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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Apreensão do transcendente: uma conversa entre Roger Scruton e Jordan Peterson

Por André para o Análise Inversa,






Roger Scruton e Jordan Peterson se engajaram numa interessante conversa sobre o tema do transcendente na universidade de Cambridge, mais especificamente no departamento de estudos platônicos. Scruton é um filósofo inglês, além de músico e autor de romances, sabidamente conservador e já (felizmente) bastante conhecido no mercado de ideias brasileiro. Peterson é um psicólogo canadense que ganhou renome internacional por sua defesa da liberdade de expressão e oposição a um projeto de lei (C-16), que deseja regular o discurso dos indivíduos de forma que usem a “linguagem apropriada” para se referir a pessoas “transgênero”. Peterson se define como um liberal clássico.

Antes de traçar um breve resumo da conversa, um preâmbulo sobre os dois é necessário. Discorrer sobre o tema do “transcendente” parece tarefa para religiosos – ou pelo menos é isso que deve pensar alguém com alguma definição mais imediata de transcendência. Cumpre notar que nem Scruton e tampouco Peterson são adeptos praticantes da religião. Scruton tem uma vinculação nacional e institucional com a igreja anglicana – hoje um poço de progressismo. Peterson afirma em seus debates sobre religião que “não acredita em Deus, mas leva a vida como se ele existisse” – o que faz os ateus militantes imediatamente jogá-lo no colo dos conservadores religiosos. A confusão com Peterson se dá porque ele enxerga valor, verdade e sentido no legado literário das grandes religiões. Há Verdade (transcendência?) nos textos sagrados e isso é uma heresia não permitida para os ateus cientificistas, que por corolário de suas crenças precisam tratar qualquer texto religioso como contos de fadas nocivos para crianças crescidinhas.

Em tempos de ascensão do conservadorismo, especialmente nas jurássicas terras e mentes brasileiras, é bom ver um pouco de legítima diversidade por aí. Conservadorismo, na boca de esquerdistas, significa “fundamentalismo” religioso, seja à moda de uma TFP católica ou do neopentecostalismo evangélico. Portanto, é bom ver que há mais coisas no mundo civilizado das ideias do que pressupõe o vão “progressismo” das classes falantes brasileiras.

Por que precisamos de Jordan Peterson?

Por André em Burke Instituto,



Tive o privilegio de conhecer o psicólogo canadense Jordan Peterson pouco antes de ele se tornar mundialmente conhecido (escrevi meu primeiro post sobre ele em meu blog pessoal em fevereiro de 2017). Foi antes da controvérsia em torno do projeto de lei C-16 se tornar fato notório, mas já após o posicionamento corajoso de Peterson com relação à lei, que pretende não punir quem usar linguagem “imprópria” (o que já seria bastante discutível), mas aqueles que se negarem a usar pronomes inventados (ou uso alternativo dos já existentes) para se referir a pessoas de gêneros diversos (“zir”, “zur”, “them” etc.), fazendo uma demanda positiva pelo uso de uma linguagem “correta”. Assisti a todos os seus vídeos com debates, entrevistas e palestras disponíveis até então. Chamei-o, imediatamente, de herói da liberdade de expressão. Confesso que pensei que a coisa pararia por aí, que Peterson seria mais um “polemista” das redes sociais (ala Milo Yiannopoulos), indispensáveis nos tempos de hoje para defender a liberdade de expressão, mas não muito mais que isso. Ledo engano.

Não farei aqui um resumo do pensamento de Peterson (sugiro, para esta finalidade, o texto Quem é Jordan B. Peterson), mas uma exposição de algumas razões pelas quais devemos prestar atenção nele, sermos entusiastas de seu trabalho e por que precisamos de alguém exatamente como ele para o exato momento em que vivemos.


Continue a leitura do texto no site do Instituto Burke, clicando aqui.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Onze resoluções para orientar a vida por Clyde S. Kilby

Do Medium do William Campos da Cruz,

O professor Kilby distribuía cópias mimeografadas deste “guia” aos seus alunos no início de cada semestre.
1. De vez em quando, olharei para trás, com o frescor da visão que tinha na infância, e tentarei ser ao menos por algum tempo, nas palavras de Lewis Carrol, “a criança da fronte pura e límpida e olhos sonhadores de pasmo”.
2. Pelo menos uma vez por dia contemplarei o céu com toda a calma e me lembrarei de que eu, uma consciência consciente, estou num planeta a viajar no espaço repleto de coisas extraordinariamente misteriosas acima de mim e ao meu redor.
3. Em vez da ideia comum de uma mudança evolutiva interminável e aleatória à qual nada podemos acrescentar nem da qual nada podemos subtrair, imaginarei o universo regido por uma Inteligência que, como disse Aristóteles acerca do teatro grego, requer início, meio e fim. Acho que isso me livrará do cinismo expresso por Bertrand Russel antes de sua morte, quando disse: “Há trevas exteriores e, quando eu morrer, haverá trevas interiores também. Não há esplendor, nem vastidão, só a trivialidade do momento e, depois, o nada”.
4. Não cairei na falsidade de que este dia, ou qualquer dia, são meramente outras 24 horas vagas e arrastadas; antes, acreditarei que são um acontecimento único e, assim espero, repleto de potencialidades preciosas. Não serei tolo o bastante para imaginar que os problemas e o sofrimento são parênteses maus em minha existência; compreenderei, isto sim, que são como escadas para subir rumo à maturidade moral e espiritual.
5. Não farei de minha vida uma linha reta estreita que prefere abstrações à realidade. Estarei consciente do que estou fazendo quando fizer uma abstração, o que, é claro, farei com frequência.
6. Não aviltarei minha própria singularidade por inveja dos outros. Deixarei de importunar-me na tentativa de descobrir a que categorias psicológicas ou sociais pertenço. Sobretudo, simplesmente deixarei de pensar em mim e farei meu trabalho.
7. Abrirei os olhos e os ouvidos. Todos os dias, contemplarei uma árvore, uma flor, uma nuvem, uma pessoa. Não me preocuparei de modo algum em perguntar o que são, mas simplesmente me alegrarei com o fato de que são. Hei de permitir-lhes, com grande júbilo, o mistério daquilo que Lewis chama de existência “divina, mágica, assustadora e arrebatadora”.
8. Seguirei o conselho de Charles Darwin e me voltarei amiúde a coisas imaginativas, como a boa literatura e a boa música, de preferência, como sugere C. S. Lewis, livros antigos e música atemporal.
9. Não permitirei que as investidas malignas deste século usurpem todas as minhas energias, mas, ao contrário, como sugere Charles Williams, “viverei cada momento como o momento”. Tentarei viver bem agora porque o único momento que existe é agora.
10. Por nada mais que uma mudança de visão, tomarei como pressuposto que meus ancestrais procedem dos céus, não das cavernas.
11. Ainda que venha a descobrir-me equivocado, apostarei minha vida na convicção de que este mundo não é idiota, nem regido por um senhor ausente, mas que hoje, hoje mesmo, alguma pincelada está sendo acrescentada à tela cósmica que, no devido tempo, compreenderei com alegria como uma pincelada feita por um pintor que chama a si mesmo de Alfa e Ômega.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Edgar Allan Poe sobre a Beleza

