, é impossível sair vitorioso dessa discussão, entrar nela é perder).

É isso que a direita americana faz melhor, muitas ideias não passam ao debate público antes de serem crivadas por experts de think tanks conservadores. O debate deixa de ser um monólogo e deixa de ser categorizado pelo adversário (ou você é um paulista preconceituoso ou um nordestino recebedor do BF, ou você vota no PT ou vota no partido do Herodes etc etc.). É isso que precisamos fazer.

Alexandre Borges, em texto na sua página no Facebook mostrou como a esquerda profissional age quando sofre uma derrota, ela junta os cacos e funda o Foro de São Paulo:
Não custa lembrar que a reação de Fidel Castro ao ver a queda do Muro de Berlim foi fundar o Foro de São Paulo com Lula. Nada de chororô, nada de dar cabeçadas na parede e em 12 anos Lula foi eleito presidente no Brasil, que vai para o quarto mandato consecutivo. 
Lembre disso: o outro lado já perdeu e feio. O que eles fazem quando perdem? Juntam os cacos, sacodem a poeira e voltam pra briga. O que fazem quando ganham? Dão um jeito de usar o estado para continuar no poder. Eles sabem que política é uma guerra e quando apenas um dos lados está guerrando o resultado final será sempre o mesmo.
A estratégia é essa, a pergunta é: há tempo, interesse, coragem, habilidade e competência para fazer isso ou o debate continuará sendo em meio a uma troca de tapas para dizer se a culpa pelo PT no poder por 16 anos é ou não do Nordeste? 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Rumos do poder em eventual Brasil sem PT

Por André,

Muita gente acredita que o PT perdeu sua história com a esquerda radical, o papel essencial que ele cumpre para as esquerdas latino-americanas administrando o Brasil e a eventual derrota que isso representaria para os interesses dessa esquerda uma vitória de Aécio Neves agora em 2014. 

Pistas sobre isso podem ser encontradas no blog de Valter Pomar. Valter é filho de Wladimir Pomar. Ambos peças essenciais na história do PT e esquerdistas radicais.

Considerando a tendência de alta de Aécio Neves nas pesquisas, o clima de desespero e a possibilidade de peca do poder, bastante distante há um mês, se instalaram entre petistas mais radicais. Veja o cenário antevisto por Pomar caso o "playboy da direita" vença o pleito:

"(...) a quem fica se iludindo sobre 2018, eu prefiro dizer o seguinte: o caminho para ganhar em 2018 passa por ganhar em 2014. 
(...) se um feitiço desse a presidência ao playboy, é muito pouco provável que a direita cometesse o mesmo erro de 2005. Pelo contrário, tentariam criminalizar, processar e condenar o maior número possível de lideranças da esquerda. A começar por aquela que é a liderança mais querida pelo povo brasileiro."
É uma previsão perfeitamente lícita que, caso Aécio vença, ainda mais casos de corrupção e subversão da máquina pública surjam, sendo esse um dos principais aspectos vantajosos de uma derrota do PT.

