Convite
à falsificação (III)
Gonçalo
Armijos Palácios
Opção (Goiânia),
25 de novembro de 2001
Se Kant quis pôr o observador no centro e os objetos girando em torno dele, como em Ptolomeu, para que então propôs que se pense essa relação seguindo uma teoria, a de Copérnico, que faz exatamente o oposto? Cabe ao leitor responder.
Hoje quero começar falando sobre como, os animais e nós,
enxergamos o mundo. As aves, os peixes, os insetos e os seres humanos,
todos sabemos, não miramos com os mesmos olhos e, claro, não
obtemos as mesmas imagens das mesmas coisas. Quando um ser humano olha
para uma flor toda amarela, é isso que enxerga, uma flor só
amarela. Já um rouxinol ou uma borboleta que olhem para a mesma
flor verão outras cores, as cores ultravioletas do néctar
da flor e das pétalas, por exemplo, que nós, seres humanos,
não podemos enxergar. Assim, três observadores diferentes
olhando para o mesmo objeto — neste caso uma flor — terão
dele três imagens diferentes — imagens que dependerão
do tipo de aparelho perceptivo que possuem. Uma ave marinha que olha do
alto para o mar consegue ver os peixes dentro da água, já
uma pessoa que desde um alto rochedo olhe para o mar, não vai conseguir
enxergar dentro da água pois, entre outras razões, é
cegada pelo reflexo da luz solar nas ondas. As aves conseguem ver os peixes
dentro da água porque seus olhos têm filtros que deixam passar
certos comprimentos de onda e não outros. Dessa forma, elas conseguem
enxergar o que nossos olhos não podem. Assim, uma gaivota, um rouxinol
e um ser humano que dirijam seu olhar para o mesmo ponto no mar formarão
nas suas mentes imagens diferentes. Em síntese, a maneira como
o aparelho perceptivo está constituído determina como o
inseto, a ave e o ser humano constroem sua imagem do mundo.
Esta propriedade de constituir uma certa imagem das coisas não
se limita às cores. Gostaria que o leitor olhasse para a figura
desenhada nesta página. O que enxerga? Dificilmente não
enxergará um cubo. Posso, então, dizer sem mais que quem
olhe para a figura enxergará um cubo? Certamente não pois,
na verdade, não é um cubo que está frente ao leitor
e sim doze linhas distribuídas de uma tal maneira que levam a pessoa
a ver um cubo. Não há um cubo nesta página. Há
um desenho numa superfície plana. Um cubo de verdade tem três,
e não duas, dimensões. Onde está a terceira dimensão?
De onde surge a impressão de profundidade? Bom, ela é posta,
criada, construída, para dizê-lo assim, por nós. É
a especial maneira em que nosso aparelho perceptivo está constituído
que cria a imagem tridimensional de um cubo. Que mais vemos no cubo? Um
plano anterior e um posterior. Além disso, alguns leitores verão
um cubo orientado para baixo, outros o verão orientado para cima.
E o mesmo leitor pode mudar sua perspectiva e olhar o mesmo cubo ora orientado
para baixo ora para cima. Veja-se quanta atividade há no aparelho
sensorial do sujeito que percebe, ao passo que o objeto, o desenho, continua
na sua inerte bidimensionalidade alheio à nossa maneira de olhá-lo.
Note-se, por outro lado, que quando vemos a figura ocorre, além
de uma visualização determinada, uma conceitualização
específica. Pensamos: é um cubo — se nos perguntam
o que estamos enxergando não respondemos "linhas", respondemos
"um cubo". Quando olhamos para a figura, então, a identificamos
como algo e, além disso, a quantificamos, a pensamos como uma e
não como, digamos, doze linhas ou seis lados. Veja-se, em síntese,
quanta atividade há no sujeito que percebe e pensa as coisas enquanto
elas, ali onde estão, ficam alheias ao nosso olhar e pensar. É
isso que Kant, o grande filósofo alemão, quis mostrar: que
vemos e pensamos as coisas o que nós pomos nelas.
Kant entendeu que sua teoria de como conhecemos as coisas representava
uma revolução análoga à que, na astronomia,
tinha representado a revolução de Copérnico. Para
Ptolomeu, as estrelas giravam em torno da Terra. Copérnico, ao
contrário, parte da hipótese de que é o movimento
do espectador na Terra que produz a aparência do movimento nas estrelas.
Enquanto a atividade em Ptolomeu está nos astros, em Copérnico
está no próprio espectador. Do mesmo modo, a maneira como
devemos entender a relação cognitiva entre sujeito e objeto,
diz Kant, deve ser invertida: não é o sujeito que, imóvel,
no centro do universo, vê passivamente os movimentos das estrelas.