Por André,



"(...) durante toda a composição do poema, não perdi de vista em nenhum momento a intenção de torná-lo universalmente apreciado" (grifo do autor)".

"a beleza é a única esfera legítima do poema".

"A contemplação da beleza, creio eu proporciona o mais intenso, elevado e puro de todos os prazeres. Na verdade, quando se fala em beleza, não se está referindo exatamente a uma qualidade, como se supõe, e sim a um efeito - está se referindo, em suma, à intensa e pura elevação da alma, não do intelecto ou do coração - a qual mencionei e que pode ser extraída da contemplação do 'belo'".


POE, Edgar Allan. Medo clássico. São Paulo: ed. Darkside Books, p. 344 e 345.

Roger Scruton sobre Harry Potter

Por André,




Um historiador do futuro, olhando para o tempo em que vivemos, certamente identificará J.K. Rowling como uma figura de elevada importância. De uma forma que tinha poucos precedentes desde “Peter Pan” e “O vento dos salgueiros”, ela capturou a imaginação coletiva do povo britânico e preencheu nossas mentes com personagens e atitudes que serviram como um quadro de referência compartilhado. Não apenas em nossos devaneios, mas também em nossas esperanças e intenções. 


[...] Há alguns entre meus colegas literários que rejeitam os livros de Harry Potter como literatura inculta, baseada em personagens descartáveis lançados em enredos extravagantes que não vão a lugar nenhum. 

Eu não concordo com eles. J.K. Rowling desfruta do tipo de sucesso que apenas um escritor que tocou em sentimentos reais e universais pode alcançar. Ela tem talento para inventar personagens que engajam os sentimentos de leitores comuns e situações em que as emoções do dia-a-dia são, repentinamente e alarmantemente, colocadas em teste. Os enredos dela podem ser extravagantes, mas existem poucas – se houverem – pontas soltas; e tudo corre suavemente, da descrição ao diálogo, e vice-versa.

Ela também tem algo do talento de Dickens quando se fala em nomes. Dumbledore, Voldemort, Malfoy, Hagrid, Hogwarts. Esses e muitos outros são propriedades domésticas como Magwitch, Peggotty e Oliver Twist. De um modo geral, eu daria crédito à J.K. Rowling por dar uma real contribuição à literatura, ainda que literatura infantil. 

Há literatura infantil de dois tipos: de um lado existem as histórias que abordam especificamente o estado de espírito da criança, e brincam com aquelas emoções primordiais que são resíduos dos tempos das cavernas – deste tipo são os contos populares coletados e embelezados pelos Irmãos Grimm. Por outro lado, existe a literatura que não é voltada para a criança, mas para a idéia da criança; literatura que retrata a mente infantil, valoriza-a, e também usa-a para transmitir verdades sobre o mundo adulto. Entre as obras deste segundo tipo estão algumas das obras primas da nossa literatura, incluindo os livros de Alice, por Lewis Carroll, e a história de Mark Twain sobre Huckleberry Finn. 

Literatura infantil deste segundo tipo é sobre o mundo como realmente é, mas escrito de uma forma que coloca a inocência e a ingenuidade da criança no centro da narrativa. A literatura infantil do tipo menos artístico não é sobre o mundo como realmente é, mas é sobre o mundo na percepção da criança, quando privado da sabedoria e da experiência adulta. É um mundo mágico, organizado por poderes ocultos e feitiços. É também um mundo simplificado onde bem e mal são revelados em termos concretos e dividem a realidade entre eles. É um mundo sem responsabilidades, uma vez que elas estão em outras mãos. 

E a criança que cai num mundo como esse só precisa de um tipo de conhecimento, que é o conhecimento de feitiços que irão invocar as forças do bem para protegê-la e afastar as forças o mal.

Tal mundo é o descrito e ricamente mobiliado por J. K. Rowling e sua narrativa astuta, que irão trazer total aprovação de todos aqueles que algum dia tentaram contar uma história de ninar. Mas isso levanta questões importantes sobre nossa cultura. Apesar dos livros de Harry Potter serem para crianças, eles deixaram de ser histórias de ninar e invadiram o dia-a-dia de trabalho adulto. Os nomes dos personagens estão na boca de todo mundo; a internet oferece os nomes de Harry Potter para cachorros, gatos e pôneis; a própria J.K. Rowling te convida para batizar seu político mais odiado com os recursos do léxico dela: A Sra. May* é claramente uma Dursley, mesmo que Corbyn** não tenha alcançado o status de Dumbledore.

