Por Folha de São Paulo,
Quando fez seu primeiro discurso político, o coração de Rand Paul saía
pela boca. As mãos que hoje ele agita a meia-altura, palmas abertas para
cima toda vez que fala em público, tremiam muito.
E ele --como contaria aos formandos da Universidade Pikeville, no mesmo
Kentucky que o elegeu senador em 2010-- estava certo de que seu
desempenho era péssimo.
Menos de cinco anos depois, um discurso de 13 horas ininterruptas no
Senado em plena era da síndrome do deficit de atenção faria de Paul, 50,
um astro entre os conservadores que colam os cacos após o fracasso nas
urnas.
O tema era o uso pelo governo Barack Obama de "drones", robôs aéreos que
matam suspeitos de terrorismo (e que Paul descobriu, ao consultar o
Departamento da Justiça, que podem vir a ser usados em território
americano).
O objetivo: atrasar a confirmação do novo diretor da CIA, John Brennan,
ressuscitando a velha tradição política americana do "filibuster",
longos discursos que costuram temas sérios a coisas prosaicas para
obstruir votações.
Brennan foi confirmado. Após 13 horas, porém, não só uma prática
contestada havia sido trazida de volta à vida como o senador entrara na
bolsa de apostas da disputa pela Casa Branca em 2016.
"Paul mostrou como um só senador pode fazer diferença e, por outro lado,
expôs o triste colapso intelectual da direita e da esquerda", escreveu a
conservadora Jennifer Rubin em coluna elogiosa no "Washington Post".
"Paul personifica o rumo do Partido Republicano hoje", concluiu Frank Bruni em crítica no "New York Times".
Mais que a atenção da mídia, vale a chancela do eleitor. Em março, Rand
Paul venceu a simulação eleitoral na convenção anual da CPAC
(Conferência Política para a Ação Conservadora), principal evento do
gênero.
Com 25% dos votos entre 60 candidatos, superou os 23% do sorridente
senador Marco Rubio, a arma republicana para atrair o cobiçado voto
latino, que agora o trata como rival em entrevistas.
E os 8% do ultraconservador Rick Santorum (segundo colocado nas
primárias de 2012); os 7% dos carismático governador de Nova Jersey,
Chris Christie; e os opacos 6% de Paul Ryan, o deputado e ex-candidato a
vice-presidente que era, há pouco tempo, o prodígio do partido.
Em maio, será a atração do prestigioso Dia de Lincoln, jantar usado
pelos republicanos para levantar fundos, em Iowa, primeiro Estado a
promover primárias partidárias.
TAL PAI, TAL FILHO
Nascido na Pensilvânia, criado no Texas e eleito pelo Kentucky --Estado
mais branco, mais velho e mais pobre do que a média nacional, segundo o
Censo--, Paul cursou medicina na Universidade Duke, Carolina do Norte.
Casou-se em 1990 com uma bacharel em inglês, Karen, e teve três filhos:
William, Robert e Duncan (o primeiro, de 19 anos, foi pego dirigindo
bêbado e acusado de assédio). Vivem em Bowling Green, cidade de 59 mil
habitantes onde trabalhou como oftalmologista por 17 anos até se lançar
ao Senado.
Paul tem a seu favor dois eleitorados-chave: o do hoje acéfalo Tea
Party, o movimento ultraconservador que nasceu no Partido Republicano
para reivindicar a redução de impostos, e o de seu pai, o ex-deputado
Ron Paul.
Em 2012, Ron Paul, 77, seduziu uma parcela do eleitorado jovem com o
discurso libertário, de interferência mínima do Estado, que renega de
impostos ao envolvimento militar dos EUA em conflitos externos à
ingerência do governo em assuntos particulares, como o casamento gay e o
consumo de maconha.
Seu filho do meio, o único dos cinco a optar pela política, fez do
palanque paterno um trampolim e clonou-lhe as bandeiras, tomando o
cuidado de soar menos radical.
"O Tea Party não é nem um pouco radical", escreve o senador em "O Tea
Party Vai a Washington", primeiro de dois livros que escreveu. "O
governo federal é que é."
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