Mostrando postagens com marcador funk. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador funk. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Revolta popozuda ou ainda sobre Valesca (agora com V)

Por André,

Valesca em aula pública recebendo mais atenção de seus alunos de uma vez do que eu já recebi a carreira toda.

Mais uma celeuma para comentarmos. Mais uma enxurrada de conceitos mal-definidos e opiniões que ainda que acertem aqui e ali, erram nos aspectos centrais. Valesca (usei com W no Facebook, meu chapa professô de Fisolofia também, uma confusão só) Popozuda foi citada como "grande pensadora" numa prova de filosofia dum colégio de ensino médio do distrito federal.

Antes de mais nada e qualquer coisa, alguns esclarecimentos que vi poucos fazerem nesse caso:

- NÃO. Nesse caso específico não é uma questão contra o funk. Explico melhor a seguir. Mas meu incômodo com o ocorrido se deve menos ao gênero musical praticado por Valesca e mais à burrice total que serve de invólucro à questão e ao caso. Seguidas as mesmas características, ao contrário do que disse o professor, a questão seria igualmente problemática com Chico Buarque, Gabriel O Pensador ou Gilberto Gil (quem desejar saber minhas posições quanto ao funk, pode conferi-las aquiaqui e aqui). Ou seja, not so fast em culpar o conservadorismo cultural dos conservadores (malditos reaças que apreciam Bach, Beethoven, Mozart, Chopin e tantos outros e cometem a heresia de considerá-los superiores a MC Guime & outros) nesse caso.

- A questão elaborada pelo professor, pedagogicamente falando, NÃO FAZ SENTIDO ALGUM. Não tem valor educativo ou pedagógico algum. Claro que ele poderia, dado algum contexto específico, discutir o papel da imprensa nas nossas vidas, uma questão acerca da moralidade atual ou até mesmo de estética, a partir de uma música tão famosa desse gênero musical tão controverso que é o funk. O problema é que a questão não faz NADA disso! Tudo que ela requer é que você conheça a maldita música e saiba o complemento do trecho citado. Poderia ser um trecho de uma música sacra medieval em latim. Continuaria sendo uma questão pedagogicamente nula. Não há qualquer "ironia", como alegou o professor. O caboclo errou feio aí. [Confira o próprio em entrevista a Ricardo Boechat revelando suas motivações com a questão].

Como disse ao amigo Octávio Henrique quando este afirmou que me desafiaria nessa minha interpretação dos fatos, o que me incomodou no imbróglio todo foi, em primeiro lugar (e talvez apenas isso - repito, nesse caso NADA há de crítica ao funk) mais uma evidência do nosso zeitgeist: um relativismo radical e escabroso. Todo mundo é pensador, todo mundo é grande pensador, todo mundo é músico, tudo é arte, tudo é cultura. Tudo é tudo. Nada é nada. Tudo é nada E, é claro, quem discordar é fascista (não se trata de uma hipérbole aqui, diga-se de passagem) - e nesse caso, o relativismo é misteriosamente esquecido, quem discordar é absolutamente fascista, e não relativamente. Ou é sexista e preconceituoso (como alegaram o professor e Ricardo Boechat). 

O mesmo Octávio Henrique escreveu um texto comentando o caso: "O automatismo revoltoso dos conservadores brasileiros: um dilema popozudo" onde sou mencionado, mais especificamente em meu comentário curto ao caso no Facebook.

No meu entender, com as informações disponíveis até o momento, a única postura possível é aquela. Se Valesca é uma "grande pensadora", o que o professor Antônio é? Mais que um "grande pensador"? E um Aristóteles, um Tomás ou um Kant? São ultrapensadores? O que seria isso? O prof. Antonio é menos que um "grande pensador"? Se menos, acho que o professor não está cumprindo um papel tão essencial assim. Melhor ficar com a grande pensadora Valesca, é praticamente gratuito. Menos um cargo e menos um ônus ao estado do Distrito Federal. Claro que o "demitir" foi apenas um verbo escolhido a dedo pela ridigez, funcionários públicos não são demitidos.