O aspecto mais interessante das histórias de Harry Potter, antropologicamente falando, é que elas acreditam numa forma de fascínio antiquada e bem inglesa, ao mesmo tempo que evita qualquer tipo de referência a nossas crenças religiosas tradicionais. Hogwarts é uma escola tradicional inglesa, com abadias e uniformes, com jogos que instigam as velhas virtudes esportivas e a disciplina hierárquica, associada com jantares formais e discursos cerimoniais. É uma grande catedral gótica, mas sem altar, hinos ou orações. 

Então como o encanto é mantido? A resposta é: por magia. E essa magia é a criação soberba de Rowling, que preenche todo lugar que a religião teria ocupado, enquanto tira o conflito entre bem e mal do plano de fundo cósmico e o coloca num plano de ações humanas. O conflito é revelado nas formas e faces, nas fissuras e fantasias, nas silhuetas e sombras desta instituição assustadora. Como disse o poeta invocado por Shakespeare, Rowling deu “a dois nadas etéreos” (two airy nothings) um local habitado e um nome. 

Mas a forma de encanto dela também nos lembra por que religião e magia estiveram em oposição. A religião nos diz que nós não temos poder sobre o mundo e que devemos aceitar nossas limitações, reconhecendo que nossa salvação depende de Deus, que vai nos resgatar. Quando nós rezamos, não ordenamos que o mundo nos obedeça, ao contrário, nos humildemente admitimos nossa falta de poder e pedimos a Deus que intervenha em nosso bem. Oração é o reconhecimento da nossa fraqueza e ao mesmo tempo é a solução para merecer a ajuda de Deus. 

Nesse aspecto, orações são o exato oposto de feitiços. Aquele que conjura um feitiço está assumindo poder sobre a realidade. Ele não tem a necessidade de nenhum Deus, já que ele é Deus; ele está assumindo poder sobre o criador e subjulgando a vida e a matéria a sua vontade. 

[...] Eu distingui dois tipos de literatura infantil: o tipo que explora os medos e esperanças primordiais de uma criança, onde a magia desempenha um papel de controle; e a parte que olha, com os olhos da criança, o mundo adulto real, e traz uma medida de inocência que ensina à criança a ver a sua própria. 
Lewis Carrol, que elevou o segundo tipo de literatura ao nível artístico mais elevado, era um matemático – com um cérebro científico frio e claro – cuja heroína luta contra a ilusão com todo seu poder de raciocínio encantador. Ela é uma criança que quer ser adulta, explorando as sombras da própria imaginação e acendendo a luz da razão que irá afastar estas sombras.

As histórias de Harry Potter são o exato oposto disso. Elas mostram um mundo adulto completamente invadido por medos e delírios infantis: magia e mistério são a moeda em que todas as transações são mensuradas; a varinha, o feitiço e o estoque de conhecimento oculto dispensaram qualquer tipo de disciplina espiritual; todo personagem é bem ou mal por natureza e não há processo de desenvolvimento, nenhuma passagem de renúncia ou oração, onde o herói ou a heroína pode se preparar para enfrentar as provações da real existência adulta. Todos os obstáculos são sonhos que podem ser dissipados num passe de mágica, e ninguém precisa que nenhum poder que não possa ser obtido por coisas deste mundo, basta apenas conhecer os segredos. 

Nós esperamos que a criança pensa e sinta desse jeito por que elas ainda têm que se libertar do tempo das cavernas. Mas nós também esperamos que elas cresçam, saiam disso, e dirijam-se ao mundo com total consciência de sua complexidade, aceitando o paciente trabalho da ciência e a necessidade de humildade e entendimento. A religião é um dos caminhos para sair da magia primitiva e para encarar o mundo com clara compreensão dos fatos que não controlamos. Crescer significa que o mundo não vai entregar bens apenas por que nós queremos. A visão de mundo adulta é o oposto da postura mental do Potterismo. 

Mas o Potterismo está começando a prevalecer. O herói de Rowling e suas circunstâncias invadiram tanto a cultura que pessoas estão começando a viver numa “Hogwarts cibernética”, acreditando que tudo está sob do seu poder, uma vez que querer alguma coisa é metade do caminho para obtê-la. [...] Se você sofre de uma overdose de Harry Potter – e vê o mundo real também em termos de poderes ocultos e feitiços que os libertam – você é mais suscetível a pensar que o que você quer será conseguido apenas clicando numa tela. 


ORIGINALMENTE EM:

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

"Ela caminha em Beleza", por Lord Byron

Por André,



She walks in beauty, like the night 
Of cloudless climes and starry skies; 
And all that’s best of dark and bright 
Meet in her aspect and her eyes; 
Thus mellowed to that tender light 
Which heaven to gaudy day denies. 

One shade the more, one ray the less, 
Had half impaired the nameless grace 
Which waves in every raven tress, 
Or softly lightens o’er her face; 
Where thoughts serenely sweet express, 
How pure, how dear their dwelling-place. 

And on that cheek, and o’er that brow, 
So soft, so calm, yet eloquent, 
The smiles that win, the tints that glow, 
But tell of days in goodness spent, 
A mind at peace with all below, 
A heart whose love is innocent!


Ela caminha em beleza, tal como a noite
de clima desanuviado e céus cintilantes;
e tudo que de melhor há no brilho e na escuridão
encontre em seu semblante e em seus olhos;
aquela luz tenra e amadurecida
cujos céus negam aos dias ofuscantes.

Uma sombra acrescida, um raio de luz excetuado,
teriam cortado ao meio sua graça inominável
que ondula em cada uma de suas madeixas negras,
ou que suavemente ilumina sua face;
Onde os pensamentos se expressam dócilmente
e se mostra quão pura e querida é sua morada.