Outro texto de Pomar teve circulação elevada em certos meios onde o petista especula sobre o posicionamento das esquerdas com relação ao PT e de como os interesses do Foro de São Paulo seriam caso o Brasil guine à "direita":
"Haveria muito que dizer a respeito da posição oficial do PSOL, mas o fundamental a ser dito, na minha opinião, é que subestima os danos que causaria, à classe trabalhadora brasileira e à esquerda latino-americana, uma vitória de Aécio.
Aliás, é muito revelador que partidos e pessoas que professam o internacionalismo secundarizem o impacto internacional que teria um giro à direita no governo do Brasil. 
Subestimar os danos que causaria, à classe trabalhadora brasileira e à esquerda latino-americana, uma vitória de Aécio também é o erro fundamental do PSTU, cuja posição está expressa no texto assinado por Valério Arcary. 
Arcary diz que o PT estaria 'exagerando nas tintas' e abraçando 'um discurso catastrofista que quer apresentar a disputa entre Aécio e Dilma como um armagedon político', numa 'campanha de dramatização [que] não é educativa'. 
(...) se acontecesse uma derrota, a principal responsabilidade política seria do meu partido, o Partido dos Trabalhadores. Mas uma 'oposição de esquerda' que valha este nome não pode subestimar o desastre que uma vitória de Aécio causaria para a classe trabalhadora brasileira e para a esquerda latino-americana.
(...) 
A estes eleitores, mais do que as comparações de praxe entre passado e presente, cabe lembrar que com Dilma haverá um ambiente político mais favorável à luta por mudanças importantes como a reforma política, através de uma Constituinte exclusiva; como a democratização da comunicação; como a revisão da Lei de Anistia; como a reforma tributária progressiva, com taxação das grandes fortunas; como a jornada de 40 horas; como a revisão do fator previdenciário; como a criminalização da homofobia; como a revisão dos índices de produtividade agrária."

Projetos importantes do PT entraram em curso nos últimos tempos (o que implica que perder o poder nunca esteve nos planos do PT), como a sovietização da vida pública brasileira e a nova constituinte.

O que particularmente me preocupa é um PT ressentido de volta à oposição.

Claro, é difícil falar agora pois parece que o PMDB está plenamente disposto a debandar, o que relaxa um pouco a questão do Congresso.

Mas ainda tem todas as "forças paralelas": Stedile dizendo que fará guerra se Aécio for eleito, todos os ~movimentos sociais~ que o PT pretende/pretendia conceder poder de Congresso etc. etc.

De resto, só o que podemos é aguardar e cravar com tranquilidade que uma derrota legítima do PT significa uma inflexão na política externa nacional (que já é temida na Bolívia).

domingo, 12 de outubro de 2014

O mito do maior número de universidades federais construídas na era Lula do que na era FHC

Por União Democrática Acadêmica,

Por Pedro Saad, estudante de Direito na Universidade de Brasília, e presidente nacional da União Democrática Acadêmica.

O movimento estudantil brasileiro passou anos discutindo a ampliação da quantidade de vagas em universidades federais e instituições federais de educação superior durante o governo Lula, especialmente as relacionadas ao REUni. Desde que o programa foi lançado, em 2007, até idos de 2010, ele foi objeto de discussões acaloradas nos espaços da União Nacional dos Estudantes (UNE), federações de curso e até mesmo disputas de Centros Acadêmicos e Diretórios Centrais dos Estudantes.

Em diversos méritos, a esquerda, representada pela UJS e setores estudantis próximos ao Partido dos Trabalhadores, media forças e argumentos com grupos de extrema-esquerda. Fato é que, como é comum na esquerda, discutiram em cima de mitos e da propaganda petista.

A pretensão de se expandir as vagas e condições de acesso ao ensino, no entanto, não é exclusividade do grupo político que hoje se encontra no poder. Não é a primeira vez que há uma expansão de vagas. No entanto, a força da propaganda sobre aumento de vagas é algo sem precedentes. No entanto, não temos notícia é de tamanho alarde.

Para balizar o debate, comparamos aqui, dois governos, de Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, e de Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira. Ambos permaneceram no poder por oito anos, em um contexto de democracia.

Para balizar o debate, comparamos aqui, dois governos, de Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, e de Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira. Ambos permaneceram no poder por oito anos, em um contexto de democracia.

A série de dados históricos é fornecida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), com periodicidade anual (de 1995 a 2008). Foram considerados os anos de 1995 a 2002 (7 anos) para o período FHC e de 2002 a 2008 (6 anos) para o que foi definido como período Lula. As categorias "instituições federais" e "instituições de ensino superior" incluem (além de universidades) centros universitários, faculdades, institutos federais e os antigos CEFETs.

