Por EPL Acre,
Diante da situação política, institucional e econômica de nosso país,
é muito se manter conformado e não desejar que o atual quadro que
vivenciamos se altere. O Estado brasileiro – que de acordo com o
embaixador Meira Penna, é um dinossauro – tornou-se um instrumento de
opressão ao cidadão laborioso e pagador de impostos. Tributação
escorchante e confiscatória, máquina estatal aparelhada e excesso de
intervenção e regulamentação no setor econômico põem nosso país diante
de um precipício.
O cidadão de bem, em busca de melhoras em suas condições de vida,
tende a se revoltar com esta situação. O movimento liberal, que vimos
ascender na internet há quase uma década, está aos poucos se tornando
realidade. Vemos mais e mais pessoas aderindo ao movimento, haja vista
que as mesmas estão despertando para um fato demasiado desagradável: o
Estado, que deveria ter como função proteger seus cidadãos, basear-se
nos princípios de ordem e justiça e servir como um contrato entre as
gerações que já nos deixaram, vivem e ainda estão por nascer, tornou-se
uma ferramenta a serviço de grupos de interesse, ao conluio entre Estado
e empreiteiras, a projetos ideológicos revolucionários, entre outras
várias finalidades que visam tudo, exceto servir aos cidadãos
brasileiros.
Como em qualquer manifestação ou corrente de ideias que destoa de um
ideal hegemônico e já estabelecido, há vários grupos conflitantes. No
entanto, é possível conciliar as ideias, de modo que haja a esperança de
um dia rompermos com o esquema de poder vigente.
Nesse aspecto, o coração liberal, que nos induz a nos tirar das correntes da intervenção estatal e deixar-nos livres para escolher, pensar, criar e prosperar é um elemento essencial para a reforma do sistema atual do país. Como Adam Smith percebeu em “A Riqueza das Nações” e a Heritage Foundation nos demonstra todos os anos, quanto mais livre a economia de uma nação, mais próspera ela tende a ser, enquanto as nações governadas por caudilhos, demagogos, ditadores e populistas que suprimem a livre iniciativa e a propriedade privada em nome de uma causa que, teoricamente, beneficiará o coletivo, tendem a ter um sistema econômico frágil, decadente e, consequentemente, uma sociedade condenada à penúria.
No entanto, “o extremismo na defesa da liberdade” ao qual ouvimos
Barry Goldwater proferir em 1964 pode ter resultados indesejados. O
grande problema encontrado na corrente de pensamento liberal, sobretudo
na corrente de pensamento libertária, é o discurso de tonalidade
ideológica. A ideologia foi o grande inimigo do ser humano durante o
século XX . O esquecimento da virtude da prudência – a qual Platão se
referia como a primeira das virtudes na vida política -, a distorção da
linguagem e a tonalidade sectária que essa forma de religião política
secularizada pode nos trazer são efeitos extremamente maléficos.
Em contrapartida aos liberais e libertários radicais, temos os
conservadores que seguem a tradição europeia continental. F.A. Hayek,
prêmio Nobel em economia e autor de “O Caminho da Servidão” fazia
questão de se negar “conservador” no intuito de preservar sua imagem do
conservadorismo retrógrado e saudosista em relação a uma realidade que
nunca mais existirá. Embora Hayek, em suas obras, fosse idêntico a um
conservador britânico em vários aspectos, a terminologia, que é quase um
termo pejorativo em nosso país, está relacionada a pessoas que atração à
ideia de “Estado forte”, a impedimentos em relação a condutas que não
irão vitimar terceiros, apoio a leis arbitrárias e moralismo que
intervem em vários comportamentos do indivíduo. Certamente, tais
conservadores não são boas fontes de inspiração de acordo com a
circunstância brasileira, que já está farta da ideia de “Estado forte” e
do positivismo que faz parte do imaginário coletivo desde a proclamação
da república.
Não se pode esquecer que alguns libertários, de tendência
revolucionária e formação intelectual marxista – a qual todos nós somos
submetidos durante nossa formação acadêmica – vilipendiam o apelo pela
renovação cultural. Os mesmos se esquecem de que a política é um
subproduto da cultura, e caso a população votante não defenda ideias
contra o Estado leviatã, não possua uma imaginação moral e que seja
complacente em relação à ideia de o governo alterar a natureza humana
conforme sua “ideologia oficial”, é improvável imaginar a vitória
política de ideias que prezem por ordem, justiça e liberdade.
