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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Rene Guenon, Michel Houellebecq e o vazio espiritual que aflige a França e o Ocidente por Martim Vasques da Cunha

Por Martim Vasques da Cunha,


RENÉ GUÉNON, O VIRGÍLIO DE MICHEL HOUELLEBECQ?

"Submissão", de Michel Houellebecq, é o verdadeiro livro que explica não só a rendição espiritual da França, mas também de toda a Europa.

Ele é perturbador porque a narrativa segue sua lógica até as últimas consequências e também porque Houellebecq consegue atingir um tom de neutralidade que já existia nos seus livros anteriores, mas que só agora se cristaliza em uma forma que incomoda as nossas sensibilidades ocidentais.

O texto de Stephen Sawyer, com o link abaixo, é o melhor que já li sobre o livro - melhor até mesmo que os artigos escritos por Anthony Daniels (publicado na New Criterion) ou Mark Lilla (New York Review of Books), dois sujeitos que entendem do riscado, mas que infelizmente não citaram uma única vez o autor que surge na conclusão do romance e é uma referência fundamental para se entender as intenções de Houellebecq: René Guénon.

Para quem ainda é novato nessa história da "nova direita", Guénon é um dos homens mais misteriosos do século XX, que, ao diagnosticar o vazio espiritual do Ocidente, resolveu sair do catolicismo, fundar a sua própria maçonaria e, descontente ao cubo, converteu-se ao Islã porque, segundo ele, era a única religião que poderia dar algum sentido para o vácuo existencial que vivia a Europa.

Como se não bastasse, Guénon influenciou outros intelectuais místicos, como Frijoft Schuon, Titus Burckhardt e Martin Lings, que procuraram islamizar o Ocidente por meio da sua "unidade transcendente das religiões". No Brasil, Guénon também influenciou boa parte da obra de Olavo de Carvalho, em especial o formidável "O Jardim das Aflições", mesmo que, anos depois, o filósofo brasileiro tenha reconsiderado boa parte dessa orientação, optando por seguir as descobertas especulativas da obra de Eric Voegelin e outros autores que mostraram que o Islã era uma outra variante da "era ecumênica".

A referência de Houellebecq a Guénon não é aleatória: mostra que ele sabe muito bem que a França e a Europa passam por uma "alquimia da islamização" (novamente, um termo de Olavo de Carvalho, publicado em um artigo que deveria ser dado como cesta básica de sobrevivência) e que o Islã, por mais problemático que possa ser para uma mente secular, é também uma força espiritual avassaladora que dá um sentido a uma existência infeliz (é interessante que a mesma observação é feita por Paul Thomas Anderson em seu filme críptico sobre a cientologia, "The Master". O recado de ambos é claro: seitas são seitas, religiões podem até ser um meio para você perder a sua liberdade, mas elas funcionam e podem até consertar a sua vida).

É esta a incompreensão que assola o comportamento dos estadistas e dos supostos "livre-pensadores" dos EUA e da União Européia: o Islã é uma religião imperial que preenche as lacunas existenciais do Ocidente e aproveita justamente a maior dádiva que o Cristianismo nos deu - a liberdade individual, a raiz do secularismo que separa o Estado e a Igreja - para que ele agremie não só novos fiéis, mas movimentos apocalípticos que não hesitam trazer o paraíso perdido para esta terra devastada, independente do custo de criar, nesse meio tempo, uma "comunidade global de sofrimento".

Com "Submissão", Houellebecq mostra que entendeu isso como poucos escritores, o que o transforma, para a infelicidade de alguns, não em um profeta, como querem pensar aqueles que ainda acham que o futuro pode ser evitado - mas em um visionário, pois o futuro já chegou e, como diria Leonard Cohen, ele é nada mais nada menos que o assassinato de cada um de nós.

domingo, 1 de março de 2015

Um terço dos estudantes muçulmanos do Reino Unido crê que matar em nome da religião é normal. Alguém ainda não acredita em choque de civilizações?

Por André,

Para um terço dos estudantes muçulmanos (pesquisa de 2008, mas talvez justamente por isso seja interessante) apoia a violência em nome da religião.

