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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Jordan Peterson dá BAILE em feminista militante disfarçada de jornalista no canal britânico "4 News"

Por André,


Leiam a análise de Douglas Murray sobre a entrevista:


E sobre o próprio Peterson:

https://www.spectator.co.uk/2018/01/the-curious-star-appeal-of-jordan-peterson/

Versão legendada no VIMEO, enquanto sobreviver:


Jordan B Peterson - Entrevista completa Pt from Markian on Vimeo.


PS.: mantenho link original e do VIMEO porque suponho que o vídeo possa ser derrubado em sua versão legendada.

Scott Adams, criador do desenho Dilbert e um dos primeiros a prever a eleição de Trump analisa a jornalista que entrevistou Peterson:




ATENÇÃO, NOVO LINK PARA ENTREVISTA LEGENDADA AQUI.

sábado, 1 de julho de 2017

Breves comentários sobre Mulher Maravilha

Por André,


- O filme da Mulher Maravilha, cercado por polêmicas, foi, em meu modesto ver, o melhor de uma trilogia imaginária (Homem de Aço, Batman vs Superman).

- Evidente que, por se tratar de uma heroína mulher, muitos querem emplacar a narrativa de que o filme seria "feminista", fato negado por sua diretorA. Embora a narrativa possa até ser relida como uma espécie de feminismo soft, não há nada explícito que garanta isso, especialmente nos atos da própria Mulher Maravilha, que não re rebela contra o "mundo dos homens" de maneira odienta em momento algum (e, é claro, trabalha para derrubar o Deus da Guerra que age por meio, também, de uma mulher "empoderada", uma cientista brilhante).

- Muitas justiceiras sociais sequer tentarão emplacar a ideia que o filme foi feminista por causa da belíssima Gal Gadot. Ela cometeu um pecado imperdoável pra essa gente seletiva na defesa das minorias: nasceu em Israel e serviu no exército de seu país, cumprindo a obrigação de qualquer cidadão. Além, é claro, de não ter dado mostras de ser feminista.

- Ares, o Deus da Guerra, pode ter sido considerado um vilão meia bomba por alguns. Mas talvez essa seja parte da ideia, para ilustrar que o mal nem sempre aparece nas suas expressões mais carrancudas (Ludendorff), às vezes, as expressões mais carrancudas são a segunda mão do mal disfarçado de alguma forma mais light, e COM UM DISCURSO PACIFISTA. Uma possível leitura a ser feita aqui é que Ares se vende como as principais peças de propaganda globalistas (ONU, UNESCO, União Europeia etc): pacíficos na casca, belicosos na essência. Prometendo e supostamente fomentando a paz para a plateia, mas germinando a guerra por trás das cortinas para, depois, vender-se como solução para o caos por eles próprios criados demandando mais e mais poder.

- As diversas referências simbólicas ao cristianismo, presentes nos outros filmes da trilogia seguem presentes em Mulher Maravilha (http://catholicexchange.com/lady-real-wonder-woman).

- A crítica está, nesse filme, entre dois pontos que não sabe qual aderir: investir na ideia do filme ser feminista, a contragosto da diretora e mentir descaradamente (não é tão difícil e muita gente tentou), falar mal do filme e revelar seu antissemitismo - uma cadela sempre à espreita pronta para latir -. ou reconhecer que o filme é bom, a despeito dos fatos anteriores.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

"Quando a tampa da esquerda não fecha", episódio 2: Richard Dawkins e a equivalência entre islamistas e feministas

Por André,

Há algum tempo escrevi a postagem "quando a tampa da esquerda não fecha", onde trato de uma espécie de "ranqueamento" de causas na agenda da esquerda; o que é e o que não é prioridade na agenda da militância esquerdista radical? Por exemplo, o ateísmo não ocupa um lugar muito alto nesse ranking, os militantes esquerdistas estão, no momento, muito mais propensos a relativizar as mazelas do islamismo radical (que, evidentemente, é fundamentalista e teocrático) em nome do "multiculturalismo" do que defender alguma forma de ateísmo. O mesmo para direitos homossexuais. O fato desses serem muito mais respeitados em Israel do que em qualquer outro país do Oriente Médio rapidamente é descartado como "pinkwashing", pois fazer a cama para o islamismo radical está, no momento, num dos pontos mais altos do ranking das causas esquerdistas.

Muitos dos assim chamados "neoateus" vêm sentindo na pele esse problema (embora não veja nenhum deles diagnosticando com precisão o problema - muitos têm falado de "esquerda regressiva" - por oposição a esquerda progressista, de traição dos "liberals" - quando o problema simplesmente é que há uma ordem de fatores na agenda dessa esquerda e, sendo a destruição do Ocidente tal como conhecemos o topo da lista, a relativização do islamismo radical é um dos meios mais poderosos para se fazer isso): Sam Harris, Bill Maher, Richard Dawkins.

O caso mais recente foi com Richard Dawkins. O amigo Marcelo de Mattos Salgado fez um apanhado do ocorrido no facebook:

Richard Dawkins, o biólogo ateu que escreveu livros sensacionais como "O gene egoísta" e homem que originou a expressão "meme", tão querida por aqui, sofreu um derrame poucos dias atrás.  
Dawkins fora expulso recentemente de uma conferência de ciências porque publicou um vídeo cômico no Twitter (!!!) sobre as semelhanças entre muçulmanos e feministas — algo sobre ambos serem, às vezes, intolerantes a críticas e viverem reclamando e se fazendo de vítimas. Que ironia. Tal é o estado da liberdade de expressão em nosso mundo... 
A expulsão se deveu à pressão de feministas e grupos de esquerda e islâmicos. Dawkins, segundo ele mesmo um homem "de esquerda" e "feminista" — mas que, como cientista, entende que devemos criticar também (especialmente!) aquilo com que simpatizamos — está desolado com a forma como os seus pares "progressistas" jogaram-no à fogueira rapidamente. O cientista é crítico do pós-modernismo e de excessos relativistas das ciências humanas (bem como Noam Chomsky — um socialista, aliás). 
Nossas prioridades estão todas distorcidas. Matamos e calamos heróis e almas corajosas e damos voz e destaque para mentiras e idiotices.  
Todos os vídeos em inglês. 
Dawkins critica o relativismo pós-moderno e o feminismo: 
https://www.youtube.com/watch?v=eKPWW5uu200 

Chomsky critica o pós-estruturalismo, o pós-modernismo e Foucault:
https://www.youtube.com/watch?v=OzrHwDOlTt8https://www.youtube.com/watch?v=OjQA0e0UYzIhttps://www.youtube.com/watch?v=pt2fdivw4cs 

Sobre Dawkins: quem quiser saber o que aconteceu.
https://www.youtube.com/watch?v=1428tqVc7BUhttps://www.youtube.com/watch?v=RlXdNOXU3_M 

Aliás, outros vídeos pra quem quiser acordar um pouco. Sustos garantidos, busca sincera pela verdade, idem. 
https://www.youtube.com/watch?v=LjN8xP0i6Akhttps://www.youtube.com/watch?v=AasuUt1d_fE

O vídeo que rendeu a polêmica é uma pérola, justamente porque expõe o padrão moral duplo dessa esquerda militante e ironiza a incrível semelhança de comportamento entre feministas radicais e islamistas militantes:


Muita gente, identificada com a própria esquerda já notou que a "tampa não fecha", porém estão falhando miseravelmente na correção do diagnóstico como um todo. Mas devemos confessar que a não-adesão ao relativismo moral de ateus como Harris, Maher e Dawkins é digno de nota como algo positivo.

sábado, 28 de novembro de 2015

Adélia Prado sobre Feminismo e aborto

Por Rodrigo Constantino,

Como não admirar quem chega aos 80 anos com a independência para dizer o que pensa, sem se curvar diante da maré politicamente correta? Se as feministas tivessem mais contato com a poesia, talvez fossem menos amarguradas, ressentidas, e deixassem de lado a visão marxista de luta de classes transportada para dentro do casamento. Eis um trecho da entrevista ao GLOBO:

O movimento feminista, que cada vez ganha mais força nas ruas, reunindo milhares de pessoas em marchas, já sendo chamado de “primavera das mulheres” a anima?