A análise pode ser encontrada no site http://pt-br.governobrasil.wikia.com/wiki/Governo_Brasil_Wiki, e confirmada no site do INEP, http://portal.inep.gov.br/web/censo-da-educacao-superior/censo-da-educacao-superior.

Aos números. Primeiro sobre as universidades federais:

• De 1995 a 2002 (FHC) o número de matrículas em universidades federais aumentou em 147.224.

• De 2002 a 2008 (Lula) o número de matrículas em universidades federais aumentou em 100.313.

E as instituições federais? Além das universidades, CEFETs e IFs?

• De 1995 a 2002 (FHC) o número de matrículas em instituições federais aumentou em 164.103.

• De 2002 a 2008 (Lula) o número de matrículas em instituições federais aumentou em 111.467.

À luz destes dados, não resta alternativa: o debate relativo ao aumento da quantidade de vagas em universidades federais e instituições federais de educação superior durante o governo Lula se pautou mais na propaganda do governo petista do que em números e fatos.

Em números absolutos e relativos, os avanços ocorridos durante o governo de Fernando Henrique Cardoso foram significativamente maiores que os – inegavelmente – ocorridos durante o governo de Luís Inácio Lula da Silva, no tocante ao aumento de vagas tanto em instituições federais de ensino quanto em universidades federais. Em resumo, o debate pautou-se em mitos. Igual preocupação – e propaganda – do movimento estudantil não se viu durante o período de 1994 a 2002. Enquanto o debate não se pautar em fatos e na realidade dos estudantes brasileiros, a opinião dos estudantes estará relegada a irrelevância. Ainda mais quando teve grande serventia para, parafraseando Vargas Llosa, a construção de mais uma fantasia do governo Lula, entre outras que já começaram a se dissipar.

As melhoras entre 2003 a 2014 são obra do PT?

Por André,

Pululam pela internet textos - quando não propagandas petistas mesmo - cantarolando aos sete ventos as melhoras ocorridas no Brasil graças à governança petista. Lembro muito bem deste que vos escreve, pelos idos de 2007 e 2008, nos fóruns do finado Orkut, afirmando que muitas das melhoras do Brasil eram, na verdade, melhoras vegetativas, naturais, que ocorreriam sob a tutela de qualquer governo.


Deixo eu uma linha de comparação a ser feita por alguém do PSDB: como ficam as melhoras do Brasil na era PT se levarmos, por exemplo, o IDH em conta?

Entre 2000 e 2013, o crescimento do IDH brasileiro foi de 0,67% ao ano, em média – abaixo da média mundial, de 0,74%. Entre 1990 e 2000, o índice havia sido de 1,1%. Na década anterior, de 1,16%. Desde 2008, o Brasil perdeu quatro posições – não porque teve uma redução no IDH, mas porque outros países cresceram mais rápido: Irã, Azerbaijão, Sri Lanka e Turquia, especificamente. Na América Latina, o país ficou atrás de Argentina, Uruguai, Chile e Venezuela.

Ficam assim, o Brasil melhorou, como todo o mundo melhorou, ainda que em menor escala.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A mentira do "o Brasil quebrou três vezes com os tucanos".

Por Folha de São Paulo,

Mentira tem perna curta

Há quem ache que mentira repetida à exaustão torna-se verdade absoluta. Há quem subestime a capacidade de reflexão das pessoas repetindo refrões mentirosos como "o Brasil quebrou três vezes durante a época em que o PSDB esteve no poder", nos anos 90. Prefiro outro dito popular, o que diz que mentira em cima de mentira corre, corre, mas não chega a lugar algum com suas pernas desavantajadas. Igual ao Brasil de Dilma Rousseff.
O Brasil verdadeiro sabe pensar por si. Nos anos 1990, o país fez o Plano Real, que levou a inflação de mais de inacreditáveis 900% ao ano para um dígito.