Outros 27% demonstraram simpatia pelos ataques à Charlie Hebdo. 24% apoia o uso de violência contra quem faz imagens de Maomé. 45% deles (quase metade) afirma que clérigos que pregam ódio contra o Ocidente não estão exagerando ou fora de si. E 11% se dizem simpáticos aos jihadistas que perpetram ataques contra o Ocidente.

Alguém realmente duvida que não estamos passando por conflitos de civilização?

Civilização é também valores. Os valores de muitos muçulmanos, valores estes profundamente atrelados ao Islã, não entram em contradição com os valores do Ocidente?

Críticas sejam feitas à Charlie Hebdo, mas ao menos ela tirava sarro de todas as religiões. Mas algumas vertentes do islã proíbem expressamente a representação imagética de Maomé. Isso não é um claro exemplo de conflito de valores? Enquanto mesmo cristãos suportam os desenhos satíricos, por conciliarem ou ao menos respeitarem a liberdade de expressão, alguns muçulmanos simplesmente não toleram a imagem, pretendendo instalar leis prevendo punição para a blasfêmia em território europeu. Isso não seria um exemplo de manual de choque de valores?

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Vargas Llosa sobre arte e cultura e seu novo livro "La civilización del espectáculo"

Por André,



De entrevista para a revista Cult.

- O senhor diz que, no campo das artes visuais, especialmente depois de Marcel Duchamp e Andy Warhol, não há mais distinção entre o que é canônico e highbrow e o que não é. Tudo tem valor estético, dependendo de gosto. Por que isso representa um problema? 
- "Porque depende do que você entende por arte. Se você acredita que a arte é uma diversão, não há nenhum problema. Você pode buscar coisas que são originais e banais, coisas que são sérias e que não são sérias. Mas se você acha que a arte tem a função muito mais importante que a de entreter e divertir, que é a de preocupar, de te abrir janelas para determinados problemas existenciais, políticos, culturais, filosóficos; então a confusão de valores, de não saber distinguir o que é belo, o que é feio, o que é autêntico, o que é postiço e artificial, sim, é bastante grave. 
Essa é uma conclusão relacionada à cultura, à vida das pessoas, aos valores que regulam a conduta das pessoas. E num campo sobretudo isso é muito perigoso, que é o campo da vida pública, a vida cívica. O espírito crítico desaparece, se deprava, degenera. A liberdade e a democracia sofrem uma ameaça muito considerável. Isso para mim é consequência de confundir arte com lixo, a arte autêntica com a arte dos trapaceiros, dos palhaços.

domingo, 30 de novembro de 2014

Rodrigo Constantino: "Downton Abbey nos lembra que os chacais selvagens chegaram ao poder"


Terminei ontem a segunda temporada da série britânica “Downton Abbey”, que conta a história de uma família aristocrática no começo do século XX, atravessando mudanças sociais profundas desde o naufrágio do Titanic em 1912, passando pela guerra, febre espanhola e revoluções. É simplesmente maravilhosa, fantástica, e a recomendo a todos que ainda não viram.

A sofisticação da série, seu refinamento, com diálogos inteligentes, com atores e atrizes perfeitos em seus respectivos papéis, sem nenhum tipo de apelação para a baixaria, cenas de sexo ou algum subterfúgio moderno para garantir alguma audiência (de má qualidade), tudo isso mostra como ainda é possível valorizar a civilização na era do sentimentalismo vulgar.

Sob o risco de parecer um saudosista que idealiza o passado – algo que definitivamente não sou, mas deixando meu lado “conservador” falar mais alto, a série nos obriga a encarar, com certa nostalgia, “aquilo que se perdeu”, ou seja, coisas importantes que deixamos para trás nas conquistas modernas e democráticas. Quando o médico britânico Theodore Dalrymple lamenta o excesso de sentimentalismo da atualidade, a ideia de que tudo que é “espontâneo” é melhor e mais sincero, podemos entender bem o que ele quer dizer após “Downton Abbey”. Civilização é conter impulsos.

As tiradas da senhora Violet Crowley, personagem de Maggie Smith, são impagáveis. Uma legítima e refinada aristocrata desdenhando tudo que é “tão classe média”. Não dá para comparar suas ácidas críticas à pequena-burguesia com aquelas de Marilena Chaui, por exemplo. A nobreza de espírito de seu filho, o conde de Grantham e lorde Crowley, é digna de admiração. A elegância da filha mais velha, lady Mary Crowley, é impressionante. E a beleza da feminista mais radical, a filha mais nova lady Sybil, que resolve se casar com o motorista, é um espanto.

