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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Finalmente Pondé retorna com uma boa coluna: "Floquinhos de neve no metrô"


Floquinhos de neve no metrô - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 13/08

Não esperem nada da linha verde, a salvação virá da azul e da vermelha


Outro dia eu conversava com um amigo meu, médico homeopata, e ele, num arroubo sociológico, afirmou: “Não esperemos nada do pessoal da linha verde, a salvação virá das linhas azul e vermelha!”

Para quem não conhece o metrô de São Paulo, as linhas estão divididas por cores, como é comum se fazer pelo mundo afora. Quando meu amigo fez esse comentário, me chamou a atenção o caráter absolutamente científico da sua empreitada: havia algo de um espírito sociológico selvagem na sua fala. 

Eu sei que a linha amarela ficou de fora dessa sociologia. Vou ser fiel à minha fonte e nada direi acerca da linha amarela, mas suspeito que pelo menos parte dela cairia na classificação da linha verde.

Devo esclarecer o contexto da conversa em que surgiu essa observação fundamental acerca de nosso futuro. Falávamos de um certo sentimento de falta de esperança, não só para com o Brasil, mas para com nosso mundo ocidental –tema já banal. O resumo era o termo “snowflake”. Você conhece?

O termo é muito comum na Inglaterra. A tradução é floquinho de neve. A expressão é usada para designar pessoas que se ofendem facilmente. Como caráter epidêmico, é usado para descrever gente que, a partir de 2010, virou adulto jovem. Qual a relação entre a linha verde do metrô e a personalidade “snowflake”?

A linha verde corre, em grande parte, pela zona oeste e avenida Paulista –que, por sua vez, corre da zona oeste em direção à zona sul (e vice-versa, claro, não quero ofender ninguém!). Atende, portanto, em grande parte, a uma população floquinho de neve. 

Sei que há nessa afirmação muito de uma generalização selvagem. Mas o que seria da sociologia sem uma razoável dose de generalizações selvagens? Nem o velho Marx ficaria de pé.

A linha verde do metrô (pelas regiões que percorre) serve como metáfora de gente que perdeu um pouco a noção de como a vida é, devido às garantias materiais com as quais vive. Tipo: você nasceu com suíte para você desde bebê, logo, você acha que suítes deveriam ser um direito de todo cidadão.

A linha verde aqui, e sua “zona oeste paulistana”, representaria, em grande parte, o pessoal que acha possível salvar o mundo com alimento orgânico produzido na sua varanda. Ou gente que sofre de “síndrome traumática Trump” (nova síndrome descrita entre pessoas que nunca lavaram um tanque de roupa suja ou um banheiro na vida). Essa síndrome, de fato descrita nos EUA, é apenas um exemplo da condição floquinho de neve.

Gente assim se ofende se você a convida para jantar e oferece frango. “Seu frango me ofende”, diria um floquinho de neve.

Já as linhas azul e vermelha representam, nessa generalização sociológica selvagem, a moçada que cresceu com um banheiro para dez pessoas em casa. 

Suspeito que uma situação como essa educa mais do que dez anos de aulas de felicidade, autoestima e empatia nas escolas. Uma fila no banheiro, de manhã, em casa, é mais poderosa, no sentido civilizador, do que escolas que ensinam respeito às diferenças. À medida que o mundo vai ficando confortável, vamos perdendo a forma.

Pelas regiões geográficas que essas linhas percorrem (zonas norte, leste e sul profunda), elas seriam a metáfora de gente que não perdeu (ainda) a noção da realidade. Sabe o quanto as coisas custam, e que, normalmente, você sangra até morrer sem conseguir a maior parte delas. Acho que o “horror ao sangue” que marca a moçada na linha verde representa a perda dessa noção.

Uma das razões que me leva a suspeitar da chamada “esquerda” é que, em vez de enxergar os danos inexoráveis que a riqueza instalada está causando às pessoas, ela (à semelhança de seu profeta maior) acha que a solução é universalizar essa riqueza instalada, declarando que suítes devem ser um direito de todo cidadão. E mais: que as suítes devem cair do céu.

Portanto, voltando ao meu sábio amigo, não esperemos nada da linha verde. Quem salvará o mundo é o pessoal das linhas azul e vermelha porque, sangrando todo dia, eles ainda mantêm uma mínima lucidez em meio a esse parque temático que o mundo virou.

Eis um dos maiores paradoxos da condição humana: devemos fugir do sofrimento, mas, quando conseguimos, viramos floquinhos de neve. 

Eis um dos maiores erros dos utilitaristas ao determinarem que gerar felicidade em larga escala seria nossa “salvação”. Pelo contrário, a lucidez parece continuar habitando o território da dor. Esse fato essencial nenhum autor de autoajuda ousa enfrentar.

Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Dennis Prager e a era do sentimentalismo, por Alexandre Borges


"Há quarenta anos eu pergunto a estudantes: se você estivesse vendo seu cachorro e um estranho se afogando numa praia, quem você salvaria primeiro? Um terço salvaria o próprio cão, um terço o estranho e o resto não consegue decidir.

Um neurologista de Stanford fez um experimento com 500 pessoas, perguntando a cada uma se um ônibus fora de controle estivesse quase atropelando seu cachorro ou um estranho, qual dos dois você salvaria? A grande maioria responde: “depende da pessoa”. Se fosse um amigo ou parente seria ele, mas um completo estranho seria atropelado enquanto o cão seria salvo para 40% dos participantes.

Outro eminente sociólogo fez um estudo, publicado no NYT, para avaliar o entendimento da moralidade e da ética pelos jovens americanos de 18 a 23 anos. O autor do estudo ficou desapontado com os resultados. Dois terços dos jovens se mostraram totalmente incapazes de sequer entender como aplicar moral e ética numa determinada questão ou problema, mesmo dirigir bêbado, trair outra pessoa ou fraudar um exame na universidade. Quase todos diziam, basicamente, que moral é apenas uma questão de opção individual e “o que é certo para você pode não ser certo para mim e vice-versa” e que “moral é o que seu coração diz que é certo".
Precisamos voltar a ensinar algo que foi tirado das escolas desde os anos 60, que é entender o valor da vida humana e do papel da moral e da razão nas nossas escolhas.

Há um conflito claro entre valores morais, a razão e o sentimentalismo em várias situações na vida. Eu amo meus cachorros, mas há um imperativo moral superior que manda salvar o estranho antes.

Em 2011, uma família estava numa praia da Califórnia quando seu cachorro foi levado pela correnteza. O rapaz de 16 anos, a despeito das ondas de mais de três metros, se jogou no mar para tentar salvar o animal e sumiu. Seus pais ficaram desesperados e foram ao mar tentar resgatar o filho e também morreram afogados. Dessa família agora só sobrou uma menina. O cachorro voltou nadando para a praia.

O que levou o rapaz a se afogar? Ele agiu baseado em sentimentos, não na razão. Hoje infelizmente estamos falhando em ensinar aos nossos filhos o papel dos sentimentos na determinação das nossas escolhas e ações na vida.

Há alguns anos, entrevistei uma estudante sueca no meu programa de rádio e perguntei se ela tinha uma religião, ela disse que não, então quis saber como ela decidia o que era certo ou errado e ela respondeu: "ouço meu coração”.

Sou judeu e desprezo nazistas, mas os nazistas também desprezam judeus. Se você tem uma sociedade baseada em sentimentos, e todos os sentimentos são válidos, como posso afirmar que meus sentimentos de repulsa são superiores aos do nazista em relação a mim?

Uma vez, quando tinha 7 anos, estava numa aula de judaísmo na escola e o rabino chamou a classe para fazer as orações. Eu levantei, fui até o rabino e disse que não estava no clima de rezar. O rabino me olhou, coçou a barba, depois virou para a turma e disse: “Dennis não está no clima de rezar. E daí?” Foi uma das grandes lições morais que eu recebi na vida, ali entendi que minhas emoções não valem mais do que fazer o que é moral e certo.

Se alguém naquela família da Califórnia tivesse explicado ao rapaz que, mesmo amando seu cão, ele não deveria colocar a vida em risco para salvá-lo, a família inteira estaria viva hoje. Por mais triste que seja perder o cão e depois ter que comprar outro, a menina que ficou com o cão não terá como repor o pai, a mãe e o irmão.

Estamos vivendo a Era do Sentimentalismo.

Pessoas e nações estão sendo guiadas apenas pelo sentimentalismo e não pela moral ou pela razão. O coração está vencendo o cérebro.

Houve um tempo em que os pais ensinavam aos filhos objetivamente o que é certo e o que é errado. Agora as crianças são educadas apenas para obedecer seus sentimentos e decidir baseadas no que sentem em cada situação. E quando o assunto é sentimento, não há resposta certa ou errada, vale tudo.

Houve um tempo em que nossos filhos eram ensinados a tomar decisões morais, hoje basta fazer o que está no clima, o que tem vontade, é "ouvir o coração". Mandar alguém pensar moralmente antes de qualquer decisão é uma posição antiquada na Era do Sentimentalismo.

Sentir é humano, mas o sentimento não é sempre o melhor guia para a tomada de decisão. Se não há uma moral superior, como diferenciar o certo do errado e como optar pelo certo? Sem um código moral, não há porque para fazer o bem, você vai acabar fazendo apenas o que está no clima de fazer."

Dennis Prager

PS - Esse texto é um resumo livre de alguns artigos e palestras do Dennis sobre o tema.