E em suas bochechas, bem como em sua fronte,
seus traços, tão suaves, tão calmos e, ainda assim, eloquentes,
os sorrisos que triunfam, o tom de pele que enrubesce,
falam apenas de dias em que a bondade prevaleceu,
Uma alma cuja paz a todos transparece,
um coração cujo amor é inocente!
(Tradução André Assi Barreto)

domingo, 10 de setembro de 2017

William Faulkner sobre a leitura

Por André,



"Leia, leia e leia. Leia de tudo - porcarias, clássicos, coisas boas e ruins e observe como são. Da mesma maneira que um carpinteiro que trabalha como aprendiz e estuda o mestre. Leia! Você absorverá. Então escreva. Se for bom, irá descobrir. Se não for, jogue pela janela". 
Em: 'Absalom, Absalom'

domingo, 13 de agosto de 2017

O Milagre da Solidão, um belo e esquecido texto de Olavo de Carvalho

Por fiatjaf,

Lima Barreto foi, com Cruz e Sousa e Machado de Assis, um dos meus heróis carlylianos de juventude — “the hero as man of letters” —, o tipo do sujeito que pela força da auto-educação se eleva acima do meio opressivamente burro e se torna um educador de seus opressores.

Que os três fossem pretos era coisa que não me comovia especialmente. A discriminação que você sofre como parte de um grupo tem sempre o contrapeso da solidariedade entre a multidão de coitados: quanto mais o expelem de um grupo, tanto mais você se sente integrado no outro, e sempre resta a esperança coletiva de que os oprimidos de soje sejam os opressores de amanhã. Ruim, mesmo, é a discriminação que você sofre sozinho, sem o consolo da palavra nós e das ideologias salvadoras, rejeitado, graças ao estima da diferença, mesmo pelos seus companheiros de raça, de religião, de bairro, de geração. Aí você não tem para onde correr. Você é o próprio Cristo na cruz, abandonado por todos, desprovido de semelhantes. Nenhuma ONG vai fazer lobby em seu favor, nenhuma assembléia da Unesco vai denunciar que você é vítima de uma grossa sacanagem, a rainha da Inglaterra não vai estipendiar nenhuma fundação para socorrê-lo, nenhum editorial do The New York Times vai dizer que você é lindo e maravilhoso como o João Pedro Stédile. Para todos os efeitos, você está excluído até mesmo da classe dos dscriminados. Você é aquela mancha de meio milímetro no canto de uma foto do Sebastião Salgado.

Só o sujeito que passou por essa situação sabe que existe, no mundo, um tipo de mal que supera tudo o que a mídia denuncia, e que pensando bem, é a raiz da porcaria universal.

Explico-me. O herói do primeiro romance de Lima Barreto, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, não sofre somente porque é preto e pobre. Ele sofre porque é um sujeito honesto num meio de vigaristas, um autêntico homem de letras num meio de farsantes, um gentleman no meio de carreiristas vorazes e grosseiros. Enquanto preto e pobre, consolava-se olhando a multidão de seus companheiros de infortúnio. Mas quantos semelhantes teria ele nas qualidades excelsas que o destacavam e o isolavam? Quantos irmãos tinha Cristo na cruz? A parte de Isaías que mais dói não é sua inferioridade social: é sua superioridade moral.

Mas Isaías traz ainda a marca do ressentimento racial. Ao escrevê-lo, Lima Barreto sente-se ainda o membro de uma determinada comunidade excluída e fala em nome dela. O livro resvala às vezes para o desabafo direto e, quanto mais se aproxima de uma cópia literal da realidade empírica, mais perde em altitude. O próprio Isaías também é de pouca estatura: ele é melhor que os outros, não mais forte: débil e tímido, reduz-se a uma vítima passiva das circunstâncias, tudo se resolve numa horizontalidade deprimente e, como dizia Antonio Machado, “cuán dificil es/ cuando todo baja/ no bajar también”!

No romance seguinte, Lima Barreto abdica de toda referência a uma injustiça social presente. O major Quaresma não pertence a nenhum grupo discriminado.

Não tem nenhum handicap que o identifique a esta ou àquela multidão de vítimas. Ele é auto-suficiente na luta pela vida. É mais forte, mais inteligente e mais valente que seu antagonista, o presidente Floriano. Quaresma não é discriminado porque algo lhe falte, mas porque tem força de sobra e a generosidade de querer ajudar a seu povo. Este segundo herói de Lima Barreto adquire assim uma altitude que faltava a Isaías. Ele já não é o personagem de um mero drama social, mas o herói de uma tragédia. Segundo Aristóteles, é essencial que o herói trágico seja um homem poderoso e especial: fora disso suas desventuras assinalariam apenas uma conjunção acidental de circunstâncias, suprimível e sem o alcance de uma fatalidade cósmica inexplicável.

Mas a derrota do major ainda é parcialmente explicável. Ele é um gênio criativo, mas, convenhamos, suas idéias são bem esquisitas. Ele tem esse resíduo de fraqueza, a meia loucura que o coloca a meio caminho entre o herói e o anti-herói. É por esse flanco que o inimigo consegue feri-lo. A morte de Quaresma nos deprime, mas não nos escandaliza como um absurdo completo. Há nela algo de razoável: o ideal do reformador era incompatível não só com o ambiente mesquinho da República florianista, mas com a reaidade tout court.

