Sempre que um intelectual esquerdista do Terceiro Mundo abre a boca
para atacar a "direita", o mínimo que se pode esperar da sua
performance é uma confusão dos diabos. Desde logo, o objeto das suas
imprecações não existe substancialmente: é uma sombra projetada pela
aglomeração casual de entidades diversas que, por motivos heterogêneos e
não raro incompatíveis entre si, atravessaram o caminho do processo
revolucionário.
Para não admitir que dispara a esmo contra alvos dispersos, que
simplesmente odeia toda sorte de discordâncias venham de onde vierem,
ele tem de inventar por trás desse caleidoscópio de diversidades a
unidade fictícia de uma impossível "internacional direitista", fundindo
num só corpo de intenções, concepções ideológicas e planos estratégicos o
nazismo e o sionismo, o Papa e a Maçonaria, os libertarians e os
saudosistas do Ancien Régime, o racismo evolucionista e o
fundamentalismo evangélico, e até – no caso brasileiro – as facções da
própria esquerda que, por um restinho de escrúpulos democráticos, se
oponham a tal ou qual medida governamental do dia.
Mesmo uma inteligência mediana basta para perceber que essas várias
correntes são tão estranhas umas às outras que a simples hipótese de se
sentarem em torno de uma mesa para discutir suas divergências é utópica
no mais alto grau; mas o esquerdista tem de descer abaixo do mediano
para poder continuar acreditando que luta contra um inimigo determinado e
não, como de fato ocorre, contra todo o restante da espécie humana.
É certo que a esquerda também tem suas contradições e antagonismos
internos, mas, de um lado, isso nunca impediu que suas facções diversas
mantivessem um intenso diálogo e se unissem, a todo instante, para
iniciativas de envergadura mundial que surpreendem pelo sinergismo dos
objetivos e pela simultaneidade dos meios.
De outro lado, é fato notório que, entre os "direitistas", só uns poucos
consentem em perceber os sinais dessa unidade estratégica e
organizacional que prevalece sobre todas as dissensões ideológicas e
táticas; a maioria prefere enfatizar as diferenças e incompatibilidades,
na esperança louca de dividir as forças do adversário, sem notar que
qualquer concessão feita a uma das facções da esquerda resulta sempre,
mais cedo ou mais tarde, em vantagem para todas elas.
Se o esquerdista insiste em enxergar o que não existe, o direitista em
geral recusa-se a enxergar o que existe; fato que, por si mesmo, já
reflete a homogeneidade de um lado e a heterogeneidade do outro. Pois,
afinal, todas as correntes de esquerda remontam à fonte comum de uma
teoria unificada da História, enquanto as raízes da "direita" são
diversas e incompatíveis na origem, como o Papado e a Reforma, o
evolucionismo e o evangelismo, o individualismo liberal de Adam Smith e o
organicismo social de Adam Müller, o nacionalismo extremado dos
fascistas e o globalismo da elite bancária.
O fato, porém, de que o monstro direitista seja uma entidade
inexistente, de que portanto o discurso ideológico esquerdista seja
perfeitamente fictício, não implica nenhuma desvantagem para a política
de esquerda. Ao contrário: como todo discurso ideológico, esse não visa a
descrever uma realidade, mas a fundar e reforçar a identidade do grupo
militante, o que, é claro, se obtém muito mais facilmente brandindo
diante dele a imagem odiosa de um fantasma do que forçando-o a um
confronto desnorteante com a complexidade dos fatos.
A unidade fictícia do fantasma projeta-se retroativamente sobre a
mentalidade do grupo, exercendo sobre ela um influxo não só unificante,
mas encorajador: quem não parte para o combate com mais bravura quando
carrega num recanto obscuro da alma a suspeita secreta de que o
adversário é de brinquedo?
O impulso incoercível de projetar o ódio do grupo contra unidades
fictícias cresce às vezes até as dimensões do mais grotesco
hiperbolismo, desembocando na total desconexão psicótica com a realidade
ambiente, mas sem que por isso seu efeito sobre a plateia se atenue no
mais mínimo que seja.
A diatribe recente da professora Marilena Chauí contra a classe média
exemplifica-o com a maior nitidez. A imagem da pequena burguesia como
classe intrinsecamente reacionária, produtora, na melhor das hipóteses,
de intelectuais revolucionários vacilantes e indignos de confiança, é um
dos chavões mais antigos da retórica marxista. Aparece, volta e meia,
nos escritos de Lênin, Stálin, Mao e tutti quanti.
A Profa. Marilena não fez senão repeti-lo pela milionésima vez, com a
diferença de que o fez, sem notar nenhuma incongruência, para uma
plateia constituída integralmente de membros da classe condenada e em
nome de um partido cujos militantes e eleitores são recrutados
eminentemente nessa mesma classe. Isso não impediu que a professora
fosse aplaudida por ouvintes que, igualando o nível de alienação da
conferencista, nem de longe se sentiram envolvidos na generalização
depreciativa em que ela os enquadrava.
Não, não venham me falar de paralaxe cognitiva. Inventei esse termo para
descrever o deslocamento entre o eixo da construção teórica e o da
experiência direta tal como esse fenômeno aparece em sistemas complexos
de filosofia, onde erros dessa natureza podem passar despercebidos até a
grandes inteligências.
A alienação grosseira e burra está em outro nível: tem a ver com a
histeria militante e não com a vida intelectual, seja saudável, seja
doente. Com a ressalva de que, na ordem da militância revolucionária, a
histeria não é uma doença, um desvio, mas a essência mesma do fenômeno,
como já ensinavam Erik von Kuehnelt-Leddihn e o psiquiatra polonês
Andrej Lobaczewski.
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