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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Os senadores Ted Cruz (republicano) e o socialista Bernie Sanders (democrata) debatem o Obamacare

Por André,

Os mais íntimos dos principais debates americanos sabem que uma das atuais grandes questões americanas é o Obamacare, um programa de natureza socializante. Para nós, brasileiros, seria justo dizer que se trata da tentativa de implementar um SUS americano. Uma das promessas de campanha do presidente Donald Trump foi, justamente, rechaçar o Obamacare e livrar de barreiras as companhias de seguro para que haja mais variação de preço e concorrência.

A coisa toda é cercada por mentiras e pelas marcas do monopólio estatal sobre qualquer serviço: apenas o site do Obamacare custou 1 bilhão de dólares e... não funcionou! Obama prometeu às pessoas de outros programas de saúde e companhias que poderiam manter seus médicos, o que se provou uma mentira. O Obamacare obrigou companhias a aumentar preços e fez com que muitas famílias não pudessem mais frequentar os mesmos médicos.

Em debate recente, o excelente Ted Cruz e o "socialista democrático" Bernie Sanders debateram o assunto:


Um resumo das argumentações pode ser o que segue:

Bernie Sanders:

Quando replicando os diversos problemas no sistema apontados por Ted, disse: "sim, há muitos problemas, todos têm problemas, mas é preciso melhorar".

"A saúde tem de ser grátis porque tem". Não sabemos de onde o dinheiro vai brotar, mas tem.

Ted Cruz:

Cruz, mestre da arte dos debates, argumentou tanto por princípios (o governo é mau administrador, o controle deve estar nas mãos das pessoas e não do Estado, o ACESSO a saúde é direito, não a saúde em si mesma) quando com dados (a ineficácia das medicinas socializadas saudadas por Sanders, a disfuncionalidade do Obamacare etc).

Além disso, Ted mostrou a total inviabilidade econômica das ideias de Sanders:



Esse debate, inclusive, me remeteu a uma notícia tratando do medo de alguns idosos de serem "eutanasiados" na Holanda. Socialismo não significa racionamento de comida apenas, mas racionamento de saúde também:

https://www.facebook.com/aassibarreto/posts/1911630299069890

sábado, 21 de novembro de 2015

Venezuela: pobreza recorde. Bancos lucraram com Chavez. O socialismo segue sendo "deturpado" e segue sendo a distribuição igualitária da miséria

Por Globo,

CARACAS - A pobreza na Venezuela chegou a 73% dos lares do país, constituindo um recorde histórico desde o início das medições em 1975, segundo uma pesquisa divulgada na sexta-feira por três das principais universidades do país. Com inflação galopante, escassez de produtos e variação cambial grande, o país não tem conseguido sair de sua crise econômica.

De acordo com a pesquisa nacional conjunta da Universidade Católica Andrés Bello, a Universidade Central da Venezuela e a Universidade Simón Bolívar em julho e agosto, com 1.500 pessoas, o número de venezuelanos com privação de rendimento saltou de 52,6% em 2014 para 76% em 2015. O sociólogo Luis Pedro España, da Andrés Bello, relatou que 73% dos lares também sofrem.

Segundo España, o salto da pobreza se deve à aceleração da elevação dos preços. As autoridades não divulgam os dados oficiais, mas analistas temem que o número tenha superado os três dígitos.

— A metade dos lares em privação de rendimento diz que compra em mercados populares de inclusão, sinal que vemos como da privação. Sem o abastecimento subsidiado, a fome cresce.

Os lares com privação de rendimento tinham média de 27,3% no segundo semestre de 2013. Em uma pesquisa de 1998, a privação atingia 45% dos lares. No governo de Hugo Chávez, no entanto, a estabilização econômica e um amplo programa de inclusão socioeconômica permitiram que uma parcela significativa das famílias mais pobres saíssem do status de pobreza. No entanto, desde 2014 a situação se deteriora pela política econômica de cessão de importações (gerando escassez) e congelamentos.

Banqueiros venezuelanos enriquecem graças a revolução chavista.

domingo, 5 de julho de 2015

O Estado inchado, descontroladamente inchado, é a causa da crise grega




Quando o primeiro-ministro Georges Papandreou anunciou a dimensão da dívida soberana e as primeiras medidas de austeridade, a Grécia era um oásis. Durante anos, os diferentes governos foram alimentando uma cultura de regalias e privilégios muito acima das posses do país e da realidade dos outros Estados da zona euro. Até às reformas impostas pelo governo grego e pela ‘troika', multiplicavam-se benefícios difíceis de explicar.

No sector público, a contratação de pessoal e o pagamento de subsídios servia para garantir votos. Os políticos habituaram-se a usar o emprego como moeda de troca. Razão de sobra para, nos últimos anos, o número de funcionários públicos ter disparado. Admitidos sob protecção política, muitos não compareciam sequer ao trabalho. Sempre que não era possível proceder a aumentos, os governantes recorriam à atribuição de subsídios.

Desta forma, a Grécia tornou-se terreno fértil de regalias insólitas. Nos transportes ferroviários, vários colaboradores recebiam um subsídio para lavarem as mãos. Em 2010, a empresa somava três milhões de prejuízo por dia. Na companhia de electricidade, o pessoal da manutenção auferia mais por ter carta de condução. Cerca de sete mil funcionários públicos recebiam um prémio por carregarem envelopes. Falar uma língua estrangeira, saber usar o computador ou simplesmente chegar a horas ao trabalho também podia ser motivo de regalia.

Num país onde 7% do PIB é usado em despesas de armamento, os militares e as suas famílias gozavam direitos especiais. Até casarem ou completarem 28 anos, as filhas tinham direito a um subsídio. Os filhos de sexo masculino estavam arredados do privilégio. Uma fotógrafa ‘freelancer', que beneficiou da medida até ao limite de idade, contou ao Diário Económico que usou o montante para comprar um carro.

A Grécia contava 600 profissões de desgaste rápido. Cabeleireiro, músico de instrumento de sopro ou apresentador de televisão eram algumas das ocupações consideradas de risco e, por isso, com direito a reforma antecipada. Mas há grupos profissionais com ainda mais privilégios. Elizabeth Polymerou, advogada, conta que os seus pares estavam isentos do pagamento de IVA. Outro dos grandes desafios do Governo grego é acabar com as "profissões fechadas". Farmacêuticos, advogados, notários, camionistas e taxistas são algumas das classes protegidas por leis especiais, que apadrinham os interesses da minoria instalada. Ao colocar entraves à entrada de novos profissionais, mantêm esses sectores livres de concorrência.

Em meados de Julho, contra a intenção de acabar com este regime, os taxistas fizeram greve durante uma semana, tendo chegado a bloquear os acessos ao porto e ao aeroporto. Nas ruas de Atenas, não se encontrava um único táxi. Quando, através do hotel, tentámos reservar um serviço para o aeroporto, foi-nos pedido 60 euros. Habitualmente, são cerca de 20. Nikolaos Diamantopoulos, desempregado, conta que, apesar das reclamações dos clientes, muitos taxistas usam o carro como se fosse um autocarro: "A meio da corrida, apanham mais pessoas e cobram como se continuássemos sozinhos". Não há reforma económica sem reforma de mentalidades.


Novo pacote de austeridade

Para garantir o pagamento de mais uma tranche de 12 mil milhões de euros a Grécia teve de rever o seu pacote de austeridade: A ‘troika' exigiu novos cortes de despesa e aumento de impostos, até 2016, equivalentes a 28 mil milhões de euros.

