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sábado, 3 de junho de 2017

Um embuste chamado Acordo de Paris: redução PREVISTA de 0,2 graus em 100 anos

Por André,

É questionável, mas vamos aceitar, for the sake of the argument, que haja aquecimento global antropogênico e que combatê-lo seja possível e desejável. De acordo com um estudo do MIT, o máximo que pode alcançar o acordo de Paris, do qual Trump acaba de retirar os EUA, é reduzir a temperatura global em 0,2 grau até 2100 — presumindo que todos os países signatários o cumpram, pois é tudo voluntário e sem mecanismos coercitivos. Qual é o custo da brincadeira? Segundo um estudo, três trilhões de dólares e 6,5 milhões de empregos. Por uma redução de temperatura de 0, 2 grau ao longo de quase um século.

É evidente que o acordo simplesmente não vale a pena, não faz sentido, é no mínimo discutível. Mas por que entrar nesses detalhes, investigar do que se trata e discutir a substância real da coisa, se é muito mais fácil pintar Trump como um Hitler 2.0, que em vez de fritar judeus quer fritar o planeta inteiro?

Só não admite quem for realmente desonesto que o acordão é apenas uma ferramenta para implementar regulação, controle e taxação em nível global (textbook globalism) quem é retardado ou que é da elite hollywoodiana (que não são retardados, mas respondem a quem paga o contracheque).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Os senadores Ted Cruz (republicano) e o socialista Bernie Sanders (democrata) debatem o Obamacare

Por André,

Os mais íntimos dos principais debates americanos sabem que uma das atuais grandes questões americanas é o Obamacare, um programa de natureza socializante. Para nós, brasileiros, seria justo dizer que se trata da tentativa de implementar um SUS americano. Uma das promessas de campanha do presidente Donald Trump foi, justamente, rechaçar o Obamacare e livrar de barreiras as companhias de seguro para que haja mais variação de preço e concorrência.

A coisa toda é cercada por mentiras e pelas marcas do monopólio estatal sobre qualquer serviço: apenas o site do Obamacare custou 1 bilhão de dólares e... não funcionou! Obama prometeu às pessoas de outros programas de saúde e companhias que poderiam manter seus médicos, o que se provou uma mentira. O Obamacare obrigou companhias a aumentar preços e fez com que muitas famílias não pudessem mais frequentar os mesmos médicos.

Em debate recente, o excelente Ted Cruz e o "socialista democrático" Bernie Sanders debateram o assunto:


Um resumo das argumentações pode ser o que segue:

Bernie Sanders:

Quando replicando os diversos problemas no sistema apontados por Ted, disse: "sim, há muitos problemas, todos têm problemas, mas é preciso melhorar".

"A saúde tem de ser grátis porque tem". Não sabemos de onde o dinheiro vai brotar, mas tem.

Ted Cruz:

Cruz, mestre da arte dos debates, argumentou tanto por princípios (o governo é mau administrador, o controle deve estar nas mãos das pessoas e não do Estado, o ACESSO a saúde é direito, não a saúde em si mesma) quando com dados (a ineficácia das medicinas socializadas saudadas por Sanders, a disfuncionalidade do Obamacare etc).

Além disso, Ted mostrou a total inviabilidade econômica das ideias de Sanders:



Esse debate, inclusive, me remeteu a uma notícia tratando do medo de alguns idosos de serem "eutanasiados" na Holanda. Socialismo não significa racionamento de comida apenas, mas racionamento de saúde também:

https://www.facebook.com/aassibarreto/posts/1911630299069890

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Lee Kuan Yew, o homem responsável pelo que Cingapura tem de melhor e de pior

Lee Kuan Yew, o homem responsável pelo que Cingapura tem de melhor e de pior: Cingapura se tornou independente da Malásia em 1965. Na verdade, o país foi praticamente expulso da Malásia. À época, Cingapura era um país pobre e atrasado -- uma mancha estéril, improdutiva e sombria em uma das mais perigosas regiões do mundo. Com efeito, a renda per capita de Cingapura em 1965 seria equivalente à de um país como Angola ou Kosovo hoje, ajustada pela inflação. No entanto, Cingapura contava com um líder, um fundador visionário: Lee Kuan Yew. E ele tinha ideias claras sobre como modernizar o país. Sua estratégia continha os seguintes elementos: moeda forte e estável; nada de ajudas estrangeiras; empresas privadas de primeiro mundo, plenamente competitivas, operando em um arranjo de livre comércio pleno e sem sofrer regulações onerosas; e um arranjo de lei e ordem. E, para cumprir esses objetivos, o segredo da estratégia era ter um governo pequeno e transparente; um governo minimalista em termos econômicos, que não impunha complexidades e nem burocracia -- daí a contínua presença de Cingapura no topo do ranking da Doing Business, entidade que mensura a facilidade de se empreender ao redor do mundo.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O preço do experimento petista no Brasil: 1,4 trilhão

Por Stephen Kanitz,



Mansueto Deve Anunciar Rombo de R$ 1.4 Trilhões, Isso Mesmo

Fiquei feliz com a indicação do economista Mansueto Almeida, "considerado um dos grandes especialistas em contas públicas".

Agora teremos a verdade.

Que segundo meus cálculos, bem mais imprecisos do que alguém de dentro, deverá ser mais próximos de R$ 1.400 bilhões, do que os R$ 96 bilhões divulgados por Dilma. 

Esta monstruosa diferença aparecerá se usarmos os critérios contábeis desenvolvidos, há mais de 700 anos, por Luca Paccioli.

Nos 5 anos da Dilma, todas as contribuições que você trabalhador fez ao INSS, deveriam ter sido contabilizados como Dívida a Pagar aos Futuros Aposentados, de um lado.

E do outro, a débito, uma aplicação no Fundo Financeiro e Atuarial, como reza o artigo 231 da constituição de 88.

Aplicado por 30 anos, em média, suas contribuições renderiam juros e daria até sobras na hora de pagar sua aposentadoria.

Mas Dilma fez outra pedalada fiscal.

Dilma lançou estas contribuições como Receitas do Governo.

E não precisa ser muito inteligente, para perceber que logo em seguida estas "Receitas do Governo" viraram rapidamente Despesas do Governo.

Como mostra o meu demonstrativo.

Quando o correto, e o Mansueto deve saber disto, teria sido lançar como Dívida, e mostrar que agora temos uma Dívida sem lastro.

Ou seja se você pretendia se aposentar, esquece.

Seu dinheiro não foi aplicado como deveria, ao contrário, suas contribuições sumiram e você nem reclamou. Achou que o governo guardaria bem sua contribuição. 

Segunda feira saberemos o número exato.

Poderá ser mais ou menos do que a minha estimativa, mas não será nada perto dos R$ 200 bilhões que vários economistas tem estimado por aí.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O governo foi despetizado, mas o Estado não: essa é a próxima briga.

Por André,



As reações raivosas ao primeiro dia do governo Temer já começaram. O PT saiu do governo mas o petismo não saiu do Estado: montagem "machista" de Romero Jucá em primeira reunião ministerial foi falsamente propalada no Facebook, site "O Cafezinho" acusando Temer de ter sido testemunha de defesa de Ustra (!!), blogs agora ex-beneficiários do nosso dinheiro espumando, "alunos engajados" de federais expelindo pus por todos os orifícios imagináveis nos grupos das faculdades.

A de hoje é criticar a extinção do Ministério da Cultura. Ministério da Cultura é uma excrescência brasileira, outras de nossas jabuticabas. Em grande parte do mundo civilizado a cultura está fundida com a educação; a ideia de separá-las, no Brasil, remonta à ditadura militar e a ideia originalmente é mesmo de governos populistas-autoritários que não têm nenhum interesse nobre em financiar Alta Cultura mas sim de fomentar "cultura" que lhe é favorável e fiscalizar cultura que não é.