Nos anos 1990, o Brasil instituiu os programas sociais que, junto da estabilização macroeconômica, começaram a tirar milhões de pessoas da miséria, trabalho árduo e longo, continuado pelo PT. O mesmo PT, que inicialmente se opunha e que não via mérito nesses programas, chamava-os de "esmola", como se algo de degradante fossem. Mentira tem perna curta, como eles próprios reconheceram, tacitamente, anos mais tarde.

E a história de o país ter quebrado três vezes? Bem, o Brasil, de fato, quebrou. Mas foi nos anos 1980, uma década antes do que acusa hoje o PT. E não foi só o Brasil. Quebraram também o México, a Argentina e o Uruguai. Foram anos difíceis para os países da América Latina nessa fase em que os regimes militares na região estrebuchavam e a democracia desabrochava.

Quando o Brasil pôde, finalmente, sair da situação de moratória que o impedia de ter acesso aos financiamentos do exterior? Foi nos anos 90, na época de Fernando Henrique Cardoso, o mesmo que o PT insinua ser fantasma do passado.

Foi árduo o trabalho de acabar com a inflação e criar as bases para que a classe média conseguisse se reerguer depois da catástrofe dos anos 1980 e que, assim, fosse ampliada com a inclusão social que melhoraria a vida de milhões de brasileiros. Quando o PT se refere ao país que "quebrou três vezes" fala, na verdade, dos empréstimos do Fundo Monetário Internacional que facilitaram a empreitada.

Primeiramente, em 1998-1999, quando houve a crise da transição para o regime de câmbio flutuante. Depois, em 2001, ano complicado, quando a Argentina quebrou, e quebrou de verdade. Teve de declarar aos quatro ventos e aos seus credores que não tinha mais dinheiro para saldar as suas dívidas.

Ficou sem pagar a dívida durante boa parte do início dos anos 2000. Será que o PT confunde o Brasil com a Argentina? Por fim, em 2002, o Brasil recorreu ao FMI para financiar a chegada de quem? De Luiz Inácio Lula da Silva. O então presidente Lula ficou com 80% dos recursos negociados com o FMI pela equipe econômica de Fernando Henrique Cardoso. Mal-agradecidos os petistas? O leitor que os julgue.

Eis que a perna curta da mentira se cansa, os músculos se desgastam, as cabeças de milhões e milhões de brasileiros que têm de acalentá-la todos os dias ficam cada vez mais indignadas com a desfaçatez de pessoas que fazem troça da inteligência alheia. Da inteligência e do bolso do contribuinte. A mentira, afinal, é estelionato eleitoral.

terça-feira, 2 de julho de 2013

FHC no Roda Viva

Por André,


Após se tornar imortal da ABL e lançar novo livro, FHC esteve pela sétima vez no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Apesar dos pesares, fica evidente que FHC é um intelectual de calibre, tem a fala firme e é uma máquina de referências.

A entrevista é esclarecedora, para FHC, a distinção direita vs esquerda está ultrapassada (só falta a esquerda ficar sabendo disso). Ele não é nem conservador (o presidente citou Burke, para Emir Sader, este deve ser o nome de algum banqueiro) nem liberal, mas se definiu como democrata.

Também rejeitou a pecha de "neoliberal", disse que foi conhecer a escola de Washington muito depois de começar a governar. FHC não sabe ou fingiu não saber que a definição de neoliberal da esquerda é distinta do real significado do termo, para estes o termo faz parzinho com "fascista", "nazista", "reacionário", "burguês" , ou seja, tudo no universo que não fizer parte do universo a própria esquerda.
Quanto aos protestos, falou sobre a importância da interpretação do Manuel Castells. Não por acaso, ele escreveu o prefácio da edição brasileira de “A Sociedade em Rede” enquanto Dona Ruth Cardoso escreveu o de “O Poder da Identidade”.
A partir de 10:05 ele menciona o que o Serra já tinha dito: Os empregos que vem sendo criados são majoritariamente para a faixa até 2 salários mínimos, para salários acima disso, o emprego vem diminuindo. A classe média vem sendo “achatada” e é daí que vem o maior descontentamento.
 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