E não é preciso relativizar ou suavizar a conceitualização de "cultura" ou "pensador" (se Emir Sader é, por que Valesca não poderia ser também? E não me obriguem a responder isso, não sei se seria capaz). É claro que uma definição lata de cultura deve ser levada em consideração em muitas das vezes. É claro que, antropologicamente falando, tudo que é sistematicamente produzido e manifestado por seres humanos é cultura, e também tudo que ficará para a posteridade (será que "beijinho no ombro" ficará para posteridade enquanto música? Ou apenas enquanto fenômeno cultural antropológico?). Ninguém precisa se tornar relativista para aceitar isso. David Hume - filósofo escocês de matiz cética, aliás, teve um insght muito interessante em seu ensaio sobre o gosto: não pelo fato do gosto ser subjetivo, que ele não pode ser melhorado. Se você nunca ouviu um vasto repertório musical, mas já ouviu funk e gostou, nada te impede de estudar teoria musical, história da música e outros estilos e concluir que uns são melhores que outros.

Mas reitero: a questão é menos os dotes musicais de Valesca e do funk como um todo e mais o imperativo (!) relativista radical da nossa época. Provavelmente serei acusado de neocon por isso, mas não posso deixar de dizer que essa discussão passa SIM pelo debate esquerda e direita e passa sim pelo famigerado marxismo cultural. Ninguém sai por aí equiparando Locke a Sader e Valesca a Mozart da noite para o dia.

Por trás dessa discussão há um debate implícito que é o do assalto ao cânone. Debate este que já ocorreu nos EUA e que foi pautado e ganho pela esquerda americana (a esquerda americana é o inimigo, como diz o amigo Alexandre Borges). Lá pelos idos da década de 70 e 80, os filhotes de Frankfurt passaram a atacar sistematicamente nas universidades os cursos voltados ao estudo de Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomás; Shakespeare, Jane Austen; História da Europa e da América. Em suma: um ataque à cultura ocidental. Todos esses filósofos e grandes autores da literatura universal são brancos heterossexuais machistas sexistas racistas e não merecem tanta atenção assim. Centenas de cursos de geografia lésbica, literatura homo e religiões africanas comparadas devem ser instituídos e obrigatórios porque estes últimos têm os mesmíssimos estatutos éticos, epistemológicos, estéticos, lógicos e históricos dos primeiros.

Roger Kimball documenta isso com maestria no seu "Os Radicais nas Universidades". O debate já passou, a New Left já venceu e cá estamos, discutindo em vão, com unhas, dentes e hormônios.

George Orwell afirmou certa vez que dizer a verdade, em certas épocas, é um ato revolucionário. Estamos aqui provando essa afirmação. Se engalfinhando publicamente pra bater o martelo se é ou não um absurdo uma letra de funk numa prova de Filosofia e se Valesca é ou não uma grande pensadora, média pensadora em vez de discutirmos a Metafísica de Aristóteles.


P.S.: não sou o sujeito mais interessado em discutir questões pedagógicas, mas uma crítica que sempre teço ao ensino de filosofia no Brasil é a precariedade dos colegas que ministram as aulas, muitas vezes eles próprios não fazendo a mais remota ideia do que a filosofia realmente trata.

Se quiser comprovar isso, façam um exercício simples: parem alguém na rua ou perguntem para alguém iletrado o que é filosofia ou do que ela trata. Além de obter uma resposta distinta de cada um, você observará os mais altos impropérios e as mais variadas simplificações: "filosofia é pensar", "filosofia é refletir", "filosofia é falar (mal) de religião", "filosofia é debater", "filosofia é dizer coisas óbvias de maneira difícil", "é aquele negócio que não serve pra nada".

Abrindo minhas aulas de introdução à filosofia costumo citar isso e dizer que JAMAIS culpo os falantes. Provavelmente tiveram poucas (ou nenhuma) aulas de filosofia, aulas ruins e professores que alimentaram essas visões equivocadas. 

Citando a grande Valesca e suas letras profundas numa avaliação, esvanecer essa imagem perturbadora da Filosofia é praticamente impossível. Quando o professor Antonio cruzar com alguém que acha que Filosofia "não serve para nada", espero que ele não reclame.


Dica para a próxima aula do professor. Análise sintática dessa poesia lírica de Valesca Popozuda (se algum aluno não quiser realizar a atividade é claro que ele é machista, racista e classista):

domingo, 12 de janeiro de 2014

Ainda sobre funk

Por André,

"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário."
George Orwell

Comentei ontem o veto do prefeito Haddad ao projeto que previu proibir bailes funk, o amigo Flavio Morgenstern fez o mesmo, só que com a maestria que lhe é característica. Quero retomar o tema para fazer mais alguns adendos de ordem filosófica e antropológica.