A verdade é que o SAMU pode ficar em verba em agosto e esse é um dos muitos exemplos da herança maldita de Dilma, o dinheiro para dar conta disso NÃO SERÁ TIRADO DAS IMPRESSORAS MÁGICAS da esquerda! Sigamos em frente, tomemos a frente da narrativa, despetizemos o Estado, do contrário, eles voltarão.

domingo, 10 de abril de 2016

Uma das caricaturas mais feias da nossa era: a esquerda nacionalista ("o petróleo é nosso") e conspiratória

Por André,

As mesmas figuras que usualmente denunciam o nacionalismo como um movimento fascista ou com tendência à direita e que consideram as denúncias sobre o Foro de São Paulo como sandices conspiratórias do "astrólogo da Virgínia" não hesitam em atribuir algo da dimensão da Lava Jato aos "interesses americanos em privatizar a Petrobrás" e a considerá-la obra de "agentes da CIA".

Leiam esse ótimo texto do Alexandre Versignassi:

Hoje vimos que o pessoal dos Centros Acadêmicos das nossas universidades públicas têm usado seu tempo livre imaginando uma teoria conspiratória, segundo a qual:

1) Nosso Poder Judiciário é um braço de um certo "Departamento Americano dos Estados Unidos".

2) Esse "Departamento" usa juízes brasileiros como fantoches com o objetivo de "entregar a Petrobras para a Shell".

3) Tudo isso é financiado pelo "dinheiro do trabalhador brasileiro, desviado para pagar juros da dívida externa", enriquecendo ainda mais os EUA, e retroalimentando a formação de mais juízes fantoches em território americano. Solução: deixar de pagar a dívida, naturalmente.

Enquanto isso, no mundo real:

- Obama cede a pressões de ambientalistas e bane a exploração de petróleo na costa do Atlântico.
- O Model 3, novo carro elétrico da Tesla, recebe 300 mil encomendas e segue firme para se tornar o automóvel mais vendido dos EUA - talvez do mundo, sem jamais usar uma gota de petróleo.
- O preço do barril segue em baixa, quebrando a indústria petroleira dos EUA, que só nos últimos anos, graças ao xisto, tinha aumentado sua produção em 4 milhões de barris por dia (duas Petrobras).
- As quatro maiores empresas do mundo não são petroleiras, nem americanas. São quatro bancos chineses, credores da dívida externa americana.
- A dívida externa do Brasil é de US$ 330 bilhões. A dívida que o resto do mundo tem com o Brasil é de US$ 375 bilhões. Estamos no azul desde o boom das commodities, e somos o quinto maior credor dos EUA. Só eles nos devem US$ 225 bilhões, e pagam os juros bonitinho, como todos os nossos outros devedores. 
- O grosso da dívida brasileira para é interna. Em real, moeda que, olha só, nós mesmos produzimos. E os credores dessa dívida somos todos nós que temos conta em banco, já que a maior parte do dinheiro dos bancos está aplicada em títulos da dívida pública. Se o governo deixar de pagar essa dívida, o real deixa de existir como moeda. Converte-se em papel colorido com desenhos de gosto duvidoso. E quando vc quiser comprar pão, vai ter que dar para o padeiro algo que ele aceite como moeda de troca (talvez um abraço, uma palavra amiga, ou uma nota de dólar).

O mundo real, enfim, é um lugar onde uma Petrobras é um ativo altamente arriscado, que "a Shell" ou qq petroleira saudável do mundo não pegaria nem de graça, já que quem pegar "de graça" ganha uma dívida de US$ 120 bilhões (uma Volkswagen inteira) para pagar. 
O mundo real é um lugar que está deixando o petróleo para trás.
O mundo real é um lugar onde a maior dívida externa do mundo é a americana
O mundo real é um lugar onde calote é punido com descrédito. E só nos damos ao luxo de ter uma moeda nacional pq ainda existe a crença de que, um dia, o governo tratará sua dívida interna alguma responsabilidade, e que não vai haver calote, nem que um hipopótamo assuma a presidência. 
O mundo real, em suma, é um lugar mais complexo que o das teorias infantilóides. Mas também é um lugar bem mais difícil de entender.
Se vc, cara do CA, não quer usar seu amplo tempo livre para entender como o mundo realmente funciona, beleza. Só não perca tempo tentando me ensinar.

ADENDO contido nos comentários:

A parte mais anelídea da declaração que motivou essa resposta nem entrou aqui, por ser o lugar comum mais surrado: defender a "expropriação dos meios de produção de riqueza". A minha "riqueza" eu produzo com um laptop. Boa parte das empresas mais valiosas do mundo (Google, Amazon, Facebook), em última instância, também. E todas começaram com uma ou duas pessoas na frente de um laptop (R$ 500 no Mercado Livre). Vamos estatizar os laptops, então? Quando Marx escreveu isso, "os meios de produção de riqueza" eram basicamente minas de carvão, teares a vapor e navios, coisas inacessíveis mesmo no século 19. O que nem ele nem ninguém imaginava é que a revolução da "tomada dos meios de produção pelo proletariado" aconteceria via tecnologia e liberdade para empreender, não com tiro, porrada, bomba, campo de concentração e ditadura, como sonharam, e realizaram, tantos de seus seguidores pelo mundo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Brasil do PT consegue mais um feito inédito: retração bienal de 4% mais inflação de 10%

Por Exame,

São Paulo - Marcos Lisboa, diretor do Insper, acredita que a recessão "ainda não tem porta de saída" e que o brasileiro vai sentir saudades de 2015.

"4% de recessão é muito raro na história do mundo. Dois anos seguidos, mais raro ainda. Com inflação de 10%, então... é muito profissionalismo pra conseguir um estrago assim", disse hoje no evento "Rumo da Economia" em São Paulo.

Por profissionalismo, Lisboa se refere a várias decisões de política econômica do pós-2008 - de proteção comercial, expansão do crédito e benefícios para o desenvolvimento de indústrias selecionadas, como a naval.

Só em subsídios do BNDES serão pagos pelo contribuinte R$ 323 bilhões até 2060 (o valor inclui apenas a diferença entre o juro pelo qual o dinheiro foi tomado pelo governo e pelo qual foi emprestado para o setor privado).

"Quando você faz alguma coisa, você deixa de fazer outra, e isso tem que fazer sentido em escala mundial. O ganho de um é a perda do outro. Sempre que você protege um, você desprotege outro."

Ele compara o primeiro mandato de Dilma com o final dos anos 50 e o pós-choque do petróleo de 1973, quando o governo também não aceitou a crise externa e preferiu continuar crescendo a qualquer custo sem fazer ajustes.

As consequências eventualmente aparecem e quanto mais demora o enfrentamento, pior fica a situação: "Escolhemos o estímulo que resultou na década perdida. Esse é o custo do populismo".

Lisboa, que foi Secretário de Política Econômica do primeiro governo Lula, diz que só fica levemente otimista com a abertura maior para o debate, e que "não há saída dessa crise que não passe pela reforma do Estado".

Ele acredita que as mudanças não precisam nem devem ser bruscas, e que algumas políticas de proteção poderiam até ter sido feitas, só que de outra forma - com data para acabar e metas de desempenho, por exemplo.

E importantante: elas não surgiram em um vácuo. Respondiam a demandas empresariais e foram amplamente defendidas por associações setoriais na época.

"Mas todo mundo que apoiou agora finge que era crítico desde o começo", provoca.

sábado, 21 de novembro de 2015

Venezuela: pobreza recorde. Bancos lucraram com Chavez. O socialismo segue sendo "deturpado" e segue sendo a distribuição igualitária da miséria

Por Globo,

CARACAS - A pobreza na Venezuela chegou a 73% dos lares do país, constituindo um recorde histórico desde o início das medições em 1975, segundo uma pesquisa divulgada na sexta-feira por três das principais universidades do país. Com inflação galopante, escassez de produtos e variação cambial grande, o país não tem conseguido sair de sua crise econômica.

De acordo com a pesquisa nacional conjunta da Universidade Católica Andrés Bello, a Universidade Central da Venezuela e a Universidade Simón Bolívar em julho e agosto, com 1.500 pessoas, o número de venezuelanos com privação de rendimento saltou de 52,6% em 2014 para 76% em 2015. O sociólogo Luis Pedro España, da Andrés Bello, relatou que 73% dos lares também sofrem.