- Privatização de portos, telecomunicações e património detido pelo Estado e pelas empresas públicas, avaliadas em 50 mil milhões de euros.
- Corte das despesas militares em mil milhões de euros nos próximos cinco anos.
- Corte de mais de dois mil milhões na Saúde até 2015.
- Redução dos preços regulados dos medicamentos.
- Aumento de impostos para o combustível de aquecimento e para os trabalhadores independentes.
- Redução do número de funcionários públicos.
- Novo imposto solidário para os rendimentos superiores a 12 mil euros anuais, com uma taxa que varia entre 1 e 5% para os altos cargos da Administração Pública central e local.
- Pagamento de imposto sobre o património a partir de 200 mil euros e não 400 mil como até aqui.
- Redução do rendimento a partir do qual se paga impostos de 12 mil para oito mil euros. Excepções para os jovens até aos trinta anos, deficientes e pensionistas com mais de 65 anos.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Alguns elementos do 5º Congresso Nacional do PT

Por André,


Os "Cadernos de teses" do PT causaram um boom nas redes. Me abstive de quaisquer comentários no momento. Tanto porque não sabia exatamente o seu significado mais concreto, a razão dos mesmos terem sido liberados ao público e seu conteúdo assustador, como por exemplo, coisas como a estatização da rede Globo. Um comentário pertinente a esses cadernos podem ser lidos no site Reaçonaria, o texto é de autoria do amigo Filipe Martins.

A ideia que o PT é comunista ou socialista segue sendo objeto de escárnio pois se trataria, mais uma vez, de "teoria da conspiração". A saída pela tangente não engana só os mais inocentes, até críticos ferozes do PT como Marco Antonio Villa acham que o PT não é comunista porque não quer ou não está socializando os meios de produção. É como ver um objeto tal e decidir se o tal objeto é ou não o que se diz que é apenas após uma conferida no verbete do dicionário. Um equívoco pueril.

Se a explicação mais teórica, mostrando que a mudança de estratégia da esquerda revolucionária já se passou e discutir se quaisquer adesões - pequenas ou grandes - ao capitalismo denotam ou não traição da causa é puro engodo, talvez a fala de petistas jurássicos ajude algumas pessoas a entender a questão. O fato do PT não estar enforcando burgueses não quer dizer em nenhum sentido que o partido tenha cedido um milímetro sequer em sua estratégia de poder socialista.

No vídeo acima fica claro que a vertente revolucionária economicista está totalmente superada e que duas palavras costuram praticamente todas as falas: hegemonia e projeto. O que sempre esteve e continua em jogo é um projeto de poder que visa a implementação de uma hegemonia socialista que vai muito além da socialização dos meios de produção.

Emir Sader fala claramente na versão revolucionária gramsciana no início do vídeo: a questão é estabelecer uma hegemonia de valores a ponto até que seus adversários usem sua linguagem, compartilhem os seus valores e estejam encarcerados pelas suas categorias de pensamento. Ter a força de um imperativo categórico, como dizia o próprio Gramsci. Mesmo que a luta armada seja justa (sim, para o nobre Emir Sader, ela é), ela é, nas palavras do próprio, ineficiente.

Depois descobrimos que a estratégia do PT pode ser chamada de "democratização profunda". AO nome do processo de criação de um ambiente em que todos pensam como militantes petistas é "democratização". O processo democrático tal como está aí serve para extirpar partidos de esquerda. A discussão de minúcias econômicas como taxa de superávit não é relevante para esse processo de democratização.

A prisão de Vaccari foi "um momento duro". A despeito de todas as acusações, certamente mais um embuste armado pelos imperialistas que querem proibir pobres de andar de avião, o mesmo deveria ter tido seu cargo resguardado.

Embora após quinze (??) anos de governança petista, o processo de disputa sobre a CONSCIÊNCIA do "povo" brasileiro ainda não foi dado.

O feminismo petista é anticapitalista. Antirracista porque antineoliberal (???). Não há feminismo sem socialismo. À parte da querela de que existem "esquerdaS" e não uma esquerda, torno a enfatizar o caráter unitário das esquerdas na escolha de seus inimigos de front. Feminismo supostamente não é femismo, misandria, anti-homenismo etc, mas não há militância feminista dissociada de anticapitalismo.

Outro tema central aos debates foi a questão da imprensa. A proposta inicial é retirar qualquer subsídio da imprensa que, de alguma forma, atravanca o avanço da agenda de "democratização" petista. Jornais ""da sociedade"" e dos movimentos sociais devem receber o dinheiro. A comunicação é um problema. 

E por fim, mas não menos importante, onde estavam os black blocks para detonar com os manifestantes da Paulista? 

Alguém ainda acha que o PT não é um partido de esquerda que quer implantar o socialismo só que não pela via da força e da socialização forçada dos meios de produção?

domingo, 28 de dezembro de 2014

Por que não confiaria nem mesmo 20 centavos ao tal "Movimento Passe Livre

Por André,

Listo alguns motivos:

1) O movimento é desonesto em sua proposta mesma. Ter como bandeira transporte "gratuito" é um embuste intelectual. A famosa frase "não existe almoço grátis", que foi dita por um liberal chicaguista (coisa que você que chama todo mundo de neoliberal deveria aprender o que é pra ontem), mas sua verdade é pura e simples: não existe serviço prestado gratuitamente, existe serviço prestado com dinheiro realocado de algum lugar, que você paga direta ou indiretamente. Quem não diz isso subestima a inteligência da sua matilha e engana as ovelhinhas mais ingênuas. Acreditar num grupo com essa proposta é como acreditar num professor de geometria que alega ter a habilidade de desenhar círculos quadrados - serviço gratuito não existe e isso não é questão ideológica, é questão de definição. Pontuar isso é uma questão de honestidade, mesmo que a solução para os problemas do transporte da terceira maior metrópole do mundo tivesse sido descoberta por meia dúzia de adolescentes mentais que nunca dirigiram uma van e essa solução fosse criar o SUT - Sistema Único de Transporte, é questão de honestidade dizer abertamente quais são suas intenções. Eles não dizem e eu não aposto e não recomendaria apostar minhas fichas em gente desonesta. Se há sombra envolvendo o que há de mais elementar no "movimento", imaginemos em todo o resto.

2) Eu não sei quem responde pelo MPL (o site não traz informação, nem mesmo o endereço). Não estou dizendo que essa(s) pessoa(s) eventualmente não exista(m), estou apenas dizendo que não sei quem é e a informação não é tão livre quanto o passe. Se eu quiser processar o MPL, processarei a quem especificamente? Quem responde juridica e financeiramente pelo movimento? Quem paga as contas e porquê? O MPL tem CNPJ? Paga imposto? É entidade jurídica? Qual seu endereço e telefone?

Eu jamais confiaria nem mesmo 20 centavos a qualquer organização que não traga abertamente esse tipo de informação. É o mínimo que é cobrado até de uma padaria de esquina.

Comentário de um amigo no Facebook:

Não tenho conhecimento do parâmetro geral a nível nacional. Sei que em Joinville - cidade em que resido - o MPL não possuo CNPJ e nem mesmo membros. As pessoas que militam pelo MPL aqui sempre negam ser do MPL. Quando perguntamos quem lidera o movimento, quem dirige, dizem que não há direção nem liderança e que tudo ocorre por manifestação espontânea. 
O motivo para isso é um só: Não assumir responsabilidade pelas cagadas que fazem. Sem um líder, sem um CNPJ, sem uma direção, não há como identificar os responsáveis pelas catracas quebradas, pelos carros incendiados ou pela obstrução do trânsito.
Tinha exatamente isso em mente quando escrevi o texto acima, apenas procurei evitar o tom alarmista, mas a intenção de ter uma aura tão escura envolvendo o movimento é exatamente essa, se ninguém responde, qualquer eventual problema de maior porte não será respondido por ninguém, porque não pode ser respondido por todos os membros "espontâneos". Embora sem membros, sem endereço e sem nada, o MPL já foi representado no Roda Viva, vive nos jornais (um garoto de 24 anos que faz Filosofia foi entrevistado pela Folha de SP, certamente um grande entendedor de transporte urbano), ainda assim não sabemos quem realmente é membro e quem realmente participa. Você toparia ser atendido por uma clínica sem médicos, supostamente sem dinheiro e sem CNPJ?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Venezuela se desmancha em 15 anos de chavismo

Por Globo,

A Venezuela encerra o 15º ano do ciclo chavista. A cada dia, a situação do país — lucrativo mercado para empreiteiras brasileiras — se torna mais crítica política, social e economicamente. A inflação, acima dos 63% anuais, tende a avançar para o patamar dos três dígitos, aguçando o conflito social. O declínio de 25% no preço do petróleo aprofunda a crise (Chávez assumiu com o barril a US$ 30, imperou com o óleo a US$ 140 e hoje o país não consegue sequer comprar alimentos com a cotação a US$ 80.) A Venezuela, que depende do petróleo para 96% da receita de exportações, virou um pária internacional — sobretudo em direitos humanos, com a oposição encarcerada —, e o governo imerso em corrupção.