FHC defende início do julgamento do mensalão mineiro

Por Estadão,

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu nesta quarta-feira, 19, que o Supremo Tribunal Federal (STF) inicie o julgamento do chamado mensalão mineiro, esquema de desvio de recursos públicos que abasteceu caixa de campanha de políticos tucanos locais. Ele criticou o fato do processo do mensalão do PT, concluído esta semana, ter paralisado o País. Para o ex-presidente, isso mostra que ainda não existe "um sentimento efetivo do respeito à lei" no Brasil.

"O Brasil ficou quase paralisado frente a um julgamento quando deveria ser uma coisa normal. Por quê? É que tem graúdos aí sendo julgados. O que mostra que é inusitado. Um país que ainda tem pouco respeito à igualdade, pelo menos perante a lei, não dá. O fundamento da democracia é a igualdade", afirmou o ex-presidente, em discurso na Associação Comercial do Rio.

Questionado se essa critica se estendia ao fato de ainda não ter sido julgado o mensalão tucano de Minas Gerais, FHC disse que suas declarações valem para todos. "Isso vale para todos. Não sou uma pessoa de ficar... Está ou não errado? Não sou juiz. Não sei. Tem que julgar e julgar rápido", afirmou. O ex-presidente também disparou críticas contra o Congresso, a CPI do Cachoeira e a correligionários. Para ele, o Brasil precisa passar por uma "sacudida forte" e que é necessário iniciar um movimento para se construir um país decente.

"Estamos todos vendo que o rei está nu. E temos medo de dizer que o rei está nu. Um dia o povo vai dizer que o rei está nu, e nos enganou. Não vamos nos enganar mais, vamos falar com franqueza, com sinceridade, e assim vamos ajudar a conduzir um Brasil melhor para todos nós", disse FHC, ao fim do discurso.

Posteriormente, ele negou que estava se referindo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alvo de mais uma série de denúncias nas últimas semanas. "Eu não faço insinuações. Quando eu digo, eu digo. Já escrevi uma vez sobre o Lula um artigo com esse título (O Rei está nu), mas não foi agora. Faz oito anos. Agora eu disse metaforicamente. As coisas estão erradas e todos nós estamos vendo. Não foi pessoal", afirmou FHC.

Ao analisar a maneira como o poder público vem conduzindo questões importantes para toda a sociedade, o ex-presidente comparou o momento atual com o período da ditadura militar: "Estamos vivendo de novo como se vivia nos anos 70. Projeto impacto. O governo decide, publica e acabou", criticou o ex-presidente, citando a importância de se debater temas nacionais e dando como exemplo a questão dos royalties do petróleo.

FHC disse ainda considerar falsa a crise entre o Congresso e o STF, por conta da cassação dos mandatos de deputados condenados no mensalão e questões referentes aos royalties do petróleo. "Não há crise nenhuma. Tudo é uma questão de interpretação. Uma vez que o Supremo toma a decisão de suspender os direitos políticos, não há como a pessoa exercê-lo. Agora, eu entendo que se informa à Câmara, que deverá tomar uma decisão formal de levar adiante a execução do caso. Fora disso, acho que é uma tempestade em copo d''água", disse.

sábado, 3 de novembro de 2012

Orfandade política, por Ruy Fabiano

Do Blog do Noblat,

No início da campanha presidencial de 2010, o então senador Sérgio Guerra, numa entrevista à revista Veja, declarou que “o Serra está à esquerda do PT”.

Lula, antes, havia dito que o Brasil havia evoluído politicamente, pois todos os candidatos à presidência eram de esquerda. O fato de, na sua ótica, não haver na disputa nomes do campo conservador representava uma “evolução”.