Segundo España, o salto da pobreza se deve à aceleração da elevação dos preços. As autoridades não divulgam os dados oficiais, mas analistas temem que o número tenha superado os três dígitos.

— A metade dos lares em privação de rendimento diz que compra em mercados populares de inclusão, sinal que vemos como da privação. Sem o abastecimento subsidiado, a fome cresce.

Os lares com privação de rendimento tinham média de 27,3% no segundo semestre de 2013. Em uma pesquisa de 1998, a privação atingia 45% dos lares. No governo de Hugo Chávez, no entanto, a estabilização econômica e um amplo programa de inclusão socioeconômica permitiram que uma parcela significativa das famílias mais pobres saíssem do status de pobreza. No entanto, desde 2014 a situação se deteriora pela política econômica de cessão de importações (gerando escassez) e congelamentos.

Banqueiros venezuelanos enriquecem graças a revolução chavista.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

“A realidade brasileira é ainda pior do que a argentina”, diz analista


A Argentina, maior emissora de turistas para o Brasil e terceira principal parceira comercial do país, perdeu o status de “uma das mais prósperas economias do mundo”, que ostentou no início do século 20, e passou a amargar um processo de deterioração, com mais da metade da população vivendo abaixo da linha de pobreza, além de problemas como altos níveis de violência e corrupção. O diagnóstico é traçado em “Kirchner era Argentina”, monografia do analista de investimentos Fernando Klein Rocha, 23, um dos herdeiros do grupo potiguar Guararapes - dono da maior indústria de confecções da América Latina e da marca Riachuelo. 


O texto examina a Argentina atual, pós crise, e foi apresentado em junho, como trabalho de final de curso, na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. De acordo com Rocha, os resultados do trabalho revelaram uma economia severamente problemática e disfuncional em praticamente todos os aspectos analisados e apontam que “o declínio econômico da Argentina, em grande parte, pode ser atribuído a traços culturais”. 

“Dificilmente a trajetória da Argentina pode ser atribuída a determinado modelo econômico, uma vez que tanto governos mais populistas e estatistas quanto governos mais liberais economicamente fracassaram ao longo da história do país, além de terem se caracterizado por extrema corrupção”, escreveu ele, no trabalho, em que defende como solução “uma reforma de orientação de livre mercado, de caráter radical”. De acordo com o analista, isso incluiria uma redução drástica do tamanho do estado, a abertura completa do país ao investimento estrangeiro e outras reformas liberais.

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ele detalha as ideias e também compara o atual quadro político e econômico do país vizinho com o do Brasil. Classifica, ainda, o ambiente de negócios brasileiro como “hostil ao empreendedorismo”.

Por que abordar a situação econômica da Argentina, neste trabalho? 

Acredito que padrões de desenvolvimento econômico são objetos de estudo de extrema importância, pois eles determinam a prosperidade de sociedades humanas. Dentro desse contexto, a Argentina surge como um dos casos mais notáveis. Enquanto países como os tigres asiáticos (Coréia do Sul, Singapura, Taiwan e Hong Kong) servem como exemplos de extremo desenvolvimento econômico em cerca de 50 anos, de altíssimos níveis de pobreza para a prosperidade absoluta, a trajetória da Argentina foi oposta. Nas primeiras décadas do século 20, o PIB per capita Argentino estava entre os dez maiores do mundo, e superava o Alemão e o Francês, era o dobro do Italiano e Espanhol e o triplo do Japonês. Já em 2002, o PIB per capita Argentino era metade do mexicano, a taxa de pobreza urbana atingiu 57% e a taxa de indigência (extrema pobreza), 25%. 

Quais foram os principais impulsos a essa deterioração econômica?

O mais óbvio impulso foi o persistente desrespeito aos mais básicos princípios morais da sociedade ocidental. O direito humano mais fundamental é o direito à propriedade. Uma sociedade que não respeita esse direito não pode se proclamar civilizada. O governo Argentino, reiteradas vezes, atentou contra esse direito; às vezes de maneira direta, através de confiscos, outras de maneira indireta, através da inflação, que é o mais dissimulado e cruel mecanismo de transferência de riqueza da sociedade para o estado. Estamos falando de um desrespeito que, na Argentina, veio travestido de Peronismo, mas essa conduta reincidente de desrespeito ao direito à propriedade já ocorreu em diversos países em diferentes circunstâncias e momentos históricos. Em nenhum desses casos, a história terminou bem para o povo. Na Argentina, assim como no Brasil, temos uma cultura de agigantamento e divinização do estado. Mas um ministro de estado, de modo algum, é necessariamente mais sábio ou perspicaz do que um industrial ou um comerciante. A sensação de onipotência e onisciência do estado acaba fazendo com que o estado, em certo momento de sua história, se julgue capaz, não apenas de ditar regras econômicas ou políticas, mas também códigos morais. Esse é um dos maus legados da Revolução Francesa: trocamos Deus pelo Estado. Mudam-se as regras do jogo durante o próprio jogo, de acordo com aquilo que o Estado julga conveniente em dado momento. Poderíamos resumir o problema Argentino em particular, e o latino-americano em geral, como um contumaz desrespeito ao princípio do “pacta sunt servanta”: os pactos devem ser cumpridos. Onde não se cumprem os pactos é impossível haver confiança: o relativismo moral contamina diversas frentes da sociedade, inviabilizando a geração de riqueza. O capitalismo não é apernas máquinas ou matérias primas: ele também é, principalmente, confiança. Sem ela, os colapsos político, social e econômico são apenas uma questão de tempo. 


O país é um dos principais parceiros internacionais do Brasil, no turismo e no comércio exterior. Há possibilidade de essa relação ser abalada em decorrência dessas turbulências?

Com certeza. Quando um país se torna um pariah na sociedade das nações, é natural que haja uma deterioração no modo como as pessoas percebem esse país. É natural que cidadãos de outros países não tenham muito interesse em viajar, trabalhar ou mesmo viver num país que se marginalizou por suas más condutas de gestão.

Quais seriam as soluções para esse cenário de deterioração? Você defende uma "reforma radical" no país. Como seria essa reforma, por que é necessária e que efeitos produziria?

Mantendo tudo como está, é de se esperar que a Argentina não consiga sair de sua condição periférica no cenário global. Não é tão difícil concluir que as melhores alternativas estão associadas à abertura das fronteiras do país e a liberalização de sua economia. Quando barreiras isolacionistas são derrubadas, temos a oportunidade de aprender com os acertos de outras nações: esse é o aspecto civilizatório do comércio. Você aprende, com os países mais ricos, modelos mais prósperos de sociedade. Por exemplo: se eu fabrico carros mas estou inserido em uma economia protecionista, é de se esperar que meus carros sejam inferiores aos modelos produzidos, por exemplo, na Coréia do Sul ou nos Estados Unidos. Como corrigir essa situação? Com mais protecionismo? Claro que não! Muito pelo contrário, devemos abrir as fronteiras, deixar a concorrência entrar, aprender com essa concorrência e, em seguida, tentar superá-la. Essa é a essência de uma economia de mercado: quem está lá em cima pode cair, e quem está embaixo pode subir. Quanto mais contato a Argentina tiver com países centrais, mais ela aprenderá a respeito de boas práticas comerciais e políticas.

A dinâmica política da sociedade argentina é, historicamente, bem diferente da brasileira. Levando isso em consideração, que relação seria possível fazer entre o cenário que identificou no país vizinho e o atual momento do Brasil?