Porém, se nos deixarmos dominar por ideias que neguem qualquer
esperança nos indivíduos, nas instituições e na capacidade do ser humano
de lutar pelo o que é justo e moral, acabaremos nos tornando pessoas
desprovidas da capacidade de reagir. Tornar-nos-emos pós-Modernos, que
levam suas vidas sem qualquer sentido e apostam naquilo que for mais
confortável no instante. O esquecimento das virtudes humanas é a morte
do coração e da alma. Por isso a necessidade de termos, conforme Reagan
notou, ambos guiados pela vontade de libertar o povo de um governo
inchado – que é a demanda dos libertários norte-americanos e dos
liberais clássicos na Europa continental. Nelson Rodrigues dizia “sou
reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta”. Cabe portanto
aos cidadãos de bem da nação brasileira utilizarem de um coração e de
uma alma liberais para a reação contra tudo o que não presta e nos
condena à condição de “eterno país do futuro”.
No entanto, temos de lembrar que idealismo – e ideologia – em
excesso podem nos tirar do caminho da compreensão da realidade e da
tomada de decisões acertadas. Como o livro de Richard Weaver – o qual de
acordo com Russell Kirk, foi o pontapé inicial do movimento conservador
norte-americano – diz em seu próprio título, ideias têm consequências. E
às vezes tais ideias podem ser os monstros que irão nos devorar.
Devemos portanto adaptar toda ideia nova à experiência histórica, às
crenças, costumes, tradições e circunstâncias materiais do povo – como
alertava Russell Kirk – o qual receberá tal ideia na forma de proposta
política. Caso a ideia em questão contrarie tais fatores, ela não poderá
ser aceita e forçar sua aceitação só a tornará repulsiva e causará
revoltas e insatisfação.
Devemos tomar cuidado com duas correntes que estão em forte presença
no imaginário coletivo: o progressismo e o democratismo. Muitas
pessoas, sem intenção, acabam aderindo a tais bandeiras devido a seu
apelo estético e emocional bonito. No entanto, qual o sentido de
progredirmos se o progresso será em direção a um precipício? Qual o
sentido de louvarmos o democratismo se ele muitas vezes nos leva a
decisões equivocadas, que violam as liberdades individuais e os direitos
naturais dos membros de uma comunidade política? Se a democracia fosse
divina, não permitiria a ascensão de Hitler ao cargo de chanceler. Se o
progressismo fosse bom, as várias experiências políticas que vimos ao
redor do mundo, recheadas de boas intenções, teriam dado bom frutos ao
invés da desordem que o louvor por ideais abstratos vêm ocasionando
desde a Queda da Bastilha.
Deste modo, não podemos apenas copiar o movimento conservador
norte-americano. É um exemplo louvável a ser seguido, e este que vos
fala acredita que é um movimento que luta pela liberdade sempre embasado
nos princípios de ordem e justiça e prezando pelas tradições do povo
dos Estados Unidos. Exemplar também é o conservadorismo britânico, de
tradição inaugurada por Edmund Burke.
O Brasil é um país intelectualmente colonizado por franceses – como
afirmou Luiz Felipe Pondé – e politicamente colonizado por Portugal.
Portanto, o processo de adaptação deve começar pela terminologia, tendo
sempre a cautela de não distorcer a linguagem.
Tendo em vista que o linguajar político anglo-saxão é distinto do
nosso, os libertários norte-americanos podem ser considerados
semelhantes – apesar de não serem iguais – ao liberais clássicos. O
conservadorismo britânico, que demonstra um caráter mais apropriado à
defesa da liberdade que o conservadorismo da Europa continental e possui
caráter mais gradualista e reformista que o liberalismo, é
frequentemente defendido fora do mundo anglo-saxão através do nome de
conservadorismo liberal. Portanto, se um brasileiro se identificar com
as ideias dos conservadores britânicos, que tanto se empenharam na
defesa das instituições, da natureza humana, da propriedade privada e da
consagração pelo uso, ele tem a autoridade de se considerar um
conservador-liberal.
Edmund Burke afirmava que “o indivíduo é tolo e a espécie é sábia”, não podemos nos deixar influenciar por discursos que neguem os fundamentos da civilização
Ocidental na justificativa de que um indivíduo “iluminado” possui planos
que irão mudar o mundo. Não podemos esquecer em momento algum de que o
arcabouço da democracia é a sabedoria da espécie. Defender a democracia
sem defender valores compatíveis com a tradição de um povo e com o bom
senso.
Utopias são repelentes a indivíduos dotados de bom-senso. A
imperfectibilidade do ser humano e consagração pelo uso são as melhores
fontes de conhecimento de nossa própria natureza. Temos toda autoridade
de sentir repulsa de qualquer experimento de engenharia social e de todo
experimento que despreze aquilo que G.K. Chesterton batizou de
“democracia dos mortos”. O coração liberal e a consciência conservadora
são, portanto, os melhores mecanismos a serem adotados caso queiramos
viver num país onde haja harmonia, esperança, e possamos exercer nossos
talentos, vocações e a busca pela felicidade.
Eric Carro
Eric Carro é coodenador estadual do EPL/Acre.
Eric Carro é coodenador estadual do EPL/Acre.
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