O especialista em música Régis Tadeu participou de um "debate" sobre o funk com as "Tequileiras" e com "MC Rodolfinho" num programa da Redetv. Não conheço o trabalho de Régis, mas o sujeito claramente é um entendedor do assunto música, tanto do ponto de vista técnico quanto histórico, ele segue o estilo "jurado linha-dura", marrento, exigente e de poucos sorrisos, esse é o estilo que ele faz quando trabalha como jurado no show de calouros do Raul Gil (ele é o Simon brasileiro do British Got Talent - a plateia vaia, xinga, mas os candidatos entram lá para impressioná-lo e saem de lá felizes quando recebem elogios dele). Régis é dono de um acervo pessoal de mais de 2.000 discos, certamente um estudioso da matéria.

Pois bem, ao "debate":


Vamos ignorar a total e completa falta de articulação e capacidade de argumentar dos convidados e partir para o que interessa. Após muito esforço, o que sobra dos "argumentos" em defesa do funk?

1) "mas as pessoas gostam" ou "temos público" - subjetivismo coletivo.

Isso certamente é verdade, mas de forma igualmente certa não depõe em favor da beleza estética do funk. Aliás, qualquer manifestação artística que precise recorrer ao apoio da voz popular, como se a Beleza/Arte/Cultura fosse algo decidido por maioria de votos, está num péssimo caminho.

Ademais, a maioria numérica das pessoas já gostou de muitas coisas admitidamente ruins. Por que no caso do funk isso serviria como critério de prova?

2) subjetivismo individual: "essa é a sua opinião, eu tenho a minha".

Num nível ainda inferior ao 1, apela-se ao puro sentimento individual de que sua opinião própria, mesmo que desprovida de argumentos sólidos, traz algum significado positivo à discussão.

É um argumento "imbatível", porém aplicável a QUALQUER coisa! Alguém que afirme que matar judeus é moralmente justificável porque estes são judeus não pode se defender da sua afirmação alegando que esta é apenas "sua" opinião e ponto final. O subjetivismo nada prova e legitima qualquer coisa.

3) apelo ao sensualismo e estetismo rasteiro.

Esse é um argumento com que os 'intelectuais' costumam flertar bastante (impossível não me remeter ao texto de Alexandre Borges "Mais uma jabuticaba brasileira: o sociólogo de entrevista" - 99% da classe intelectual "defensora" do funk é oriunda de alguma área das humanidades, cheio de fala malemolente e teorias mirabolantes - mas quantos experts em música do gabarito de Régis são convidados a opinar?).

No fundo, o funk é "lindo" porque é "agradável" aos olhos/ouvidos de alguns que o veem/ouvem. Por que é agradável? Porque ativa as áreas animalescas, do prazer sexual, daqueles que o assistem - ou tem, ou alega-se ter, uma "batida" agradável. Como os que assistem são, usualmente, pobres, é natural que o revolucionário que afirmar a verdade em duas frases ganhará uma empolada crítica dos intelectuais de boteco de plantão e causará críticas do tipo "fascista", "nazista" e "reacionário" aos que ousarem criticar o sensualismo que causa prazer nos pobres.

Hipnotismo sensualista
Está implícito no argumento que o funk não é grande coisa mesmo. Provavelmente não é belo nem possui qualquer outra virtude estética. Mas é agradável aos sentidos e nada mais importa. É a apoteose da sensação. Qualquer um deveria ver problema nisso, pedófilos sentem-se bem ao estuprar crianças, nazistas sentiam-se bem ao matar judeus. Desde quando o "sentir" pode ser critério racional para alguma coisa? Desde Aristóteles que sabemos que agir de maneira correta, isto é, moral, é justamente, não dar vazão às nossas "inclinações".

O defensor desse argumento é o mais perigoso de todos. É um "Stalin filosófico". Para ele as coisas não guardam qualquer valor por elas próprias, só o que importa é o que as pessoas depositam nela (que pode ser algo bom, algo ruim, hoje algo bom e amanhã algo ruim e assim sucessivamente). Se todos gostam, é bom.

Se você é incapaz de notar como esse argumento poderia municiar simplesmente QUALQUER coisa, inclusive, por exemplo, o nazismo (não, eu não estou comparando o funk ao nazismo, apenas mencionando que o argumento utilizado para defender um poderia tranquilamente ser usado para defender o outro), você está em sérios problemas.

