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quarta-feira, 1 de maio de 2019

Mourão, por que você não se cala?

Por André Assi Barreto,



Antes das eleições todos achavam que um general para vice-presidente, escolhido a dedo por Bolsonaro, sepultaria os interesses da esquerda em um impedimento. Apenas eventual cassação de chapa seria do interesse deles, visto que o general deveria ser ainda mais firme e rigoroso que o capitão (não é?). Mas bastou gen. Mourão abrir a boca para percebermos duas coisas: nos primeiros meses ele se comportou como ombudsman – profissional que acata reclamações externas e tenta resolvê-las de maneira supostamente imparcial – do governo, não-requisitado, diga-se; a cada declaração de algum dos ministros de seu governo plantada como “polêmica” pelo quarto poder (que vilipendiou Mourão e sua chapa ao longo de toda a eleição), Mourão surgia para apaziguar e contradizer seus ministros (exemplos logo a seguir) e, ainda, as declarações de Mourão, por mais direito que o general tenha a elas, costumam ir na completa contramão da plataforma ideológica que levou Bolsonaro à presidência: autenticidade, característica totalmente vinculada à figura de Bolsonaro, era ele e não Mourão que era recebido por multidões nos aeroportos; conservadorismo de costumes e liberalismo na economia. 

A patente de general pode ser superior à de capitão, mas a de vice-presidente não poderia ser mais decorativa que a da senhorinha que serve café em relação ao CEO da empresa. Com um agravante: ninguém votou na chapa PSL-PRTB por causa do Mourão (nem por causa do PSL ou do PRTB, aliás), figura que virtualmente ninguém conhecia. PRTB/Mourão não agregaram tempo de TV, votos ou manobras com o centrão, porque PRTB e Mourão são praticamente insignificantes a esse respeito. Quem fez a campanha virtual, pelas redes sociais, para eleger a chapa que alçou Mourão à vice-presidência do Brasil foram os olavetes, que já estavam em campanha por Jair Bolsonaro há muito tempo, aliás, com clareza de pontos de vista indiscutível. 

Considerando isso, algumas trupes se juntaram: petistas e esquerdistas, que veem em Mourão desdizendo o governo do qual faz parte uma oportunidade para instar o caos, além de quererem apontar para uma suposta equiparação que, em verdade, é absurda: Mourão seria o Temer de Bolsonaro. Isso não poderia estar mais errado. Temer agregou à chapa petista tempo de TV, palanques pelo Brasil inteiro e a submissão da grande bancada fisiológica do PMDB aos projetos do governo e mesmo com toda essa contrapartida e poder de barganha, não se viu Temer agindo como se fosse chefe de governo de Dilma logo nos seus primeiros dias de governo. Aliás, isso nunca foi visto, exceto para dias antes da confirmação do impeachment. A comparação é absurda, Temer foi escolhido e aceito porque tinha muito a dar, de Mourão e do PRTB esperava-se, no mínimo, o apoio ideológico, já que a aliança surgiu supostamente por afinidade de ideias – algo que nunca veio. 

A estes dois primeiros grupos juntaram-se os “isentominions”, isto é, gente que não é de esquerda e não é petista, mas só consegue dar dois suspiros seguidos se reafirmarem publicamente sua isenção “crítica” com relação ao governo; inclui estirpes liberais, “turma da kombi” (eleitores ideológicos de Meirelles, Amoedo e Alckmin) e outros tipos isolados e numericamente insignificantes. Para estes, Mourão virou herói, mesmo que esteja em região distante deles no espectro político, pois suas tiradas contrárias a Olavo de Carvalho ocupam lugar especial no pedestal de prioridades: seja militar progressista e positivista, seja comunista, seja lá da coloração que for, uma lacrada anti-olavete tem preço inatingível para essa turma – e cada um tem os heróis que merece (isso inclui outras esferas de anti-olavetes: antissemitas, tradicionalistas, islamofílicos etc). 