Esse último pretexto da injustiça é enfim abolido num romance seguinte de Lima Barreto, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Gonzaga é um Policarpo Quaresma sem demência, um Isaías sem o handicap da juventude e da timidez. É um grande homem em toda a extensão da palavra — e sua vida termina no isolamento e na resignação, mas não na derrota. Solitário entre seus livros, o sábio desenganado observa o mundo com um olhar sem ressentimento nem sentimentalismo, cheio de uma compreensão serena que lembra, por mais de um aspecto, a do conselheiro Aires, mas livre daquele resíduo de negativismo schopenhaueriano que foi até o fim a marca registrada de Machado de Assis.

A trilogia barretiana mostra-nos a evolução do ideal do humano do grande escritor, retratada na gradação espiritual dos heróis: o jovem talentoso esmagado pelo mundo, o combatente exaltado e semilouco, o sábio estóico soberano e calmo que permanece de pé enquanto o mundo em torno cai. De personagem a personagem, há uma progressiva depuração e interiorização do ideal, que vai se afastando da situação empírica imediata para se tornar cada vez mais universalmente humano e, na mesma medida, se desliga de todo ressentimento coletivo para encontrar o sentido de uma vida não na vingança, mas no perdão.

O perdão, aqui, não deve ser entendido na acepção beata e sentimental, mas no sentido etimoçógico de per-donare, completar o dom: o mundo não nos persegue porque é mais forte que nós, mas porque é mais fraco. Ele nos persegue porque algo lhe falta: a sabedoria. Como no verso de Santayana: “O world, thou choosest not the better part!” . Ao superar o ressentimento coletivo, o sábio “escolhe a melhor parte” e é o único que, no fim das contas, é rico o bastante para ter o que dar. Gonzaga não é verdadeiramente derrotado. Expelido do mundo, prossegue a busca da verdade, sempre disposto a compartilhá-la com o discípulo que o procure. “The hero as man of letters”: o oprimido tornou-se educador do mundo opressor.

Juntas, as três obras maiores de Lima Barreto formam um poderoso Bildungsroman — o romance da vitória de uma alma sobre si mesma e, por meio disto, sobre o mundo (*).

A transfiguração do oprimido em benfeitor é um milagre que se repete incessantemente na história. Raramente houve um sábio, um santo, um mestre cujos prodígios de generosidade não brotassem dos extremos de discriminação e solidão padecidos na infância, vencidos e superados pela alquimia da maturidade. É a mensagem final do Rei Lear: “Ripeness is all”.

Mas isso só acontece àqueles que sofreram a discriminação sozinhos, sem ter uma raça, um partido, uma ideologia, uma ONG e fundações internacionais a que se agarrar. Quem tem essas coisas não precisa atravessar o caminho da ascese interior. Pode encontrar alívio e reconforto na ilusão de que o ódio dos vencidos é um sentimento moralmente superior ao orgulho dos vencedores. Pode escapar da solidão fundindo-se na massa vociferante dos comparnheiros de partido, sonhando morticínios justiceiros que serão, na sua cabecinha imunda, a apoteose do bem. Foi dessa ilusão sangrenta que a leitura da trilogia de Lima Barreto me libertou, mais de trinta anos atrás.

A diferença entre povo opressor e povo oprimido é apenas quesão de ocasião, e a “solidariedade com os primidos” é apenas o véu ideológico que bsuca embelezar e legitimar, de antemão, os massacres de amanhã. Esse reconforto “ético” é, no fundo, uma fuga da consciência: todo povo orpimido esconde os lances vergonhosos de sua própria história, para poder acreditar-se melhor que os opressores. Não há um só movimento de libertação e de direitos que não se funde nessa mentira essencial, em que se afiam os espetos de futuros holocaustos. Durante um milênio faraós negros arrancaram sangue do lombo semita, para terminar sendo vendidos como escravos e hoje tentar comover o mundo com seu discurso contra os judeus comerciantes de escravos. Os alemães encontraram na humilhação coletiva a inspiração para perseguir os judeus, e a fumaça do holocausto ainda santifica o fuzil isralense a cada tiro que dispara sobre um palestino armado de pedras.

Reihold Niebuhr assinalava a diferença de nível ético, estrutural e intransponível, entre o indivíduo e a comunidade. Para o indivíduo, o sofrimento pode ser o princípio da sabedoria. Para a comunidade, é o motor da violência, que puxa o carro da história na direção da fornalha ardente em cuja beirada um cartaz anuncia: “Justiça e Paz”. Em face disso, a serenidade de M. J. Gonzaga de Sá é a resposta final aos padecimentos do jovem Isaías Caminha, e o heroísmo semilouco de Policarpo é uma etapa, a ser vencida, no caminho do entendimento.

(*) É a única obra desse gênero na nossa literatura, se descontarmos a novela de Guimarães Rosa A Hora e Vez de Augusto Matraga, a que o filme de Roberto Santos deu interpretação inversa, injetando-lhe aquela mistura de negativismo brasileiro e marxismo de botequim que torna a redenção de Matraga um gesto inútil por não se enquadrar, como ato isolado, na estratégia geral do Partido.

Fonte: Bravo! nº 13, outubro/98, edição de primeiro aniversário.

domingo, 9 de abril de 2017

Livro "O agente do imperador e o dedo da morte", por Edson Santos

Por André,




"O agente do imperador e o dedo da morte", de Edson Miranda, com FRETE GRÁTIS!

E se o Brasil não tivesse se tornado uma república, mas tivesse continuado sob o governo da família imperial?

Não se trata de revisionismo histórico, amigo leitor, mas do romance de estreia de Edson Miranda “O agente do imperador e o dedo da morte”, ambientado em 2016 nesse Brasil hipotético, onde um agente especial do Imperador – o agente Reis – é convocado para proteger o país de um atentado terrorista!

Leitura empolgante, capaz de cativar todas as faixas etárias e criando uma nova personalidade heroica para nossa literatura.