A população enfrenta a cada vez mais aguda falta de produtos alimentícios e essenciais, por conta da escassez de divisas para as importações. A disparada de quase 30% do dólar no paralelo torna os produtos importados inacessíveis para uma vasta parcela da população. Os ricos continuam comprando o que lhes apraz no exterior. A criminalidade e a violência dispararam. O caos social não está longe.

A colunista Marianella Salazar resumiu a situação, no jornal “El Nacional”, de Caracas. “Não há fraldas para os anciãos nem é possível tratar doentes terminais de câncer e outras enfermidades por falta de remédios, mas o governo destina dólares para importar pinus canadense e enfeites para árvores de Natal. É um absurdo”.

No pós-globalização, o chavismo adota o planejamento centralizado da economia, que não deu certo em lugar algum. O Estado avançou sobre as empresas, nacionalizando-as e, portanto, jogou a eficiência no fundo do poço e afugentou investidores. Tudo em nome do “socialismo do século XXI”. O governo, tanto com Chávez como com seu sucessor, Nicolás Maduro, transformou a galinha dos ovos de ouro, a estatal petroleira PDVSA, num organismo gigantesco, totalmente aparelhado por aliados, com baixa produtividade, incumbida de servir de caixa para o Tesouro e responsável por programas populistas.

O subsídio à gasolina torna seu preço ao consumidor um dos mais baixos do mundo, menos de um centavo de dólar o litro. O governo reconhece que a PDVSA perde anualmente US$ 12,6 bilhões com a diferença entre o custo da produção e o de venda. O último ajuste do preço foi em 1997. Maduro voltou a falar em cortar parte do subsídio para reduzir o déficit fiscal, mas é pouco provável que o faça: em 1989, um aumento desaguou no “Caracazo”, violentos protestos nos quais morreram centenas de pessoas.

Na última semana, Maduro aprovou uma saraivada de 28 decretos na área econômica, aproveitando os últimos dias dos poderes especiais que o Congresso e a Justiça, dominados pelo chavismo, lhe outorgaram por um ano. Não se espera que problemas tão graves como os da Venezuela sejam resolvidos por decreto.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Desconstruindo o mito sueco

Por André,


A Suécia é frequentemente citada como exemplo de país onde o "socialismo funcionou". Será mesmo? Será mesmo que é o forte poder do Estado que explica o aparente sucesso da Suécia e de outros países escandinavos?

Vejam o texto que circula pelo Facebook, com mais de trinta mil compartilhamentos:
Tentei ficar quieto, mas não me aguentei. 
Sou de uma família tradicional e de classe média alta brasileira, e fui o único a votar na Dilma. 
Nos últimos anos tive o privilégio de morar por 2 anos em Estocolmo, trabalhando e estudando. E digo o que pouca gente imagina: na maior parte da Suécia não existe luxo. 
Eu morei num prédio onde moravam médicos, lixeiros, músicos, advogados, e atendentes de super mercado. Juntos. Eu vi pessoas muito ricas andando de bicicleta no inverno, e aproveitando a vida comendo sanduíche sentado no chão de um parque (não num shopping). Donos de agências que atendem Pepsi, NBA, RedBull almoçando comida feita em casa num tupperware sentados na mesma mesa que eu que era imigrante e o Estagiário Assistente de Escritório. 
Eu vi meninas como essas da foto andando sozinhas às 3h da manhã em áreas vazias, olhando o mapa no iphone usando shortinho meia bunda e regatinha que mostra o lado do peito ouvindo a música nova da Lykke Li no último volume e cantando. E passaram do meu lado na mesma calçada sem nem atravessar a rua. Sem medo.  
Sem.  
Medo. 
Tudo isso, que nós brasileiros invejamos tanto e dizemos que ‘lá fora é muito melhor’ só se consegue com uma coisa: igualdade social.
A Suécia não chega a ter 10 milhões de pessoas, e a igualdade lá vem sendo praticada desde o início. 
O Brasil tem 200 milhões e a desigualdade aqui vem sendo praticada desde o primeiro instante. O que isso implica? 
Implica que se você, pessoa que gosta tanto da Europa, quer que o Brasil fique um pouco mais parecido com lá, abraçar a causa da igualdade social é uma necessidade. E ela pode acontecer de duas formas: rápido ou devagar.
Rápido está fora de questão, mas devagar é sim possível. Eu pergunto: Qual é o problema se o país precisa crescer 1% ao invés de 6% para que o Brasil saia do mapa mundial da fome? Ou para que o analfabetismo acabe? Ou o saneamento básico?
Você se preocupa mais com o quanto cai na sua conta do que com quantas pessoas conseguem comer, escrever o próprio nome ou defecar em um lugar decente? 
Crescimento de economia é uma coisa, é cálculo do PIB que soma em valores monetários todos os bens e serviços finais produzidos no País.  
Já o IDH mede expectativa de vida, analfabetismo, educação, padrão e qualidade de vida e entre outras coisas também o PIB per Capita. 
‘O país tem que voltar a crescer’, foi slogan de uns e é opinião de todos, mas o que é ‘crescer’?  
Crescer é PIB para poucos como sempre foi no Brasil? 
Ou crescer é IDH, com PIB mais distribuído para todos?
O Brasil não tem meios de gerar mais dinheiro do que o que já circula dentro dele (seria lastro para controle) ou seja, a riqueza que existe dentro do Brasil precisa sim ser melhor distribuída para que você possa ter aqui, aonde suas netas e netos irão nascer, uma qualidade de vida mais parecida com a da Europa. Sem medo.
Sem.
Medo.
Mas como dinheiro não cresce em árvore, pra que isso aconteça, tem que mexer no que é teu.  
Só que quando alguém fala em mexer no que é teu, ninguém mais quer igualdade social, e todo esse papo vai por água a baixo. Certo? 
Certo. 
Amigo, a verdade é: egoísmo não combina com igualdade social. Ninguém gosta de dividir as duas últimas preciosas bolachas favoritas. 
Se você quer ser egoísta, ao menos seja sincero e diga que está pouco se fodendo para os humanos aqui do Brasil do sul ou do norte que torcem junto contigo pro Neymar Jr. na Copa do Mundo. Que tanto faz se eles sabem ler, escrever ou tem o que pôr na barriga. Então faça sua trouxinha de dólares e ajude a sustentar alguma ONG que ajuda algum 'vagabundo' na África. Não vou te julgar ou tentar te convencer. Mas é isso o que penso.
Focarei na questão sueca mesmo, sem tratar especificamente do petismo disfarçado de intelectualismo da postagem. 

A Suécia, ao menos hoje, em 2014, dá certo. Como explicar? Será que essa condição toda maravilhosa da Suécia é realmente explicada pelo 1) welfare state e 2) igualdade social? Será que o welfare state é autossustentável ou requer condições passadas e futuras para ser mantido e é, no limite, uma política perecível?

Na Suécia, o imposto de renda pode chegar a 58,2% e a carga tributária é a 41ª maior do mundo, porém, 122 horas de trabalho por ano de um sueco são suficientes para custear os impostos, ao passo que nós, brasileiros, como ganhamos muito menos que os suecos, precisamos de 2.600 horas de trabalho para custear todas as taxas (todas essas informações podem ser colhidas no estudo "Paying Taxes 2014").