A nenhum de nós é dado o direito de roubar dinheiro público, certo? Não importa se você esta roubando dinheiro publico para comprar um Rolls Royce ou para financiar a construção do socialismo. Ladrão é ladrão, crime é crime. O problema é que essa noção se perdeu um pouco na América Latina, nos últimos 15 anos. Se um político é pego roubando dinheiro público para comprar um Rolls Royce, ele é imediatamente chamado de ladrão. Mas se um político é pego roubando caminhões de dinheiro em nome do bolivarianismo ou da “justiça social”, então tudo bem. Que moral é essa, que relativiza o crime de acordo com o destino do butim? Precisamos acabar com a noção ingênua de que e possível construir um país decente brincando de Robin Hood. Quando você rouba dos ricos para dar aos pobres, você não está praticando um ato de bondade: você esta praticando um crime. O Brasil não entende muito bem essa ideia, e a Argentina entende muito menos. Aqui, caímos novamente no tema da minha primeira resposta: “pacta sunt servanta”. É impossível haver paz e prosperidade num pais onde crimes (estatais ou não) são mais ou menos tolerados, dependendo da causa em nome da qual eles foram cometidos.

Que peso você atribui à dinâmica política do peronismo - centralização do Executivo, dependência do Judiciário e do Legislativo, populismo eleitoral, controle da imprensa etc - corrente que o grupo Kirchner evoca como sua herança política/partidária, ao cenário atual da Argentina?

Total. A Argentina de 2015 é a cristalização do projeto que Perón desenvolveu há muitas décadas. É um vazio ideológico no qual só se cultiva um único fruto: a manutenção do poder. É o poder pelo poder.

É possível traçar um paralelo entre essa dinâmica política argentina e a brasileira, levando em conta os últimos governos? 

Com certeza, absolutamente. O que ocorre é que a situação política brasileira consegue ser potencialmente mais perigosa do que a Argentina. Isso porque a subida do PT ao poder representa a vitória (ainda que momentânea) de um projeto de poder que veio para ficar. O Lulopetismo não tem adversário, tem inimigos. E inimigos, para o Lulopetismo, são todos aqueles que ousam contestar o direito petista de permanecer indefinidamente no poder. Não importa quanto roubam, pois dizem roubar em nome de uma causa muito nobre: a construção do socialismo, um sistema político tão maravilhoso que conseguiu assassinar mais de 100 milhões de pessoas, apenas no século 20. Hitler matou 6 milhões de seres humanos. Então, quando falamos do Socialismo, estamos falando de um sistema político que conseguiu ser 16 vezes mais genocida do que o Nazismo. E é esse sistema que os petistas defendem. É esse sistema que eles querem trazer para cá. É em nome desse sistema que eles saquearam a Petrobras. Feitas essas considerações, ouso dizer que a realidade política brasileira é ainda pior do que a Argentina. Lá, eles querem o poder pelo poder. Aqui, eles querem o poder para construir o inferno socialista. 

As turbulências na economia brasileira preocupam menos ou mais?

Eu sinceramente acho que aqui a situação é pior, muito pior. Embora o Brasil seja um país naturalmente rico, temos deficiências em pontos letais, como a educação. Quando falamos de Argentina, estamos falando de um país que, embora problemático, ainda cultiva hábitos e heranças de seus tempos de glória. Buenos Aires, por exemplo, tem o maior índice de livrarias per capita do mundo. Aqui, chegamos ao ponto central sobre as chances e oportunidades do futuro: uma boa educação não é condição suficiente, mas é condição necessária à prosperidade econômica de qualquer país. Não existe nação rica com educação como a nossa. Os índices educacionais brasileiros ocupam os últimos lugares nos rankings internacionais, e isso é absolutamente incompatível com a atual fase do capitalismo, na qual, cada vez mais, busca-se a produção de itens com maior valor agregado possível. Enquanto não resolvermos a questão educacional, estaremos condenados a vender commodities para todo o sempre. Além do problema educacional, no entanto, temos uma questão ainda mais urgente: a da liberdade econômica, que, em termos de importância estratégica, é muito mais prioritária do que a questão educacional. Isso porque, embora a educação seja um problema fundamental, a educação sozinha é incapaz de fazer com que um país enriqueça. A educação só tem esse poder se ela estiver inserida numa sociedade que garanta aos indivíduos a maior liberdade econômica possível, de modo que através do livre mercado, os indivíduos possam exercitar todas as suas competências inatas e adquiridas, em trabalhos honestos, sem intimidações por parte do poder público. É verdade que a Argentina não é nenhum exemplo de liberdade econômica, mas, até onde sabemos, não existe, na Argentina, nenhum plano nefasto de “construção do socialismo”. Aqui, ao contrário, corremos o risco de viver esse pesadelo. 

Qual seria o maior desafio da economia brasileira, hoje?

Enquanto o brasileiro não mudar sua forma de enxergar e de se relacionar com o estado, estaremos condenados a uma pobreza crescente que terminará em miséria. Ou mudamos nossa cabeça, ou o pior dos futuros nos espera. Por outro lado, podemos atingir níveis inimagináveis de prosperidade se nos inspirarmos em paradigmas de sucesso como os Tigres Asiáticos. Já mencionei nessa entrevista o caso da Coréia do Sul. É um país admirável, dadas as circunstâncias em que viviam há 60 anos. Outro exemplo é Singapura, uma ilha sem recursos naturais, desprovida de unidade étnica ou religiosa, que hoje apresenta PIB per capita superior à de nações como os EUA e Canadá. Se Coréia do Sul e Singapura conseguiram, por que o Brasil não poderá conseguir também? Só não podemos nos dar ao luxo da insanidade. Einstein definiu insanidade como fazer algo sempre do mesmo jeito, esperando obter resultados diferentes. Já passou da hora de entendermos que não chegaremos a nada de bom enquanto continuarmos insistindo nessa ideia falida de estado gigante e protetor. Imagine o nível de riqueza que o Brasil poderia atingir se adotássemos o lema do estado mínimo como norte das nossas ações políticas...

E o maior desafio para a indústria e o varejo de moda, em um contexto de economia enfraquecida, inflação e juros em alta e consumo retraído?

Pelo cenário que já delimitamos, fica fácil perceber que nosso ambiente de negócios é hoje muito hostil ao empreendedorismo. Nessa condição, toda e qualquer ação da livre iniciativa é sempre vista pelo poder público como algo suspeito e potencialmente ameaçador à sociedade. Por isso, uma das maiores tolices contemporâneas é tratar o empresário como se fosse o parasita da sociedade. Na verdade, a sociedade se beneficia das empresas muito mais do que as empresas se beneficiam da sociedade. Por quê? Os benefícios que a sociedade apura com as empresas são quase sempre permanentes. São benefícios que vem para ficar. Por outro lado, uma empresa que contribuiu imensamente para a melhoria do padrão de vida humano, amanhã ou depois pode cometer um equívoco comercial e ir à falência. O benefício que essa empresa trouxe à sociedade sobrevive ao longo do tempo de vida da própria empresa. Essa é uma ideia simples, mas não muito compreendida aqui no Brasil. No entanto, alguns países da América Latina já compreenderam essa ideia. Veja por exemplo o caso o Paraguai. O governo daquele país criou condições para que novas empresas investissem em seu território. A Riachuelo foi uma dessas empresas. Não fomos para lá por que esse era o nosso sonho, mas sim porque percebemos a mão estendida do governo Paraguaio. Ao longo dos últimos 10 anos, a Riachuelo bancou insistentemente o risco de concorrer com produtos chineses, arcando com custos elevados de produção brasileira. Durante a última década, fomos ao limite da nossa capacidade e dos nossos recursos, para produzir, em solo nacional, a maior parte possível das mercadorias que vendemos em loja. Fizemos isso porque isso gera um ciclo de prosperidade para todos os brasileiros, e nós também somos brasileiros. No entanto, não consideramos que o governo brasileiro, desde o início da era petista, soube apreciar todo esse esforço. Acho que muitos outros empresários compartilham dessa mesma sensação. Não queremos um país em que empresários se vendam em troca de linhas de crédito subsidiado. Não queremos um país que trata seus empresários como se eles fossem marginais, quando os verdadeiros marginais estão nas mais altas esferas de Brasília, saqueando nosso dinheiro. Não queremos um país que inviabilize a atividade econômica.

sábado, 22 de agosto de 2015

Grécia poupa mais que Alemanha, mas mídia nacional prefere mencionar "lucro" de 100 milhões alemão

Por André,

Em 2 anos a Grécia poupou 9,1% do PIB contra 3% do PIB em 5 anos economizado pela Alemanha, graças a política de preços baixos propiciada pelo BCE as custas da credibilidade da Alemanha (único país de rating máximo).

