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domingo, 7 de maio de 2017

Entrevista concedida a graduanda e ex-aluna da UNESP sobre Filosofia e Matemática

Por André,


Tive a felicidade de conceder uma pequena entrevista à ex-aluna Thais Vieira, atual graduanda da licenciatura de matemática da UNESP sobre filosofia, matemática e ensino.

Seguem as perguntas:


1 – Qual a sua formação? Quantos anos de experiência você teve ou tem com o Ensino Médio.

Sou graduado e mestre em Filosofia e em 2017 completo 27 anos de idade e 6 de docência no ensino médio (redes pública, privada e centro Paula Souza).

2 – Quais características principais da escola que atuou ou atua? Em que categoria atuou ou atua (efetivo, professor temporário, eventual, etc)?

Já atuei como contratado no Estado e no centro Paula Souza. Atualmente sou efetivo em uma escola particular e na rede pública estadual. Cada escola tinha e tem características muito próprias, que variam de acordo com a região, período letivo e classes sociais do público discente. E, muitas vezes, dentro do mesmo período há variações grandes na qualidade do ensino, a heterogeneidade do público só permite uma análise caso a caso.

3 – Quais livros didáticos e recursos didáticos você utilizou ou utiliza nas suas aulas?

Os livros didáticos oferecidos pelo programa do governo federal que, parte das vezes não foram escolhidos por mim. Grande parte desses livros eram os livros didáticos dos principais autores da área: Gilberto Cotrim, Marilena Chaui e Maria Lucia de Arruda Aranha. Os nomes variam de edição para edição.

4 – Comente sobre sua experiência com congressos, conferências e práticas docentes.

Como mantenho a carreira de pesquisador da minha área tenho uma experiência relativamente grande com esses eventos, mas acredito que não seja a regra do público docente em geral. Costumo participar de congressos, palestras e conferências como ouvinte e como palestrante numa frequência de no mínimo 3 por ano. Mas isso está mais atrelado à minha vida acadêmica que à minha vida docente.

5 – Em sua opinião qual a importância da filosofia na formação do ser humano?

Bem, acredito que seja suspeitíssimo para tratar desse assunto. Todos que desejam possuir uma sólida formação humana (ou espiritual, como dizem os alemães) precisam adquirir uma formação filosófica. Aqueles preocupados apenas com os aspectos práticos da existência não necessitam de uma formação filosófica, mas não sem abrir mão da própria humanidade, embora esse senso tenha se perdido e seja desprezado, muitas vezes, tanto pelos formados em exatas (“humanas é coisa de doido, é blábláblá, é inútil etc”) quanto – por incrível que possa parecer – pelos formados em humanas (“a verdade não existe”, “tudo é uma construção social” etc). Atualmente as bases das humanidades se encontram sob ataque, em xeque ou solapadas.

6 – O que você acha dos conteúdos sugeridos pela BNCC para a matéria de filosofia?

Ruins. Sou absolutamente contrário à BNCC, ela mutila a história intelectual do Ocidente, omite autores, acontecimentos e conceitos fundamentais para uma formação humana razoável. Considero a BNCC uma aberração. Creio que os currículos deveriam ser descentralizados.

7 – Em algum momento, em sua formação na área da filosofia, houve uma interdisciplinaridade com a matemática?

Sem dúvida, o que, aliás, surpreendeu alguns dos meus colegas. Faz parte do currículo dos cursos de Filosofia a disciplina de Lógica, onde há uma intersecção bastante grande com a matemática, não exatamente em seu aspecto aritmético e algébrico, mas em seus aspectos conceituais (conjunto, infinito, dimensões, limites, axiomas, postulados etc). Meu professor de lógica da graduação também é matemático.

8 – Comente sua concepção da relação entre filosofia e matemática.

Costumo afirmar que o mau aluno de matemática será um mau aluno de Filosofia. Os pilares da matemática são conceitos abstratos (números, incógnitas, formas geométricas etc) e os conceitos mais relevantes da Filosofia são igualmente abstratos: Beleza, Bem, Justiça, Verdade etc. As pessoas conseguem pensar num objeto bonito, mas não na Beleza, conseguem pensar numa afirmação verdadeira, mas não na Verdade. Daí que não compreendam a razão de encontrar o valor de uma incógnita ou jamais consigam vislumbrar para que usarão “aquilo” em sua vida prática. Abstrações não fazem parte da realidade visível e o senso comum tende a desprezar tudo que não puder ser submetido a um empirismo rasteiro.