Não. Homicídio tornou-se uma palavra fraca. Por que “feminicídio”? Me lembra bandeiras, discursos irados, passeatas. O assassinato de mulheres é horrível não porque é de mulheres, mas porque a mulher é também uma pessoa. Qualquer assassinato é hediondo até prova em contrário. Enquanto nos distraímos com bandeiras e neologismos, o crime segue fagueiro e impune contra homens, mulheres, crianças, velhos, povos, contra a Humanidade. Dizer “feminicídio” não muda a questão. A revolução é de outra ordem. É moral, educacional, religiosa, civil, espiritual. Supõe um país que se dê ao respeito em suas instituições, um povo educado, igrejas não mercenárias. Onde está o líder civil ou um santo que nos leve a verdes pastagens e água pura?

Qual sua opinião sobre os projetos de lei que criminalizam todo tipo de aborto, como o PL 5069?

“Não matarás”. Salvo se em legítima defesa. Como tornar legal o aborto se a criança, inocente, incapaz, dependente da mãe para viver também é titular do direito inalienável à vida? Qual vida vale mais? É bom não esquecer: a vida de qualquer um é um valor em si mesma. Se a gravidez é uma ameaça real à vida da mãe, instala-se uma situação das mais terríveis e complicadas que conheci até hoje. Faz-se aborto por miséria, desespero, vergonha e egoísmo na maioria das vezes. As leis civis e religiosas se turvam diante deste problema, antes de tudo moral, de profunda complexidade e consequência. Necessita para sua resolução muita coragem e discernimento, que nem sempre andam juntos. As legislações, reconhecendo a natureza dramática do assunto, tentam contorná-lo para resolvê-lo. A letra é fria e muitas vezes mata. Apelo ao último juiz para o qual só existe um tribunal, o da consciência. Será sempre trágico agir contra a luz desse juiz. Não há, fora da minha consciência, quem me proíba ou me libere para o aborto. Obedecer a lei — para o sim ou para o não — nunca é garantia de paz interior. Decidir pela vida é obrigação do legislador. Considero “Meu corpo, minhas regras” uma empáfia, militância, cunha para extrair variadas vantagens, inclusive a tentativa de descartar a consciência com aval político.

A maior prova de que a legalização (e banalização) do aborto é uma bandeira ideológica e feminista está no fato de que repetem que o feto é parte do corpo da mulher, como se fosse uma unha encravada, ignorando totalmente o ponto de vista do pai da criança. Afinal, bebês não são concebidos em atividade independente só da mulher, e necessitam da contribuição masculina.

Como ignorar por completo a responsabilidade e os direitos do pai, então? Só mesmo feministas contraditórias, que depois de anularem o pai na decisão do aborto lhe cobram deveres sobre os filhos que nascem.

O feminismo pode ter sido, um dia, um movimento mais sério, em busca efetiva por mais direitos para as mulheres. Hoje se tornou algo bem diferente, raivoso, ideológico demais, intolerante com várias mulheres inclusive, e totalitário. Mais poesia, menos feminismo!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Universitária revela a realidade do feminismo

Por André,

Segue abaixo o depoimento de uma garota, universitária e presente no movimento feminista, revelando a natureza mesma do movimento. Logo abaixo, mais uma refutação total e completa da cantilena do "feminismo não é femismo" - o feminismo é um tentáculo da militância revolucionária, esquerdista até a alma, desnecessário no Ocidente e ausente nas teocracias que efetivamente oprimem as mulheres e outras "minorias".

Segue o primeiro texto:

Este é um relato de alguém que cansou do movimento feminista universitário, cansou das mentiras e das ilusões que o movimento feminista vende. Vejam bem, não é do feminismo em si. Se o feminismo é a busca por direito de ser com plenos direitos civis, concordo totalmente. Mas se o feminismo se transforma na luta pelo direito legítimo de odiar os outros – eu só penso “ainda bem que saí desta droga”.

O movimento feminista, como todos sabem sem maiores explanações, está intimamente ligado com a esquerda. As vertentes com mais adeptas são o feminismo liberal, radical e interseccional. Resumidamente, a vertente liberal defende que os homens podem participar do movimento; a radical exclui os homens, as pessoas transexuais e admite somente mulheres; e a interseccional prega que qualquer opressão deve ser levada em conta no sistema patriarcal em que vivemos. A vertente que, na minha visão, tem mais adeptas (e que está mais na moda) é o feminismo interseccional. Pense em uma olimpíada da “opressão”: quem for mais ferrado pela sociedade ganha o prêmio e o direito de falar – a chave disto tudo é uma palavra mágica, a “Vivência”. Aí é que a situação sai do controle. Por quê? A vivência, artifício de “cala boca”, explica tudo, e serão escourraçadXaqueles que tentarem incluir no debate qualquer autor que faça minimamente uma análise social ou que tenha mais que dez páginas – em português viu? [Porque estudar é coisa de gente elitista e acadêmica, saber minimamente o próprio idioma já é quase um pontinho que você perde no bingo da opressão, aí fica chato]. Para quem não conhece, vai um exemplo: "Mas Fulano disse que...."; "Pare de me silenciar, cala a boca, eu quero que esse macho acadêmico se ***, vou chamar o moderador pra te banir do grupo agora". 

Só pra dar um pequeno panorama da guerra que existe dentro do próprio feminismo na web, as pessoas fazem listas com os nomes de "fulano e fulana" que fazem parte de qualquer outra vertente que não concordam, e compartilham estas listas no inbox alheio. Uma tática muito usada é o "racha" – alguém posta um link e diz "Vejam só que machista elitista transfóbica lesbofóbica lgbtfóbica ETfóbica X coisa, vamos lá rachar". O racha consiste em fazer um exercito online para invadir uma página e xingar todos e todo mundo que tenha uma atitude que o movimento julgue como errada. O feminismo na internet também é um ambiente favorável para a criação de "ídolos" da militância – esse aí vai ter o poder pra falar por todo mundo, e quase sempre essas pessoas que por um acaso se tornaram famosas nesses grupos, alimentam esse egocentrismo todo, um quer ser maissalvadorx da pátria que o outrx. Tudo isso se baseia em quem tem mais vivência pra falar nas olimpíadas da opressão, e não demoradamente se periga criar minis "diva" do nível de Luciana Genro, aquela figura caricata que veste os militontxs nos encontros do PSOL com as máscaras de seu próprio rosto. 

Fora da internet há muito menos barulho, mas mais exemplos de táticas:

inundar (leia-se sujar) o ambiente da universidade com cartazes de teor "Vou cortar sua pica macho; mulheres em luta; meu corpo minhas regras; fora Igreja machista; fora (insira aqui qualquer conservador conhecido); mulheres do partido (insira aqui qualquer partido de esquerda) em luta"; e por aí vai. Não preciso elaborar um raciocínio longo para mostrar que a esquerda revolucionária e o feminismo universitário se amam, se adoram, ajudam um ao outro – e que esse amor por depredar o bem público, desde pixar banheiros até invadir e quebrar a universidade, só pode ser resultado da mistura dessas duas paixões nas mesmas mulheres.

Mas como essa doença se instaura na cabeça de alguém? Como se chega a tal ponto? Como eu faço para que uma amiga minha não caia nisso? Cuidado: quanto menor a autoestima, mais fácil de cooptar uma mente, e logo, não será o feminismo que pensa assim, mas VOCÊ.

Ué, mas não era o feminismo que fazia a cabeça das mulheres, por que falar em você agora? Porque as mulheres internalizam isso. Imaginem só, quanto mais frágil e sozinha é a moça, mais fácil é que ela seja convencida de que o mundo é uma coisa tenebrosa, nojenta, de que os homens são os vilões de tudo, e o pior: de que ela é INCAPAZ. E de que o feminismo é um GRUPO seguro. Para ser gente, você PRECISA dele. Fascista? Jamais, fascista é a direita, viu?!