Isso é bastante significativo, pois mostra que boa parte da renda dos suecos permanece em suas mãos para que gastem como bem entender. Além disso, a economia sueca, como todas as demais economias escandinavas são extremamente abertas, levando menos de uma semana para se abrir uma empresa lá, por exemplo. Ou seja, o mesmo Estado que se engrandece na cobrança de impostos e ao prover serviços custeados com esses impostos, não se posta como empecilho à livre concorrência empresarial, tudo isso conforme já documentei aqui.

Portanto, o quadro econômico sueco e escandinavo não é exatamente de tipo de intervencionismo infantil que os defensores do PT pretendem levar os outros a acreditar com seus textos afetados. Mas é certo que se o Estado sueco não intervém na economia, intervém na vida dos cidadãos. Proibiu que pais dessem "palmadas" em seus filhos e outras infindáveis ações-babá (inclusive ditando as regras que devem reger atos sexuais), conforme documenta Janer Cristaldo em seu "O paraíso sexual democrata".

Ainda assim, é perfeitamente sabido que o estado de bem-estar social não dura eternamente. Dura enquanto o dinheiro que o custeia durar. Muito da riqueza dos países escandinavos, especialmente a Noruega, é oriunda do petróleo (petróleo este que foi protegido pelas EUA na 2ª guerra) e não exatamente do poder econômico nas mãos do Estado.

Países escandinavos também não tem histórico de envolvimento em guerras, o povo é tradicionalmente empreendedor e a liberdade econômica tem mostrado aumento ao longo dos anos e é consideravelmente superior ao resto do mundo, conforme demonstra o excelente artigo do sueco Stefan Karlsson "The Myth of Sweden".

Ainda assim, gostaria de destacar aspecto usualmente escanteado na explicação da harmonia social escandinava: a coesão cultural. A explicação para lixeiros e médicos compartilharem o mesmo prédio ou para que as filas sejam respeitadas não está no estado-babá, mas sim na coesão cultural do povo escandinavo. Todos se entendem por um porque todos são, de fato, cultural e socialmente, um. As tradicionais divergências entre norte e sul (EUA, Brasil, Itália etc) não existem por lá porque os países são pequenos, pouco populosos e culturalmente coesos (muito embora isso esteja perto do fim se as coisas caminharem como hoje caminham. Também por lá já se formam guetos islâmicos onde a taxa de natalidade é vastamente superior à dos nativos).

Quanto ao estado de bem-estar social, ele é uma forma de política que ignora o futuro (afinal, segundo Keynes, no futuro estamos todos ferrados). Como o dinheiro dos outros não dura para sempre, a Suécia vem apontando uma tendência definitiva de declínio no IDH e estudos apontam que ela será um país de terceiro mundo em 2030!

Circula nas redes um texto semelhante a esse da Suécia citando uma série de intervencionices do estado australiano na vida das pessoas e a suposta prova que devemos aplaudir as mesmas políticas aqui no Brasil, mesmo sabendo que o Brasil é um dos piores do mundo em termos de retorno de impostos cobrados em serviços de qualidade.

O que falta citar é que todos esses supostos paraísos do bem-estar social tem uma economia aberta e liberal (o aspecto curioso a respeito da Austrália é que as reformas liberais na economia foram implementadas pelo partido trabalhista local). Encabeçam os rankings de liberdade econômica, lideram os rankings educacionais e estão entre as nações menos corruptas do mundo. Desassociar estes fatos do Estado supostamente intrujão é desonestidade completa, especialmente para aqueles que pretendem com isso introduzir o petismo pela porta dos fundos da argumentação séria.

Sugestão: "Como o laissez-faire enriqueceu a Suécia?".