Preço: R$ 29,90.
Pedidos devem ser enviados para: vendas@linodigi.com.br

domingo, 15 de janeiro de 2017

"História e Utopia" de Emil Cioran

Por André,


Neste pequeno livro (Cioran era avesso aos "grandes tratados"), minha segunda leitura de 2017, Cioran deixa completamente nus os crentes no progresso histórico, na utopia e no otimismo.

Cada parágrafo é uma martelada - talvez devêssemos atribuir igualmente a alcunha de "filósofo do martelo" a Cioran", o poder de concisão de Cioran certamente é das coisas mais admiráveis da história da prosa - considerando que o romeno percorreu o caminho das pedras para escrever fluentemente em francês.

Há neste livro um excelente ensaio sobre a Rússia, que surpreende pelo caráter profético e confere um interesse extra na obra.

Dela, pinço o seguinte trecho:

"Ao divinizar a história para desacreditar Deus, o marxismo só conseguiu tornar Deus mais estranho e mais obsedante. Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, e mesmo ao desaparecimento da religião sobre a Terra. E como a essência do povo russo é religiosa, ela inevitavelmente se reerguerá" (p. 34).

Embora certamente Cioran jamais se enfileiraria aos conservadores, sua crítica destruidora das utopias e das ideologias joga mais água em nosso moinho que no moinho revolucionário,

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Primeira leitura de 2017: "O Duplo" de Dostoiévski

Por André,


Como é de praxe, a única leitura que consigo contabilizar e compartilhar publicamente a análise é a primeira do ano. Este ano foi vez de literatura e do mestre russo.

Confesso que a leitura não é exatamente agradável. A personagem principal é repetitiva e refere-se a si próprio na terceira pessoa, o que dificulta a fluidez da leitura em alguns momentos. Nada, é claro, que deva fazer alguém declinar da leitura.

Como também é de costume, traço minhas impressões interpretativas gerais e depois começo a pesquisar estudos e resenhas para conferir o que bate e o que não bate. Grande parte bateu, minha impressão inicial é que a personagem principal delira e que não há nenhum "Goliádkin júnior". Estou conferindo alguns pontos nesse estudo de 70 páginas (!!): http://law.capital.edu/WorkArea/DownloadAsset.aspx?id=27825

A sensação de incômodo que a obra me despertou lembrou e muito aquela que senti quando li A Metamorfose de Kafka. Se nesta o sujeito se transforma e inseto e sua família se preocupa com seu emprego, em O Duplo eis que surge um sujeito idêntico ao herói e ele se preocupa com... o seu emprego! Não me parece a reação/preocupação inicial que alguém normal teria se descobrisse que existe um gêmeo homônimo seu circulando por aí. Claro que esses elementos foram colocados por Kafka e Dostoievski intencionalmente nos textos, talvez com a ideia de despertar no leitor esse exato incômodo, mas essa histeria causa mesmo um considerável desconforto.

A edição é portuguesa da "Editorial Presença" e a tradução é premiadíssima do casal Nina e Filipe Guerra.

domingo, 11 de setembro de 2016

A Boa Música: Da Arte de Traduzir

A Boa Música: Da Arte de Traduzir: Carlos Nougué I A Tradução, arte subalternada à Linguagem e à Gramática, tem por duplo objeto 1) o discurso ou o texto por traduz...

terça-feira, 6 de setembro de 2016

João Pereira Coutinho na Folha: "'A Morte de Ivan Ilitch', de Tolstói, revela as mentiras da existência"


Amigo leitor: peço desculpa pelo uso abusivo da palavra. Eu não sou seu amigo. Nem você é meu. Não nos conhecemos e, francamente, melhor assim. Eu escrevo e, com sorte, alguém lê desse lado. É uma troca justa. E basta.

Aliás, por falar em amigos, quantos você tem? Cinco? Dez? Vinte? Melhor cortar o número para metade. Tempos atrás, li um estudo sobre as nossas falsas percepções sobre os amigos. E parece que só metade das amizades que julgamos sólidas são recíprocas. Na outra metade estão pessoas que não pensam em nós, pensam pouco ou até pensam mal.

Essas conclusões não me espantam. Experiência cotidiana: alguém fala que encontrou o personagem X e ele, eufórico, falou de mim como "grande amigo".

Disfarço, por gentileza. Mas, se fizesse uma lista com as cem pessoas que passaram pela minha vida –da família mais próxima ao homem que me vendeu os jornais meia hora atrás–, o personagem X não estaria presente.

Aqui entre nós, quem é o personagem X? E, já agora, por que motivo tendemos a inflacionar o número de amigos que julgamos ter?

Fato: o conceito de "amizade" tornou-se uma caricatura, sobretudo quando é possível colecionar centenas ou milhares de "amigos virtuais" no mundo virtual. O pessoal confunde as coisas e julga que um "like" é uma jura de amor eterno.

Mas as conclusões do estudo também não me espantam por causa de um livro publicado há precisamente 130 anos. O autor é Lev Tolstói (1828-1910) e o título é "A Morte de Ivan Ilitch".

Primeira confissão: "A Morte de Ivan Ilitch" sempre me pareceu um erro. "A Vida de Ivan Ilitch" seria a titulatura mais apropriada porque é de vida, e não de morte, que Tolstói nos fala.
Sim, superficialmente, temos um homem que adoece com gravidade e que caminha para o seu cadafalso com a angústia e o ressentimento dos condenados.

Mas a novela de Tolstói é uma meditação avassaladora sobre as mentiras da existência "comme il faut".

A expressão francesa é usada e abusada pelo narrador com propósitos irônicos, mas também descritivos. Ivan Ilitch era a promessa da família –e a promessa se cumpriu.

Estudou, formou-se, tornou-se funcionário judicial de sucesso. E procurou sempre uma vida "comme il faut" que estivesse à altura dos gostos da plateia. Teve um casamento "comme il faut"; uma casa "comme il faut"; uma carreira de magistrado "comme il faut".