Essa é toda a base do movimento feminista atual, a ideia de que a mulher não é autônoma, ela sempre está submissa a algo (sistema) ou alguém (homem). Não tem autonomia própria, não tem pensamento próprio, não tem capacidades, não pode pensar por si mesma, porque o mundo é um lugar machista e inseguro. Você, mulher, só será feliz dentro do GRUPO. 

E quem discorda ou sai disso, o que acontece? Cinco possibilidades: a primeira é que a direita te comprou, a segunda é que você só está reproduzindo opressão, a terceira é que você não sabe mais o que faz, a quarta é que “suas amigas” vão usar a tática da espiral do silêncio e te deixar o mais sozinha possível, e a quinta é que – PASMEM – muito provavelmente há um homem fazendo a sua cabeça e te levando pro mau caminho. 

É por isso que virei conservadora. Peço que se vocês, principalmente mulheres, que virem uma moça nessa doença de feminismo vermelho, a ajudem, pois no fundo só está com os parâmetros errados. Não vamos mentir: o objetivo do feminismo é que a mulher se destrua tanto que não consiga sair mais dele. E é por isso que este texto não tem assinatura. Ainda não tenho coragem de me revelar conservadora. Só restou o medo.


E segue o segundo, retirado do blog "Odeio Homens":

Eu odeio os homens. Sim, eu sou uma feminista. Não, nem todas as feministas odeiam os homens. De fato, a maioria delas ama os homens. Neste ponto eu começo a me perguntar POR QUE qualquer mulher com metade do cérebro funcionando NÃO odiaria os homens. É uma atitude totalmente paradoxal as mulheres não odiarem os homens apesar de todas torturas que eles infligem sobre elas, suas crianças, e uns aos outros. Talvez essa seja uma razão do insucesso do feminismo. Eu acredito que a fim de pararem de ser pisadas e mantidas debaixo das solas dos sapatos de homens idiotas e cruéis, as mulheres terão que aprender a odiar os homens, pelo menos um pouco.

Apresento aqui uma lista de boas razões para odiar os homens:

Estupro

Estupro em gangue

Estupro estatutário

Torturas

Assassinatos

Guerras

Destruição ambiental pelo bem dos “empregos”

Espancamento da esposa/namorada (muitas vezes seguido de morte)

Degradação das mulheres na arte, literatura, publicidade, etc.

Pornografia

Prostituição

Incesto

BDSM

Mutilação genital feminina

Tráfico sexual de meninas e mulheres 

Uso das mulheres como objetos de troca 

Discriminações contra as mulheres nas profissões

Assédio sexual no ambiente de trabalho, universidades

Assédio sexual nas ruas

Intrusão na privacidade, no espaço pessoal e corporal das mulheres

Impedimento da liberdade de movimentos das mulheres

Proibições à livre expressão das mulheres

Forçar o véu às mulheres

Forçar códigos de vestuário "feminino"

Forçar embelezamento às mulheres

Forçar gravidez e parto

Dar ao feto mais direitos do que à mulher em cujo corpo ele está crescendo

Negar poder político, social e econômico às mulheres 

Constranger a criatividade feminina e negar às mulheres acesso a extensas áreas do conhecimento social e avanços culturais

Construir, legitimar e perpetuar instituições baseadas na inferiorização, discriminação, humilhação, exclusão e exploração da maior parte da população.

Então alguém poderia dizer: “Ei, muitos homens fazem essas coisas, mas existem aqueles que são exceções”. Ok, mas em meio a todos os homens que você conhece aposto que se pode contar nos dedos de uma mão aqueles que sabidamente não realizam essas atividades, aqueles que são “bons”. E quando eu quero dizer “bom”, de acordo com essa descrição, não significa nem “bom” de verdade, apenas “não ruim”, como em “não malvado e sem empatia”. Particularmente eu jamais conheci algum homem que não pratique ou dê apoio a pelo menos 2 ou 3 dessas atividades listadas. Acredito que nem todos os homens realizam tais ações ou deem suporte a elas, mas todos eles se beneficiam, mesmo que passivamente — e ele nem precisa executar nenhuma dessas atividades, contanto que outros homens o façam —, como membros da classe privilegiada que estabeleceu seu domínio e continua a reforçá-lo continuamente.

Todos e cada um deles se beneficiam da dominação das mulheres.

Eu odeio os homens, mas não os odeio o tempo inteiro nem a todos eles (bem, pelo menos não todos o tempo inteiro). Várias mulheres odeiam os homens, apesar de muitas vezes não adimitirem nem para si mesmas. Algumas mulheres(dentre as quais eu me incluo) têm um profundo desgosto pelos homens e têm consciência disso, mas muito diferentemente de todos os homens que odeiam as mulheres, as mulheres que odeiam os homens não estão espancando-os;estuprando-os; matando-os; perseguindo-os; tirando seus direitos civis;impedindo-os de ter suas escolhas reprodutivas; defendendo que eles sejam estuprados por mal comportamento; ou qualquer uma das torturas infligidas sobre as mulheres tão frequentemente que elas não ganham nem uma pequena nota nas páginas detrás dos jornais, a menos que o crime tenha algum valor sensacionalista. Acima de tudo e apesar da crença altamente difundida, as odiadoras de homens não estão lutando para ter o poder de fazer todas essas coisas contra os homens, mas para poder impedi-los de fazerem contra as mulheres.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Camille Paglia sobre o feminismo atual


Camille Paglia, a mais antifeminista entre as feministas, aposta na revalorização do lado maternal da mulher como chave para um reencontro afetivo entre os sexos.

Para a ensaísta, enquanto a mulher de qualidade maternal exerce poder sobre os homens ao ter "pena de suas fraquezas", a mulher de perfil profissional exige deles, em casa, a perfeição do mundo dos escritórios.

Em entrevista à Folha, Paglia se declara transexual, critica a produção da arte contemporânea e diz que Madonna deve parar de competir com as mulheres mais jovens.

Folha - Você é feminista ou antifeminista?

Camille Paglia - Eu certamente sou uma feminista. 100%. Os motivos pelos quais eu discordo de boa parte das feministas de hoje é que minha militância começou no início dos anos 60, antes da reviravolta que o movimento teve no final daquela década.

Eu dei uma aula na semana passada na qual eu falava sobre o filme "Núpcias de Escândalo", com Katharine Hepburn. A mãe da atriz era uma das líderes da campanha pelo sufrágio das mulheres, e a própria atriz, antes da Segunda Guerra Mundial, estava participando das manifestações de sufragistas. Eu estava obcecada também por Amelia Earhart, pioneira da aviação e uma dessas mulheres emancipadas dos anos 20 e 30.

Eu admiro demais essa geração de mulheres. Porque elas não atacavam os homens, não insultavam os homens e não apontavam os homens como fonte de todos os problemas das mulheres. O que elas pediam era igualdade de condições no âmbito da carreira e da política e queriam demonstrar que podiam obter as mesmas conquistas dos homens. Era como dizer: somos como os homens, admiramos os homens, amamos os homens.

Hoje em dia, as feministas culpam os homens por tudo! Elas exigem que os homens mudem, querem que eles pensem e ajam como mulheres, almejam que o protagonismo dos homens seja reduzido. Esse é o terrível problema do feminismo contemporâneo, porque, em última instância, isso está fazendo as mulheres retrocederem e as está enfraquecendo.

As mulheres de hoje não são tão fortes como as grandes mulheres dos anos 20 e 30. Então as pessoas me chamam de antifeminista. Mas não: eu sou contrária à ideologia feminista do presente, que é doente, indiscriminada e neurótica. E, mais do que tudo, não permite à mulher ser feliz.

As mulheres precisam se responsabilizar por suas vidas e parar de culpar os homens por seus problemas, que têm mais a ver com questões e estruturas sociais, e não são fruto de uma conspiração masculina.

Se os homens se parecessem mais com as mulheres, como você diz desejarem as feministas de hoje, o que aconteceria?