sábado, 1 de novembro de 2014

5 mitos sobre a realidade de Cuba


1. Os governantes vivem nas mesmas condições que o povo
Os dirigentes políticos e seus familiares vivem em uma bolha comparados com o resto do povo cubano. A maioria dos altos cargos do país são militares, pertencentes às Forças Armadas Revolucionárias (FAR). Há membros das FAR na liderança de ministérios e grupos empresariais do país. Estas pessoas não caminham pelas ruas nem viajam de ônibus, já que possuem carros do Estado; não vivem em decrépitos apartamentos no Centro de Havana, pois possuem casas e apartamentos em complexos residenciais onde civis não podem entrar. Além disso, eles tem facilidades e acesso gratuito a determinados serviços que não tem o resto da população: acesso à internet no trabalho e em casa, hotéis em Varadero, uso de telefones celulares cujo pagamento é em pesos cubanos (24 vezes mais barato que o peso conversível** com o qual paga o resto dos mortais), televisão à cabo. Não vão a hospitais mal conservados como o povo, vão a um hospital reservado para eles, o CIMEQ (onde atenderam Chávez) caracterizado por sua limpeza, bons médicos e tecnologia decente. Os grandes dirigentes de Cuba estão completamente isolados dos problemas cotidianos do cidadão pedestre.
2. O Estado fornece os alimentos necessários à população
O Estado vende a cada cubano uma vez ao mês, de forma racionada e a preços “acessíveis”, uma quota de alimentos. Estes produtos são racionados pela libreta de abastecimento. Em um mês, um cubano pode comprar somente: 5 ovos, 5 libras (2,2kg) de arroz e 1 libra (450g) de frango. Os preços dos alimentos racionados estão em pesos cubanos e de acordo com os salários em Cuba, e isso significa um alívio para os trabalhadores estatais cujo salário médio é de U$18 (R$40,5*) por mês e sobretudo para os idosos aposentados que não tem outra forma de sustentar-se. No entanto, a comida comprada com a libreta só alcança para 10 dias. O que acontece com outros 20 dias do mês?
Em paralelo à rede de armazéns estatais, onde se compra com a libreta, em Cuba existe um mercado estatal de alimentos com preços em pesos conversíveis**. Alguns produtos, como a carne de gado, os sucos, vegetais ou peixe enlatado só podem ser adquiridos neste tipo de lojas. A rede mais importante deste tipo de estabelecimentos se chama TRD (Tienda para la Recaudación de Divisa – Loja para Arrecadação de Divisa) e nelas todos os produtos tem 240% de imposto sobre o preço de compra no exterior. Deste modo, um litro de leite pode custar 3 pesos conversíveis (equivalente a U$3 ou R$6,76), e 250g de queijo manchego*** pode custar 30 pesos conversíveis (U$30, ou R$67,60***). Em um país onde o salário médio estatal gira em torno dos U$18, nas TRD somente podem comprar aqueles cubanos com familiares no exterior ou acesso (lícito ou ilícito) a dólares. O resto “investe” no mercado negro.
3. A educação é gratuita
Certamente. A educação em Cuba é gratuita desde a pré-escolar (4 anos) até a educação secundária (18 anos). E, ainda que seja uma conquista muito importante, é necessário lembrar que isto ocorre em muitos outros países do mundo. No entanto, diferente de outros países, em Cuba não existe a educação privada, a única opção é o ensino público.
Nos tempos em que meus pais estudaram, se considerava que a educação primária era de excelente qualidade. No entanto, hoje em dia a situação deixa muito a desejar. Devido aos baixos salários em Cuba, existe um déficit enorme de professores e por isso a qualidade da educação se vê muitas vezes afetada. É comum escutar que professores cobram para dar boas notas, e já é prática habitual que algumas aulas sejam mera reprodução de vídeos previamente gravados.
Diz-se que o ensino universitário em Cuba é gratuito, mas isto é incorreto. Seria mais apropriado dizer que é de acesso universal. Qualquer cubano (dependendo da média e dos resultados nos exames de ingresso) pode entrar na Universidade; e, ainda que o estudante não tenha que pagar um único peso, a educação superior tem um preço. Uma vez graduado, o estudante deve trabalhar para o Estado, 3 anos se for mulher e 2 anos se for homem (já que o homem presta 1 ano de serviço militar). Este período é conhecido como “Serviço Social”. O Serviço Social é obrigatório, se trabalha por um salário mínimo (225 pesos mensais, uns U$9 ou R$20,31) em um posto determinado pelo governo. Se um recém graduado não cumpre o Serviço Social, o Ministério da Educação Superior invalida o seu título universitário.
4. A grande maioria dos cubanos apoia o governo
O apoio a um governo se demonstra mediante eleições, e em Cuba não ocorrem eleições presidenciais desde 1948****. Assim, deve-se buscar outros indicadores para avaliar este “apoio”. Em Cuba existe um único partido que é legalizado, o Partido Comunista, e Constituição de Cuba o define como: “…a força dirigente superior da sociedade e do Estado…”. No entanto, existem muitos outros partidos clandestinos. Os cidadãos não veem legitimado o seu direito de associação e as únicas formas de sociedade civil são parte do Estado. Isto não impede que cidadãos opositores tenham constituído grupos de forma clandestina e tratem de manifestar-se de forma pacífica. Lamentavelmente, manifestações de coletivos não reconhecidos são continuamente reprimidas por grupos organizados pela polícia política e operacionalizados através do Partido Comunista. Exemplo disto são os atos de repúdio contra opositores que em casos frequentes chegam ao extremo da violência verbal e física. As conhecidas Damas de Branco, senhoras que caminham pelas ruas com uma flor na mão, são reprimidas e presas semanalmente; só para mencionar um exemplo.
Um governo que controla a imprensa, o rádio e a televisão, também controla a opinião pública, ou ainda, a opinião que querem transmitir ao mundo e a cada um de nós. Jamais foi transmitida por televisão alguma opinião legítima de um cubano contra o governo.
Opor-se ao governo abertamente é perigosamente escorregadio. A polícia secreta pode forjar um caso delitivo e colocar você na prisão. Este terror psicológico está presente na sociedade cubana há mais de meio século. Em consequência disso, as pessoas optaram por “não pensar, não dizer e não opinar” para poder viver tranquilas. Entretanto, existe uma dupla moral. Há gente que aplaude o regime em público e logo o critica privadamente.
A solução de muitos é migrar em busca de oportunidades. Em números oficiais, 12% dos cubanos que saem do país legalmente não retornam. Um número aterrador que mostra o enorme descontentamento com o sistema vigente. A estes imigrantes legais se há de somar os que saem ilegalmente. Os mais conhecidos são os que agarram uma balsa e escapam arriscando sua vida no mar.
5. O bloqueio norte-americano impede que Cuba se desenvolva.
É certo que existe um embargo econômico, financeiro e comercial dos Estados Unidos dirigido a Cuba, que tem aplicação extraterritorial e foi condenado em múltiplas ocasiões pela ONU. O embargo é um conjunto de medidas e leis que proíbem empresas e cidadãos norte-americanos de estabelecer acordos comerciais com os cubanos residentes na ilha e o governo (existem “exceções” como diversas produtoras estadunidenses de alimentos que tem permissão de negociar com o governo cubano).
O embargo está presente desde os inícios da “revolução” e um dos seus principais motivos ao implantar-se foi a expropriação geral da propriedade privada de cubanos e muitos norte-americanos na ilha, que jamais foi remunerada por parte do Estado cubano. Desde então este embargo, rebatizado pelo governo cubano como “bloqueio”, tem sido o argumento para justificar todos os fracassos e erros de sua política econômica, social e administrativa.
Cuba não pode comercializar com os Estados Unidos (ainda que os Estados Unidos seja o principal comprador de medicamentos em Cuba), mas, 40% do comércio exterior de Cuba é mantido somente com a Venezuela. Países como China e Brasil tem fortes laços comerciais e financeiros com a ilha. O resto dos países tem toda a disponibilidade para firmar acordos econômicos com Cuba, mas exigem o pagamento em efetivo devido à reiterada inadimplência do governo cubano.
Entretanto, existe outro bloqueio que é o que verdadeiramente afeta ao cidadão cubano: é o bloqueio do governo para evitar que algum cubano progrida economicamente. Por exemplo, a nova Lei de Investimento Estrangeiro aprovada mês passado, permite a qualquer pessoa deste planeta a possibilidade de investir na ilha. No entanto, não existe uma só Lei de Investimento que permita aos cubanos residentes em Cuba investir no desenvolvimento econômico de seu país.
O governo permite a atividade de um magro setor privado (lá denominados “cuentapropistas”), mas somente se pode desenvolver 178 atividades desta forma. Entre estas atividades se contam: cabeleireiro, gastrônomo, jardineiro, cocheiro de veículo de tração animal, forrar botões e até revender CDs piratas. Os cuentapropistas veem “bloqueado” seu desenvolvimento econômico pelo próprio governo cubano. Não podem ter acesso a créditos financeiros, não podem comprar em mercados atacadistas, ao contrário das empresas estatais, não tem acesso a matérias primas para desenvolver seu trabalho (por exemplo farinha para fazer pão, somente à venda em empresas estatais), tem taxas de impostos sobre renda a níveis similares ao da Suécia e da Áustria (50% se ganha mais de U$160 ou R$360,89 por mês).
Proibições em Cuba, que limitam o progresso, estão à ordem do dia: preço dos carros, preço dos imóveis, salários miseráveis, internet proibida nas casas, acesso limitado a informação, ausência de liberdades políticas, impossibilidade de exportar e importar mercadorias…
Para finalizar, deixo uma pergunta: Por que Cuba, sendo uma ilha, não conta com uma indústria pesqueira? O “bloqueio” norte-americano sem dúvida impacta nos preços de determinados bens, mas é o bloqueio interno o que impede o desenvolvimento do país.


Notas:
*Conversão de dólares americanos para reais feita pelo site XE em 27/08/2014.
**Em Cuba existem duas moedas oficiais em circulação: o peso cubano e o peso cubano conversível. O peso cubano conversível é artificialmente pareado com o dólar, e serve como substituo para este dentro da ilha pois somente lá pode ser obtido e usado (os cubanos são proibidos de aceitar dólares americanos em suas transações). Quem tem acesso a dólares, e consequentemente a pesos cubanos, tem um poder de compra 24 vezes maior que o cidadão normal.
***O queijo manchego é originário da região de La Mancha, Espanha. No Brasil, 1kg deste queijo pode ser comprado por R$119,00. Menos da metade do preço em Cuba: R$270,40.
****Cuba foi governada por um governo ditatorial de 1948 a 1961 – derrubado pela Revolução Cubana, e por outro de 1961 até o presente momento – instalado pela Revolução Cubana.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Flavio Morgenstern em sua segunda parte de carta a Luciana Genro

Por André,

Luciana Genro descobriu um novo socialismo e vai implantá-lo quando eventualmente chegar ao poder. Esse socialismo é diferente do socialismo soviético, chinês, cambojano, cubano, venezuelano etc. etc. Mesmo com Luciana Genro afirmando que vai expropriar a propriedade alheia, inclusive as jóias das pessoas ricas (ela diz isso a partir do minuto 7'50'').

Pois bem, após a famigerada entrevista da candidata a Danilo Gentili, Flavio Morgenstern escrever uma carta, cuja primeira parte foi divulgada aqui e agora somos brindados com sua segunda parte.

Sobre as relações entre socialismo e nacional-socialismo, isto é, nazismo, recomendo meu texto sobre o tema, onde levando uma série de referências sobre o tema.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Jabor: "Dilma viu a uva do vovô"

Por O Globo,

É necessária uma cartilha bem clara para a população que se perde nesse sarapatel de mentiras e manipulações da candidata a presidenta. Por exemplo, o povo não entende frases como: “Nosso produto interno bruto é mínimo por falta de corte nos gastos fiscais”. Ninguém sabe o que é isso, principalmente no Nordeste-Norte. Ao contrário do que diz Dilma, os pobres que não puderam estudar são, sim, absolutamente ignorantes sobre os reais problemas brasileiros. Vamos ao diálogo da cartilha:

— Dilma viu a uva. Dilma viu o vovô. Dilma diz que viu o povo, mas não viu. Dilma viu Maduro, Dilma viu Chávez... Dilma viu o ovo. Mas não viu o novo.

