Por Sergio de Biasi,
Infelizmente quando me mudei para cá deixei quase a
totalidade dos meus livros para trás e à época não os tinha no meu
computador, então reconstruir uma bibliografia partindo do que eu li e
posso recomendar pessoalmente fica mais complexo dado que primeiro
preciso me lembrar do que eu li. :-)
Seja como for, periodicamente recebo pedidos de recomendações sobre o
que deve ser lido em filosofia da ciência. Bem, embora eu tenha
decidido dedicar minha vida profissional à academia, não é com filosofia
da ciência que eu gasto a maior parte dos meus esforços, então qualquer
lista que eu proponha terá provavelmente grandes e importantes lacunas.
Me reconforto um pouco em saber que isso provavelmente é verdade de
qualquer lista desse tipo, dada a vastidão do tema. Enfim, essas são
algumas das recomendações bibliográficas pessoais minhas sobre o
assunto.
Para começar, eu gostaria de apontar que alguns dos grandes
cientistas ao longo da história – aqueles que propuseram idéias tão
importantes e revolucionárias que alteraram a própria forma de fazer
ciência – se viram forçados eles mesmos a considerarem as implicações
filosófica e metafísicas do que estavam dizendo, assim como a olharem
para o próprio processo científico e questionarem sua natureza e
validade. Então tendo eu sempre sido interessado em ciência, antes mesmo
de consumir qualquer literatura exclusivamente sobre filosofia da
ciência, já havia lido diversas discussões do assunto por acadêmicos
hoje reconhecidos por vezes primordialmente por seu trabalho científico e
não por suas discussões de filosofia. Entre eles estão notavalmente Galileu Galilei, René Descartes, Isaac Newton, Ernst Mach, Henri Poincaré, Albert Einstein, Bertrand Russell, Werner Heisenberg.
Digo notavelmente não apenas em termos de sua relevência intrínseca mas
também em termos da influência que tiveram sobre minha opinião sobre
filosofia da ciência como sendo um assunto importante. Poucos textos li
no original da maior parte deles; na maior parte das vezes li *sobre* o
que eles pensavem ao invés de diretamente o que escreveram, tanto pela
inacessibilidade das fontes primárias quanto pela sua inescrutabilidade
quando lidas contemporaneamente. Mas digo já de saída que é um equívoco
gigantesco imaginar que os grandes cientistas desconheçam, não
considerem, ou não discutam as implicações filosóficas do que estão
fazendo assim como o que os autorizaria no final das contas a afirmar o
que quer que seja sobre a realidade objetiva. Inclusive, repito, nas
obras científicas mais revolucionárias e relevantes, a ciência esbarra
diretamente com filosofia, e na expansão das fronteiras mais avançadas
da ciência é necessários discutir explicitamente questões filosóficas.
Isso fica claríssimo ao examinarmos o que todos os cientistas acima de
fato disseram sobre filosofia da ciência. Infelizmente hoje em dia
existe – possivelmente domina – o conceito do cientista não como vocação
intelectual mas como “somente um emprego”, caso em que o sujeito está
em geral muitíssimo pouco preocupado em questionar paragidmas ou
revolucionar qualquer coisa e sim, muito pelo contrário, interessado em
investir seus esforços nas direções menos controversas que for possível,
receber seu salário e ser deixado em paz.
Uma exceção na lista acima quanto a eu ter consumido primordialmente
fontes secundárias é no caso de Einstein. Não que eu não tenha lido
muito do que se escreveu tanto sobre ele quanto sobre sua obra
científica e seu significado (além de quando estudante de engenharia ter
sido submetido à versão-para-universitários da teoria da relatividade
especial presente em livros texto de física moderna), mas além disso
também li diversos textos escritos pelo próprio, como a coletânea The World As I See it (que na verdade não tem muito sobre filosofia da ciência) e Relativity.
Este último de fato fala sobre filosofia da ciência, interessantemente
não como um tópico em si, mas como uma necessidade para fazer a ciência
da qual o livro trata. Uma parte substancial do livro é gasta discutindo
conceitos, como justificá-los, e seu significado.
Outra grande exceção na lista acima quanto a eu ter consumido
primordialmente fontes secundárias é no caso de Russell. Autor
extremamente prolífico, várias de suas obras permanecem não apenas
legíveis como relevantes ainda hoje. O primeiro livro que li dele foi Introduction to Mathematical Philosophy,
um clássico absoluto que se por um lado hoje em dia está academicamente
um pouco datado, por outro lado permanece perfeitamente acessível e
retrata um momento de transição de importância fundamental tanto para
filósofos quanto para matemáticos – e de forma mais ampla para
cientistas em geral. A única contra-indicação que eu talvez possa ter a
esse livro é que possivelmente seja difícil gostar dele para quem por
algum motivo se convenceu de que odeia matemática.