Qual a manchete na mídia brasileira?

"Alemanha lucra 100 bilhões de euros com a crise grega".



Uma narrativa mais informada mas igualmente simplista poderia, portanto, concluir que quem mais tem "lucrado" com a crise grega tem sido a própria Grécia, que em dois anos terá poupado três vezes mais em juros do que a Alemanha em cinco. Para de seguida sugerir que serão, afinal, os governos gregos que arrastam os pés para perpetuarem a crise e suas benesses.

Recentemente, o instituto alemão de Investigação Económica de Halle (IWH) publicou um estudo no qual se conclui que, devido à crise grega e à política de baixos juros do BCE, a Alemanha poupou entre 2010 e meados de 2015 nos seus custos de financiamento mais de 100 mil milhões de euros, 3% do seu PIB, porque beneficiou de forma desproporcionada do reforço do estatuto de "activo seguro" que tradicionalmente os investidores concedem aos títulos de dívida emitidos pelo Estado alemão. 

Houve quem interpretasse esse ganho como um "lucro" (título da notícia da Lusa), como a demonstração de que "são os mais fortes que estão a beneficiar da desgraça dos mais frágeis" (como se leu na coluna de opinião do DN) ou até quem concluísse que a Alemanha "tem 100 mil milhões de razões" para não ter pressa numa solução para a crise porque estará a "beneficiar imenso" dela (editorial do Público).

Olhe-se agora para cálculos semelhantes feitos para os Estados europeus intervencionados. Usando uma aproximação igualmente séria à realidade feita pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), quando se comparam as taxas de juro dos empréstimos concedidos pelos parceiros europeus com as que teoricamente teriam de suportar caso tivesse acesso aos mercados chega-se à conclusão de que todos eles pagaram menos. Em 2013, a Grécia poupou em juros 8,6 mil milhões de euros, o equivalente a 4,7% do seu PIB, o que corresponde a 9% da despesa pública primária, o que por sua vez é mais do que os recursos que o Estado grego investe na Educação do seu povo. No ano seguinte, o Estado grego poupou 7,9 mil milhões de euros, ou 4,4% do seu PIB.

De acordo com os cálculos da instituição que está a financiar a parte europeia dos resgates, nenhum outro país intervencionado poupou tanto quanto a Grécia com a circunstância de estar a ser financiado por empréstimos pedidos em nome da Zona Euro - Chipre economizou 1,5% do PIB, Portugal 0,8%, Irlanda 0,4% e Espanha 0,2% (dados para 2013). Isso só é possível dada a credibilidade de que a Alemanha goza junto dos investidores (é o único grande país do euro com rating máximo das grandes agências de notação), credibilidade essa que transfere para o MEE ao ser o seu maior accionista, e que chega depois em forma de empréstimos com juros mais baixos aos países que perderam acesso aos mercados porque os investidores não os reconhecem como credíveis.

Uma narrativa mais informada mas igualmente simplista poderia, portanto, concluir que quem mais tem "lucrado" com a crise grega tem sido a própria Grécia, que em dois anos terá poupado três vezes mais em juros (9,1% do PIB) do que a Alemanha em cinco (3%). Para de seguida sugerir que serão, afinal, os governos gregos que arrastam os pés para perpetuarem a crise e as suas benesses.

Como a correcção de um erro não se faz cometendo o mesmo erro ao contrário, em vez de ver chifre em cabeça de cavalo talvez seja avisado tentar ler o estudo no contexto em que foi publicado. 

Ao salientar que quando se discutem os custos de "salvar a Grécia" não devem ser ignorados os ganhos obtidos pelo Estado alemão ao longo destes cinco anos - porque serão maiores do que o prejuízo num cenário em que a Grécia não devolva os 90 mil milhões de euros que o IWH calcula terem sido suportados, directa e indirectamente, pelos contribuintes alemães - o instituto alemão parece querer dar argumentos aos que, internamente, defendem um perdão de dívida à Grécia, e não apenas uma nova suavização das condições (juros e prazos) de reembolso dos empréstimos, como está na calha, na linha do prometido em Novembro de 2012. Tão simples quanto isso. E tão complexo quanto isso, quando se sabe que para a Alemanha, e não só, é jurídica e politicamente impossível perdoar dívida a um país do euro, e que para o fazer seria preciso a Grécia tirar umas férias da união monetária, como sugerido pelo ministro Wolfgang Schäuble – e rejeitado por Alexis Tsipras e por Angela Merkel.

sábado, 15 de agosto de 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

Brasil: a Grécia de amanhã. Paper de três economistas causa depressão sobre futuro econômico brasileiro

Por Veja,

É bem pior do que você imagina.

Um artigo de nove páginas escrito por três economistas com trânsito junto à academia, empresários e políticos está causando choque e depressão em quem o lê.

Em “O ajuste inevitável,” Mansueto Almeida Jr., Marcos Lisboa e Samuel Pessôa tentam quantificar, pela primeira vez, o aumento do gasto público já contratado para os próximos 15 anos.

Até 2030 — ou seja, antes que um brasileiro nascendo este ano possa votar — o gasto anual do Estado brasileiro terá subido 300 bilhões de reais, uma aumento de 20 bilhões de reais por ano.

Para neutralizar este aumento de despesas, será preciso criar um imposto equivalente a uma nova CPMF a cada mandato presidencial de quatro anos (entre este ano e 2030). Para ficar claro: não se trata de renovar a CPMF a cada quatro anos, e sim de cobrar uma nova CPMF em cima da anterior, sucessivamente, a cada novo governo.

Este aumento de 300 bilhões é a soma apenas dos aumentos nos gastos com previdência, educação e saúde já contratados por conta da legislação vigente.

Mas antes disso, há o desafio atual: para estabilizar o tamanho da dívida pública como percentual do PIB, o Brasil tem que transformar o rombo de 32 bilhões de reais no ano passado em um superávit de 3% do PIB (quase 170 bilhões de reais). Isto significa que a sociedade terá que achar 200 bilhões de reais por ano para passar do ‘vermelho augustín’ para o ‘azul levy’. E, até 2030, achar aqueles outros 300 bilhões por ano.

Em outras palavras, se a cultura de ’taxar e gastar’ não for mudada, daqui a 15 anos o Estado brasileiro estará demandando da sociedade 500 bilhões de reais a mais — por ano — para honrar com suas obrigações.

O ‘paper’ de Almeida, Lisboa e Pessôa destrói a análise superficial que diz que o problema fiscal brasileiro é apenas uma questão de ajustar a rota depois de alguns anos de gastos exorbitantes.

Se o desafio conjuntural chega a ser paralisante, o problema estrutural das contas públicas é mortal.

Os economistas mostram que, desde 1991, a despesa pública cresce a uma taxa maior do que a renda do País, em parte porque o Estado está sempre distribuindo novos benefícios a grupos organizados.

Para bancar estes gastos, o Executivo e o Congresso se uniram e aumentaram a chamada carga tributária (o conjunto dos impostos pagos pelos eleitores) de 25% do PIB em 1991 para cerca de 35% do PIB no ano passado. É para isso que você trabalha um terço do ano: para financiar os gastos com programas sociais, inclusive a Previdência, e para manter a União, Estados e municípios funcionando.

E, como há os tais aumentos de gasto encomendados; a única forma de financiá-los será aumentar ainda mais os impostos.

Além da rigidez do gasto público — que só pode ser alterada com vontade política e emendas constitucionais — o problema fiscal brasileiro vai se agravar também por conta do fim do chamado bônus demográfico, o período em que o país tinha tantos jovens na força de trabalho que eles conseguiam pagar pela previdência dos mais velhos. Como a taxa de natalidade caiu, o Brasil envelheceu, e um ‘velho’ custa duas vezes o que o Estado paga para manter a população na escola. (A conta é feita comparando-se os gastos da previdência com os gastos em educação pública.)

Ao contrário do que pode parecer, esta não é uma conta que dê para pagar com uma grande privatização. Pausa para checar o dicionário.