E, quando a harmonia doméstica começou a ruir, Ivan Ilitch resolveu o assunto "comme il faut": casou-se com o trabalho e transformou a mulher em "hobby" suportável.

É perante esta gloriosa encenação que a morte surge como elemento dissonante –ou, se preferirmos, "pas comme il faut". Ivan analisa a dor da enfermidade como se aquilo fosse um elemento estranho, injusto, "fora do lugar". Nega a sua condição (morrer, eu?) e, quando a enfrenta, é devorado por um terror gélido ("sim, eu").

Nas mãos de um escritor banal, a doença serviria para mostrar a Ivan Ilitch que as medalhas que ostentamos ao peito não nos protegem do fim inevitável e blá-blá-blá.

Para um monstro como Tolstói, a morte de Ivan Ilitch é a "via dolorosa" da sua salvação. Porque é a morte que permitirá ao personagem olhar para os outros e para ele próprio sem viciar "o fundo insubornável do ser" de que falava o filósofo Ortega y Gasset.

É, enfim, uma visão límpida e aterradora. A mulher e a filha, cansadas da agonia de Ivan, consideram-no um estorvo, um repulsivo estorvo que a morte tarda em levar.

E, quando recorda a sua vida, é na infância, e apenas na infância, que Ivan Ilitch encontra uma felicidade autêntica e sem sombra. A conclusão é trágica e, ao mesmo tempo, libertadora: enquanto subia aos olhos dos outros ("comme il faut"), Ivan Ilitch descia rumo ao naufrágio.

É esse naufrágio, essa falsificação espiritual que encontramos nos "amigos" de Ivan quando sabem da notícia da morte. Uns pensam nas suas carreiras (quem ocupará o lugar do defunto? haverá promoções?). Outros sentem alívio ("foi ele, não fui eu"). E todos suspiram com as obrigações sociais entediantes (ir ao funeral, consolar a viúva etc.). "The show must go on."

Amigos? Temos dezenas, centenas, milhares. E assim continuaremos –autoiludidos e autocentrados– até chegarmos ao leito derradeiro onde estarão poucos ou ninguém.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Mérito literário por Olavo de Carvalho

Por André,



"Eu já vi algumas teses universitárias, que o pessoal me manda, às vezes [com] coisas altamente requintadas de filosofia e um erro de ortografia em cada linha. E onde tem erro de ortografia fatalmente você vai ter erros de sintaxe também. Você tem um material que às vezes está altamente elaborado do ponto de vista lógico, mas não tem uma elaboração equivalente do ponto de vista gramatical, o que significa que não vão se tornar produto de cultura superior. Se o sujeito escreve uma tese que está cheia de boas idéias, está bem pensada, bem articuladinha, mas não está corretamente escrita e adequadamente escrita, então aquilo vai ser sempre uma demonstração de força pessoal. Quer dizer, ele mostrou que ele é capaz de fazer, mas ele não fez ainda. Os produtos de cultura superior se caracterizam sobretudo pela forma acabada. Eles tem uma forma que é estabilizada e se incorpora então na cultura superior. Se não tem a forma então é como se fosse uma estátua que você fez em barro, mas o barro não seca, então aquilo toda hora perde a forma.

Se não tem forma, se tem apenas 'conteúdo', conteúdo significa uma intenção que está indo em direção a uma forma, mas ainda não chegou lá. Mais ainda: a única coisa que sobra de fato das grandes obras da cultura é a forma, por que o “conteúdo” é comum a toda a humanidade. Tudo aquilo que Shakespeare escreveu está mais ou menos na alma de cada um. A única diferença é que Shakespeare conseguiu apreender aquilo como uma forma — não só apreender, mas conseguiu registrar de algum modo. É como se esses conteúdos estivessem constantemente fluindo por todas as mentes, mas de uma maneira muito rápida e inapreensível, de maneira que o sujeito percebe a coisa e no instante seguinte já esqueceu.

Certamente a diferença de nível de consciência nas pessoas não está na diferença de sensitividade. A nossa sensitividade é mais ou menos igual. A diferença está exatamente na capacidade de retenção, e portanto na capacidade de criar uma forma com aquilo. Esta é a única diferença. Isso é uma coisa que eu tenho observado: muitas pessoas me escrevem dizendo: 'Puxa, você disse exatamente aquilo que eu queria dizer e não conseguia'. Só que no Brasil isso significa o seguinte: que você não tem mérito nenhum, o mérito é de quem percebeu sem conseguir dizer. O cara que disse, ele está ali apenas como uma espécie de boneco de ventríloquo... quando, justamente, você conseguir dizer o que os outros também estão percebendo[, mas sem conseguir dizer,] é o único mérito literário que existe. Exatamente o único.

A única diferença entre Shakespeare e eu é que ele conseguiu dizer umas coisas que eu também pensei, mas eu não consegui dizer. Eu pensei por uma fração de segundos, não me tornei proprietário daquilo. Até a expressão “criação literária” é um termo um pouco exagerado. Não existe propriamente uma criação, mas um registro; existe uma retenção e um registro. E na diferente capacidade de retenção e registro reside a diferença entre o Seu Zé Mané e Shakespeare ou Camões.

Também não se trata do conteúdo: os conteúdos que nós percebemos são mais ou menos os mesmos. Nós temos as mesmas sensações, as mesmas emoções. Todo mundo percebe a mesma coisa, mas um percebe por uma fração de segundo, e o outro retém. É uma questão também de fixação da atenção. Porém, se a base fônica não está perfeita, se o indivíduo não tem as distinções e a retenção das distinções entre milhares de fonemas diferentes, então ele também não vai ter, no grau seguinte, as distinções entre as várias percepções."