As mulheres querem que os homens se comuniquem como elas. Mas, em toda a história da humanidade, as mulheres viveram entre si e os homens viveram entre si. Eram dois mundos separados. A mulheres cuidavam das crianças, da casa, da alimentação, e os homens caçavam e faziam o trabalho pesado. Sei disso porque todos os meus quatro avós eram agricultores italianos, e meus pais nasceram neste ambiente. Sou a primeira geração que cresceu fora dessa estrutura.

O problema hoje é que as mulheres, educadas e ambiciosas, querem entrar no novo mundo burguês do trabalho em escritórios, que são parte do legado da Revolução Industrial. 

Então temos um novo mundo em que homens e mulheres trabalham lado a lado nos escritórios, em que a divisão do trabalho entre homens e mulheres não existe. Portanto, ambos têm de mudar suas personalidades para se encaixar nessa realidade porque ambos são uma unidade de trabalho, são a mesma coisa.

É muito frustrante para os dois porque, neste ambiente neutro, em que as mulheres ganharam muito poder, a sexualidade do homem ficou neutralizada. E essas mulheres querem se casar com um homem com quem seja fácil se comunicar. E fora do ambiente de trabalho, qualquer homem que se comporte como homem provoca reações negativas.

Eu vejo grande infelicidade entre mulheres profissionais porque elas querem que suas vidas amorosas tenham a comunicação maravilhosa que elas têm com outras mulheres. A mulher profissional casa com o homem profissional e espera que, ao chegar em casa de noite, ele se comunique com ela como suas amigas ou seus amigos gays. E os homens heterossexuais jamais serão capazes na arte da análise emocional. Não dá para cobrar perfeição dos homens, como se estivéssemos no escritório.

Homem e mulher têm de convergir numa unidade de trabalho. Há uma terrível desconexão para as mulheres entre suas vidas profissionais e amorosas. Para os homens não é tão difícil porque eles encontram sexo mais facilmente. Eles não precisam casar com uma mulher para fazer sexo com ela. Para mulheres, é um período terrível de infelicidade, porque elas têm muita dificuldade em ajustar a mulher do trabalho, que tem poder e conquistas, com a mulher emocional, uma arena na qual as habilidades exercidas no escritório não funcionam.

Para os homens é frustrante porque, se o trabalho que eles fazem pode também ser feito por uma mulher, no que consiste sua masculinidade, afinal? Se antes o homem tinha o trabalho pesado, braçal, hoje, eles estão se perguntando quem são.

Como essa crise masculina se manifesta?

Tenho me preocupado muito com a epidemia do jihadismo no mundo, que é um chamado da masculinidade e está atraindo jovens homens do mundo inteiro. É uma ideia de que ali, finalmente, homens podem ser homens e ter aventuras como homens costumavam ter.

A ideologia do jihad emerge numa era de vácuo da masculinidade, graças ao sucesso do mundo das carreiras. O Estado Islâmico, por exemplo, usa vídeos para projetar esse romance, esse sonho de que os jovens podem abandonar suas casas, integrar a irmandade e se lançar numa aventura masculina por meses, na qual correm risco de morte. Antes, havia muitas oportunidades de aventuras para homens jovens. Hoje, suas vidas são como as de prisioneiros: presos nos escritórios, sem oportunidade para ação física e aventura.

O sistema de carreiras ocidental se tornou tão elaborado e aprisionado, que está produzindo, como no Império Romano, bandos de vândalos. É difícil para a classe média entender o fascínio do risco e da morte, de fazer parte de uma irmandade.

Eu estou muito preocupada politicamente com a forma como as elites não sabem responder a esse movimento. E parte disso é uma revolta dos homens e uma busca dos homens por sentido para eles enquanto homens. O mundo ocidental se tornou tão materialista, e todos estão pensando no próximo apartamento, próximo carro ou próximo emprego, que somos lentos para entender e responder a esse tipo de fenômeno.

Como reverter o desencontro entre homens e mulheres hoje?

O feminismo cometeu um grande erro ao difamar a maternidade. Quando a segunda onda do feminismo começou no final dos anos 60 e início dos anos 70 e foi piorada pelas ideias de Gloria Steinem, que pregou a desvalorização da mulher como esposa e mãe, e a valorização da mulher profissional como aquela que é realmente livre e admirável.

Betty Friedan (1921-2006), que eu admiro, começou a segunda onda do feminismo ao co-fundar a Organização Nacional para as Mulheres, em 1967. Ela era casada e tinha filhos, e queria que o feminismo fosse uma grande tenda que incluísse e acolhesse a todos. Mas Gloria Steinem era parte de um grupo que só se casou no final da vida e não teve filhos, e havia um tom de insulto ao tratar da maternidade.

Minha análise das relações sexuais, no livro "Personas Sexuais", é que a imagem da mãe é extremamente poderosa e que é o motivo pelo qual conexões entre os sexos é instável. Toda pessoa emerge do corpo feminino, do útero, e o feminismo cometeu um erro ao tentar apagar a importância disso, tornando o nascimento um processo mecânico. A imagem mitológica da mãe é muito poderosa para os homens no nível psicológico. Todo menino precisa se livrar da sua mãe. E todo heterossexual que penetra uma mulher retorna ao útero.

Há uma ansiedade e um perigo no ato sexual entre homem e mulher. O homem se sente em risco ao colocar seu pênis no que considera uma potencial armadilha. Por isso há e sempre haverá uma ambivalência na relação sexual entre homens e mulheres. Ele deseja a mulher, ele quer ser nutrido por ela, e quer se livrar dela ao mesmo tempo porque tem receio de ser preso novamente no útero.

Muitos dos comportamentos machistas, arrogantes e estúpidos, são formas tortas de o homem dizer que não está sob o poder da mulher, que não é mais um bebê. São parte do medo do poder da mulher, do útero e da criação. Qualquer pessoa que tentar racionalizar isso, não irá pelo caminho certo.

E é isso o que o feminismo está fazendo, na sua opinião?

Sim. O feminismo é muito racionalista. Está tentando consertar a mecanismos sociais, consertar a sociedade, passando leis contra a discriminação e a favor de cotas para as mulheres. Eu concordo que precisamos de igualdade de condições, mas isso não vai resolver os problemas entre os sexos porque o que existe aí é uma consequência direta da biologia, que não tem sido considerada.

Há todas essas pessoas com ideias estúpidas, que derivam de Michel Foucault (1926-1984), negando a existência dos gêneros. Dizem que o gênero é algo imposto pela sociedade, que não há base biológica para a ideia de gênero. Essas pessoas estão malucas? Elas não sabem que toda e qualquer pessoa que está na face da Terra nasceu do corpo feminino?

As mulheres têm um poder tremendo sobre os homens. Se as feministas não querem esse poder, e querem apenas ser iguais aos homens, ok. O que eu vejo como observadora e como professora é que os homens são muito frágeis psicologicamente em relação às mulheres. E quando as mulheres renunciam ao poder da maternidade, como aconteceu na segunda onda do feminismo, elas perderam uma parte enorme de seu poder sobre os homens.

As mulheres que entenderam seu poder sobre os homens são mais felizes. As mulheres que pedem que os homens mudem e se aproximem delas são mais nervosas, são brutais. Elas não têm confiança no seu poder como mulheres.

As mulheres que têm sucesso com os homens são aquelas que mantém uma certa qualidade maternal e entendem as fraquezas dos homens. E têm pena deles por isso. Elas tratam homens com humor e conseguem entender as necessidades dos homens e nutri-los de certa forma.

De que maneira o adiamento da maternidade das últimas gerações de mulheres é produto desse tipo de pensamento da segunda onda do feminismo?

Gloria Steinem é responsável por isso. Ela e seus problemas psicológicos. Ela teve uma infância terrível. Seu pai era negligente, abandonou a mãe, a mãe teve problemas psiquiátricos.

Steinem, então, mantinha aquele sorriso como se tivesse a resposta para tudo. E ela dizia: a mulher pode ter tudo. E dizia também: uma mulher precisa de um homem tanto quando um peixe de uma bicicleta. Mas em todas as festas que ela frequentava em Nova York ela tinha um homem nos braços.

