Por Folha de São Paulo,
Menos de 48 horas após a Corte Suprema da Argentina ter declarado
constitucional a Lei de Mídia do país, o governo de Cristina Kirchner
realizou ontem uma operação no Clarín e deu ao conglomerado 15 dias para
apresentar um plano de desmembramento.
Se isso não ocorrer, o governo diz que ordenará a divisão do grupo de forma unilateral, num prazo de seis meses a um ano.
Martín Sabatella, diretor da Afsca (Autoridade Federal de Serviços de
Comunicação Audiovisual), a agência responsável pela aplicação da lei,
foi à sede do grupo Clarín, em Buenos Aires, entregar uma notificação.
No documento, consta o prazo para que a legislação seja cumprida e
aconteça o "desinvestimento" do conglomerado. A mesma notificação foi
entregue na Rádio Mitre e no canal de TV 13, ambos do Clarín.
Pela lei, o Clarín terá que se desfazer de algumas de suas várias
licenças de TV e de rádio, já que a lei permite que um grupo seja dono
de 24 --e o Clarín seria dono neste momento de 158 no mercado de TV
paga. Segundo a Afsca, essa quantidade chegaria a 264, apesar da agência
não ter nenhum estudo oficial sobre isso. O Clarín não informa quantas
licenças de TV paga tem.
O grupo poderá optar por continuar dono da empresa de TV a cabo e
internet Cablevisión e abrir mão de algumas emissoras de TV aberta, mas
se reduzir sua prestação de serviços.
Quando Sabatella chegou ao local, as portas estavam trancadas com cadeado e ele esperou 20 minutos para poder entrar. Uma hora depois, deixou a sede do Clarín e disse que estava ali para notificar o grupo da "adequação de ofício".
Pela chamada adequação de ofício, se o Clarín não fizer um plano de
"desinvestimento voluntário", o governo se encarregará disso.
Nesse caso, a Afsca fará um inventários de todas as licenças do grupo,
calculará um valor e chamará os interessados em comprá-las para uma
espécie de leilão.
Por meio de um comunicado, o Clarín disse que a ação da Afsca foi
ilegal, já que o plano voluntário de "desinvestimento" havia sido
suspenso enquanto a constitucionalidade da lei não era julgada pela
Corte Suprema.
O grupo diz que a operação de ontem "desconhece a sentença da Justiça e
ratifica que o governo está com a intenção de avançar contra as escassas
vozes independentes que restam na Argentina".
Ontem, o chefe de gabinete da Presidência, Juan Abal Medina, disse que a
presidente Cristina Kirchner, que está de licença médica após realizar
cirurgia na cabeça, foi informada da vitória do governo na briga com o
Clarín e que ela recebeu a notícia "com agrado".
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