[Privatização: s.f. Tentativa de levantar caixa ou melhorar o desempenho da economia, mas que produz, no imaginário político de países atrasados, ‘entreguistas’ de um lado, ‘verdadeiros patriotas’ do outro, e ‘iludidos’ no meio.]

O Brasil tem hoje um problema de fluxo, além do estoque de dívida — da mesma forma que alguém que gaste mensalmente 1,5 vez o seu salário pode até vender a casa e abater a dívida, mas continuará para sempre fadado ao cheque especial.

De onde vem tanta gastança?

“O Brasil tem uma tradição de concessão desenfreada de benefícios, de forma descentralizada, e sem analisar o conjunto da obra e o impacto que isto tem na sociedade,” diz Lisboa, já conhecido no debate público por alertar sobre o problema da ‘meia entrada’, os benefícios que grupos de interesse conseguem do Estado e que são bancados por toda a sociedade. “Se isto não for resolvido de alguma forma, o Brasil pode enfrentar um problema como o da Grécia na próxima década.”


Em tese, haveria uma saída para o Brasil conseguir financiar o aumento do gasto público já contratado até 2030 sem mexer no ‘pacote de bondades’ que o Estado oferece e sem aumentar impostos. Mas neste cenário, a economia teria que crescer 5% ao ano daqui até lá para turbinar a arrecadação e, mesmo assim, algumas despesas vinculadas ao PIB teriam que ser alteradas. Obviamente, as chances disto acontecer são remotas, dada a ausência de reformas na estrutura do Estado.

Essas reformas teriam que atacar benefícios concedidos por Brasilia que não custam dinheiro diretamente — ou seja, não tem impacto fiscal —, mas que reduzem a concorrência e sufocam a produtividade da economia, desde regras de conteúdo nacional a barreiras não-tarifárias que criam reservas de mercado, incluindo os inúmeros benefícios tributários dados a setores ‘estratégicos’.

Como é que o Brasil ainda não havia se dado conta de que o buraco fiscal era tão mais embaixo?

“Um ponto essencial do nosso argumento é o entorpecimento que a arrecadação excepcional entre 2000 e 2010 produziu na sociedade e nos analistas,” diz Pessôa. “Nós ‘congelamos’ um setor público que somente se sustenta se a arrecadação crescer acima do PIB para sempre.”

E como no Brasil os gastos públicos são fixados como um percentual do PIB, nem uma inflação mais alta resolve o problema. Além do que, “a inflação só não é pior que uma guerra civil como forma de gestão do conflito distributivo,” diz Pessôa.

Talvez a maior contribuição do artigo — cuja íntegra está aqui — seja mostrar que serão necessárias coragem e visão de Estado para o País fazer o que tem que ser feito.

Para além de todo o barulho de curto prazo sobre o destino deste ou daquele político, as pessoas responsáveis — nos partidos, nas empresas e na sociedade — deveriam usar este diagnóstico como o ponto de partida de uma conversa séria e urgente.

Por Geraldo Samor

domingo, 5 de julho de 2015

O Estado inchado, descontroladamente inchado, é a causa da crise grega




Quando o primeiro-ministro Georges Papandreou anunciou a dimensão da dívida soberana e as primeiras medidas de austeridade, a Grécia era um oásis. Durante anos, os diferentes governos foram alimentando uma cultura de regalias e privilégios muito acima das posses do país e da realidade dos outros Estados da zona euro. Até às reformas impostas pelo governo grego e pela ‘troika', multiplicavam-se benefícios difíceis de explicar.

No sector público, a contratação de pessoal e o pagamento de subsídios servia para garantir votos. Os políticos habituaram-se a usar o emprego como moeda de troca. Razão de sobra para, nos últimos anos, o número de funcionários públicos ter disparado. Admitidos sob protecção política, muitos não compareciam sequer ao trabalho. Sempre que não era possível proceder a aumentos, os governantes recorriam à atribuição de subsídios.

Desta forma, a Grécia tornou-se terreno fértil de regalias insólitas. Nos transportes ferroviários, vários colaboradores recebiam um subsídio para lavarem as mãos. Em 2010, a empresa somava três milhões de prejuízo por dia. Na companhia de electricidade, o pessoal da manutenção auferia mais por ter carta de condução. Cerca de sete mil funcionários públicos recebiam um prémio por carregarem envelopes. Falar uma língua estrangeira, saber usar o computador ou simplesmente chegar a horas ao trabalho também podia ser motivo de regalia.

Num país onde 7% do PIB é usado em despesas de armamento, os militares e as suas famílias gozavam direitos especiais. Até casarem ou completarem 28 anos, as filhas tinham direito a um subsídio. Os filhos de sexo masculino estavam arredados do privilégio. Uma fotógrafa ‘freelancer', que beneficiou da medida até ao limite de idade, contou ao Diário Económico que usou o montante para comprar um carro.

A Grécia contava 600 profissões de desgaste rápido. Cabeleireiro, músico de instrumento de sopro ou apresentador de televisão eram algumas das ocupações consideradas de risco e, por isso, com direito a reforma antecipada. Mas há grupos profissionais com ainda mais privilégios. Elizabeth Polymerou, advogada, conta que os seus pares estavam isentos do pagamento de IVA. Outro dos grandes desafios do Governo grego é acabar com as "profissões fechadas". Farmacêuticos, advogados, notários, camionistas e taxistas são algumas das classes protegidas por leis especiais, que apadrinham os interesses da minoria instalada. Ao colocar entraves à entrada de novos profissionais, mantêm esses sectores livres de concorrência.

Em meados de Julho, contra a intenção de acabar com este regime, os taxistas fizeram greve durante uma semana, tendo chegado a bloquear os acessos ao porto e ao aeroporto. Nas ruas de Atenas, não se encontrava um único táxi. Quando, através do hotel, tentámos reservar um serviço para o aeroporto, foi-nos pedido 60 euros. Habitualmente, são cerca de 20. Nikolaos Diamantopoulos, desempregado, conta que, apesar das reclamações dos clientes, muitos taxistas usam o carro como se fosse um autocarro: "A meio da corrida, apanham mais pessoas e cobram como se continuássemos sozinhos". Não há reforma económica sem reforma de mentalidades.


Novo pacote de austeridade

Para garantir o pagamento de mais uma tranche de 12 mil milhões de euros a Grécia teve de rever o seu pacote de austeridade: A ‘troika' exigiu novos cortes de despesa e aumento de impostos, até 2016, equivalentes a 28 mil milhões de euros.

- Privatização de portos, telecomunicações e património detido pelo Estado e pelas empresas públicas, avaliadas em 50 mil milhões de euros.
- Corte das despesas militares em mil milhões de euros nos próximos cinco anos.
- Corte de mais de dois mil milhões na Saúde até 2015.
- Redução dos preços regulados dos medicamentos.
- Aumento de impostos para o combustível de aquecimento e para os trabalhadores independentes.
- Redução do número de funcionários públicos.
- Novo imposto solidário para os rendimentos superiores a 12 mil euros anuais, com uma taxa que varia entre 1 e 5% para os altos cargos da Administração Pública central e local.
- Pagamento de imposto sobre o património a partir de 200 mil euros e não 400 mil como até aqui.
- Redução do rendimento a partir do qual se paga impostos de 12 mil para oito mil euros. Excepções para os jovens até aos trinta anos, deficientes e pensionistas com mais de 65 anos.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Periódico Mises Brasil chega a sua quarta edição, conta com resenha minha do livro A Política da Prudência e apresenta regras para publicação

Por Alex Catharino,

Em reunião de editoria do periódico "Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia", realizada no dia 4 de maio de 2015, com a participação do Editor Responsável Ubiratan Jorge Iorio, do Gerente Editorial Alex Catharino, dos Editores Adjuntos Fabio Barbieri e José Manuel Moreira, do Jornalista Responsável Bruno Garschagen e do Presidente do Conselho Editorial Helio Beltrão, ficou decidido que seria feita uma convocação oficial para a submissão de artigos e de resenhas para as próximas edições.

