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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Xavier Zubiri explicado por Julián Marias

Por André,

Xavier Zubiri nasceu em San Sebastián em 1898. Fez estudos de Filosofia e Teologia em Madri, Louvain e Roma; doutorouse na primeira destas Faculdades em Madri, com uma tese sobre 'Ensayo de una teoria fenomenológica deljuicio', e na segunda em Roma; fez também estudos científicos e filosóficos na Alemanha; em 1926 foi catedrático de História da Filosofia na Universidade de Madri; ausente da Espanha desde princípios de 1936 até o começo da Segunda Guerra Mundial, foi professor na Universidade de Barcelona de 1940 a 1942. Desde então reside em Madri, afastado do ensino oficial, e deu uma série de cursos privados, de grande repercussão, ou ciclos de conferências, desde 1945.

A formação especificamente filosófica de Zubiri revela a influência de seus três mestres principais: Zaragüeta, Ortega e Heidegger. Seus estudos teológicos e a orientação do primeiro deles proporcionaram-lhe uma profunda familiaridade com a escolástica, cuja marca é bem visível em seu pensamento; Ortega foi decisivo para sua maturação e orientação: “Mais que discípulos - escreveu Zubiri -, "fomos criaturas suas, no sentido de que ele nos fez pensar, ou pelo menos nos fez pensar em coisas e de uma forma que até então não tínhamos pensado..." E fomos criaturas suas, nós que nos preparávamos para ser enquanto ele se estava fazendo. Recebemos então dele o que ninguém mais poderá receber: a irradiação intelectual de um pensador em formação.” Por último, Zubiri estudou com Heidegger em Friburgo de 1929 a 1931, pouco depois da publicação de Sein und Zeit, e a marca desse magistério enriqueceu igualmente seu pensamento. A isso se devem agregar os amplíssimos e profundos conhecimentos científicos de Zubiri, aos quais dedicou extraordinária atenção durante toda a vida, desde a matemática até a neurologia, e seus estudos de línguas clássicas e orientais, sobretudo como instrumentos para a história das religiões.

A obra escrita de Zubiri foi tardia e descontínua, e ainda é escassa. Seus ensaios filosóficos - exceto “Sobre el problema de la filosofia” e “Ortega, maestro de filosofia” - foram reunidos em 1944 no volume 'Naturaleza, Historia, Dios'; até .1962 não voltou a publicar, e nesse ano veio a lume seu extenso estudo Sobre la esencia\ em 1963, a redação de um ciclo de conferências, 'Cinco lecciones de filosofia'. Os estudos históricos de Zubiri compõem grande parte de sua obra e são de penetração e profundidade extraordinárias. Estão construídos de maneira sumamente pessoal, como uma tentativa de buscar as raízes da própria filosofia, e portanto com uma referência à situação atual do pensamento, que lhes confere caráter estritamente filosófico. Isso é notório nos primeiros ensaios de Naturaleza, Historia, Dios, “Nuestra situación intelectual”, “iQué es saber?” e “Ciência y realidad”, que introduzem à consideração do passado; assim como nos estudos “El acontecer humano: Grecia y la pervivencia del pasado filosófico”, “La idea de filosofia en Aristóteles”, “Sócrates y la sabiduría griega” ou “Hegel y el problema metafísico”. De uma perspectiva mais propriamente teológica, embora com inconfundível presença da filosofia atual, “El ser sobrenatural: Dios y la deificación en la teologia paulina”, talvez o mais iluminador e profundo de seus escritos. Seu último livro estuda a idéia da filosofia numa série descontínua de pensadores: Aristóteles, Kant, Comte, Bergson, Husserl, Dilthey e Heidegger. A significação filosófica da física contemporânea foi estudada no ensaio “La idea de la naturaleza: la nueva física”.

O mais comentado e influente dos ensaios de Zubiri é “En torno al problema de Dios” (1935), que busca a dimensão humana desde a qual esse problema deve ser formulado; o homem está implantado na existência ou implantado no ser; apóia-se a tergo em algo que nos faz ser; isso leva à idéia de religação: estamos obrigados a existir porque estamos previamente religados ao que nos faz existir. A existência está não só lançada, como religada por sua raiz. Estar aberto para as coisas mostra que existem coisas; estar religado descobre que existe o que religa e é raiz fundamental da existência. É isso que Zubiri chama de deidade: e a religação coloca o problema intelectual de Deus como ser fundamental ou fundamentante. Daí surgem os problemas da religião ou irreligião e inclusive o ateísmo, que aparecem formulados nessa dimensão da religação.

