Olhando para a atualidade do Brasil como um todo, e da política em especial e salvaguardadas as devidas proporções, qualquer semelhança com a prática romana NÃO é mera coincidência. Essa atualidade tupiniquim me remeteu a dois pensadores em especial, os teóricos políticos Nicolau Maquiavel (1469-1527) e Etiénne de La Boetie (1530-1563), tanto um como o outro alertavam de alguma forma para essa política praticada pelos detentores do poder.
Vejamos um trecho da obra-prima de Maquiavel, O Príncipe, em italiano e português:
"Além disso, não se podem com honestidade, satisfazer os grandes sem injuriar outros, mas ao povo sim: porque o intuito do povo é mais honesto que o dos grandes, querendo estes oprimir e aquele não ser oprimido." [MAQUIAVEL, 2007, p. 110 e 111]
O que vem à mente senão o programa de “distribuição de renda” do atual e do passado governo federal? Sem entrar no mérito da eficácia sazonal do programa, a lógica do pensar não se encaixa perfeitamente? Ademais disso, não podemos deixar de citar que muitos estão se vendo num Éden 2.0 graças a facilitação de crédito feita pelo governo para fugir da crise, certamente o príncipe leitor de Maquiável não podia entorpecer o povo com celulares em 24 vezes, televisores em 40 vezes e carros em 80, mas o que a tecnologia não faz por nós, não?
Vejamos agora, uma citação do pensador francês Etiénne de La Boétie:
"Porém essa artimanha de tiranos para bestializar seus súditos não pode ser mais claramente conhecida que através do que Ciro fez com os Lídios depois de ter-se assenhorado de Sardes, principal cidade da Lídia, de ter dominado Creso, esse rei tão rico, e tê-lo levado discricionariamente. Trouxeram-lhe notícias de que os Sardos tinham se revoltado. Sua autoridade os teria submetido prontamente; mas como não queria saquear uma cidade tão bela nem inquietar-se sempre com o mantimento de um exército para guardá-la, descobriu um grande expediente para apoderar-se dela ali estabeleceu bordéis, tavernas e jogos públicos, e proclamou uma ordenação que os habitantes tiveram de acatar. Ficou tão satisfeito com tal guarnição que desde então nunca mais foi preciso puxar da espada contra os Lídios: essa gente pobre e miserável divertia-se inventando todo tipo de jogo, de tal modo que os Latinos tiraram daí sua palavra (...)" (BOÉTIE, 1999, p. 27, grifos nossos).
Enquanto vemos egípcios e tunisianos nas ruas, tentando derrubar o poder vigente (sem entrar em qualquer julgamento de valor sobre o assunto), espanhóis e gregos protestando contra as medidas anti-crise austeras do governo, franceses contra as medidas previdenciárias de Sarkozy etc, no Brasil... vemos pessoas chorando porque materiais de carnaval pegaram fogo, e ainda vemos a prefeitura ajudando-os a recuperar o estrago. O brasileiro se entorpece muito fácil, meia dúzia de mulheres semi-nuas, alguns litros de cerveja, samba ao fundo e pronto! Os problemas se evanescem...
O mundo caminha a passos largos à bancarrota, seja moral, espiritual (num sentido não religioso do termo), políticamente. O Brasil está a galope nessa direção, para nossa infelicidade.
Ah se pensadores como Maquiavel, La Boétie, Orwell, Huxley pudessem analisar o Brasil... teriam de empregar a vida inteira na empreitada de explicar esse país.