Muita gente, que pensa exatamente do jeitinho que a esquerda quer que pensemos, pode estar surpresa com isso, porque “não é óbvio que um militar é um direitista malvadão”? A esquerda quer pintar todos à sua direita com a mesma cor, mas a verdade é que militares sempre tiveram uma ideologia não muito simpática ao conservadorismo. A ideologia predominante ali faz parte da velharia francesa, um daqueles lixos ideológicos que só sobrevivem depois de mortos no Brasil, como dizia Millor Fernandes, o positivismo. Daí vem a crença pueril no “progresso” como a marcha inevitável da humanidade, desde que os preceitos científicos sejam aceitos e implementados, então a marcha inexorável da ordem e do progresso triunfará. 

Nesse meio pode tanto haver espaço para algum ocasional conservadorismo de costumes, quanto para um caso quase completo de progressismo moral, como o de Mourão. Mesmo o propalado anticomunismo do regime militar, característica que, se demovida da narrativa histórica oficial, faz cair por terra as tentativas da esquerda de comparar nossos militares a outros ditadores ou ao próprio nazismo, pode ser questionado quando observamos, por exemplo, que o ditador comunista da Romênia, Nicolai Ceausescu, deposto e morto pelo seu próprio povo foi, antes disso, condecorado com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul pelo general Geisel. Não que isso seja prova de comunismo do general, evidentemente, mas conseguem imaginar qualquer um com um programa anticomunista (ainda que seja anarquista ou social-democrata) que congratule com a mais alta pompa um notório comunista? Não sabemos se Mourão faria isso, crê-se que não, mas quem sabe para agradar a imprensa? A mesma que quis destruí-lo com suas declarações escorregadias durante a campanha (e Mourão, nessa época, quem defendeu a honra da sua chapa não foram seus parceiros militares, mas a ativa ala olavete do governo que hoje você quer expurgar). 

Muito foi dito que Carlos e Eduardo Bolsonaro, além do professor Olavo, serem responsáveis por criar cisões e atrapalhar o governo, mas na pior das hipóteses, o inaugurador da cizânia fora o próprio Mourão quando decidiu autoproclamar-se ombudsman do governo. Uma pesquisa rápida e um punhado de notícias deixa isso evidente:






[Dica: apenas o homem que te deu a posição que ocupa e seus filhos]. 












Vice-presidente general Mourão, já sabemos que nada que levou o presidente Jair Bolsonaro à condição de presidente do Brasil é do seu agrado e já que você não revelou isso antes da eleição, poderia ao menos deixar de contribuir com a imprensa que quer destruir o governo do qual o senhor faz parte com fogo amigo? Atitudes dos seus ministros que não forem do seu agrado podem ser resolvidas internamente, sem querer jogar um prato cheio no colo da oposição do tipo “quanto pior melhor”. Se o seu desejo é ver o governo prosperar só há duas alternativas, a descrita acima ou se calar.

sábado, 2 de março de 2019

Entrevista com Cesar Ranquetat Jr sobre seu livro "Da direita moderna à direita tradicional"

Por André,

O amigo Lucas Mendes fez uma excelente entrevista com César Ranquetat, sobre seu importante livro. O exercício conceitual e analítico feito por César é algo inédito no Brasil, creio eu. Desconheço outros acadêmicos que se sirvam do seu arcabouço teórico. Vale a pena!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O problema da definição – como a política de cotas PODERIA colapsar

Por André,

Em janeiro de 2014 escrevi um texto chamado “O problema da definição. Como a política de cotas poderia colapsar”, cuja profecia estava correta em sua essência, mas falhou devido a minha pouca fé na loucura humana com motivações ideológicas.