Por falar em feminismo, um parêntese: que saudade da época em que a luta pela liberdade da mulher era por direitos básicos e legítimos, como se casar por amor e escolher sua profissão, e não o reclamo infantil de hoje em nome do “direito” de colorir os cabelos do sovaco ou ter a perna cabeluda. O que aconteceu com o movimento feminista? Excesso de conquistas? Fecho o parêntese.

Do lado dos criados, também vemos a elegância, a postura nobre que não depende necessariamente da classe, o senso de dignidade por exercer sua função com esmero, o que dava sentido a suas vidas. A figura de Charles Carson, o corpulento mordomo cioso de suas tarefas, até para além do limite do razoável, é um toque especial na série. Um obsessivo que mede com régua a distância entre os pratos e talheres, pois é preciso colocar um pouco de ordem nesse mundo caótico.

Enfim, não vou me alongar na série em si, até para evitar “spoilers” para quem ainda não a viu. Digo apenas que vale muito a pena investir seu escasso tempo nela, pois nos remete a um passado nem tão distante assim, em que certas coisas tinham mais valor, que a honra e a dignidade eram fundamentais, que tudo não se resumia apenas ao objetivo animalesco de sobreviver e ponto, ou fazer o que desse na telha como se fosse o máximo.

A série, assim como o livro Gattopardo, de Lampedusa, nos mostra o lado ruim da chegada dos chacais e hienas ao poder, ou seja, o que perdemos quando a vulgaridade se impôs pelo peso numérico. Nelson Rodrigues, colocando em termos mais diretos a teoria do filósofo espanhol Ortega y Gasset, dizia que os idiotas se descobriram em maioria e resolveram enaltecer a própria vulgaridade, na “revolução das massas”.

Por falar em Lampedusa, segue, para finalizar, um texto que escrevi para a revista Voto com base em seu excelente livro:
Os vulgares no poder


Não sou um saudosista e jamais idealizei o passado. Longe disso! No mais, acredito que todo saudosista costuma se imaginar como parte da aristocracia no passado, nunca como um dos plebeus, cuja vida era dureza. Dito isso, parece-me inegável que algo se perdeu nessa transição da nobreza no poder para as democracias populares modernas. As conquistas, em minha opinião, compensam de sobra as perdas. Mas estas existem, principalmente se levarmos em conta as promessas anteriores às mudanças. E ao ler o excelente livro O Gattopardo, de Tomasi Di Lampedusa, essa é a sensação que fica.

O livro, único romance escrito pelo italiano, ele mesmo de família nobre, retrata com ares autobiográficos a decadência da nobreza siciliana, durante a revolução liderada por Garibaldi em meados do século XIX. O Príncipe Fabrizio Salina, personagem principal, encarna o pessimismo de quem “contemplava o ruir da sua casta e do seu patrimônio sem nada fazer e sem nenhum desejo de remediar o desastre”. Ele sabia que as mudanças em seu tempo eram inevitáveis. E, com um misto de desprezo e curiosidade, ele observava tudo de cima de sua arrogante sabedoria aristocrática.

A passagem mais famosa do livro é também uma de suas mais importantes lições. O sobrinho querido de Don Fabrizio, Tancredi, ao decidir se alistar nos exércitos garibaldinos, explica ao tio sua lógica: “Se nós não estivermos presentes, eles aprontam a república. Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. No primeiro momento, estas palavras ficariam registradas na memória de Don Fabrizio, mas somente com o tempo ele teria uma compreensão mais clara de seu completo significado. A promessa de “tempos gloriosos” para a Sicília já durava algum tempo, e muitos tiros tinham sido disparados por tal objetivo. Mas nenhuma mudança estrutural ocorreria de fato.

As palavras enigmáticas de Tancredi adquiriam maior clareza: “Muita coisa ia acontecer, mas seria tudo uma comédia, uma comédia ruidosa e romântica com algumas manchas de sangue no traje burlesco”. O resultado da “revolução” seria apenas uma “lenta substituição de classes”. E as novas classes que subiriam ao poder não seriam melhores que as antigas; pelo contrário: “Nós fomos os Gattopardos e os Leões; os que vão nos substituir serão pequenos chacais, hienas; e todos, Gattopardos, chacais e ovelhas continuaremos a crer que somos o sal da terra”.