Ela pregava que a mulher cuidasse de sua carreira e deixasse a maternidade para mais tarde. Só a completa ignorância da biologia permitiu isso, porque sabemos que a fertilidade feminina é maior quanto mais nova ela é, e que a gravidez é mais segura antes dos 35 anos. E há gerações inteiras de mulheres que foram convencidas de mentiras. O que eu digo é que a verdade sobre a biologia precisa ser dita para as meninas cedo.

A mulher tem de escolher entre carreira e maternidade?

Sem dúvida. O mecanismo da educação-treinamento será sacrificado de alguma maneira para as mulheres que escolherem ter filhos. Elas provavelmente podem alcançar sucesso profissional mais tarde, mas tem um grande valor em ter filhos mais cedo.

Por exemplo, eu nasci quando meus pais tinham 21 anos. Não tínhamos grana, mas eles tinham muita energia e eram otimistas. Catorze anos depois, minha irmã nasceu, e meus pais estavam com 35 anos, eles tinham uma casa e uma vida estável, com emprego e tudo mais. Os pais que eu tive foram completamente diferentes dos pais que minha irmã teve. Então minha irmã é muito diferente de mim. Ela tem modos (risos).

Então, mulheres que acham que vão ter filhos aos 45 anos terão energia para correr atrás de uma criança como os pais de 20 e tantos anos. Educação tem que se adaptar a essa realidade da biologia.

As universidades têm que ser mais flexíveis na oferta de cursos para mulheres e de berçários nos campi para que elas deixassem seus filhos por algum tempo. Deveria ser possível para uma mulher jovem decidir ter filhos cedo e continuar a estudar meio período ou fazendo uma disciplina por vez, levando mais tempo para se formar.

As universidades se beneficiariam muito pela presença de estudantes casados e com filhos. Muitas das besteiras que são ditas sobre gênero seriam melhor debatidas se houvessem jovens pais nas salas de aula.

Como essa flexibilidade para jovens mães poderia ser aplicada ao mundo do trabalho?

As empresas não existem para serem agentes de mudanças sociais. Elas existem para obter lucro. Aquelas criadas por investidores progressistas, como muitas firmas na Califórnia, disponibilizam berçários, mas é tudo muito caro. E mais: certos benefícios fazem com que funcionários que não têm filhos reclamem.

Então, isso precisa ser visto com cuidado porque precisa haver igualdade entre os profissionais. A verdade é que maternidade é uma escolha e você precisa aceitar que isso implica numa certa troca.

Há muitas dificuldades na carreira no início, mas não depois. Minha geração de mulheres, cuja maioria focava na carreira e nos salários, está quase se aposentando. De repente, a realidade vai bater: no momento em que deixarem seus empregos, elas não terão nada e serão rapidamente esquecidas. Poderão ter uma aposentadoria financeiramente confortável, mas é só. Enquanto as classes mais populares terão as crianças já crescidas e os netos e os bisnetos. E isso traz um novo sentido à vida.

Precisamos de um discurso melhor sobre o sentido da vida, que não é apenas algo materialista.

Você adotou um menino. Como se vê enquanto mãe?

Sempre deixei claro que eu sou sua parente, mas não sua mãe. Ele tem uma única mãe, que é sua mãe biológica, que é minha ex-companheira, que vive aqui perto e nós temos uma ótima relação centrada na criação dele. Eu estava lá no consultório médico quando ele foi concebido, no hospital quando ele nasceu, tenho sido parte da sua vida desde sempre.

Todas as minhas observações sobre meninos e homens têm sido confirmadas na experiência de ter um filho e de ter adentrado o mundo das mães. E vi com meus próprios olhos que as mulheres comandam a vida das crianças, da casa e do mundo emocional da família. E o marido, que antes era o número um, passa a ser mais um no sistema da mulher. A mulher cria toda a rotina e o homem executa o que ela diz.

Na contramão do discurso que nega os gêneros, há o debate sobre os transgêneros. De que maneira o feminismo pode incluir essas pessoas?

Vou dizer algo controverso, mas real: eu me identifico como transgênero. Quando era mais nova, esse termo não existia. Mas estava muito claro que eu era muito inibida em relação ao meu gênero biológico desde sempre. Eu demonstrava isso, ainda criança, no Halloween. Eu sempre escolhia um personagem masculino. Fui um soldado romano, fui Napoleão, fui Hamlet... E nenhuma menina se fantasiava assim. Eu me sentia alienada em ser uma menina.

Eu estou muito preocupada com essa tendência cirúrgica para mudança do corpo. Isso está por toda parte nos EUA. Dizem que a criança nasceu no corpo errado e já começam com hormônios até chegar à intervenção cirúrgica. Se essa ideia estivesse no ar quando eu era jovem, eu teria me tornado obcecada com isso. Eu teria sido convencida de que essa seria a resposta para todos os meus problemas com a sociedade contemporânea e sua rigidez sexual. E eu teria cometido um engano terrível.

Por quê?

Transformar o corpo cirurgicamente é uma ilusão. Há um número muito pequeno de pessoas realmente intersexuais. É uma anormalidade congênita. A maioria dos casos não é assim. Intervir no corpo, removendo o pênis ou os seios, é uma ilusão porque todas as células do seu corpo permanecem sendo o que elas sempre foram. Simplesmente não é verdade que você mudou de gênero.

Eu acredito que é preciso respeitar o desejo das pessoas de transformar seus corpos, seja por motivos cosméticos, médicos ou de gênero. Cada um tem poder sobre o próprio corpo e eu sou uma libertária neste sentido. Por outro lado, ninguém vai me convencer de que a Chaz Bono, a filha transgênero da atriz Cher, é um homem. Ele precisa tomar uma injeção de hormônios todos os dias para ser o que é, um transgênero, nunca um homem. Cada célula daquele corpo é uma célula feminina.

As pessoas que olham para esse debate e pensam que estamos caminhando para um futuro progressista estão enganadas. Nós vivemos em um período em que os gêneros são fluidos e ninguém se identifica com os papeis de cada um dos gêneros no passado. Mas a ideia de que isso é um sintoma de saúde social está errada. É o caos.

Estamos numa fase tardia da cultura, como ocorreu com outras civilizações, em que as definições dos sexos começam a se borrar e a se dissolver e surgem todos os tipos de androginia e de brincadeiras com trocas de papéis entre feminino e masculino. Eu adoro tudo isso, mas acho que não pode ser confundido com um sintoma de saúde e de progresso. Sinto muito. É um sintoma de declínio histórico da nossa cultura. E deveríamos nos preocupar porque isso indica ansiedade e algo errado.

Eu não noto, a propósito, nenhum avanço no campo das artes. Ninguém está em um período especialmente fértil. Pelo contrário, todos estão obcecados consigo próprios. O ego se tornou um trabalho artístico. As pessoas têm dez conceitos diferentes sobre o que elas são. Acho que a obsessão com gênero e com orientação sexual se tornou uma doença.
Eu sou ateia, mas acredito no poder da religião e de sua visão do universo. Vivemos essa transição da perspectiva religiosa para essa horrível perspectiva centrada no indivíduo, com o apoio da mídia. Isso não são os anos 60, quando se pregou o poder do indivíduo contra a autoridade, mas a destruição dessa ideia cósmica do lugar de cada um no universo. E isso tudo convergiu para a obsessão por gênero e orientação sexual. Isso virou uma loucura. É o novo narcisismo.

Há formas menos obsessivas de olhar para essas questões?

Eu apoio a união civil, mas nunca apoiei o casamento gay, por exemplo. Não acho que o governo deve se envolver em casamento, um termo circunscrito à Igreja. Perante a lei, deve haver igualdade de gêneros e orientações sexuais. Mas deve haver mais respeito por religião. Se você quer se casar, vá a uma igreja que aceite casá-lo. Mas a insistência de que o governo deve intervir neste sentido é muito juvenil.

As pessoas têm de assumir responsabilidade por sua identidade e estar preparadas para desaprovação e rejeição. Os liberais ofereceram a arte como substituto para religião, mas não vejo nenhuma criatividade relevante, mas um mundo de trivialidades. As pessoas hoje estão neste sonho, alucinando ao pensar que o mundo ocidental é eterno. Todos os grandes impérios caíram. Não somos diferentes.