Não; é a atividade perceptiva e conceitual no sujeito que
determina como as coisas sejam vistas e pensadas. Sobre esta sua revolução
copernicana na teoria do conhecimento Kant fala no Prefácio à
Segunda Edição da Crítica da Razão Pura. Vejamos
como o próprio Kant descreve a relação entre sua
teoria do conhecimento e a teoria copernicana: "Até agora
se supôs que todo o nosso conhecimento deveria regular-se pelos
objetos..." Ele propõe que se faça o contrário,
que se admita "que os objetos devam regular-se pelo nosso conhecimento".
Assim, se nossa percepção se regulasse pelos objetos, não
veríamos um cubo nesta página e sim um objeto bidimensional.
Mas como são os objetos que se regulam pela nossa percepção,
o desenho nesta página é transformado, pela nossa própria
atividade sensorial, num cubo, isto é, num objeto tridimensional.
Agora vejamos o que Kant diz sobre Copérnico imediatamente depois
do trecho citado: "O mesmo aconteceu com os primeiros pensamentos
de Copérnico, que, depois de não ter conseguido ir adiante
com a explicação dos movimentos celestes ao admitir que
todo corpo de astros girava em torno do espectador, tentou ver se não
seria melhor deixar que o espectador se movesse em torno dos astros imóveis.
Na Metafísica, pode-se, então tentar o mesmo no que diz
respeito à intuição dos objetos" (Grifos meus)
Então, não pode caber a menor dúvida: para Kant é
o sujeito que conhece que devemos pôr a girar em torno dos objetos
imóveis, assim como Copérnico pôs o espectador a girar
em torno dos astros imóveis.
Agora vejamos o que os alunos que leiam Convite à Filosofia,
da professora Marilena Chauí (São Paulo: Ática, 1995),
são obrigados a aprender. Na página 77 encontramos: "Inatistas
e empiristas, isto é, todos os filósofos, parecem ser como
astrônomos geocêntricos, buscando um centro que não
é verdadeiro." A primeira coisa que chama a atenção
no trecho é a divisão de todos os filósofos entre
inatistas e empiristas. Se isso tivesse sido verdade até a época
de Kant, onde deveríamos situar todos os filósofos que não
eram nem uma coisa nem outra, como por exemplo os céticos - que
existiram não só na época de Kant, mas antes de Kant,
na época medieval e na antiga Grécia? A professora Chauí
continua o trecho assim: "Parecem, diz Kant, como alguém que,
querendo assar um frango, fizesse o forno girar em torno dele e não
o frango em torno do fogo"!! Onde é que Kant afirma semelhante
disparate? E que tem a ver assar um frango (por outro lado morto e sem
cabeça) com um observador vivo girando em torno do objeto que,
à diferença de um frango morto e sem cabeça, é
por ele observado? Mais um mistério.
Vimos que Copérnico, em palavras de Kant, fez girar o espectador
em torno dos astros imóveis e que isso devia ser feito em teoria
do conhecimento: girar o sujeito que conhece em torno do objeto conhecido.
Mas a Dra. Chauí apresenta uma revolução copernicana
bem ptolemaica: "Façamos, pois, uma revolução
copernicana em Filosofia: em vez de colocar no centro a realidade objetiva
ou os objetos do conhecimento, dizendo que são racionais e que
podem ser conhecidos tais como são em si mesmos, comecemos colocando
no centro a própria razão"!! (Meus grifos) Mas não
é exatamente o oposto que Kant quer e que, para tanto, apela à
analogia com a revolução de Copérnico? Mas não,
enquanto o sujeito de Copérnico e de Kant está girando,
o da professora Chauí vê, como Ptolomeu, os objetos girando
em torno de si!!
No último artigo vimos como os prisioneiros da caverna de Platão
- segundo ele acorrentados e sem poder mexer nem sair do lugar - se reproduziam
à beça. (De fato, segundo a professora Chauí, os
prisioneiros estão nessa situação "geração
após geração"!) Agora ficamos sabendo que a
revolução copernicana de Kant não consiste em pôr,
como em Copérnico, o observador movendo-se em torno dos objetos.
Não; na versão da Dra. Chauí a razão, contra
a o que o próprio Kant afirma, vira um Sol "em torno do qual",
como ela diz no período seguinte, "tudo gira"!
Está na moda falar de 'leituras' e dos direitos ilimitados do
leitor de interpretar as coisas ao seu bel-prazer. Mas quem tiver dúvidas
sobre aquele trecho de Kant pode fazer uma simples pergunta: se Kant quis
pôr o observador no centro e os objetos girando em torno dele, como
em Ptolomeu, para que então propôs que se pense essa relação
seguindo uma teoria, a de Copérnico, que faz exatamente o oposto?
Cabe ao leitor responder.
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