Por Diário do Comércio,
A técnica da “solução agravante”, que já mencionei em artigo
anterior, é uma das constantes históricas mais salientes do movimento
revolucionário. Os casos são tantos e tão evidentes que chega a ser
espantosa a ingenuidade com que liberais e conservadores continuam
discutindo (e não raro aceitando) as propostas sociais esquerdistas pelo
sentido literal dos seus objetivos proclamados, sem atinar com o astuto
mecanismo gerador de crises que elas sempre trazem embutido.
A dificuldade, nesse caso, vem do descompasso entre a mentalidade
científico-positivista dominante na prática do capitalismo e a visão
histórico-dialética que orienta o movimento revolucionário. Aquela segue
uma lógica linear em que, definido um objetivo, os meios se encadeiam
racionalmente para produzir um efeito que, uma vez alcançado, pode ser
medido e avaliado objetivamente em termos de sucesso ou fracasso.
A lógica revolucionária opera sempre com dois objetivos simultâneos e
antagônicos, um declarado e provisório, o outro implícito e constante. O
primeiro é a solução de algum problema social ou de alguma crise. O
segundo é a desorganização sistemática da sociedade e o aumento do poder
do grupo revolucionário.
Entre o problema apontado e a solução proposta há sempre um "non
sequitur", um hiato lógico, camuflado sob forte apelo emocional. Mas
entre os meios adotados e o objetivo verdadeiro a conexão é sempre de
uma lógica perfeita, inexorável. O problema sai intacto ou agravado. O
movimento revolucionário sai fortalecido.
Em seu já clássico The Vision of the Annointed (New York, Basic Books,
1995), Thomas Sowell fornece, entre outros exemplos, o da educação
sexual, proposta nos anos 60 como remédio infalível contra a
proliferação dos casos de gravidez e de doenças venéreas entre meninas
de escola.
Contra a advertência óbvia de que quanto mais ouvissem falar de sexo
mais as garotas se interessariam em praticá-lo, a medida foi adotada em
metade das escolas americanas. Resultado: a incidência de doenças
venéreas entre as estudantes aumentou em 350% em quinze anos, e os
casos de gravidez passaram de 68 por mil em 1970 para 96 por mil em
1985, enquanto o número de abortos ultrapassava o de nascimentos. Diante
do fato consumado, os promotores da ideia genial passaram à etapa
seguinte: promover o livre acesso às clínicas de aborto para as menores
de idade.
Outro exemplo, mais claro ainda – que não está no livro –, é a
conhecida estratégia Cloward-Piven . Concebida por dois discípulos do
revolucionário profissional Saul Alinsky, Richard A. Cloward e Frances
Fox Piven, seu objetivo nominal era "acabar com a pobreza". O verdadeiro
objetivo só transparecia obscuramente na exposição dos meios. "Se esta
estratégia for implementada – prometiam os autores –, o resultado será
uma crise política que poderá levar a uma legislação que garanta uma
renda anual e portanto acabe com a pobreza."
O plano não explicava como extrair da tal crise a legislação pretendida,
nem de onde proviriam os recursos para garantir a cada cidadão
americano uma renda anual; detalhava apenas os meios de produzir a crise
(subentendendo, sem a mais mínima razão, que esta geraria por si o fim
da pobreza). Esses meios consistiam em recrutar o maior número de
pessoas e convencê-las a exigir da Previdência Social todos os
benefícios a que legalmente tinham direito, quer precisassem deles ou
não.
É evidente que nenhum sistema de previdência social do mundo tem meios
de fornecer todos os benefícios a todo mundo ao mesmo tempo. Em suma:
não se tratava de eliminar a pobreza, mas de quebrar a Previdência e,
junto com ela, os bancos, espalhando a pobreza em vez de eliminá-la e
impondo quase que automaticamente a maior intervenção do Estado na
economia.
O resultado foi atingido em 2008, favorecendo a eleição de Barack
Hussein Obama, o qual, não por coincidência, tivera como seu único
emprego na vida o de "organizador comunitário" incumbido de por em ação…
a estratégia Cloward-Piven.
Mas o exemplo mais lindo de todos é a política do mesmo Barack Hussein
Obama no Oriente Médio. Objetivo nominal: implantar a democracia moderna
nos países islâmicos. Meio adotado: espalhar dinheiro e armas entre os
movimentos de resistência às ditaduras locais, fingindo ignorar que
esses movimentos são orientados principalmente pela Fraternidade
Muçulmana e estão repletos de agentes da Al-Qaeda. Resultado obtido:
elevar ao poder a Fraternidade Muçulmana, trocando ditaduras
pró-americanas ou neutras por ditaduras fundamentalistas islâmicas
ferozmente anti-americanas. Passagem à etapa seguinte: campanhas de
propaganda destinadas a intimidar os americanos para que não digam uma
palavra contra o Islã.
Nesses casos e numa infinidade de outros, os críticos liberais e
conservadores falam de "fracasso" das políticas adotadas, fazendo de
conta que os objetivos dos revolucionários são os mesmos deles próprios e
recusando-se a enxergar o cálculo subjacente planejado para fazer de
cada um desses fracassos da nação ou da sociedade um sucesso espetacular
do movimento revolucionário.
Se o leitor entendeu como a coisa funciona, sugiro-lhe agora um
exercício: a esquerda americana, aproveitando-se do impacto da tragédia
de Sandy Hook, está clamando por maior controle governamental das armas
em poder dos civis. Objetivo nominal: prevenir novas matanças de
inocentes. De quanto tempo você precisa para descobrir qual será o
resultado efetivo?
Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia
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