Qual é a consequência do narcisismo nas artes?

Não vejo nada tão profundo sendo produzido hoje se compararmos àquilo produzido em culturas mais repressivas. Tennessee Williams, que eu admiro muito, era um artista gay quando isso não era fashion, e produziu trabalhos incríveis como "Um Bonde Chamado Desejo" e "Gata em Teto de Zinco Quente". Quem é o grande escritor gay neste mundo tão permissivo? Parece que a repressão é um estímulo para a arte (risos).

O que você acha dos protestos topless, como a Marcha das Vadias e as ações do grupo Femen?

Eu adoro qualquer performance de rua, qualquer provocação pública, sejam manifestações ou brincadeiras. Adoro a ideia de pequenos grupos desafiando os poderes constituídos. Sempre participei de muitas delas até que fui disciplinada na universidade porque me colocaram em condicional por um semestre de tanto que eu aprontava.

No entanto, essas meninas são totalmente incoerentes ideologicamente. Femen não faz o menor sentido, é algo fabricado que não tem nenhum sentido político. Uma mulher bonita, com belos seios e palavras desenhadas pelo corpo deveria estar apoiando a indústria do sexo, a prostituição e a pornografia, e não protestando contra a indústria do sexo. É ridículo e demonstra o nível de insanidade do feminismo radical atual.

Como você vai expor seu corpo para protestar contra a indústria do sexo se o que você está fazendo é gerar excitação sexual? É maluco. Eu mostrei para meus alunos o vídeo em que uma maluca do Femen agarrou o menino Jesus no presépio do Vaticano e a polícia a agarrou e ela ficou gritando (risos). Achei tudo muito divertido, mas fiquei com pena dos fiéis que estavam lá porque aquilo é profanação para eles.

A Marcha das Vadias é outra incoerência das meninas burguesas e universitárias de hoje. Fui uma das feministas que levantou a bandeira pró-sexo nos anos 90, mas essas manifestações estão equivocadas. Madonna expunha seu corpo ao mesmo tempo em que assumia a responsabilidade de se defender. Você tem o direito de se vestir como Madonna nas ruas às 3h da manhã e faz parte do comportamento da mulher liberada fazer isso. Só que essa mulher tem que saber se defender.

Se você vai provocar e usar roupas para demonstrar que está disponível sexualmente, porque é isso o que você está fazendo. Está dizendo: sou uma mulher que gosta de sexo e estou pronta para receber ofertas. Mesmo que as mulheres demandem o controle masculino, sempre vai haver um psicótico ou um criminoso que será impossível controlar. Não dá pra pedir para a sociedade a proteger o tempo todo. Se você é uma mulher livre, você tem que aceitar que, toda vez que se vestir de modo convidativo, está enviando uma mensagem e tem de se defender se for necessário.

E é claro que ninguém tem o direito de fazer nada com você, mas só uma idiota acha que vai para as ruas de vestimentas provocativas sem correr o risco de ser atacada, culpando o Estado por isso.

Uma pesquisa no Brasil apontou que 25% dos brasileiros concordam que uma mulher vestida de forma provocativa merecia ser atacada.

Ninguém merece ser atacada. Isso está totalmente errado. Ninguém tem o direito de colocar as mãos no seu corpo sem permissão. O que essas pessoas devem estar dizendo é que a vestimenta comunica uma mensagem e indica um nível de disponibilidade sexual.
Eu também acredito que roupas comunicam algo sobre você naquele momento. Roupas são uma linguagem. As mulheres não entendem como os homens as enxergam com determinadas roupas. Elas acham que estão se vestindo para elas mesmas, mas precisam saber que há um perigo em se vestir de certas formas.

Eu adoro exibição sexual, mas precisam saber que estão comunicando para uma certa audiência. E não necessariamente se pode culpar os homens por entenderem uma mensagem que, talvez inconscientemente, as mulheres estão enviando. Por isso chamo o meu feminismo de safo ("street smart").

Por que você foi tão crítica ao ensaio fotográfico recente em que Madonna aparece com os seios à mostra?

Madonna é uma das figuras mais importantes da cultura pop e da cultura contemporânea. Ela mudou o mundo com sua atitude. Até hoje seus vídeos antigos são grandes obras de arte. Ela tornou possível para as mulheres assumirem o comando de suas sexualidades. Ela nunca foi uma vítima. Ela sempre controlou a transação entre homem e mulher. Ela era extremamente sexy, mas estava no controle da situação.

Mas acho que esse ensaio ficou feio, acho que ela está se repetindo. Nós já vimos seu corpo no auge da forma e era magnífico. O que ela está fazendo agora? Por que expor o corpo na sua idade em fotografias horrorosas? Sinto muito, mas foi uma desgraça artística. Madonna não deveria estar competindo com mulheres jovens, cujos corpos são belos. Marlene Dietrich, que é um modelo para Madonna, nunca fez isso.

Você acha que mulheres mais maduras não devem mostrar o corpo?

Se você o mostra de um modo belo e sexy, ok. Mas aquelas fotos da Madonna eram revoltantes. Era embaraçoso. Hediondo. Ela parecia uma prostituta decadente que não sabe que está na sarjeta.

Madonna é uma estrela global e não deveria se expor assim. Se você quer seduzir, há outras formas de transmitir isso. Jeanne Moreau é sexy na idade dela sem mostrar nada, e Catherine Deneuve, apesar de ter ganhado peso, continua sexy. Não é digno de uma mulher de tantas conquistas se mostrar assim.

As mulheres têm que superar o envelhecimento. Não dá para dizer que o corpo de uma mulher de idade é tão bonito como o de uma jovem mulher. Não é! Os hormônios não permitem, a pele fica fina, desidratada, etc. Temos de parar de tentar glamurizar a beleza da mulher madura.

O que precisamos é deixar as mulheres jovens dominarem o mundo da beleza e buscar novos papéis para as mulheres mais velhas. Aquelas que são mães ganham poder à medida que a idade avança e encontram novas colocações para si. Precisamos aprender a mudar para o próximo estágio da vida. O que precisamos é criar uma persona para as mulheres na cultura de hoje, e isso tem a ver com desapegar de algo. Senão, elas só têm a perder. Como não há como congelar o processo de envelhecimento, quanto mais as mulheres lutarem contra ele, mais infelizes serão.

domingo, 23 de novembro de 2014

Dois exemplos práticos do que convencionou-se chamar "marxismo cultural"

Por André,


Muito se discute sobre o que seria o tal "marxismo cultural". Seria pura e simplesmente marxismo? Delírio neoconservador? Conceito imaginário? Teoria da conspiração (a Wikipedia definia assim em seu artigo sobre o tema)?

Pois bem, já me posicionei sobre o assunto e disse que, do meu ponto de vista, o fenômeno que chamamos de marxismo cultural é mais importante que o nome que recai sobre ele. O próprio Olavo de Carvalho já disse que a expressão conceitual é uma nomenclatura conveniente que representa certo conjunto de ideias, mas talvez o termo não seja exatamente o melhor que se pode conceber (amigos já me falaram em "contracultura" ou até mesmo manter a própria expressão "teoria crítica").

Os "adeptos" do marxismo cultural certamente são herdeiros de Marx, admitam isso ou não, muito embora seja fato que há pouco eco do conceito da obra do próprio Marx. Marx via na cultura um elemento de prova das suas teorias (que predomine certa cultura sobre aquela é sinal que a ideologia predominante é a ideologia da classe exploradora etc) e não um campo de ação revolucionária.