Segue o texto, com comentários novos e frescos logo na sequência:

“Também circulou por esses dias na internet um vídeo de um sujeitinho muito tosco (custei a acreditar que a história do vídeo era real) chamado Craig Cobb e tido como “supremacista branco”, onde o próprio está num programa de TV em que, após ser submetido a um teste de DNA, descobre que tem uma porcentagem razoável de ascendência africana, jogando sua “branquitude” pura por água abaixo:

Segue em Burke Instituto Conservador:

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Tradução para o Burke Instituto: "Radicais Tristes"

Por André,

Quando me tornei anarquista, tinha 18 anos, estava deprimido, ansioso e pronto para salvar o mundo[i]. Me mudei para junto de outros anarquistas e trabalhei num café cooperativo vegetariano. Protestei contra o endividamento de estudantes, a privatização das penitenciárias e das extensões de gasodutos. Tinha números de telefone de advogados escritos no meu tornozelo e ajudava amigos que haviam sido atingidos por spray de pimenta em manifestações. Diagramava revistas, vivia com a minha “família por escolha” e declamava poemas surrados sobre o fim do mundo. Tudo enquanto minha comunidade desconstruía o gênero e a monogamia, além de questões sobre saúde mental; vivíamos e respirávamos conceitos e ferramentas como o denuncismo imediato contra qualquer forma de intolerância (call-outs), “interseccionalidade”, apropriação cultural, alertas de gatilho (trigger warnings), lugares seguros (safe spaces), teoria do privilégio e cultura do estupro.

O que é uma comunidade radical? Para os propósitos desse artigo, definirei comunidade radical como aquela que compartilha tanto uma ideologia de insatisfação completa com a sociedade existente devido a sua natureza opressora quanto um desejo de alterá-la radicalmente (ou destruí-la) porque ela não pode ser redimida por suas próprias regras[ii]. Ao fim, acabei deixando minha comunidade radical. A ideologia e as pessoas que a compunham me deixaram destruído e como um náufrago desiludido. Conforme me livrava da doutrina, assisti uma versão diluída da minha ideologia radical explodir na academia e entrar na moda: observei a Esquerda se tornar “lacradora” (woke)[iii].

Alguns comentadores alfinetaram justiceiros sociais a respeito da toxicidade da mentalidade lacradora (woke). Muitos radicais por toda a América estão cientes disso e estão tentando compreender o fenômeno. O livro Joyful Militancy, de Nicholas Montgomery e Carla Bergman, publicado ano passado, constitui a observação mais minuciosa da radicalidade tóxica desde uma perspectiva radical (tive um breve encontro com Nick Montgomery anos atrás. Minha claque anarquista não gostava da claque anarquista dele). Como ele próprios dizem, “há uma suave subcultura totalitária não apenas no hábito do denuncismo, mas também em como as comunidades progressistas policiam e definem as fronteiras que determinam quem está dentro e quem está fora”.

Montgomery e Bergman veem o radicalismo tóxico como uma questão exógena. Não ponderam a hipótese de o radicalismo ser ele próprio malévolo. Como resultado, as soluções que propõem são abstratas e vacilantes, como “aumentar a sensibilidade e vivenciar situações de maneira mais plena”. Talvez isso seja o porquê as soluções existem todas para além das fronteiras do pensamento radical. Conforme Jonathan Haidt apontou, “a moralidade limita a visão e restringe”.

Infelizmente, a toxicidade nas comunidades radicais não é um equívoco. É um traço. A ideologia e as normas do radicalismo evoluíram para produzir sujeitos tóxicos, paranoicos e deprimidos[iv]. O que vem a seguir é um panorama do que acontece em comunidades que são radicais, apaixonada e sinceramente lacradoras (woke), visto da perspectiva de um apostata.

CONTINUA EM BURKE INSTITUTO CONSERVADOR:

https://www.burkeinstituto.com/blog/especial/radicais-tristes/

Também em versão revisada no:

https://xibolete.uk/radicais-tristes/

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Hangout retrospectivas 2018 com Junior Pereira

Por André,

No hangout com meu amigo Junior abordamos os seguintes temas:


- destinos do Brexit.

- governo Trump, neoconservadorismo, paleoconservadorismo, Ernesto Araujo.

- eleições no Brasil/tentativa de assassinato do Bolsonaro.

- derrotas da esquerda nos últimos anos e o que fazer quando isso acabar.

- fake news/redes sociais/internet.

- crise no mercado editorial brasileiro.

- campanhas encampadas por artistas, seu fracasso e Saul Alinsky.

- esquerda e medo psicológico incutido nas mentes.

- alguns livros-destaque de 2018.