O periódico acadêmico semestral "Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia" aceita submissão de artigos científicos relacionados ao pensamento daEscola Austríaca de Economia, escritos por professores universitários, doutorandos, mestrandos e pesquisadores. As análises não precisam necessariamente concordar com o pensamento austríaco, sendo aceitos artigos críticos a essa corrente teórica. Os artigos submetidos para a publicação deverão se enquadrar em uma das seguintes seções:

1ª) Epistemologia e Ética;
2ª) Economia, Metodologia e Praxeologia;
3ª) História do Pensamento Econômico;
4ª) Sociedade, Legislação e Política;
5ª) Cultura e Liberdade.

Serão publicadas, também, resenhas de livros. As obras resenhadas deverão ser de autoria de autores filiados à Escola Austríaca de Economia ou, caso contrário, deverão ser analisadas à luz do pensamento austríaco. Serão aceitas resenhas de livros cuja edição tenha sido lançada, no máximo, cinco anos antes da data de envio do texto.

Os artigos ou as resenhas enviados para publicação em "Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia" devem ser contribuições originais e não devem estar sendo examinados para publicação por qualquer outro editor.

Os autores que submeterem artigos para publicação deverão se responsabilizar, caso haja qualquer infração de copyright, e indenizar o editor lesado pela quebra do contrato. Todos os artigos e resenhas publicados se tornarão propriedade legal do Instituto Mises Brasil (IMB), podendo ser reproduzidos em outros meios após a publicação do periódico, desde que citada a fonte.

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No artigo não deve constar nenhuma identificação de autoria e/ou referencias que possam indicar o autor do texto. Junto com o arquivo eletrônico do artigo ou da resenha deverá ser enviado o link para o currículo do autor na Plataforma Lattes e/ou um breve currículo, informando os dados pessoais, formação acadêmica completa, filiação institucional e os trabalhos acadêmicos mais relevantes publicados pelo autor, que não serão informados aos avaliadores do texto.

No período máximo de um mês será acusado o recebimento do material enviado por e-mail. Caso o autor não receba uma resposta nesse período, solicitamos o reenvio do material. O prazo de avaliação dos artigos e resenhas de livros enviados é de dois a seis meses.

A edição impressa publicará apenas textos em português. Trabalhos em outros idiomas serão traduzidos e as versões originais serão publicadas nas edições digitais. Os artigos deverão ter de 6 a 25 páginas e as resenhas devem ter de 2 a 5 páginas. O arquivo deverá ser formatado em folha A4, orientação retrato, margens de 2,5cm; fonte Times New Roman em tamanho 12, espaço de parágrafo simples, sem espaçamento antes ou depois dos parágrafos.

Os artigos deverão trazer obrigatoriamente um Resumo de 4 (quatro) a 8 (oito) linhas, que deverá ser traduzido para inglês como um Abstract. Os textos, também, deverão apresentar um conjunto de 3 (três) a 8 (oito) Palavras-Chave, traduzidas para o inglês nas Keywords. Os autores deverão, preferencialmente, incluir no texto os códigos da Classificação JEL, apresentando a(s) temática(s) do artigo. Não incluir Resumo, Palavras-Chave, Abstract, Keywords e Classificação JEL nas resenhas de livros.
Caso sejam utilizadas fontes especiais (grego, hebraico etc.) no artigo, os autores deverão enviar, também, os arquivos das fontes utilizadas. Quando forem utilizados imagens ou gráficos, os autores deverão enviá-los em arquivos individuais, indicando no corpo do texto o local de inserção das imagens. As imagens devem ter formato JPG e a resolução de 300 DPI.

O texto deverá seguir as regras da ABNT. As citações com menos de 4 linhas deverão vir no corpo do texto, entre aspas e em itálico. As citações com mais de quatro linhas deverão vir destacadas num bloco de texto com recuo de 1 cm à esquerda em fonte tamanho 11. Não incluir bibliografia ao final do artigo. As referências bibliográficas deverão ser inseridas em notas de rodapé, com fonte tamanho 10.

Todos os artigos e resenhas enviados para publicação serão analisados de forma anônima por dois membros do Conselho Editorial de "Mises: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia, que elaborarão um parecer avaliando o trabalho. O processo de avaliação será de dois a seis meses a contar da data de recebimento do texto. Os editores entrarão em contato com os autores comunicando se o material foi aprovado ou rejeitado, justificando a decisão, bem como, informando a necessidade de correções no texto, caso necessário.

O não cumprimento dessas regras levará à notificação do autor, que deverá fazer as correções necessárias para a devida reavaliação pelo Conselho Editorial.

Os autores receberão um exemplar gratuito da versão impressa do número em que seu artigo ou resenha for publicado, além de poder adquirir mais exemplares da referida edição com um desconto de 40% sobre o preço de capa e acrescido, ao valor final, o custo da remessa.

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sexta-feira, 1 de maio de 2015

O jovem que encurralou Thomas Piketty

Por Exame,

São Paulo - Em 30 de março, o americano matthew Rognlie, de 26 anos, deixou de ser um número. Até aquele momento, ele era só mais um entre cerca de 600 000 estudantes de pós-graduação dos Estados Unidos. Apenas um dos 129 alunos do curso de doutorado em economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, conhecido pela sigla em inglês MIT.
Naquela sexta-feira, Rognlie ganhou luz própria ao dar uma palestra na Brookings­ Institution, um dos centros de pesquisa de maior prestígio de Washington. Foi a primeira vez que um aluno de Ph.D. em economia apresentou um trabalho no lugar onde costumam se reunir chefes de Estado, ministros e grandes nomes do meio acadêmico. 
Como acontece em várias áreas da vida, na economia também é possível medir o sucesso de alguém pelas pessoas que param para ouvi-lo. Na seleta plateia reunida por Rognlie estavam Robert Solow, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1987 e considerado o pai da teoria do crescimento econômico; George Akerlof, ganhador do Nobel em 2001 e marido de Janet Yellen­, atual presidente do Fed, o banco central americano; e Olivier Blanchard, o respeitado economista-chefe do Fundo Monetário Internacional.
“Fiquei um pouco tenso no início, achando que não conseguiria dizer tudo no tempo que tinha, mas, no fim, saiu tudo como o planejado”, diz Rognlie. Aquele era o grande dia de Rognlie, mas todos estavam lá porque sua palestra era uma feroz — e elegante — crítica ao trabalho de um economista que não estava presente: o francês Thomas Piketty.
Professor e pesquisador da Paris School of Economics, Piketty conquistou fama global no ano passado ao publicar nos Estados Unidos O Capital no Século 21, um calhamaço de quase 700 páginas sobre o tema da desigualdade social. Contra todas as expectativas, o livro virou um sucesso de vendas, foi lançado em cerca de 30 países e pautou, desde então, o debate sobre as dinâmicas que movimentam o acúmulo e a distribuição das riquezas.
Piketty coletou e padronizou dados inéditos em inúmeros países ao longo de várias décadas — principalmente na França, na Grã-Bretanha, na Alemanha e nos Estados Unidos. Al­gumas séries históricas voltam mais de 100 anos.
Ao analisar esses dados, o economista francês disse encontrar, com uma certa regularidade, um mesmo padrão: o retorno sobre o capital — o que inclui propriedades, inves­timentos, terras e máquinas — tende a ser maior do que o crescimento da economia. Em outras palavras, Piketty sugere que haveria uma força concentradora de riquezas inerente ao capitalismo. Assim como tudo o que é lançado ao ar tende a cair, a vantagem dos donos do capital sobre os demais só faz aumentar.
De forma polêmica, Piketty colocou o tema da desigualdade no centro das atenções, um feito nada desprezível. Escreveu um best-seller e virou assunto obrigatório no meio acadêmico, duas coisas que não costumam acontecer ao mesmo tempo. No MIT, onde Rognlie estuda, não foi diferente.
Rognlie ficou sabendo da existência de O Capital no Século 21 por um colega que tinha uma versão em francês — o livro foi primeiro lançado na França, em 2013, sem chamar muita atenção. Quando saiu no mercado americano em março de 2014, Rognlie correu para comprá-lo.
“Li antes que virasse um grande estrondo editorial, e minha primeira impressão foi que os dados e a ambição de Piketty eram incríveis, mas que o arcabouço criado por ele para interpretar os dados era de alguma forma fraco e muito vago.” Começava ali uma reflexão que, um ano mais tarde, o levaria para o centro do debate global sobre desigualdade.
Ainda no começo do ano passado, Rognlie leu uma resenha sobre O Capital no Século 21, escrita por Paul Krugman, ganhador do Nobel de Economia em 2008 e colunista do jornal americano The New York Times. Achou que tinha algo a acrescentar e escreveu um post no blog especiali­zado em economia Marginal Revolution, organizado por dois professores de economia americanos.
O comentário virou um sucesso, Rognlie se motivou a escrever um ensaio sobre o assunto, colocou o texto em seu blog pessoal e, no fim de 2014, já havia recebido o convite para escrever uma versão mais longa e apresentá-la na Brookings Institution em março.