A ideia que a cultura não apenas é campo de ação revolucionária, mas é o PRINCIPAL campo de ação remonta a Antonio Gramsci (1891-1937), para quem as ideias do partido só serão alçadas à condição de imperativo categórico depois de sitiadas com intelectuais comunistas escolas, igrejas, universidades, instituições, jornais, editoras etc. Após esse primeiro quadro teórico, temos posteriormente a Escola de Frankfurt, que percebeu a pobreza do reducionismo econômico do marxismo tradicional. A discussão marxista abandonou a retórica sindicalista inflamada e o debate sobre exploração do trabalho, mais-valia etc (discussão econômica) para adentrar o terreno da cultura, juntando as ferramentas oferecidas tanto por Marx como por Freud. Podemos, ainda, ver essas ideias culminando no que hoje chamamos de "french theory" e outros referenciais ideológicos admitidos por feministas radicais, militância racialista (com esses grupos se torna ainda mais evidente que o debate abandonou o terreno da economia e se estendeu para o elástido e indefinível terreno da cultura - o ódio de grupos racialistas e feministas não se volta contra o "patrão explorador", mas contra a cultura "patriarcal" ou "racista" que aí está, isto é, a cultura ocidental) etc.

Isso posto, vejamos dois exemplos práticos, cotidianos e nitidamente pautados naquilo que podemos chamar de "marxismo cultural". Primeiro, vejamos o depoimento do médico psiquiatra dr. Valentim Gentil Filho, relatando sua experiência com a ideia de que pessoas com problemas psiquiátricos são "vítimas da sociedade" e que seu encarceramento só pode ser justificado em algum tipo de preconceito calcado na divisão entre "gente sã" e "gente louca", "gente racional e gente irracional", uma clara reprodução - fora do contexto econômico - da dicotomia "explorador versus explorado":



A ideia que problemas psiquiátricos não representam qualquer problema concreto que justifique o encarceramento, a bandeira pela abolição de manicômios etc remonta às reformas citadas pelo dr. Valentim, em muito pautadas nas ideias de Michel Foucault. A discussão é pura e simplesmente uma extensão da noção de "conflito de classe" para o terreno da psiquiatria. A sociedade burguesa ocidental não consegue/quer lidar com problemas psiquiátricos, então encarcera seus malucos em manicômios para evitar o problema (que só pode ser resolvido com uma vasta revolução na cultura ocidental tal como conhecemos).

O que é isso se não a transposição do marxismo para um terreno distinto da economia? Se chamamos ou não isso de marxismo cultural é mero detalhe, o que importa é documentar o fenômeno e mostrar suas bases intelectuais.

O "louco" digno de internação no manicômio é apenas um "oprimido" e as bases que justificam sua opressão é a cultura vigente. A solução para o fim dessa opressão é prima e necessariamente uma revolução que subverta as bases dessa cultura. A discussão foge e muito do terreno psiquiátrico e passa a ser exclusivamente ideológica.

Como exemplifica Roger Scruton, em seu "Thinkers of the New Left" de 1993:

Em História da Loucura (1961), Foucault dá o primeiro vislumbre desta tese. Ele toma o confinamento de loucos em sua origem no século XVII, associando esse confinamento com a ética do trabalho e com a ascensão das classes médias. O idealismo de Foucault - sua impaciência com explicações que são meramente causais - leva-o constantemente a engrossar sua trama. Assim, ele diz, não que a reorganização econômica da sociedade urbana trouxe o confinamento, mas que "foi em uma certa experiência de trabalho que a demanda indissolúvel por confinamento moral e econômica foi formulada". Mas isto poderia ser visto amplamente como um embelezamento das categorias da explicação histórica que derivam, em última instância, de Marx" (SCRUTON, 2014, p. 61). 

O segundo exemplo é fornecido por Theodore Dalrymple em seu excelente A Vida na Sarjeta (É Realizações, 2014). Trata-se do ataque dirigido ao inglês culto e exaltação do inglês periférico e recheado de gírias:

"A BBC, que até poucos anos insistia, com muito poucas exceções, na "received pronunciation" de seus locutores, agora está correndo para assegurar que a fala enviada pelas ondas de rádio seja demograficamente representativa. A ideologia política por trás da decisão dessa mudança é clara e simples, um remanescente do marxismo: as classes altas e médias são más; o que era tradicionalmente considerado alta cultura não é nada mais senão algo usado para esconder o jugo das classes média e alta sobre a classe trabalhadora; a classe trabalhadora é a única cuja dicção, cultura, modos e gostos são verdadeiros e autênticos, pois são valorados por si mesmos e não como um meio de manter a hierarquia social. A utopia comunista pode estar morta na Rússia, mas é modelo na BBC - exclusivamente entre as pessoas de classe alta e de classe média, é claro" (DALRYMPLE, 2014, p. 104).

A classe opressora não é mais a detentora dos meios de produção, é aquela que se serve da received pronunciation. Quem fala corretamente é opressor e oprime quem fala errado. A regra deve ser a dos oprimidos e não a dos opressores. O ataque é à alta cultura, não à burguesia endinheirada.

Dessa maneira, o marxismo - cultural  ou como quer chamemos o fenômeno - é um pensamento que forma um tipo de ácido universal que pretende corroer todas as bases da civilização ocidental. Seus tentáculos são claros e visíveis, exorto para que não percamos tempo discutindo como chamamos o fenômeno, mas sim que analisemos e combatamos o mesmo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Questão definitiva sobre o aborto

Por André,



Certamente o tema do aborto é dos mais exaustivos, debatidos e ideologizados do nosso tempo. Não pretendo aqui fazer inventário de argumentos, do que os filósofos X e Y dizem sobre o tema ou rever a questão com algo fresquinho, mas apenas mostrar como provavelmente o grosso da discussão é pura perda de tempo.

Toda a questão do aborto se resume a um dilema moral: o zigoto/feto possui algo que possa ser chamado de "vida" e, assim, caso tenha, devemos dar-lhe proteção moral? Apenas após esta pergunta ser respondida com segurança é possível saber se a legalização do aborto é uma "solução" ou só renomeação ou postergação de um problema.

Discutir a liberdade feminina do que fazer com o próprio corpo, a suposta questão de "saúde pública" que o aborto constitui, das clínicas clandestinas, das mulheres ricas praticarem abortos clandestinos seguros, ao passo que as pobres usam métodos perigosos etc. e tudo mais é elucubração vazia caso não se estabeleça com segurança se o feto é ou não uma vida humana que, caso seja, tem o direito de permanecer viva.

Suponhamos que esteja perfeitamente estabelecido que um feto recém-gerado é uma vida humana (para fins metodológicos não vou abordar essa questão aqui, mas considero perfeitamente seguro admitir que a questão é, na melhor das hipóteses, duvidosa).

Dado esse ponto de partida, perfeitamente legítimo, torna-se absolutamente esquizofrênico falar em "liberdade da mulher". A mulher teria o direito de tirar o direito à vida do filho apenas na mesma medida que teria o direito de tirar a vida do pai ou da mãe inválidos que vivem num asilo. Estabelecido que se trata de uma vida, qualquer ação que vise a morte se configura como homicídio, crime previsto nos códigos penais de todos os países civilizados que já existiram ou existirão. Ademais, é preciso atentar para a hipocrisia dos adeptos desse argumento: se a questão do aborto diz respeito à liberdade de fazer o que bem se deseja com o próprio corpo, por que não legalizar o comércio de órgãos? Ou isso seria "capitalismo desenfreado"? Por que a liberdade atrelada à noção de propriedade de si é tão defendida no que diz respeito ao aborto, mas relativizada no que diz respeito a todo o resto?

Muito se diz que o aborto é uma questão de saúde pública. Dito dessa forma é uma mera platitude sem qualquer valor. Quase tudo é ou pode se tornar uma questão de saúde pública. Dirigir é uma questão de saúde pública, ingerir álcool o é e uma infinidade de outras questões o são. A questão implícita nesse argumento não é uma preocupação com a saúde pública, mas sim social. Mulheres ricas abortam em clínicas caras e seguras, ao passo que mulheres pobres abortam em clínicas clandestinas, usam métodos duvidosos e são destratadas no SUS. Porém, retomemos nosso ponto de partida: o zigoto é uma vida humana. Estabelecido esse ponto, a única questão de saúde pública que pode haver é a manutenção da vida em questão. Se mulheres, ricas ou pobres, resolvem tirar a vida de seus filhos, em clínicas chiques ou pobrinhas, o único ponto futuro a ser discutido é trabalhar pela coibição do aborto, que seria absolutamente ilegal para gentes de qualquer classe social, bem como a manutenção da vida.