Essa tem sido uma anomalia reincidente desde o início da redemocratização: considerar que a presença de forças conservadoras representa um retrocesso democrático.

É exatamente o contrário. O que caracteriza a democracia é a presença, com perspectiva de poder, de todas as forças que compõem o arco político-ideológico da sociedade. E a sociedade brasileira, segundo reiteradamente atestam todas as pesquisas comportamentais, é em grande parte conservadora.

Não é à toa que partidos e candidatos, no curso das campanhas eleitorais, cumprem um ritual coreográfico contrário às suas agendas doutrinárias, visitando igrejas, confraternizando com lideranças religiosas, participando de cultos aos quais são indiferentes ou mesmo profundamente críticos.

Trata-se de uma mimese dos candidatos com o único sentido de iludir o eleitor. Fingir que abraçam e defendem valores que, no entanto, abominam e contra os quais conspiram.

Por que o tema do aborto, nas eleições presidenciais, provocou tanto desconforto em Dilma Roussef? Simples: ela sabia que sua verdadeira opinião, gravada em vídeos que circulavam na internet, não correspondia à da maioria do eleitorado ao qual pedia votos. Foi preciso então que se manifestasse em sentido contrário, negando o que já afirmara reiteradas vezes.

Idem a questão do kit gay na campanha de Fernando Haddad, à prefeitura de São Paulo.

Tanto Dilma quanto Haddad sabem, pois conhecem as pesquisas, que a maioria do povo brasileiro é contra ambas as iniciativas. Não cabe aqui analisá-las.

Importa registrar que são repudiadas pela maioria da sociedade. Como não há voz partidária que se oponha a esses temas, os próprios mentores daquelas propostas incumbem-se de desmenti-las ao público, sem prejuízo de, depois de eleitos, as implementarem.

Em suma, a esquerda assume o discurso que, em circunstâncias normais, deveria caber aos conservadores.

O PSDB padece de uma esquizofrenia, que o tem levado a sucessivas derrotas: quer se opor ao PT com a mesma agenda do PT. Não conseguirá. O discurso de esquerda, no Brasil, já tem dono.

Os tucanos querem os votos conservadores, mas não ousam assumir, mesmo parcialmente, suas propostas, pelo temor – já uma paranoia – de vir a ser chamado de “direita”.

O resultado é que não ganham os votos da esquerda – hoje quase monopólio do PT – e deixam de ganhar votos no campo conservador. Em São Paulo, historicamente, um terço votava no PT, outro terço no PSDB e o terço restante decidia a eleição.

Celso Russomano, que chegou a ostentar mais de 45% nas pesquisas, perdeu porque não resistiu à desconstrução moral que tucanos e petistas lhe impuseram – e que se encaixou no seu breve currículo político.

Mas seus votos não migraram para nenhum dos dois: Haddad foi eleito com pouco mais de um terço dos que estavam aptos a votar; Serra ficou abaixo do terço histórico - e o restante não votou em ninguém.

São órfãos políticos. Fernando Henrique disse que o PSDB precisa se renovar. Não se trata, porém, de providenciar candidatos mais jovens. Se estivesse no lugar de Serra, com o mesmo discurso, um candidato com metade de sua idade, seria derrotado.

Em política, o novo não está na idade. Nero, com trinta anos, tocou fogo em Roma; Adenauer, com noventa anos, reconstruiu a Alemanha pós-Hitler. Sem falar em Churchill, De Gaulle ou mesmo Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, arquitetos da redemocratização brasileira, todos mais que septuagenários quando protagonistas de mudanças históricas.

O que importa é o discurso programático. Enquanto o PSDB insistir em ser o PT, em estar à sua esquerda, não passará ao público uma mensagem alternativa, nem muito menos convincente.

Será refém do discurso do adversário e de uma agenda que já tem dono. É preciso audácia para quebrar paradigmas. Vejamos se os tucanos (ou algum outro partido) a terão. Assunto e eleitor não lhes faltarão.