MC Rodolfinho é quase um filósofo pós-moderno: é relativista, sensualista e adepto do estetismo rasteiro que denuncio aqui, quando Regis afirma que ele é destonado, o MC replica "eu não acho". Oras, estar fora do tom não é uma questão de "achar ou não achar", é um dado objetivo da realidade teorizado pela análise técnica da música.

--

Que um certo grupos de intelectuais está empenhando em avançar contra a realidade ostensiva e pragmaticamente desde, no mínimo, a década de 60, é evidente. Mas pergunto aos mais desavisados que podem não ver "nada demais" em toda a história: se sabidamente o funk é esteticamente ruim e também é ruim do ponto de vista estritamente técnico da teoria musical, qual o interesse subjacente dos sociólogos e "senhores das humanidades" (mesmo que, muitas vezes, as letras de funk tenham teor machista e de "ostentação" - coisas que deveriam deixar a intelligentsia esquerdista de cabelo em pé) em defender o ritmo, senão algum ardil puramente ideológico?

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O baile funk do Haddad

O baile funk do Haddad

A defesa do funk e seus ardis

Por André,

Me surpreende uma declaração do prefeito Fernando Haddad acerca de seu veto à lei que proibiria os "proibidões". Segundo o ilustríssimo prefeito:

“funk é uma expressão legítima da cultura urbana jovem”

O que a declaração de Haddad revela? Que todos que forem contra a utilização de espaços públicos para realização de bailes funk são contra a expressão de uma "cultura urbana jovem". Malvadões demais, não?

Ao que parece já existe lei que preveja a proibição de eventos do tipo em espaços públicos. O caso é mais sério do que parece: um largo espaço é monopolizado, utilizado para emissão de som alto que vara a madrugada, consumo ostensivo de drogas, ocupação do espaço de entrada e saída de veículos etc. etc. Que o caso se enquadra num típico caso de "perturbação da ordem pública" é evidente a quaisquer olhos que repousem sobre a questão. 

Contudo, como tudo que envolva a "defesa" de certas minorias nos dias de hoje, a questão está envolta por um espesso véu ideológico. Segundo os experts de plantão, todo o ódio da classe média fascista contra o funk é explicado porque este representa a "felicidade" do pobre. Será mesmo?

Mais uma vez a visão desses intelectuais volta-se para a lua em vez da terra. Será mesmo que o funk representa a ~felicidade dos pobres~? Todo pobre aprecia o som alto e as letras poéticas na porta de suas casas por toda uma madrugada? Ou seriam essas explicações apenas a tentativa de CRIMINALIZAR não o funk, como alega a intelligentsia, mas justamente quem simplesmente não aprecia o estilo?

Pois as explicações e justificativas dão a entender que apenas quem é contra a "expressão de uma cultura urbana jovem" ou quem é "contra a felicidade dos pobres" não gosta de funk e quer criminalizá-lo. A imaginação totalitária dessas pessoas não conhece limites. Que tal simplesmente ser um barulho incômodo, como qualquer outro? Que tal uma simples perturbação da ordem pública, como qualquer outra?

Muitos poderão alegar que tais acusações só recaem sobre o funk porque ele "é de pobre", de "favelado" etc, não atinge outros tipos musicais que até falam de sexo ou drogas. Porém, você já viu (e mesmo que tenha visto, pense na frequência) alguma orquestra fechando vias públicas para se apresentar? Já viu um monte de gente de meia-idade sentada no asfalto, impedindo o tráfego, ao som de uma MPB alta e "nervosa"? E não me falem em falta de espaço, pois o comportamento se observa nos carros individuais de funkeiros. O som ser alto e ouvido por todos é condição sine qua non do "processo funkeiro". A coisa é toda construída para ser alta e, consequentemente, incômoda.

É evidente que tais acusações recaem sobre o funk porque apenas ele se propõe a gerar tais incômodos. Desconheço gente que tenha sofrido algum caso semelhante devido à truculência do maestro João Carlos Martins em ocupar por 12 horas uma via pública para executar suas bachianas.

A discussão segue, mas o post tentava alertar contra os ardis dos intelectuais engajados na defesa do funk (procurem um padrão entre eles, pois existe um e ele é muito claro): eles querem pintar uma imagem muito específica e delimitada de quem é "contra o funk" (curiosamente é a mesma que tenta-se imputar a quem defende penas rigorosas para criminosos, o combate às drogas, o porte de armas e outras pautas ditas "reacionárias"). Essa gente é perigosa (literalmente, não é exagero) e está aí para excluir qualquer postura que não seja a sua. Cuidado.