Há ainda uma argumentação mais sutil e sórdida. Passa por aquele determinismo sociológico rasteiro, típico das mentes rasas e recém-universitárias e que afirma mais ou menos que obrigar uma mãe pobre a ter seu filho é o mesmo que sentenciá-lo a um futuro devastador, onde será bandido ou drogado porque nascerá numa favela, será eternamente pobre e não terá pai ou coisas do tipo.

Portanto, o ponto aqui não é descartar os argumentos feministas, libertários ou utilitários sobre o aborto, mas sim demonstrar que antes do estabelecimento de uma prova definitiva sobre o caráter humano ou não de um óvulo fecundado, todo esse debate é posterior e secundário. Se o que impera sobre isso é a dúvida, então o aborto deve ser terminantemente proibido com base em "in dubio pro reo".

Muito do que realmente se passa na discussão sobre o aborto é revelado por este último argumento que citamos. O aborto passa a ser uma questão menos econômica, social ou de saúde pública e mais um tópico de engenharia social.

O feminismo, então, configuraria-se como uma forma de darwinismo social e eugenia disfarçados de "compaixão" e "solidariedade" para com os pobres. Percebe-se, nitidamente, uma separação das pessoas entre "capazes" e "incapazes" de procriar. Os "incapazes" são os pobres e iletrados, que só poderão gerar mais miseráveis, marginais e iletrados. Logo, é melhor conceder a estas pessoas o "privilégio" da bondosa opção de abortar. Assim, nossas cidades se vêem livres de tantas figuras indesejáveis. Afinal, filho de pobre só pode ser pobre e marginal. As mulheres ricas podem abortar também, mas o aborto, para elas, será mera escolha, enquanto que para as menos afortunadas trata-se de uma prescrição. Pura eugenia disfarçada de bondade com slogans como "meu corpo, minhas regras" ou falso amparo moral. O feminismo é o racismo e o classismo dos dias de hoje, só que bem disfarçados.

Olavo de Carvalho abordou essa problemática no artigo intitulado "Lógica do abortismo". Vale aqui o adendo quanto à palavra "abortismo", que pode causar comichões na beautiful people. Dadas as condições expostas nesse texto, a melhor palavra para definir os defensores raivosos do aborto é "abortista", pois converteram a causa pró-"escolha" numa ideologia. O movimento de conversão de alguma ideia em ideologia, em programa político organizado, denota a predisposição consciente para malabarismos retóricos e sacrifício da realidade em nome da "causa". Portanto, uma palavra com "ismo" é indispensável para descrever os adeptos:

O aborto só é uma questão moral porque ninguém conseguiu jamais provar, com certeza absoluta, que um feto é mera extensão do corpo da mãe ou um ser humano de pleno direito. A existência mesma da discussão interminável mostra que os argumentos de parte a parte soam inconvincentes a quem os ouve, se não também a quem os emite. Existe aí portanto uma dúvida legítima, que nenhuma resposta tem podido aplacar. 
Transposta ao plano das decisões práticas, essa dúvida transforma-se na escolha entre proibir ou autorizar um ato que tem cinqüenta por cento de chances de ser uma inocente operação cirúrgica como qualquer outra, ou de ser, em vez disso, um homicídio premeditado. Nessas condições, a única opção moralmente justificada é, com toda a evidência, abster-se de praticá-lo. À luz da razão, nenhum ser humano pode arrogar-se o direito de cometer livremente um ato que ele próprio não sabe dizer, com segurança, se é ou não um homicídio. Mais ainda: entre a prudência que evita correr o risco desse homicídio e a afoiteza que se apressa em cometê-lo em nome de tais ou quais benefícios sociais hipotéticos, o ônus da prova cabe, decerto, aos defensores da segunda alternativa. Jamais tendo havido um abortista capaz de provar com razões cabais a inumanidade dos fetos, seus adversários têm todo o direito, e até o dever indeclinável, de exigir que ele se abstenha de praticar uma ação cuja inocência é matéria de incerteza até para ele próprio.
Se esse argumento é evidente por si mesmo, é também manifesto que a quase totalidade dos abortistas opinantes hoje em dia não logra perceber o seu alcance, pela simples razão de que a opção pelo aborto supõe a incapacidade – ou, em certos casos, a má vontade criminosa – de apreender a noção de "espécie". Espécie é um conjunto de traços comuns, inatos e inseparáveis, cuja presença enquadra um indivíduo, de uma vez para sempre, numa natureza que ele compartilha com outros tantos indivíduos. Pertencem à mesma espécie, eternamente, até mesmo os seus membros ainda não nascidos, inclusive os não gerados, que quando gerados e nascidos vierem a portar os mesmos traços comuns. Não é difícil compreender que os gatos do século XXIII, quando nascerem, serão gatos e não tomates. 
A opção pelo abortismo exige, como condição prévia, a incapacidade ou recusa de apreender essa noção. Para o abortista, a condição de "ser humano" não é uma qualidade inata definidora dos membros da espécie, mas uma convenção que os já nascidos podem, a seu talante, aplicar ou deixar de aplicar aos que ainda não nasceram. Quem decide se o feto em gestação pertence ou não à humanidade é um consenso social, não a natureza das coisas. 
O grau de confusão mental necessário para acreditar nessa idéia não é pequeno. Tanto que raramente os abortistas alegam de maneira clara e explícita essa premissa fundante dos seus argumentos. Em geral mantêm-na oculta, entre névoas (até para si próprios), porque pressentem que enunciá-la em voz alta seria desmascará-la, no ato, como presunção antropológica sem qualquer fundamento possível e, aliás, de aplicação catastrófica: se a condição de ser humano é uma convenção social, nada impede que uma convenção posterior a revogue, negando a humanidade de retardados mentais, de aleijados, de homossexuais, de negros, de judeus, de ciganos ou de quem quer que, segundo os caprichos do momento, pareça inconveniente. 
Com toda a clareza que se poderia exigir, a opção pelo abortismo repousa no apelo irracional à inexistente autoridade de conferir ou negar, a quem bem se entenda, o estatuto de ser humano, de bicho, de coisa ou de pedaço de coisa. 
Não espanta que pessoas capazes de tamanho barbarismo mental sejam também imunes a outras imposições da consciência moral comum, como por exemplo o dever que um político tem de prestar contas dos compromissos assumidos por ele ou por seu partido. É com insensibilidade moral verdadeiramente sociopática que o sr. Lula da Silva e sua querida Dona Dilma, após terem subscrito o programa de um partido que ama e venera o aborto ao ponto de expulsar quem se oponha a essa idéia, saem ostentando inocência de qualquer cumplicidade com a proposta abortista. 
Seria tolice esperar coerência moral de indivíduos que não respeitam nem mesmo o compromisso de reconhecer que as demais pessoas humanas pertencem à mesma espécie deles por natureza e não por uma generosa – e altamente revogável – concessão da sua parte. 
Também não é de espantar que, na ânsia de impor sua vontade de poder, mintam como demônios. Vejam os números de mulheres supostamente vítimas anuais do aborto ilegal, que eles alegam para enaltecer as virtudes sociais imaginárias do aborto legalizado. Eram milhões, baixaram para milhares, depois viraram algumas centenas. Agora parece que fecharam negócio em 180, quando o próprio SUS já admitiu que não passam de oito ou nove. É claro: se você não apreende ou não respeita nem mesmo a distinção entre espécies, como não seria também indiferente à exatidão das quantidades? Uma deformidade mental traz a outra embutida. 
Aristóteles aconselhava evitar o debate com adversários incapazes de reconhecer ou de obedecer as regras elementares da busca da verdade. Se algum abortista desejasse a verdade, teria de reconhecer que é incapaz de provar a inumanidade dos fetos e admitir que, no fundo, eles serem humanos ou não é coisa que não interfere, no mais mínimo que seja, na sua decisão de matá-los. Mas confessar isso seria exibir um crachá de sociopata. E sociopatas, por definição e fatalidade intrínseca, vivem de parecer que não o são.
Ou ainda: Desejo de matar