9 – Em sua opinião a história da matemática está relacionada com a história da filosofia? Comente.

Sem dúvida. Os primeiros filósofos foram matemáticos importantíssimos (Tales, Pitágoras), muitos matemáticos modernos também (Espinosa, Descartes, Leibniz) e há um grande retorno à matemática na história da filosofia do século XX (Wittgenstein, Carnap, Quine, Schlick, Russell, Whitehead e outros). As nuances entre Filosofia e Matemática são muito maiores do que imagina o senso comum (que reverbera a oposição artificial entre exatas versus humanas).

10 – Comente se houve algum acontecimento marcante na sua carreira relacionado a interdisciplinariadade de conteúdos.

Na minha carreira intelectual sim, na minha carreira docente não. E isso se deve a duas razões: o nível geral das aulas de ensino médio é baixo e o interesse é pequeno, o que faz com que fique muito difícil chegar nos níveis elementares da própria disciplina, quanto mais níveis interdisciplinares e ainda porque a demanda interessada é muito pequena. Agora, no nível intelectual, as intersecções entre filosofia e matemática, filosofia e física muito me interessam e sempre procuro estar atualizado nessa literatura.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Entrevista sobre o ensino da Filosofia

Por André,

Em entrevista ao 303 Online, o Prof. Mestre em Filosofia e tradutor, André Assi Barreto, conta sua experiência em sala de aula e fala como geralmente é a relação dos alunos com a Filosofia.

“Muitos têm dificuldade em conceber ideias abstratas”

Por Giselle F. Pacheco (graduanda em Letras),



303- Qual a dificuldade em ensinar Filosofia? 


A- Bem, as dificuldades relacionadas ao ensino da Filosofia são, muitas vezes e em certo sentido, penso eu, as mesmas relacionadas ao ensino da Matemática. Tentarei explicar minha posição sobre isso: a Matemática lida com objetos abstratos (número, figura geométrica, etc.), e muitos têm dificuldade em conceber ideias abstratas. Muitas vezes as pessoas falam “Ah, quando eu vou usar isso na minha vida?” ou “Me dê um exemplo concreto”, justamente porque precisam de algo concreto para entender o conceito abstrato que está por trás da coisa. E com a Filosofia penso que seja da mesma maneira, porque ela trabalha com conceitos abstratos, como, por exemplo, a Verdade, o Belo, o Bom... Então é difícil você tratar desses assuntos sem que as pessoas achem que você está falando abobrinha, quando na verdade você está falando de conceitos que não existem no mundo concreto. Ou seja, a barreira a ser transgredida no ensino da Filosofia é a mesma a ser transgredida no ensino da Matemática. 


303- Como você faz para contornar isso?

A- Essa situação, na verdade, é bem difícil de ser contornada, não existe um método ou uma maneira única. Normalmente, procuro explicar com bastante calma, se o problema for o conceito abstrato, embora não seja correto, tento trazer exemplos concretos do dia-a-dia, exemplos da vida cotidiana etc. Assim como na Matemática, quando o sujeito pergunta o porquê dele aprender aquilo e dizemos que ele precisa saber as quatro operações para não ser enganado na hora do troco, para ensinar ética, por exemplo, podemos pensar: dar ou não dar esmola para um mendigo? É uma situação concreta de um problema ético. Portanto, é válido tentar explicar isso com situações do cotidiano ou com exemplos extraídos de livros e filmes. Eu, particularmente, não gosto desse método, faço por necessidade porque a alternativa a isso é a pessoa não entender nada, mas eu penso que deveríamos compreender o conceito abstrato como conceito abstrato, o exemplo prático é lucro. 


303- Como abordar temas políticos em sala de aula?

