Por Folha de São Paulo,
Ouvi uma dessas mulheres livres, dona de seu nariz e de seu corpo, dizer: "Que falta que faz um canalha!".
Recentemente, um grande especialista e prático da alma humana, um
terapeuta, me dizia se escandalizar com o fato de que mulheres
inteligentes e emancipadas falam em consultórios de psicanalistas que
querem que os homens as chamem de cachorras e as tratem como vagabundas
na cama.
Como se escandalizar com o óbvio? Quem foi que disse que as mulheres não
gostam de se sentirem vagabundas no sexo? Só quem, mui catolicamente,
imaginou que querer ser tratada como vagabunda no sexo fosse fruto de
opressão machista. Risadas?
O que é um canalha? Refiro-me ao conceito de canalha. Um kantiano diria "o canalha em si".
Claro, kantianos são pessoas que pensam que o mundo é o que eles pensam
que é; no fundo, o kantiano é um puritano da razão aos olhos de qualquer
cético. Sua "crítica da razão prática" nada mais é do que um canto
monótono semelhante aos cantos das igrejas calvinistas.
Qualquer um sabe que canalhas evoluem historicamente, como tudo mais. O
grande personagem Palhares, do Nelson Rodrigues, esse filósofo
brasileiro, é um tipo de canalha que não existe mais: o canalha
romântico e sincero (que faz falta), apesar de que ele já identificara a
necessidade de o canalha evoluir. Diriam os especialistas que Palhares
tinha um claro "senso histórico".
Palhares mordeu o pescoço da cunhada caçula no corredor. E cunhadas
gostosas são o segredo de um bom casamento. Palhares dizia que um
canalha em sua época, os anos 1960, deveria evoluir para continuar a ser
um bom canalha.
No caso dele, isso significava assimilar os avanços da psicologia,
levando suas vítimas para terapias de nudez e também para reuniões do
Partido Comunista. Um canalha, afinal, deveria estar em dia com a sua
época.
Importantíssimo, no entendimento de nosso querido Palhares, seria um
canalha entender que ser católico não ajudava mais ninguém a pegar
mulher porque assustaria a presa. A sinceridade do Palhares estava no
fato de ele se reconhecer canalha por vontade própria.
Hoje em dia, o canalha "avançou" muito. Ele identifica "causas externas"
para sua condição de canalha, ou, melhor ainda, não reconhece sua
condição de canalha; julga-se apenas um homem cumprindo seu "papel
social".
Imagine um livro chamado "Tipologia do Canalha: Como Identificar o Seu". Puro best-seller!
Por exemplo, o livro descreveria o canalha institucional, que é o
canalha que faz suas baixarias dizendo que é em nome do coletivo.
Normalmente, adora a hierarquia e a burocracia.
É o tipo que, segundo o psicólogo americano Philip Zimbardo, autor do
excepcional livro "O Efeito Lúcifer" (Record), se adaptaria bem às
condições de horror em sistemas totalitários com justificativa
institucional. Sentiria que o horror que causa é simplesmente fruto de
respeito à burocracia.
Existem também os canalhas sociais. Estes são aqueles que justificam
seus atos via condições sociais em que vivem, dizendo coisas como "a
escola em que estudei fez de mim um canalha, por mim seria diferente".
Conhecemos também os canalhas democráticos. Estes são aqueles que
justificam seus atos porque combatem em defesa do povo. Este tipo é
aquele que, por exemplo, sustenta a corrupção do Estado dizendo que está
lutando pela justiça social.
Primo de primeiro grau deste último é o canalha militante, este tipo que
agrediu a blogueira cubana Yoani Sánchez, acusando-a de ser paga pela
CIA. A marca deste é jamais ouvir nada que discorde de sua religião.
Há também o canalha científico. Este afirma que as neurociências
provaram que ser canalha é função de certa área do cérebro, resultado de
herança evolucionária e genética.
Um tipo especialmente "fofo" é o canalha livre. Suspeito ser este o mais avançado de todos.
Quando indagados acerca de seu comportamento, afirmam que agem do modo
que agem porque sempre foram uma minoria oprimida e agora podem exercer
sua canalhice livremente. A frase lapidar deste tipo de canalha é:
"Todos têm direito de ser o que são; eu tenho o direito de ser canalha".
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