— Por que ela gosta de governos como Cuba, Venezuela, Argentina?

— Porque para ela, no duro, a sociedade é composta de imbecis e de empresários imperialistas. Dilma pensa igual a eles. Ela e a “Cristina botox”.

— Por que ela pensa igual a eles?

— Porque é possuída por uma loucura antiga chamada “revolução socialista”, que fracassou no mundo todo. Imagine um automóvel quebrado; em vez de chamar um mecânico, chamam um marceneiro. É isso que estão fazendo. Esta é a causa do desastre atual de economia e da crise política. Para eles, quanto pior, melhor. O problema é que eles é que estão no governo, e essas ideias são tiros no pé. Mais uma vez, repito o filósofo Baudrillard: “O comunismo hoje desintegrado tornou-se viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de desfuncionamento e da desestruturação brutal”. Por isso, erram tudo, por incompetência. O governo ataca e quer mudar o Estado para possuí-lo.

— Por quê?

— Para o PT, as instituições não valem nada (burguesas) e têm de ser usadas para o projeto do PT.

— Qual é o projeto do PT?

— Fundar uma espécie de bolivarianismo tropical e obrigar o povo a obedecer o Estado dominado por eles.

— Que é bolivarianismo?

— É um tipo de governo na Venezuela que controla tudo, que controla até o papel higiênico e carimba o braço dos fregueses nos supermercados para que eles só comprem uma vez e não voltem, porque há muito pouca mercadoria.

— Por que os petistas não fazem reforma alguma?

— Porque não querem. A reforma da Previdência não existirá, pois, segundo o PT, “ela não é necessária”, pois “exageram muito sobre sua crise”, não havendo nenhum “rombo” no orçamento. Só de 52 bilhões. Por isso, a inflação vai continuar crescendo, pois eles não ligam para a “inflação neoliberal”.

— O que é inflação?

— Ahhh... é sinônimo de “carestia”.

— Por que o PT ataca tanto os adversários?

— Porque eles têm medo de perder as 100 mil “boquinhas” que conquistaram no Estado. Essa gente não larga o osso. Para isso, topam tudo: calúnias, números mentirosos. Eles também têm medo que suas roubalheiras sejam investigadas. Vejam o caso do “Petrolão.” Perto dele, o “mensalão” é um troco.

— Por quê?

— A Petrobras foi predada e destruída pela metade porque essa empresa sempre foi vista como propriedade de uma esquerda psicótica.

— Este roubo foi feito por vagabundos sem moral?

— Não. A Petrobras foi assaltada pelos próprios diretores para que o dinheiro fosse dividido entre o PT, PP e PMDB, para seus políticos apoiarem o governo Dilma e para novos malfeitos.

— Por que Dilma diz que não viu nada?

— Para negar que viu. Claro que viu. É necessário mentir para o “bem” do povo. Sim. Eles acham que são “mentiras revolucionárias.” Aliás, você sabe o que é Pasadena?

— Não...

— É o nome da refinaria da qual Dilma autorizou a compra.

— Por que Dilma assinou a compra da refinaria?

— Ela afirma que não sabia… Mas como é possível que, sendo a presidente do Conselho da Petrobras, tenha autorizado (apenas informada por duas folhas de papel) a compra de uma refinaria por um preço 300 vezes mais caro do que vale?

— Não sei.

— Você compraria uma casa que vale 100 mil reais pelo preço de 1 bilhão e duzentos mil?

— Só eu fosse louco ou mal-intencionado.

— Ela comprou. Comprou também pelo desprezo que os comunas têm por “administração”, coisa de empresários burgueses… Ou por pura incompetência…

— Por que a Dilma e PT não mudam de ideia, vendo tantos erros?

— Ó, ingênuo eleitor! Porque a Dilma e PT são sacramentados por Deus e não erram nunca. Quem erra somos nós. Quem discordar é inimigo. E querem se eternizar no poder.

— E por que nós do povo acreditamos nisso?

— Porque acham que Dilma “ama” o povo. Precisam ver como Dilma trata os garçons do Palácio...

— Por que, então, tantos intelectuais informados vão votar na Dilma mesmo assim?

— Porque acham que o PT ainda tem um grãozinho de romantismo social e também porque temem ser chamados de reacionários, neoliberais. O nome “esquerda” ainda é o ópio dos intelectuais.

— Por que não mudam de ideia?

— Porque essa ideologia é um tumor inoperável em suas cabeças. É espantoso que não vejam o óbvio: a desconstrução do país.

— Por que Dilma e Lula aparecem juntinhos do Collor?

— Porque o Collor pode trazer votos de Alagoas... o estado mais rico de pobres.

— Por que eles querem tanto os votos dos pobres?

— Porque, em geral, têm Bolsa Família. Mas o que não sabem é que com a volta da carestia...

— Inflação...

— Isso. Com a volta da inflação, a graninha do Bolsa Família vai mirrar, sumir, perder o valor. Isso eles não explicam.

— E por que eles dizem que a luta eleitoral é entre ricos e pobres? Pobres do Norte-Nordeste contra os riquinhos do Sudeste e Sul?

— Porque eles falam assim para esconder que a luta é entre pobres analfabetos x pessoas mais sensatas e informadas. Quem sabe disso, não vota nela.

— Mas, afinal, o que é o projeto do PT?

— O programa do PT é um plano de guerra. Eles odeiam a democracia (eles sempre usaram a democracia para negá-la depois). Eu me lembro do Partidão. Eles diziam: “Apoiaremos a democracia como tática. Depois a gente vê”. Dilma também pensa assim: a democracia é um meio, não um fim. Por isso, tem de haver uma cartilha para explicar o programa do PT: Dilma diz que viu o povo, mas não viu. Dilma viu o ovo. Mas não viu o novo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Eleitor de Luciana Genro é endinheirado. Ela chegou a 6% dos votos nas mesmas áreas onde Aécio venceu. Rico quer expiar as culpas por sua condição social elevada


Com discurso favorável a uma maior distribuição de renda, direitos das minorias e taxação das grandes fortunas, a presidenciável do PSOL, Luciana Genro, chegou ao quarto lugar nas eleições deste domingo (5) com votos alavancados pelas regiões mais ricas do país.

Em autoavaliação, ela diz que o partido precisa "se enraizar" nos "setores mais empobrecidos da população".

Nas regiões Sul e Sudeste, a candidata obteve porcentagem de votos acima da média de 1,5% da votação nacional. De um total de cerca de 1,6 milhão, 554 mil vieram do Estado de São Paulo. No Norte e Nordeste, ela não chegou a 0,9%.

Na capital paulista, onde Luciana levou 3,3% dos votos, sua maior proporção de eleitores estavam nas zonas eleitorais de Pinheiros e Perdizes, bairros de classe média alta. Nesses locais, ela obteve quase 5%.

"Falta o PSOL conseguir chegar de forma mais intensa em todos os eleitores", disse Luciana à Folha nesta segunda (6).

"Não é casual que a gente tenha uma votação maior nos grandes centros urbanos e na população com maior renda, mas é porque essa população tem um acesso mais facilitado à informação, principalmente através da internet."

Ela voltou a criticar o tempo de televisão no horário e a falta de uma cobertura jornalística igualitária pela falta de disseminação de sua candidatura e afirmou que priorizou fazer campanha em setores em que tem "maior penetração e enraizamento partidário".

"O processo de enraizamento nos setores mais empobrecidos da população é mais complexo, porque a gente disputa nesse segmento com o poder econômico de forma muito contundente", disse, acrescentando que concorreu com "candidatos que compram lideranças das comunidades para fazer campanha para eles" e "programas como o Bolsa Família que, infelizmente, são utilizados como moeda de troca eleitoral".