A- Bem, essa questão de temas políticos é bastante complicada, até porque estamos vivendo o debate do Escola sem Partido, que consiste em o professor abordar temas políticos expondo os dois lados da moeda e nunca tomando partido de um lado ou de outro em termos de ideologia etc. Nesse ponto eu concordo totalmente com o Escola sem Partido, pois eu acredito que se formos, por exemplo, expor o Marx, e ele tem de ser exposto, temos que expor todas as críticas ao Marx que vieram depois dele, que não foram poucas e nem ruins (pelo contrário, foram boas e até agora não chegou a meu conhecimento nenhuma réplica marxista consistente dessas objeções). Temos boas críticas colocadas a respeito do Marxismo e minhas experiências me dizem que elas não são apresentadas no cotidiano da sala de aula (só por “malucos” autodidatas que nem eu e outra meia dúzia). Então você tem toda a apresentação dos conceitos de Marx em História, Filosofia, Sociologia, mas não tem nenhum contraponto e nenhum pensador que tenha dito o contrário do que o Marx disse e que tenha criticado e refutado suas ideias. Ou seja, todo tema político deveria ser exposto, como chamamos na Filosofia, de maneira “dialética”. Você expõe a ideia e sua “anti-ideia”, o que a chamamos de tese e antítese. Se não for desse jeito, você acaba vendendo para o aluno que aquela é a única alternativa disponível. Um exemplo clássico disso, e que não poderia ser mais mentiroso, é que o socialismo é único modelo econômico possível, sendo que o capitalismo também é um modelo econômico possível e disponível (o único, penso eu e todo mundo que entenda a definição de “mercado”). 


303- Qual a importância desses conhecimentos na formação do aluno? 

A- As pessoas acham que podem ficar alheias à Filosofia, que podem viver uma vida sem ter que enfrentar questões postas ou resolvidas pela Filosofia e isso não é verdadeiro. Todo mundo vai ter algumas ideias que são fruto de alguns sistemas de pensamentos, a questão é: você vai ter essas ideias porque as analisou e escolheu as melhores ou você vai ter essas ideias porque você as absorveu da esfera cultural inconscientemente? Ou seja, você vai ter ideias filosóficas, você vai ser um empirista ou racionalista em maior ou menor medida, você vai ter que tomar lados em política. A Filosofia é a “ciência” (usar esse termo é polêmico, mas vale aqui numa exposição curta) que vai te oferecer as ferramentas adequadas para digerir as noções, ideias e conceitos que absorve dessa “atmosfera cultural” a que me referi, e ela é a única que pode e deve fazer isso.



A- Considerações finais 

Minha experiência me mostra que o brasileiro tem alguns problemas com sua forma de adquirir conhecimento. O raciocínio é: ir à escola para saber alguma coisa, para ter algum emprego para ganhar dinheiro. Eu acho essa associação totalmente falsa. Você pode ser muito sábio e não ter dinheiro e isso não é necessariamente ruim. Eu costumo usar a seguinte metáfora: o brasileiro tem com o conhecimento a mesma relação que há entre a árvore de natal e a estrela que vai na ponta. Quando você monta uma árvore de natal, a última coisa que você coloca é a estrela. O brasileiro com o conhecimento é a mesma coisa: primeiro ele quer trabalhar, ganhar dinheiro, construir família, etc., etc., e por último ele vai buscar saber ou conhecer algo (talvez isso tenha a ver com o “imperativo estético” que forma o caráter nacional, conforme afirmam alguns autores como Mario Vieira de Mello e Martim Vasques da Cunha, mas esse assunto é demasiado longo). Isso é totalmente equivocado. Eu penso que todo mundo deveria ter uma cultura geral, independentemente da sua área, cada um com sua especialidade, é óbvio, porém, um engenheiro deve saber quando a primeira guerra mundial começou e terminou e o cara da Filosofia tem que saber o que está acontecendo na Física hoje. Isso não acontece em lugar nenhum, mas no Brasil é mais problemático em especial porque o brasileiro concebe o conhecimento de uma maneira muito instrumental, sempre se trata de conhecer para alguma coisa, seja ganhar dinheiro ou posar de sabichão, mas nunca o conhecimento pelo conhecimento, que é como a Filosofia sempre concebeu as coisas e como os bons intelectuais concebem as coisas. Essa é, penso eu, uma das lições que a Filosofia pode oferecer. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Cursinhos proibirão piadas

Por Folha de São Paulo,

Pergunto:

Se "o mundo é sofrido demais para tais brincadeiras", quais brincadeiras serão aceitas? A resposta típica é: 'aquela que diminui o opressor, não o oprimido'. O que está subentendido aqui é que o caráter emancipatório do humor, seu potencial para libertar as consciências e deixar de ser um instrumento alienador. Só isso já seria motivo de riso¹. Os ideólogos, militantes - alguns preferem a expressão 'idiotas úteis' - em geral não sabem o que estão falando: exemplo claro é que enxergam no humor não uma vontade de aparecer , mas uma vocação ideológica do 'grande opressor', que se manifesta de formas invisíveis e simbólicas, necessitando que nós, não alienados pelo 'grande sistema', tudo confrontemos e combatemos - a similaridade com o 'grande capital' e sua destruição pelas vias da libertação sexual não é por acaso. Ideologias estúpidas - ou esquerdismo em geral - fornecem grandes desculpas para ser um fanático: "Não sou eu que estou exagerando, o sistema que tudo domina e se radicaliza, necessitando de formas cada vez mais radicais de combate." Portanto, quanto mais radical, violento e utilizador de uma argumentação que agrupe o mundo em um único sistema de monopólio (da economia, da política e das consciências) contra a grande ideologia salvadora da humanidade (o socialismo²), mais o ideólogo se achará iluminado, 'salvo' e preparado para desalienar os outros.

¹ O grau de ideologização das coisas beira o ridículo: o humor deixa de ser criticado pela qualidade da piada ou mesmo pela necessidade típica do "engraçadinho" em 'chamar atenção' do público com métodos infantis. O humor é criticado por um motivo não humorístico, tanto quanto se critica o capitalismo pelos motivos não econômicos e destruir as relações sociais - isto é, por ele não permitir a emancipação dos povos e corromper a sociedade, uma idéia (pseudo-)filosófica e sociológica

² Tendo o socialismo milhões de vertentes, métodos e objetivos secundários, apenas esse fato já serve para demonstrar a falsidade do pensamento exposto: não existe uma única verdade nem na boca de quem problema essa verdade.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

sábado, 24 de maio de 2014

Claudio Haddad, doutor em economia pela universidade de Chicago diz que "o objetivo é doutrinar"

Por INSPER,

"Há um movimento atualmente na França destinado a revisar o ensino de economia, que com o tempo foi se tomando distorcidamente anticapitalista. Está sendo difícil na França restaurar o equilíbrio. No Brasil a situação é pior. Aqui o discurso ideológico se mistura com a falta de conhecimento. O resultado é desastroso. É o triunfo de uma concepção de mundo simplista e equivocada. Gostaria de saber quantos desses pregadores leram Marx e Adam Smith no original. Sim, porque tem muito professor por aí que se baseia em textos curtos e apostilados para ensinar. A prova do MEC é um espelho dessa simplificação. O conhecimento verdadeiro consiste em entender realidades complexas, e não em contorná-las com resumos empobrecedores e enviesados." 
A excelente entrevista do doutor em economia que tirou nota mediana em prova do MEC segue no link do próprio INSPER.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Repúdio à nota da APROFESP (associação de professores de Filosofia do Estado de São Paulo)

Por André,

"É preciso ter a mente aberta. Só não aberta demais a ponto do cérebro cair fora"
Carl Sagan

A instituição APROFESP, por meio de seu presidente "Chico" Greter, divulgou nota de apoio ao professor Antonio Kubitschek (o que acha que Valesca Popozuda é grande pensadora), lida por Ricardo Boechat em seu programa na Band News FM.

Na nota, o há mais de 30 anos professor de Filosofia Greter, compara as críticas feitas a Popozuda às acusações, julgamento e condenação à morte do filósofo grego Sócrates (deixo à imaginação de vocês a tarefa de decidir se ele também insinuou que a Valesca pode vir a ter a importância de Sócrates um dia).

Muita gente não acreditou quando disse que o professor Antonio não estava sendo irônico, mas estava a falar sério. Pois é, ele estava a falar sério. Pois é, quem discordar dele é racista e classista. E Ricardo Boechat está de pleno acordo (aquele mesmo que acha que a ação dos Black Blocs não é violenta).

A verdade é que diversas levas de "professores" de filosofia, experientes ou recém-formados, não passam de repetidores de cliches baratos: "ser crítico", "abaixo o sistema" ou "estranhamento" como diz o professor. Mas essas mesmas pessoas repetem esses slogans desde formadas, slogans criados na década de 60. Que crítica é essa? Que crítica é essa que nunca se debruça sobre si? Quantos autores fora do círculo Rousseau-Marx-Bordieu-Foucault foram lidos nos cursos desses professores? Quantos deles foram críticos o suficiente e perceberam que eles próprios estão inseridos num sistema e então questionaram porque leem sempre as mesmas coisas e repetem os mesmos chavões?

É por isso que ninguém leva ciências humanas - mormente Filosofia e Sociologia - a sério. E a essa altura do campeonato nem acho que devam. Quem não leva a si próprio a sério e reduz a si próprio a uma condição menor que a Valesca Popozuda não pode, não deve e não é levado a sério.