COF, aula 88, gritos meus.

domingo, 5 de junho de 2016

Indicações bibliográficas sobre a vida intelectual

Por Daniel Fernandes,


1. São Tomás de Aquino, O ofício do sábio.
2. A.D.Sertillanges, A vida intelectual.
3. Louis Riboulet, Rumo à Cultura [Conselhos sobre o Trabalho Intelectual, aos estudantes e aos jovens mestres].
4. Hugo de São Vítor. Didascalicon. Da arte de ler.
5. Manuel Belda & Johannes Stöhr, Estudio y espiritualidad.
6. Jean Guitton, El trabajo intelectual.
7. Jean Guitton, Nuevo arte de pensar.
8. Olavo de Carvalho, Introdução à vida intelectual.
9. Olavo de Carvalho, Sobre a Arte de Estudar.
10. Jaime Nubiola, El taller de la filosofia.
11. Mira y López, Como estudar e como aprender.
12. Jacques Maritain, De la vida de oración [Vida intelectual y la oración].
13. Rafael Caldera, El ofício del sabio.
14. Julián Marías, El intelectual y su mundo.
15. Julián Marías, El ofício del pensamento (ensayo).
16. Etienne Gilson, Amor a la sabiduría.
17. Julio Payot, A educação da vontade.
18. Dietrich von Hildebrand, Atitudes éticas fundamentais.
19. Papa João Paulo II, Carta encíclica Fides et Ratio.
20. Pável Florensky, Cartas de la prisión y de los campos.

Textos:

21. Simone Weil, Reflexiones sobre el buen uso de los estudios escolares como medio de cultivar el amor a Dios.

22. Etienne Gilson, La inteligência al servicio de Cristo Rey (Conferência)

Para completar:

23. Mortimer Adler, A Arte de Ler.
24. Susan Bauer, Como educar sua mente.
25. Julián Marías, O lugar da literatura na educação.
26. Pedro de Moura e Sá, Vida e Literatura.
27. Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, A importância da literatura.[Vídeo]
28. Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, A leitura dos clássicos [Vídeo / Aula de apresentação]
29. Leo Strauss, O que é educação liberal? [Discurso]
30. Olavo de Carvalho, Educação Liberal [Palestra]
31. Olavo de Carvalho, Princípios e métodos da autoeducação [Curso]
32. Olavo de Carvalho, Curso Online de Filosofia [COF]

domingo, 3 de janeiro de 2016

Primeira leitura de 2016: "Churchill" de Paul Johnson

Por André,


Todos os anos prometo, conforme alguns amigos fazem, contar quantos livros li ao longo do ano. Nas últimas duas tentativas - frustradas - parei a contagem no primeiro. Nada contra quem o faz, gente inteligente e de boa vontade e, certamente, com melhor autocontrole que eu, consegue chegar a um resultado. Eu, particularmente, não consigo e não sei como computaria tantos livros que leio apenas capítulos específicos que me interessam e tantos outros que apenas faço minhas consultas. O fato é que não poderia haver melhor leitura para ser posta como primeiro membro da soma: "Churchill" de Paul Johnson.

Tudo que dizem sobre Johnson é verdadeiro: ao ler seu texto me senti lendo um agradável romance. Tudo que dizem sobre Churchill creio que ainda seja pouco:

- Churchill fumava e bebia (e morreu com pulmões e fígado intactos);

- Superou adversidades, que não foram poucas ou pequenas (sendo Gallipoli, talvez, o melhor exemplo, além de diversos altos e baixos na Casa dos Comuns);

- Segundo Johnson, Churchill "odiava o comunismo com cada fibra do seu corpo" [ao contrário de Franklin Roosevelt] {p. 123};

- concentrou não apenas a condição de estadista brilhante, mas era um orador sem igual e um jornalista e historiador de verve inconfundível (a despeito do desempenho acadêmico ruim);

- tentou, infelizmente de maneira frustrada, uma incursão na Rússia em 1917, por ocasião do golpe dos bolcheviques contra a família real russa. Se tivesse obtido sucesso, aventa Johnson, poderia ter evitado as vinte milhões de mortes perpetradas pelos comunistas, além de, muito provavelmente, ter impedido a própria ascensão de Hitler e Mussolini ao poder (p. 56);

- incentivou a industria aérea de maneira que se mostraria essencial para a salvação da Inglaterra em 1940;

- Sem Churchill, Israel provavelmente não existiria (p. 60). Foi sionista por toda a vida;

- embora soubesse do fracasso de Chamberlain, jamais deixou de reconhecer sua importância e sua condição de amigo. A magnamidade era uma de suas características mais marcantes;

- Foi atacado por Keynes por restabelecer o padrão-ouro;

- Temia a chegada no comunismo na Inglaterra e sabia que isso representaria o fim da civilização. "De todas as tiranias da historia, a bolchevique é a pior" (p. 74 e 75);

- Quando Hitler chegou ao poder já havia lido o Mein Kampf e sabia do perigo real que o führer representava, enquanto muitos ainda o tratavam como um lunático cuja passagem pelo poder seria evanescente;

- Muitos pacifistas o atacavam por seu suposto espirito "beligerante" e até mesmo saudaram Hitler pelo que fazia, visto que o Tratado de Versalhes era demasiado "injusto";

- Quando soube dos planos de Hitler de invadir a Rússia avisou Stalin, porém, o ditador comunista considerou o aviso como (sic) "manobra capitalista" para envolver a URSS na guerra (p. 124);

- seus ataques aéreos impiedosos contra a Alemanha dizimaram a frota de ar germânica, o que, sem qualquer duvida, garantiu a possibilidade de vitoria por terra da URSS (p. 126);

- A Inglaterra investia em armamento nuclear e, se disponível à época, Churchill o teria usado contra a Alemanha de Hitler;

- Popularizou expressões como "cortina de ferro" e "guerra fria".