O livro 'Sobre la esencia' foi longamente preparado por meio de cursos em que Zubiri tratou de diversos problemas de metafísica. É um livro sumamente denso e técnico, que investiga com minúcia e profundidade uma questão central da filosofia. Zubiri se propõe retornar “à realidade por si mesma e inquirir nela qual é esse seu momento estrutural que chamamos de essência”. O conceito de estrutura é utilizado de maneira temática, apoiando-se na filosofia de Aristóteles, de cuja idéia de substância, aliás, faz uma crítica que desemboca no conceito de substantividade, com recurso freqüente a esquemas escolásticos de pensamento e uma presença constante da mentalidade científica, física e, sobretudo, biológica. Uma parte considerável do interesse desse estudo refere-se a suas possibilidades de compreensão da realidade biológica, e concretamente da espécie. A essência, segundo Zubiri, é um momento de uma coisa real, e esse momento é unidade primária de suas características; por outro lado, essa unidade não é exterior, mas intrínseca à própria coisa, e um princípio em que se fundam as outras características da coisa, sejam ou não necessárias; a essência assim entendida - conclui - é, dentro da coisa, sua verdade, a verdade da realidade. Longas análises determinam o âmbito do “essenciável”, a realidade “esenciada” e a essência mesma do real. Esse livro complexo e difícil culmina em sua exposição da idéia da ordem transcendental, em que Zubiri critica outras concepções da transcendentalidade e expõe a sua própria. Em tudo ele utiliza conceitos avançados em seus cursos, como o de “inteligência sentiente”, que faz do homem um “animal de realidades”, definido por essa “habitude” peculiar.

Apesar do tecnicismo de sua expressão, do uso constante de neologismos e das referências freqüentes às ciências, os cursos e escritos de Zubiri revelam inconfundível paixão intelectual e um dramatismo que decorre dos esforços de um pensamento excepcionalmente profundo para abrir caminho entre suas intuições e desenvolvê-las dialeticamente até chegar a fórmulas próprias. O volume 'Sobre la esencia' é o primeiro de uma anunciada série de “Estúdios filosóficos”, em que deverá se expressar o enorme saber e o profundo pensamento de seu autor.

História da Filosofia, Julián Marias. Martins Fontes. 2004. p. 517-519. São Paulo.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Mais um caso de "problemas" com brasileiros no aeroporto de Barajas. "Racismo" (??), será?

Mais uma vez estamos assistindo ao um carnaval (sem trocadilho!) orquestrado por brasileiros no aeroporto de Barajas, Madri-Espanha.

O que reforça a comoção nacional (??) nesse caso é que a envolvida é uma senhora de 77 anos.

Será, como dizem os comentários do site da Folha, mais um caso de "racismo"? [Desculpem as aspas, não participei do último meeting de antropólogos em que ficou decidido que brasileiro é um novo tipo de raça].

Duvido muito, eis os motivos:

- Da reportagem: Dona Rosinha, como é conhecida, chegou ao país europeu com uma neta, na segunda-feira (5), após embarcar em um voo da Air China que partiu do aeroporto de Cumbica (estaria ela tentando deixar de presente mais um parente pelas bandas do Velho mundo? Fica a questão...)

A seguir, ela fala dos dias com banho "sem sabonete" e da "comida sem sal" da primeira ("e última", diz) viagem ao exterior na vida.
Folha - Como foi a detenção?

Dionísia Rosa da Silva - Eu cheguei com a minha neta e três malas. Tinha 70 euros e a passagem de volta. O policial me pediu para sair da fila. Falei: "Justo eu, com essa idade?".

Como conseguiu conversar com os policiais?

A gente entende, né... Dá uma de "joão sem braço".
- Nenhum país do mundo é idiota para rejeitar turistas legítimos, pois eles trazem grana e movimentam a economia, o que é bom para um país em crise e típico do turista brasileiro, que é deslumbrado e gastão;

- A neta da senhora é imigrante ilegal no país e sequer se prestou solidariedade à avó se juntando a ele na prazerosa volta à "patria amada Brasil";

- A senhora estava munida de polpudos 70 euros e sem garantias de hospedagem, a mesma não falava espanhol (e, desconfio, nem português);

Será que um país em crise está interessado em ter mais um imigrante para sustentar?

Será que a experiência passada, de brasileiros que vendem documentos falsos, aliciam a vinda de outros brasileiros ilegais, agenciam a prostituição não depõe contra TODA entrada de ""turistas"" nas condições da senhorinha?

Quer isso conte, quer não, os brasileiros usarão de um tal de princípio de reciprocidade e passarão a praticar o mesmo com os turistas espanhóis que vierem ao Brasil.

Melhor o serviço da Telefônica? NÃO.

Tratarem de cuidar da exploração sexual no Nordeste? NÃO.

Vão torrar as paciências dos turistas espanhóis que, esses sim, virão só gastar grana por aqui.