A lei da demanda é um princípio simples, mas com consequências
profundas e um poder explanatório inacreditável. Ela é tão simples que
pode ser explicada em um haiku:
Se tudo mais é constante
A quantidade demandada cai
Quando os preços sobem
Quando o preço dos tomates sobe, as pessoas comem menos tomates.
Quando o preço dos tomates cai, as pessoas comem mais tomates. E o que
vale para o mercado de tomates, também vale para outros mercados. A lei
da demanda pode ser aplicada ao mercado de bens como os tomates, ou ao
mercado de serviços como o paisagismo ou o reparo de automóveis.
Ela também pode ser aplicada a mais fatores além dos bens e serviços
que compramos. Nós podemos pensar em “demanda” para todos os tipos de
coisas, como demanda por velocidade ou conforto enquanto dirigimos.
Quando fica mais arriscado dirigir em alta velocidade, menos pessoas
fazem isso. Quando dirigir em alta velocidade fica mais seguro, mais
pessoas fazem isso.
Analise outro fator que recentemente despertou muita controvérsia: a
demanda por comunicação conveniente. Com a difusão de telefones
celulares (principalmente dos smart phones), a comunicação via
email, mensagens de texto, Facebook, Twitter e outros aplicativos nunca
esteve tão fácil. O canto da sereia dos emails, da internet e das
mensagens de texto pode ser bem poderoso, até mesmo para pessoas que
estejam dirigindo.
Vejamos como a lei da demanda nos ajuda a explicar porque as pessoas
mandam mensagens enquanto dirigem, e depois falaremos da teoria
implícita por trás das leis que proíbem essa prática.
Primeiro, analisemos algo chamado o Efeito Peltzman,
que recebeu esse nome em homenagem ao economista Sam Peltzman, que
estudou os hábitos dos motoristas antes e depois da implementação das
leis que obrigam o uso do cinto de segurança. O uso obrigatório do cinto
de segurança deu mais segurança ao motorista e fez o ato de dirigir ser
menos arriscado. Dessa maneira, reduziu o “preço” da direção
imprudente.
De fato, Peltzman constatou que os motoristas se arriscavam mais
depois que as leis sobre o cinto de segurança foram implementadas. No
livro The Armchair Economist, Steven Landsburg resumiu bem as
descobertas de Peltzman: houve mais acidentes, mas menos fatalidades.
Quem mais sofreu com a mudança foram os pedestres, cujas mortes
aumentaram.
Não é necessário que todo mundo responda dessa maneira para
que a lei da demanda seja aplicável ou útil. É provável que existam
muitas pessoas que não modificaram os seus hábitos ao volante por
estarem usando o cinto de segurança, da mesma forma que existem pessoas
que não consomem mais cervejas quando o preço delas cai. Mas só porque é
um abstêmio que não beberá mais cerveja caso o preço caia, isso não
quer dizer ninguém mais irá fazê-lo. Da mesma maneira, é mais provável
que alguém mande uma mensagem de texto ou dê uma olhada no Facebook caso
essa pessoa esteja dirigindo um carro mais seguro.
As autoridades reconhecem que as pessoas respondem às mudanças dos
custos e benefícios de seus atos. A proibição do envio de mensagens de
texto ao volante – como a que existe no estado americano do Alabama –
são tentativas de aumentar o preço de uma ação imprudente e, dessa
maneira, reduzir o número de pessoas que a praticam. Mas ainda
precisamos observar como essas proibições irão afetar a segurança em
geral, já que os recursos para colocá-la em prática precisarão vir de
algum lugar. Os policiais que fiscalizarão o envio de mensagens de texto
não estarão solucionando crimes.
Ignorando a demanda
Às vezes, as políticas governamentais ignoram totalmente a lei da
demanda. Pense, por exemplo, no salário mínimo. Quando o governo
estabelece um preço mínimo para o trabalho, os empregadores reduzem a
quantidade de trabalho que demandariam e procuram alternativas. Alguns
deles podem decidir reduzir as contratações. Outros podem cortar as
horas trabalhadas (e de acordo com a lei da oferta, com um salário
maior, os trabalhadores desejariam trabalhar mais horas), ou então podem
simplesmente substituir o trabalho por capital (como os caixas
automáticosem supermercados).
Outros efeitos podem ser difíceis de serem vistos e os efeitos do
salário mínimo podem não aparecer em uma situação de alto desemprego. As
empresas que costumavam oferecer treinamento remunerado podem deixar de
fazê-lo. Outras empresas que costumavam oferecer uniformes podem passar
a fazer os funcionários pagarem por eles. E assim por diante. Em
resposta aos preços mais altos, as empresas reduzem a quantidade de
trabalho que demandam.
Os governos também impõem controles sobre os preços de outras coisas,
como o aluguel de apartamentos. Após desastres naturais, leis nebulosas
contra a “manipulação dos preços” podem ser postas em prática para
limitar a capacidade dos comerciantes de aumentar os preços durante
situações de emergência. Em períodos assim, as pessoas precisam de mais
gelo, lanternas, pilhas, madeira, pão, leite e gasolina — a qualquer
preço. Se os preços puderem subir, as pessoas receberão o sinal de que
precisam pensar bem antes de comprar qualquer coisa. Em resposta ao
controle dos preços, as empresas não estarão dispostas a fornecer mais
gelo, lanternas, pilhas e o resto dos produtos ao mercado. As pessoas
ainda pagam mais caro por alguns bens que estão em falta. Eles podem não
pagar muito mais em dinheiro, mas acabarão “pagando” ao ficar em longas
filas.
A lei da demanda é uma das ideias mais importantes das ciências
sociais. É um princípio simples, com uma ampla variedade de aplicações.
Ele nos ajuda a compreender os mercados através de bens como os tomates,
serviços como os dos encanadores ou dos paisagistas, e mesmo coisas que
não são tão “econômicas” assim, como a justiça e os riscos. Ela é
também a lei que ignoramos em nosso próprio risco: ao formularem
políticas que não levam em conta a lei da demanda, os políticos costumam
utilizar “curas” políticas, como as leis de salário mínimo e o controle
de preços, acabam sendo piores do que os problemas que desejam
solucionar.
* Publicado originalmente na revista The Freeman
Grifos meus.
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