Até o momento, porém, venho citando os contatos que tive com
filosofia da ciência como efeito colateral de estar interessado em
ciência. O primeiro contato que tive com pensadores que se dedicaram
mais extensamente a abordar filosofia da ciência como um assunto em si
mesmo foi através do curso obrigatório de filosofia da ciência que fiz
na PUC-Rio. Um parêntesis aqui para que não sabe – a PUC tem como um de
seus princípios a idéia de que todos os seus alunos devem ter uma
formação não apenas técnica mas também minimamente humanística e moral, e
para satisfazer esse requisito o aluno tem que escolher uma certa
quantidade de cursos em filosofia, religião e ética para cursar de forma
a poder se graduar. Entre esses cursos, eu fiz o de filosofia da
ciência, e isso acabou sendo razoavelmente interessante, por vários
motivos. Um deles é que eu parecia ser praticamente o único ser humano
na sala de aula remotissimamente interessado nos tópicos sendo
discutidos, então as aulas viraram por vezes um diálogo entre mim e o
professor com a classe presente assistindo. Outro motivo é que por total
coincidência revelou-se que o professor morava exatamente no mesmo
prédio que eu, e não tinha carro, e ia para a PUC de ônibus, algo que
levava da ordem de 40 minutos. Assim sendo, eu passei a dar carona para
ele regularmente, e no caminho já íamos falando de filosofia da ciência,
com o resultado de que quando a aula começava a turma estava de fato
meio que se juntando a um diálogo pré-existente. Finalmente, como
mencionei, foi a primeira vez em que de fato fui apresentado de forma
minimamente organizada à literatura da filosofia da ciência como um
assunto em si mesmo.
O professor adotou como referência recomendada o autor Alan Chalmers, especificamente o livro What Is This Thing Called Science, que eu concordo que é uma boa introdução ao assunto. Um outro livro do Chalmers que pode valer a pena é Science and Its Fabrication.
Bem, só que a partir daí se abre todo um universo do estudo da
filosofia da ciência não da parte dos cientistas mesmos e como parte do
processo científico, mas sim partindo de filósofos, e como um assunto em
si mesmo ao invés de aplicado ao desvendamento de uma determinada
questão científica. É completamente impossivel sequer começar a resumir
aqui todas as posições e questões envolvidas, mas posso citar alguns dos
autores e livros que considero mais essenciais – ou pelo menos que eu
pessoalmente acho que vale a pena examinar. Entre eles (forçosamente
incompleta esta lista) : Charles Sanders Peirce, Karl Popper, Thomas Kuhn, Paul Feyerabend, Willard Van Orman Quine, Daniel Dennett.
Ressalva : nem todos eles têm igual relevância ou importância e essa
lista expressa fortes preferências pessoais. Naturalmente que em
qualquer lista deste tipo temos que incluir também Platão e Aristóteles,
mas isso além de óbvio eu considero como pré-requisito fundamental para
qualquer um que queria falar seriamente seja de ciência, seja de
filosofia. E como dizer que “ah, e para discutir filosofia você precisa
saber ler e escrever”. Isso sendo dito, não é discutindo Platão e
Aristóteles que vamos compreender o que ocorre modernamente seja em
ciência seja em filosofia da ciência.
Peirce em particular teve uma vida infernal e é na minha opinião um
pensador que se não tivesse sido assolado por circunstâncias adversas
teria hoje muito mais relevância do que lhe é concedida. Karl Popper é
figura obrigatória em qualquer lista, e seu livro The Logic of Scientific Discovery é um clássico. A obra correspondente de Kuhn é The Structure of Scientific Revolutions, e para quem gostar deste, a continuação obrigatória é Feyerabend, com Against Method.
Quine figura nesta lista em grande parte por minha simpatia pessoal
:-). Ele nunca realmente escreveu um grande clássico sobre filosofia da
ciência. Mas isso não quer dizer que não tenha escrito nem tido
influência sobre o assunto, e uma possível sugestão seria From a Logical Point of View.
Finalmente, temos Daniel Dennet, um prolífico e ativo filósofo
contemporâneo que se ocupa entre outros assunto com filosofia da
ciência, e que acrescento a esta lista em parte porque ele de fato
escreve sobre o assunto de forma geral mas mais especificamente porque
ele tem a coragem de discutir abertamente religião de forma crítica como
não estando de forma alguma à parte do processo científico. A idéia de
que a religião possa querer por vezes se colocar como uma “forma de
conhecimento” separada da ciência e imune à lógica ou a todas as
considerações que (por vezes os próprio religiosos!) fazem ao processo
científico é completamente insustentavel. Ou a religião está de fato
dizendo algo sobre a realidade, algo com pretensões a ser objetivamente
verdadeiro, e nesse caso a filosofia da ciência é relevante e precisa
ser levada em conta, ou não está, e nesse caso, importantes que as
idéias religiosas sejam, pertencem ao reino da mitologia, arte,
literatura ou fantasia, mas não são uma investigação coerente da
realidade objetiva. Para quem gostou dessa descrição, eu recomendo o
livro Breaking the Spell.
Outros livros que eu aleatoriamente gostaria de mencionar que de
alguma forma discutem criticamente como a ciência de fato funciona assim
como os fundamentos filosóficos da nossa própria capacidade de
compreender qualquer coisa são : Beyond The Hoax (Alan Sokal), Godel, Escher, Bach (Douglas Hofstadter) e Are Quanta Real?.
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