E foi exatamente isso que ocorreu nos últimos dias. O comentário que mais ouvi (e concordei) foi "tinha que ser professor de Filosofia" - com o falante provavelmente puxando na memória a imagem do sujeito que fundamenta seu desdém, aquele bicho grilo cabeludo, barba por fazer, que quer mudar o mundo, mas só depois da Coca-Cola e da última capinha do iPhone.

É uma pena que um estudo tão nobre como a Filosofia esteja se reduzindo ao que está em nossa época.

Professor de Filosofia numa aula muito louca por aí.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Professor que citou Valesca como pensadora já sofreu processo administrativo

Por Correio Brasiliense,


Durante a última semana, ele se envolveu em uma polêmica nacional e virou um dos temas mais comentados das redes sociais. Tudo porque formulou uma questão para prova de estudantes do Centro de Ensino Médio 3, de Taguatinga, citando a música da funkeira Valesca Popozuda Beijinho no ombro, considerada um hit do momento. O professor Antônio Kubitschek de Oliveira se referiu à cantora como uma “grande pensadora contemporânea”. Não é a primeira polêmica em que Antônio se envolveu. 
Em 2004, ele foi alvo de um processo administrativo e, com outros sete docentes, acabou afastado do Centro de Ensino Médio 5, em Ceilândia. Ele lembra do episódio de 10 anos atrás e diz que a decisão foi fruto de “perseguição política”. “Nós bolávamos exercícios interdisciplinares e fazíamos debates sobre temas diversos. Entrou uma nova direção na escola, que discordava dos nossos conceitos e nos considerava de esquerda, por isso nos tirou de lá”, relata. Antônio critica aqueles que rejeitam métodos de ensino inovadores. “Temos que nos reinventar para prender a atenção dos alunos. A aceitação do nosso método era tão grande que, quando saímos de lá, os alunos ficaram 22 dias de greve como forma de protesto. Essa foi a prova que tínhamos razão”, recorda-se. 
No mais recente episódio, ele diz que alcançou o objetivo, que era mesmo causar polêmica. 
Extrovertido e benquisto por todos, o mineiro, de 43 anos, é considerado pelos estudantes um dos melhores professores do colégio e defende sua forma de ensinar. Ele acredita que o ambiente escolar é um local em que é necessário suscitar debates sobre temas polêmicos, para que os alunos pensem além do senso comum. “É o papel do professor, ainda mais o de filosofia, estimular os meninos a refletirem sobre a humanidade e sobre o mundo atual”, opina.

Comentários:

Antes de tomar conhecimento dessa informação, escrevi em meu texto que este caso era apenas uma ilustração pública do ataque ao cânone tradicional, dirigido e pautado pela esquerda universitária americana nas décadas passadas.

Pois dito e feito, por trás do que o professor fez, menos na questão em si e mais no contexto como um todo, está implícita a ideia freireana de que "não há saber melhor ou pior, há apenas saberes diferentes", ou seja: entre Platão, Aristóteles, Kant e Hegel e Valesca não há diferença substancial, e postular tal diferença é racismo e preconceito.

Talvez o professor até tenha boa vontade (enfatizo o "talvez", não ponho a mão no fogo pelo sujeito) e queira chamar a atenção para si durante a aula, competindo com celulares e outros aparelhos. Porém, não podemos transformar a Filosofia em conversa de boteco para dar conta que todos sejam capazes de participar. Não podemos "destruir o fundamento da Filosofia", como disse o presidente da Academia Brasileira de Filosofia (não o conhecia e não reconheço a importância de tal instituição, mas esta fala é precisa), pois se até Valesca é "grande pensadora", todo mundo é, todo mundo faz filosofia, perdendo o sentido até mesmo do ensino obrigatório da disciplina, que o professor certamente defende.

Vestir-se de palhaço, contar piada e falar de futebol certamente é um "método" bastante eficaz caso o objetivo seja "agradar os alunos".

Para o mesmo ter sido processado por suas abordagens em aula coisa boa ele não fazia. E isso não tem relação com o fato dele ser "de esquerda" pois o próprio currículo é (marxismo, anarquismo, relativismo cultural são tópicos incorporados ao currículo oficial dos estados, ou seja, assuntos pelos quais os professores têm obrigatoriamente de trabalhar ao longo do ano letivo) "progressista".