Líquido e certo?


Em seu ataque, Rognlie tenta desfazer a ideia segundo a qual o retorno sobre o capital tende a ser constante e alto. Para sustentar sua tese, percorre dois caminhos. Ele argumenta que, numa situação em que o volume de capital de uma economia está crescendo, não é razoável achar que a taxa de retorno desse capital vai estar sempre constante, como diz Piketty.
Em algum momento ela vai começar a cair. Piketty argumenta que somente em situações extremas, como guerras, isso acontece. Rognlie diz que oscilações na taxa de retorno fazem parte do jogo.
Outro ponto discutido por Rognlie é o fato de Piketty usar o conceito de retorno bruto sobre o capital. Parece um detalhe qualquer, mas tem uma grande implicação. O cálculo bruto não considera a depreciação de propriedades, investimentos, terras e máquinas. Ao utilizá-lo, Piketty estaria inflando artificialmente o retorno do capital e chegando a uma conclusão errada sobre a principal causa do aumento da desigualdade.
“Alguns pontos citados por Rognlie já tinham sido falados por alto antes, mas ninguém organizou e embasou essas ideias como ele. É a melhor crítica feita até agora”, afirma a economista Monica Baumgarten de Bolle, tradutora para o português de O Capital no Século 21 e pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, um importante centro de pesquisa localizado em Washington.
Também ouvido por EXAME, Piketty pegou leve com ­Rognlie: “Para ser honesto, acho que não há nada de novo na crítica que ele me faz. Fico contente de ver que o debate sobre desigualdade continua bem vivo. Isso deve explicar o interesse por trabalhos como esse”.
Com base na reação da seleta plateia de ganhadores de Nobel e economistas renomados durante a apresentação na Brookings, não se chega a um veredito. “Muitos comentários foram bem elogiosos ao trabalho de Rognlie”, relembra Steve Cicala, professor de políticas públicas da Universidade de Chicago e um dos presentes no auditório. Mas ouviram-se críticas também.
Ainda que tudo isso possa parecer uma discussão estéril de especialistas, o que está em jogo é a busca do conhecimento sobre as causas da desigualdade social, uma questão que andou por muito tempo fora do debate público.
Conclusões apressadas e imprecisas sobre suas causas podem levar governos a adotar políticas equivocadas — uma boa reflexão para o Brasil no momento que o governo de Dilma Rousseff pensa na taxação de fortunas e no aumento do imposto sobre heranças como solução.
Na disputa acadêmica sobre a acumulação de riquezas, a bola da vez está com Piketty. É ele quem precisa digerir o que foi dito na Brookings e apresentar uma resposta robusta. Para Rognlie, o relógio já bateu as 12 badaladas. Depois da palestra, levou uma bronca do professor do MIT que o orienta, para evitar o assédio da imprensa e tratar de acabar logo sua tese de doutorado.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

John Galt já está em Miami

Por Instituto Liberal,

Na política, dizem que não há melhor pesquisa qualitativa do que uma conversa com um taxista. A minha versão pessoal é o meu cabelereiro – ou barbeiro, na tradução heterossexual. Talvez por isso, eu converse com tanto interesse com o sujeito que apara minha cabeleira há uns 15 anos em um salão bacana na orla do Rio. Em nosso último bate papo, me chamou a atenção que ele se queixava da perda de vários clientes fiéis por um motivo: estavam todos se mudando do Brasil.

O mesmo assunto dominava o jantar no fim de semana na casa de um amigo na Barra da Tijuca, dos presentes, entre executivos, empresários e escritores, quem não estava de mudança do Brasil, invejava os demais. E assim tem sido, de forma cada vez mais frequente, amigos, fornecedores e até concorrentes me confidenciam que deixarão o Brasil, sem data para voltar. O motivo principal varia, muitos citam a violência, outros a bolivarização do ensino e da mídia, e tantos demais mencionam o inóspito ambiente para negócios, mas o pano de fundo é sempre o mesmo: A completa falta de esperança no Brasil.

O fenômeno inclusive me parece generalizado, mas, para evitar o terreno subjetivo, me sinto obrigado a citar exemplos reais. Em meu ramo, mesmo com toda a pujança, recebi a notícia de que a Host Hotels (dona de diversos hotéis no mundo, inclusive os da rede Marriott no Brasil), ao final do ano passado, fechou o escritório do Brasil e cuidará de seus interesses remotamente, de Miami. Algo parecido aconteceu com a gigante Starwood Hotels (dona das marcas Sheraton, Meridien, W, dentre outros), que também cerrou seu escritório de desenvolvimento no Brasil. Ainda digna de nota, foi a verdadeira história recente de outro projeto de hotelaria de altíssimo luxo, cujos investidores – que estão habituados a projetos no Caribe, Angola e Senegal – deixaram o país e encerraram os seus investimentos por aqui com a melancólica frase: “Fuck Brazil!”. Preferiram abandonar as obras pela metade e assimilar um prejuízo multimilionário a permanecer no país que, ainda nas palavras deles, “tem o ambiente de negócios mais hostil que já viram na vida”.

Independentemente de exemplos pontuais, desafio o leitor a examinar sua rede de relacionamentos e me jurar que não conheça alguém que esteja deixando o Brasil. O destino geralmente é Miami (“o Rio de Janeiro que deu certo”), mas pode variar. O importante é que em minha vida, não consigo me lembrar de um fenômeno deste tipo e nesta magnitude, incluindo o grande êxodo de cariocas após a onda de sequestros no início dos anos 90.

Mas o que me causa grande preocupação, não é propriamente a quantidade de pessoas que tem ido embora, mas a qualidade do material humano que nos deixa. Estamos perdendo alguns dos nossos melhores empresários, advogados, engenheiros, cientistas e até intelectuais. Em outras palavras: estamos perdendo aqueles que carregam o Brasil nas costas.

É impossível não estabelecer um paralelo com o livro da filósofa Ayn Rand, “A Revolta de Atlas” (também publicado com o título “Quem é John Galt?”). Para quem não leu o romance (leia), trata-se de uma distopia onde, em um país controlado pelo governo e, em uma sociedade dominada pelo relativismo e pelo coitadismo, todos os melhores cidadãos produtivos resolvem desistir de seus ramos e se exilar secretamente em um território inalcançável. Não estarei estragando nenhuma surpresa ao dizer que a massa que fica passa a pedir mais intervenção do governo, que é, naturalmente, absolutamente inútil. Não restava mais ninguém de quem a riqueza pudesse ser sugada e todo o sistema entrava em colapso.

Nada disso aparece em alguma estatística do IBGE, nas projeções do IPEA ou mesmo no relatório Focus do Banco Central. Entretanto, metas de inflação, ajustes no orçamento, PACs, estímulos pontuais a setores, empréstimos do BNDES, regulamentações, programas de distribuição de renda e todas as ações que o governo brasileiro conseguir inventar não surtirão nenhum efeito se aqueles que carregaram o Brasil nas costas até hoje, não estiverem mais aqui para fazê-lo. Como andam dizendo, o último que sair não precisará apagar a luz, pois já não haverá energia elétrica.