A sensação de asco que o nouveau riche Calogero Sedàra despertava em Don Fabrizio era total, sinal dos tempos modernos. A insensibilidade à graça de objetos ilustres no palácio era diretamente proporcional à atenção ao valor monetário dos bens. Don Fabrizio, de repente, sentiu que o odiava; “era ao afirmar-se dele, de cem outros semelhantes a ele, às suas obscuras maquinações, à sua persistente avidez e mesquinharia que se devia a sensação de morte que agora pesava sobre esses palácios”.

Na resenha que Mário Vargas Llosa fez do livro de Lampedusa, merece destaque o contraste do autor frente ao modismo de sua época, na década de 1950, quando a literatura estava impregnada de ideologia e todos deveriam seguir a posição moral e politicamente correta a favor do progresso da humanidade. As utopias estavam no auge da fama, e muitos sonhavam com as revoluções socialistas que trariam o paraíso à Terra. O livro, com mensagem mais pessimista – ou realista, diriam alguns –, faria um alerta contra o romantismo destes que pensam ser possível atingir alguma perfeição quando se trata de modelo social.

Vargas Llosa resume: “Em vez de um lustroso gattopardo, o símbolo do poder será uma flâmula tricolor. Mas, sob essas mudanças de nomes e de rituais, a sociedade se reconstituirá, idêntica a si mesma, em sua imemorial divisão entre ricos e pobres, fortes e fracos, senhores e servos. Variarão as maneiras e as modas, porém para pior: os novos chefes e donos são vulgares e incultos, sem os refinamentos dos antigos”. E não acabaram quase sempre assim todas as revoluções redentoras, que iriam colocar um fim nas divisões de classes?

Podemos pensar no último trecho de A Revolução dos Bichos, de Goerge Orwell: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”. O destino daqueles que acreditam nas promessas de barbudos “salvadores da pátria” será invariavelmente o mesmo: trocar seis por meia-dúzia na melhor das hipóteses; e por algo muito pior, por causa de sua vulgaridade total, na mais provável delas. Sai um arrogante aristocrata, e entra um metalúrgico ignorante com mais sede ainda pelo poder, mais corrupto ainda que seu antecessor. Os chacais estão no poder.

domingo, 2 de novembro de 2014

Maher segue enfrentando a fúria da militância esquerdista e dos muçulmanos "moderados"

Por André,

Bill Maher e Sam Harris estão sendo vítimas do assassinato de reputações promovido pela esquerda militante e radical, a qual até pouco tempo atrás ambos eram queridinhos. Já tratei do episódio Maher e Harris vs Affleck e por que a associação do Islã e da esquerda radical é estrategicamente interessante, valendo até mesmo sacrificar nomes como o próprio Maher, Harris e Dawkins.

Pois bem, Maher foi convidado para proferir um discurso na Universidade de Berkeley em dezembro. Lembrando que Berkeley é um celeiro do partido democrata, que abriga toda sorte de radical travestido de moderado.

O debate descambou para a legitimidade do livre discurso, que segundo um dos participantes da mesa só é realmente livre se puder ser ofensivo (ponto perfeitamente legítimo).

A participante é uma lunática qualquer que foi pega facilmente. Não existe um bar gay em Gaza, mas existe até mesmo uma para gay em Israel. Isso liquida a questão.


Embora estejamos do lado de Maher nesse debate, é no mínimo interessante vê-lo na condição em que sempre colocou os conservadores que ele gosta de ridicularizar.

Aguardemos os próximos passos da discussão.

sábado, 1 de novembro de 2014

Radicalização muçulmana na Europa: um apanhado geral

Por André,

Chorem os progressistas politicamente corretos como Ben Affleck ou murmurem os "muçulmanos progressistas" como Reza Aslan, ou ladrem os radicais disfarçados de moderados como Mehdi Hasan, os fatos são os que seguem: há um Islã político e radical que não está confinado a cavernas no Afeganistão mas que se encontram no coração da Europa e da civilização ocidental. 

Na Grã-Bretanha:




Na Bélgica:


Na Austrália:

Na França:

sábado, 4 de janeiro de 2014