A ex-presidenciável comparou sua legenda aos primeiros anos do PT. "Quando era oposição, o PT também tinha apoios significativos dos setores médios, mais do que os setores pobres, que apoiavam o [ex-presidente tucano] Fernando Henrique", afirmou.

Para a ex-deputada federal e filha do governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), a campanha do PSOL atraiu um público jovem e dos grandes centros urbanos a partir de "um programa de mudanças estruturais" e "defesa dos direitos civis, como a pauta da luta contra a homofobia".

Parte dos temas também foram defendidos pelo candidato do PV, Eduardo Jorge, que ficou com 0,6%. Luciana diz que a diferença se deu porque "não se pode ser consequente em defesa de pautas progressistas se aliando a setores conservadores", em referência à participação do ex-adversário nas administrações de José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD) na prefeitura de São Paulo.

Até esta quarta-feira (8), o PSOL deve anunciar se apoia a candidatura de Dilma Rousseff (PT) no segundo turno ou se mantém neutralidade. 

sábado, 20 de setembro de 2014

Flavio Morgenstern responde a Luciana Genro: "Carta aberta a Luciana Genro pt. 1: Eu aceito o desafio e estudei o socialismo"

Por Instituto Liberal,

O texto é excelente e relativamente longo, portanto, não reproduzirei aqui. Apenas comento com alguns spoilers sobre possíveis "réplicas" progressistas:

O texto  pode ser muito útil para quem honestamente está tentando entender essas questões, mas já tive as experiências necessárias para saber quais efeitos terá sobre os afetados:

- uns vão tergiversar se dizendo anarquistas (no que diz respeito às mazelas dos experimentos. Eles não têm nada a ver com isso porque "também" são "contra o Estado" (o próprio Marx o era, depois do Estado fortíssimo da ditadura do proletariado, o Estado se dissolveria, seria um item desnecessário).

- no que se refere (rs) às leituras reacionárias, fingirão intelectualismo olímpico porque são matreiramente incapazes de conceber a existência de vida inteligente que discorde deles próprios. Nunca leram e não pretendem porque supõem que se discordam deles, coisa boa não deve ser.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Pitirim Sorokin: uma introdução


O filósofo tradicionalista, sociólogo e historiador Pitirim Alexandrovitch Sorokin nasceu no norte da Rússia, três decénios antes do eclodir da revolução bolchevique. Estudou principalmente na Universidade de São Petersburgo, onde recebeu o título de doutor em sociologia em 1922. Enquanto os acontecimentos da revolução viviam o seu apogeu, e durante a guerra civil que se seguiu, opôs-se aos comunistas e envolveu-se em diversas actividades contra-revolucionárias, o que conduziu à sua prisão e à sua condenação à morte por um tribunal vermelho.

A condenação à morte de Sorokin foi anulada por Lenine que, especulam alguns, queria mostrar-se magnânimo. Lenine, efectivamente, escreveu um artigo no “Pravda” para se vangloriar de ter salvo a vida do jovem intelectual. Sorokin, porém, não deixou de criticar abertamente o regime, o que levou ao seu exílio. Depois de breve estada em Praga, no fim do ano de 1923, partiu para a América onde lhe foi oferecido um lugar de professor na Universidade do Minnesota. Feito cidadão americano em 1930, aceitou no mesmo ano o convite para se tornar o primeiro professor e presidente do Departamento de Sociologia da Universidade de Harvard. Aí continuará até à sua morte, em 1968.

A filosofia da história de Sorokin revela-se pela a primeira vez, de forma completa, na sua maior obra, “Social and Cultural Dynamics”, de que foram publicados três volumes em 1937 e o quarto e último apenas em 1941. Esta obra enorme representa um trabalho de dez anos e conta mais de três mil páginas. Sorokin recapitulou depois inteiramente a sua visão do mundo em 1941 numa série de conferências no Lowell Institute do Massachusetts mais tarde publicadas em livro com o título “The Crisis of our Age”.

O modelo histórico sugerido por Sorokin não é tão sombrio como os que foram sugeridos por outros teóricos do século XX, nomeadamente, o mais conhecido deles, Oswald Spengler. Sorokin rejeita a noção dos “ciclos de vida orgânicos” das culturas; para ele, estas não passam por estados sucessivos. “A minha tese tem pouco em comum com as teorias afinal tão antigas do ciclo vital das culturas e das sociedades, com os estados da infância, da maturidade, da senilidade e do declínio”, escrevia ele. “Podemos deixá-los aos sábios da antiguidade e aos seus epígonos modernos”.

No entanto Sorokin rejeita da mesma forma nítida as ideias veiculadas pelos optimistas inveterados que acreditam na melhoria das condições de vida da humanidade, ou, por outras palavras, no “progresso”, o qual estaria automaticamente garantido para o futuro imediato, como para o longo prazo. Sorokin tinha palavras trocistas para descrever o tipo de sociedade desejada pelos progressistas: “cloud-cuckoo land of the after-dinner imagination” (ou seja, “sonhos nebulosos da imaginação após o jantar”, sem que se transmita inteiramente o sabor da expressão inglesa “cloud-cuckoo land”). Prosseguia dizendo que essa ideologia “tinha sido criada, na sua forma específica e actual, durante a segunda metade do século XIX”, sendo “uma daquelas bolas de sabão com que a Europa vitoriana, satisfeita de si mesma, gostava de divertir-se”. Para Sorokin, o futuro a longo prazo encerra imensas esperanças. A dificuldade, para os que vivem no nosso tempo, é enfrentar o curto prazo, como iremos ver.

Em “Social and Cultural Dynamics”, Sorokin escreveu que as culturas civilizadas não entram por elas mesmas em declínio mas antes oscilam entre diversas fases culturais. A primeira destas é, segundo ele, a fase “ideacional”. A segunda é a fase “sensorial”. A terceira fase é uma mistura equilibrada das duas primeiras, que Sorokin denomina “idealística” ou “mista”. Estas fases duram algumas centenas de anos, período durante o qual uma perspectiva cultural única e totalmente integrada, ou um “super-sistema” para usar o vocabulário de Sorokin, chega a dominar as artes, a literatura, a música, a filosofia, a religião, as ciências, o modo de governo, etc. É preciso compreender que no sistema de Sorokin as formas ideacionais e sensoriais da cultura estão em oposição radical uma com a outra.

A fase ideacional tem um exemplo paradigmático no tipo de cultura que se encontrava na Europa ocidental na Idade Média ou no Império bizantino, mais ou menos entre o reinado de Teodósio o Grande e a conquista turca de 1453, ou ainda na Rússia anterior a Pedro o Grande. Esta fase caracteriza-se por uma visão da realidade que coloca em primeiro lugar as verdades espirituais. Isso não significa obviamente que os homens que vivem numa época dominada por uma cultura ideacional se desinteressem totalmente das coisas materiais, que não comprem nem vendam nem acumulem riqueza. Sorokin quer dizer, mais simplesmente, que a maior parte dos homens, numa tal sociedade, tomam a realidade espiritual como a preocupação dominante da sua existência. Sorokin escreve que a maioria dos homens, nestas fases, não fogem necessariamente do mundo, “mas esforçam-se para o conduzir a Deus”, quer dizer, em transformar o mundo e o reformar de acordo com os valores ideacionais ou espirituais. A cultura ideacional é fortemente ascética, tanto como espiritualizada, o que implica que o seu modo de pensar “facilita o domínio do homem sobre si mesmo”.

A segunda fase é a qualificada de “sensorial”, sendo esta a fase que atravessa a civilização europeia nos cinco ou seis últimos séculos, segundo Sorokin. Contrastando com a cultura ideacional, a cultura “sensorial” toma a realização das necessidades físicas como a finalidade da existência. Para utilizar os termos de Sorokin, este tipo de cultura não “vê a realidade senão pelo que nela se apresenta aos órgãos dos sentidos; este tipo de cultura não procura nenhuma realidade “supra-sensorial”, ou seja espiritual, e não acredita em nenhuma realidade desta natureza”. Por consequência, do ponto de vista de toda a cultura “sensorial”, “a verdade ou a fé cristã, a revelação e Deus – na realidade toda a religião e movimentos cristãos – não podem aparecer como outra coisa senão absurdos e superstições”. No decurso de uma era “sensorial”, mesmo as personalidades que têm crenças espirituais procuram adaptar os deveres induzidos pela espiritualidade às suas necessidades e desejos materiais, e não o contrário. Enquanto uma cultura de tipo ideacional se esforça por ajudar o homem a controlar-se, como já se disse, “a mentalidade sensorial leva ao domínio do homem sobre o mundo exterior”, ou pelo menos tenta realizar esse género de programa.

Mostra-se claramente, assim, que a fase “sensorial” abre uma era onde o materialismo e o mercantilismo são triunfantes. Mais ainda, enquanto a sociedade ideacional é intrinsecamente conservadora e favorece a permanência, procurando estabelecer um sistema de valores imutável e absoluto, qualquer sociedade sensorial se compraz em proceder a mudanças constantes. O seu sistema de valores tende a ser utilitário, como é próprio de uma sociedade submetida a fluxos constantes. Resumindo a distinção entre as formas ideacionais e sensoriais da cultura, Sorokin observa que o homem inserido numa cultura ideacional “espiritualiza o que lhe é exterior, mesmo o mundo inorgânico” enquanto o homem inserido numa cultura sensorial vai inevitavelmente “mecanizar e materializar tudo, até o seu próprio eu espiritual e imaterial”.

Aproximando-se o fim da era sensorial, segundo a teoria enunciada por Sorokin, a civilização entrou num período de transição, no qual tudo o que representa a cultura sensorial entra num estado avançado de decadência. Sorokin escreve que nós estamos situados entre duas grandes épocas: “( …) entre a cultura sensorial do nosso magnífico passado que morre e a cultura ideacional a surgir de um futuro criador. Nós vivemos, pensamos e agimos no fim de uma brilhante era sensorial que durou seiscentos anos. Os raios oblíquos do sol continuam a iluminar a glória de uma época que passa, mas as luzes desvanecem-se e, nas sombras que crescem, é cada vez mais difícil ver claro e orientar-nos, porque estamos mergulhados nas confusões do crepúsculo. A noite do período de transição avança, iminente, perante nós e perante as gerações que surgem (…)”.

Sorokin adianta o raciocínio seguinte: a sociedade moderna está numa fase de transição, situando-se entre o fim de uma época e o começo de outra, enquanto os fundamentos e as estruturas do nosso sistema cultural de valores entram em decomposição. As pessoas não estão já convencidas, observa ele, que os amanhãs serão “maiores e melhores”; as pessoas não acreditam mais na “marcha do progresso” que não parará nunca e nos trará a paz, a segurança e a prosperidade. A sociedade “sensorial” desintegra-se e os sintomas dessa deliquescência são inúmeros.

O espírito que se desprende da arte, da música e da literatura contemporâneas, escreve Sorokin, “concentra-se sobre as morgues das centrais de polícia, sobre as proezas dos criminosos, sobre os órgãos sexuais, e interessa-se principalmente por tudo o que releva das fossas e esgotos da sociedade”, porque não há mais ideais vivos para o inspirar. Os princípios da ética e do direito afundam-se sob os nossos olhos, lançando numa terrível confusão mental e moral os homens de governo e os julgadores, tal como enormes massas humanas, todos perdendo a capacidade de distinguir claramente entre o bem e o mal, entre as coisas que reforçam os laços que mantêm a sociedade em harmonia e segurança e, por outro lado, as coisas que contribuem para a sua dissolução. Enquanto a criminalidade atinge patamares inauditos, os tribunais estão cada vez mais obcecados com os chamados direitos dos criminosos e dos psicopatas, enquanto que os direitos dos cidadãos comuns, obedientes às leis, são tratados com desprezo e calcados aos pés. Pior: a humanidade e a especificidade humana são negadas. Em lugar de se posicionar como uma criatura criada à imagem e à semelhança de Deus, passa a definir-se o homem, comenta Sorokin, como “um organismo animal, um conjunto de reflexos mecânicos, uma variável nas relações estímulo/resposta, ou, para a psicanálise, como um saco cheio de líbido fisiológico”.

Naturalmente, numa sociedade onde tudo vai e vem e onde nada é estável nem sólido, as crises acumulam-se, atingindo tudo e todos. “Vamos então admirar-nos, diz Sorokin, que, mesmo que muitos não compreendam nitidamente o que se passa, tenham pelo menos um vago sentimento que a questão não reside simplesmente na “prosperidade” ou na “democracia”, ou noutro conceito idêntico, mas em qualquer coisa que envolve “o conjunto da cultura sensorial contemporânea, da sociedade que ela gera e dos homens que ela determina? Se esta massa humana não compreende as implicações pela análise intelectual, ela apercebe-se, com acuidade, que se encontra dolorosamente presa nas grilhetas que constituem as vicissitudes do nosso tempo, sejam os homens reis ou operários”.

Sorokin era um homem de inteligência extrema e complexa, uma personalidade independente. Embora não se possa classificá-lo como um “homem de direita” no sentido habitual da expressão, porque nem todas as posições que assumiu correspondem a essa etiqueta, não se pode porém negar o seu conservadorismo intrínseco em inúmeros temas, nomeadamente nas questões sociais. Entre outros pontos, era evidentemente um adversário feroz do comunismo; desconfiava de todas as ideologias (que considerava como esquematizações sobranceiras ou mutilações mentais dignas das infligidas num leito de Procusto); estava aterrado constatando a putrefacção moral que via expandir-se tão rapidamente na sociedade.

Não será surpresa verificar que Sorokin, em tempos apontado como o sociólogo mais publicado no mundo, tenha sido lançado no esquecimento desde os anos 60. Desde logo, como notou o teólogo conservador Harold O. J. Brown, o tradicionalismo social muito marcado de Sorokin provoca o anátema, actualmente, nas fileiras do situacionismo contemporâneo. Brown escreve que Sorokin “está realmente esquecido na grande universidade onde passou as quatro últimas décadas da sua vida; sem dúvida porque ele colocava o acento tónico sobre os valores e desprezava a corrupção; hoje em dia, tais atitudes passaram de moda em política e não têm mais espaço nesses lugares”.

Para mais, a visão que Sorokin cultivava sobre o fim que a sociologia devia prosseguir era tradicionalista, o que é altamente suspeito nos nossos dias. Russell Kirk escreveu, há alguns anos, que “os behavioristas mais típicos rejeitam as convicções éticas de Sorokin (convicções baseadas na Regra de Ouro) e negam a existência de valores e de normas permanentes”. O próprio Sorokin estava consternado por ver a sua obra assim rejeitada; amargo, advertia a comunidade dos seus pares que tais posições não podiam senão conduzir a sociologia para impasses: “Apesar da admiração narcísica que votamos a nós mesmos, apesar das energias e dos meios enormes que se gastam em pesquisas estatísticas e pseudo-matemáticas, as realizações da sociologia moderna permanecem singularmente modestas; de forma inesperada, ela manteve-se estéril e as suas deduções falsas são particularmente abundantes”.

Algumas das obras de Sorokin continuam a ser editadas, e estão disponíveis junto das editoras americanas. As mais importantes e pertinentes para compreender as crises que agitam hoje a civilização europeia continuam a ser “Social and Cultural Dynamics” e “The Crisis of Our Age”. Neste período de ressaca, de abandono e de queda que conhece o Ocidente dos nossos dias, parece importante reler a exposição das ideias poderosas contidas nessas obras brilhantíssimas.